Setembro 2, 2008

O espelho (Machado de Assis)

Esboço de uma nova theoria da alma humana

QUATRO ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, varias questões de alta transcendencia, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espiritos. A casa ficava no morro de Santa Thereza, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se mysteriosamente com o luar que vinha de fóra. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céo, em que as estrellas pestanejavam, atravez de uma atmosphera limpida e socegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metaphysicas, resolvendo amigavelmente os mais arduos problemas do universo.

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que faIlavam; mas, além d’elles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja esportula no debate não passava de um ou outro resmungo de approvação. Esse homem tinha a mesma edade dos companheiros, entre quarenta e cincoenta annos, era provinciano, capitalista, intelligente, não sem instrucção, e, ao que parece, astuto e caustico. Não discutia nunca; e defendia- se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instincto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e accrescentava que os seraphins e os cherubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta n’aquella noite, contestou-lh ‘a um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava elle) reflectiu um instante, e respondeu:

- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

Vae senão quando, no meio da noite, succedeu que este casmurro usou da palavra, e não dous ou trez minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veiu a cahir na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o accordo, mas a mesma discussão tornou-se difficil, senão impossivel, pela mliltiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistencia dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjectura, ao menos.

- Nem conjectura, nem opinião, redarguiu elle; uma ou outra póde dar logar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que resalta a mais clara demonstração acerca da materia de que se trata. Em primeiro logar, não ha uma só alma, ha duas…

- Duas?

- Nada menos de duas almas. Cada creatura humana traz duas almas comsigo: uma que olha de dentro para fóra, outra que olha de fóra para dentro… Espantem-se á vontade; pódem ficar de bocca aberta, dar de hombros, tudo; não admitto replica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormIr. A alma exterior pode ser um espirito, um fluido, um homem, muitos homens, um objecto, uma operação. Ha casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessôa; - e assim tambem a polka, o voltarete, um livro, uma machina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o officio d’essa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metaphysicamente aliando, uma laranja. Quem perde uma as metades, perde naturalmente metade da existencia ; e casos ha, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior d’aquelle judeu eram os seus ducados; perdel-os equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro, diz elle a Tubal; é um punhal que me enterras no coração”. Vejam bem esta phrase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para elle. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma…

- Não?

- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não alludo a certas almas absorventes, como a patria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de Cesar e de Cromwell. São almas energicas e exclusivas; mas ha outras, embora energicas, de natureza mudavel. Ha cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros annos, foi um chocalho ou um cavallinho de pão, e mais tarde uma provedoria de irmandade, supponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora - na verdade, gentilissima - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por anno. Durante a estação lyrica é a opera; cessando a estação, a alma exterior substitue-se por outra: um concerto, um baile do Casino, a rua do Ouvidor, Petropolis…

- Perdão; essa senhora quem é?

- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião… E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado d’essas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episodio de que lhes fallei. Um episodio dos meus vinte e cinco annos…

Os quatro companheiros, anciosos de ouvir o caso promettido, esqueceram a controversia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és tambem o pomo da concordia, fructa divina, de outro sabor que não aquelle pomo da mythologia. A sala, até ha pouco ruidosa de physica e metaphysica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que concerta a ponta do charuto, recolhendo as memorias. Eis aqui como elle começou a narração :

- Tinha vinte e cinco annos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacionaL Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na villa, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escriptura ; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Supponho tambem que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distincção. Lembro-me de alguns rapazes, que se davam commigo, e passaram a olhar–me de revez, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessôas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos… Vae então uma das minhas tias, D. Marcolina, viuva do capitão Peçanha, que morava a muitas leguas da villa, n’um sitio escuso e solitario, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ella e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pagem, que d’ahi a dias tornou á villa, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sitio, escreveu á minha mãe, dizendo que não me soltava antes de um mez, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me tambem o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a provincia não havia outro que me puzesse o pé adeante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como d’antes e ella abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes”. Um cunhado d’ella, irmão do finado Peçanha, que alli morava, não me chamava de outra maneira, Era o “senhor alferes”, não por gracejo, mas a sério, e á vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na meza tinha eu o melhor logar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o enthusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnifica, que destoava do resto da casa, cuja mobilia era modesta e simples… Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a côrte de Dom João VI. Não sei o que havia n’isso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delphins esculpidos nos angulos superiores da moldura, uns enfeites de madreperola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom…

- Espelho grande?

- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do proposito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais. O certo é que todas essas cousas, carinhos, attenções, obsequios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

- Não.

O alferes eliminou o” homem. ” Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se ; mas não tardou que a primitiva cedesse á outra; ficou-me uma parte minima de humanidade.” Aconteceu então que a alma exterior, que era d’antes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortezia e os rapapés da casa, tudo o que me falIava do posto, nada do que me falIava do homem. A unica parte do cidadão que ficou commigo foi aquelIa que entendia com o exercicio da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-Ihes acreditar, não?

- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

- Vae entender. Os factos explicarão melhor os sentimentos; os factos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um philosopho antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos factos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciencia do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dôres humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apathica ou um sorriso de favor. No fim de trez semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia MarcoIina uma noticia grave; uma de suas filhas, casada com um .lavrador residente d’alli a cinco leguas, estava mal e á morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ella, e a mim que tomasse conta do sitio. Creio que, se não fosse a afflicção, disporia o contrario; deixaria o cunhado, e iria commigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande oppressão, alguma cousa semelhante ao effeito de quatro paredes de um carcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espiritos boçaes. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciencia mais debil. Os escravos punham uma nota de humildade nas .suas cortezias, que de certa maneira compensava a affeição dos parentes e a intimidade domestica interrompida. Notei mesmo, n’aquella noite, que elles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto. Nhô alferes é muito bonito; nhô alferes ha de ser coronel; nhô alferes ha de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e prophecias, que me deixou extatico. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.

- Matal-o?

- Antes assim fosse.

- Cousa peior?

- Ouçam-me. Na manhan seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento proprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguem, entre quatro paredes, deante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum folego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo: nada, ninguem, um molequinho que fosse. Gallos e gallinhas, tão somente, um par de mulas, que philosophavam a vida, sacudindo as moscas, e trez bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-Ihes que isto era melhor do que ter morrido? era peior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do damno causado á tia Marcolina; fiquei tambem um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ella, para lhe dar a triste noticia, ou ficar tomando conta da casa. Adaptei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente augmentar a dôr da mãe, sem remedio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse n’aquelle dia ou no outro, visto que tinha sahido havia já trinta e seis horas. Mas a manhan passou sem vestígio d’elle; á tarde comecei a sentir uma sensação como de pessôa que houvesse perdido toda a acção nervosa, e não tivesse consciencia da acção musçular. O irmão do tio Peçanha não voltou n’esse dia, nem no outro, nem em toda aquella semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrazou a terra com uma obstinação mais cançativa. .As horas batiam de seculo a seculo no velho relogio da sala, cuja pendula tic-tac,tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote continuo da eternidade. Quando, muitos annos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-Ihes que tive um calafrio: recordei-me d’aquelles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relogio da tia Marcolina: - Never, for ever! - For ever, never! Não eram golpes de pendula, era um dialogo do abysmo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silencio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguem nas salas, nos corredores, no terreiro, ninguem em parte nenhuma… Riem-se?

- Sim, parece que tinha um pouco de medo.

- Oh! fôra bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o caracteristico d’aquella situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicavel. Era como um defuncto andando, um somnambulo, um boneco mechanico. Dormindo, era outra cousa. O somno dava-me allivio, não pela razão commum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse phenomeno: - o somno, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava actuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da familia e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando accordava, dia claro, esvaia-se, com o somno a consciencia do meu ser novo e unico, - porque a alma interior perdia a acção exclusiva, e ficando dependente da outra, que teimava em não tornar… Não tornava. Eu sahia fóra, a um lado e outro, a ver se descobria algum signal de regresso. Sœur Anne, sœur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, cousa nenhuma; tal qual como na lenda franceza. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, .tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janellas, assobiava. Em certa occasião lembrei-me de escrever alguma cousa, um artigo politico, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e phrases soltas, para intercalar no estylo. Mas o estylo, como a tia Marcolina, deixava-se estar. Sœur Anne, sœur Anne… Cousa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

- Mas não comia?

- Comia mal, fructas, farinha, conservas, algumas raizes tostadas ao fogo, mas supportaria tudo alegremente, se não fôra a terrivel situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, lyras de Gonzaga, oitavas de Camões, decimas, uma anthologia em trinta volumes. Ás vezes fazia gymnastica; outras dava beliscões nas pernas; mas o effeito era só uma sensação physica de dôr ou de cançaço, e mais nada. Tudo silencio, um silencio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pendula. Tic-tac, tic-tac…

- Na verdade, era de enlouquecer.

- Vão ouvir cousa peior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dous, ao mesmo tempo, n’aquella casa solitaria; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradicção humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dous. Olhei e recuei. O proprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nitida e inteira, mas vaga, esfumada, diffusa, sombra de sombra. A realidade das leis physicas não permitte negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; attribui o phenomeno á excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse commigo. E levantei o braço com gesto de máo humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado… Entrei a vestir-me, murmurando commigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrepito, affligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma cousa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma diffusão de linhas, a mesma decomposição de contornos… Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicavel, por um impulso sem calculo, lembrou-me… Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéa…

- Diga.

- Estava a olhar para o vidro, com uma persistencia de desesperado, contempIando as proprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento… Não, não são capazes de adivinhar.

- Mas, diga, diga.

- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vestia-a, aprompei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, emfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sitio, dispersa e fugida com os escravos, eil-a recolhida no espelho. Imaginae um homem que, pouco a pouco, emerge de um lethargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessôas dos objectos, mas não conhece individualmente uns nem outros; emfim, sabe que este é Fulano, aquelle é Sicrano; aqui está uma cadeira, alli um sophá. Tudo volta ao que era antes do somno. Assim foi commigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro esprimia tudo. Não era mais um automato, era um ente animado. D’ahi em deante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me deante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, trez horas, despia-me outra vez. Com este regimen pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir…

Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

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Setembro 1, 2008

Tomás de Aquino belicoso?

Santo Tomás sempre prestou respeitosos ouvidos a todos os autores, mesmo quando não podia partilhar-lhes inteiramente as opiniões, mesmo quando se tratava de autores pré-cristãos ou não-cristãos… Aliás, a base de sua atitute compreensiva para com todos, sem deixar de ser francamente crítico, todas as vezes que sentia devê-lo ser - e foi-o corajamente em muitos casos - está na concepção mesma da verdade.

João Paulo II, Papa
(Alocução no VIII Congresso Tomista Intenacional. 13-8-1980)

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Agosto 31, 2008

Igreja santa e pecadora? (Pe. Penido)

Uma das causas comuns de apostasia [da fé] é o horror provocado pelos desfalecimentos humanos no seio da Igreja. A religião pa­rece fonte de imoralidade, ou, pelo menos, não corresponder, na prática, ao que ensina em teoria.

E se o escândalo provoca apostasias, maior ainda o número de conversões que ele faz abortar: “Eu, agregar-me aos católi­cos? Por que, se eles não valem mais do que os outros - muitos deles até valem menos? Eu, ajoelhar-me aos pés de um padre, pecador ele também, talvez mais do que eu?” Tanto mais ferinas as críticas quanto maiores as pretensões da Igreja: ela se diz di­vina, santa, imaculada? Pois mostre-nos o que vai de tudo isso na vida cotidiana!

Escândalo ilógico, digamo-lo imediatamente. Jamais foi pro­metido por Cristo que a graça supriria o esforço pessoal. Os ta­lentos que o Mestre nos dá, ele exige que os façamos frutificar; não se substituirá jamais a nosso livre arbítrio.

Deveria até confirmar a fé, o fato de que uma sociedade com­posta de homens fracos, falíveis, sujeitos às mesmas paixões que os demais, não haja todavia descambado na mais absoluta cor­rupção, mas antes mantenha rígidos os princípios de moral purís­sima e os pratique, em que pesem os numerosos e indisfarçáveis desfalecimentos individuais.

A Igreja produziu até um tipo novo, original, de homem: o Santo. Tão novo, tão original que Bergson se abalançou a atribuir ao Santo uma essência diversa da nossa. Porém somos assim feitos que menos nos impressionam as vir­tudes do que os desfalecimentos. E por isso vemos tantos e tan­tos abandonarem a fé, porque encontraram um padre cúpido ou devasso, ou simplesmente malcriado; porque tal carola não passa de grandíssimo patife; porque tal senhora misseira, e até beata, é a pior língua da localidade.

Em nossa época este escândalo revestiu forma peculiar; apresenta-se corno reivindicação de justiça social. Embora os Papas hajam condenado não apenas o comunismo senão ainda os abusos do capitalismo, é infelizmente verdade que aquele que não se con­tenta de louvores teóricos às encíclicas, mas procura aplicá-las na prática, incorre muitas vezes na ira dos chamados bem-pen­santes que lhe assacam as pechas de socialista, comunista, etc. Donde ser o catolicismo acusado de querer perpetuar as injus­tiças sociais, de ser o derradeiro baluarte do capitalismo burguês.

Apostasias ilógicas, repetimos, pois não distinguem entre a mensagens divina que merece nossa crença e seus portadores hu­manos, talvez menos dignos. Por ser portador desta mensagem, o mau padre merece ainda ser ouvido e obedecido, embora não faça o que prega. Porventura recusaríeis precioso tesouro, sob pre­texto que vos é trazido por um homem esfarrapado e imundo? pergunta Catarina de Sena. Nem deixa de ser verdadeira a re­ligião porque muitos dos seus adeptos não a praticam. Tão me­díocre a humanidade, apesar da religião, que seria sem religião?

Ademais, com suma injustiça olvidaríamos o que de sublime houve e há na Igreja: aquela plêiade de mártires, de confesso­res, de virgens, que nos causa justo orgulho; a multiplicidade de obras e instituições; as miríades de almas tiradas do lodo; os incontáveis atos de bondade, de misericórdia, de justiça; as inú­meras tentações vencidas. Quantos e quantos atestam que na re­ligião e nela só, encontram força para não resvalar, para cumprir o dever a todo custo? Além dos grandes santos, há os incontá­veis “pequenos” santos, que vivem de cotidiano heroísmo cristão.

Na Encíclica “Mit brennender Sorge”, o Papa Pio XI fez valer uma outra consideração, ao aludir à exploração pelos na­zistas, dos escândalos da Igreja:

“A divina missão que a Igreja cumpre entre os homens e deve cumprir por meio de homens, pode ser dolorosamente obscurecida pelo que de humano, talvez de demasiadamente humano, desponta por vezes qual cizânia en­tre o trigo do reino de Deus. Quem conhece a frase do Salva­dor acerca dos escândalos e dos que os dão, sabe como a Igreja e cada indivíduo deve julgar sobre o que foi e é pecado. Todavia, quem, fundando-se sobre esses lamentáveis contrastes en­tre fé e vida, palavra e ação, atitude externa e sentir interior de alguns ou mesmo de muitos, esquece ou passa sob silêncio o imenso cabedal de esforço genuíno em prol da virtude, o es­pírito de sacrifício, o amor fraterno, o heroísmo de santidade de tantos membros da Igreja, este manifesta injusta e reprovável cegueira”.

De fato, maior direito nos assistira de gemer sobre a inépcia de alguns hierarcas e a mediocridade da maioria dos católicos, se começássemos por gemer sinceramente sobre nossa própria inépcia e mediocridade, muito maiores ainda…

Todavia, não se nos aquieta inteiramente o espírito. Afigura-­se-nos a Igreja qual realidade híbrida, plasmada de crimes he­diondos e de virtudes inigualáveis - e não já, como afirma o Apóstolo: “Sem mácula, sem ruga, mas santa e irrepreensível”.

Como resolver a antinomia?

Os membros pecadores da Igreja.

Uma primeira resposta - tão fácil quanto errônea - con­siste em afirmar que a Igreja só compreende os justos. Por con­seguinte, a massa de pecadores que encontramos na cristandade faz tão pouco parte da Igreja quanto os apóstatas ou os pagãos endurecidos.

A Santa Igreja é aquele puro ser de glória que contemplava o Vidente de Patmos. E por isso mesmo se esconde a nossos olhos de carne.

Tal foi, no século IV, a solução dos Donatistas; na Idade Média, dos Valdenses e dos Hussitas; nos tempos modernos de Lutero, Calvino, Quesnel e do Sínodo de Pistóia. — No fundo, esta opinião identifica Igreja militante e Igreja triunfante.

Porém, como sabiamente adverte Leão XIII, quando inqui­rimos da natureza da Igreja, não nos devemos perder em deva­neios sobre o que poderia ter Cristo feito, senão procurar o que ele de fato quis fazer, e que fez na realidade. Ora, as próprias palavras de Jesus nos revelam o mistério da presença de pecado­res dentro do Corpo Místico.

Na alegoria da videira, Jesus nos diz, logo a princípio: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador; toda a vara em mim que não dá fruto, ele a tira, e poda aquela que dá fruto para que dê mais fruto” (Jo 15, 1-2). Temos aqui claramente indica­do que tanto o justo como o pecador estão no Corpo Místico de Cristo. Em condições bem diversas, por certo. Um como membro fecundo, destinado à fecundidade maior; outro como membro es­téril, destinado a ser cortado, a secar, e mais tarde a ser lançado ao fogo (15, 6). Só se corta fora o que faz parte de um con­junto, não o que lhe não pertence.

(PENIDO, Pe. Dr. Maurílio Teixeira-Leite: “O Mistério da Igreja”, Editora Vozes, Petrópolis, 2 ed., 1956, pp.243-245).

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Agosto 29, 2008

Uma reflexão atualíssima

Se alguém se recusasse a ir à missa porque a igreja é feia e a música medíocre, seria culpado de esteticismo, pois estaria substituindo o ponto de vista estético ao ponto de vista religioso. Antítese do esteticismo é apreciar a elevada função da beleza na religião, é compreender o legítimo papel que lhe cabe desempenhar no culto e o desejo das pessoas religiosas em revestir de grande beleza tudo o que se refere ao culto divino. Esta apreciação justa da beleza é até um crescimento orgânico da reverência, do amor a Cristo, do ato mesmo de adoração.

Infelizmente alguns católicos dizem, hoje, que o desejo de dotar de beleza o culto se opõe à pobreza evangélica. É um erro grave e que parece freqüentemente inspirado em sentimentos de culpa por terem eles sido indiferentes às injustiças sociais e negligenciado os legítimos reclamos da pobreza. É então em nome da pobreza evangélica que nos dizem que as igrejas devem ser graves, simples, despojadas de todos os adornos desnecessários.

Os católicos que fazem essa sugestão confundem a pobreza evangélica com o caráter prosaico e monótono do mundo moderno. Deixaram de ver que a substituição da beleza pelo conforto, e do luxo que muitas vezes o acompanha, é muito mais antitético à pobreza evangélica do que a beleza - mesmo esta em sua forma mais exuberante. A noção funcionalista do que é supérfluo é muito ambígua, simples seqüela do utilitarismo. Contradiz as palavras do Senhor: “Nem só de pão vive o homem”. No livro Nova Torre de Babel, procuramos mostrar que a cultura é um bem superabundante, algo que necessariamente parece supérfluo à mentalidade utilitarista. Graças a Deus, esta não foi a atitude da Igreja e dos fiéis através dos séculos. São Francisco, que em sua própria vida praticou a pobreza evangélica ao extremo, jamais afirmou que as igrejas devessem ser vazias, despojadas, sem beleza. Pelo contrário, igreja e altar nunca seriam suficientemente belos para ele. Diga-se o mesmo do Cura d’Ars, São João Batista Vianney.

Acontece um ridículo paradoxo quando, em nome da pobreza evangélica, são demolidas e substituídas as igrejas mais preciosas artisticamente - e a que custo ! - por igrejas prosaicas e monótonas. Não é a beleza e o esplendor da igreja, a casa de Deus, que são incompatíveis com o espírito de pobreza evangélica e que escandalizam o pobre; são muito mais o luxo e o conforto desnecessários, hoje tão em voga. Se o clero deseja retornar à pobreza evangélica, deve reconhecer que em regiões como nos Estados Unidos e na Alemanha o clero possui os carros mais elegantes, as melhores máquinas fotográficas, os aparelhos mais modernos de TV. Beber e fumar muito é, certamente, oposto à pobreza evangélica ; mas não, decerto, a beleza e o esplendor das igrejas.

(Dietrich von Hildebrand. Cavalo de Tróia na Cidade de Deus. Agir. Rio. 1971, p.204-205)

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Agosto 27, 2008

Missa em sufrágio de Mère Marie C.S.A.

Neste sábado, 30 de agosto, às 15.00, na Capela do Colégio Sta. Marcelina.
Rua Cardoso de Almeida, 541 - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3677.0600.

Nossa querida Mère Marie, das Cônegas de Santo Agostinho (”Des oiseaux”), nasceu na Inglaterra em outubro de 1912, numa família anglicana, tendo se convertido ao catolicismo durante o seu tempo de estudante num colégio católico da sua futura congregação, onde professou no ano de 1936 em Jupille, na Bélgica.

Tendo sido enviada ao Brasil, já desde 1957 aqui se destacou pelo seu incansável trabalho em prol do Canto Gregoriano, da qual sem dúvida era a mais profunda conhecedora em nosso país, tendo sido diretamente discípula de D. Eugène Cardine O.S.B. sob a orientação do qual se licenciou em Semiologia Gregoriana no Pontifício Instituto de Música Sacra (Roma, 1976), apenas um dos seus inúmeros títulos na área do Canto Gregoriano, musicologia, etc.

Mère Marie era conhecida por sua incansável dedicação, sua admirável sinceridade, retidão e seu britânico senso de humor.

Adormeceu no Senhor em 29 de abril.

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Agosto 26, 2008

Uma carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro

Lisboa, 13 de Janeiro de 1935.

Meu prezado Camarada:

Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer cousa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica, que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe - Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres.

(…)

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Agosto 24, 2008

“Bare ruined choirs, where late the sweet birds sang”

Cada estilo arquitetônico descerra a expressão patente de um estado de espírito, de uma fé, de uma concepção de vida, de um modo de ser. Em suma, essa caracterização não muda, não se converte… A população de uma cidade pode mudar de religião da noite para o dia (e a História conta-nos fatos deste tipo), mas o estilo de uma igreja não transige. Agonizam os templos fiéis à sua natureza, ao seu feitio. Vi, na Alemanha, muitas igrejas, originalmente católicas, cujos fiéis passaram-nas para o domínio do luteranismo. Vi mosteiros sem monges - como o de Maulbron - transformados em propriedade reformista. Era sempre com melancolia que contemplava essas casas de Deus. Davam-me um aspecto de desolação, de inconformismo. Sentiam com certeza saudades do ritual católico, das antífonas, da antiga liturgia … Os edifícios são mais persistentes do que nós.

(Cassiano Nunes. Sedução da Europa. Saraiva. São Paulo. 1958. p.88).

“Bare ruined choirs, where late the sweet birds sang”: provável alusão de Shakespeare (Sonnet LXXIII) à Pseudo-Reforma protestante. “Sweet birds” seriam os monges.

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Agosto 23, 2008

Divulgação: “O ente e a essência”

Título: O ente e a essência
De ente et essentia
Autor: Tomás de Aquino (1225-1274)
Tradução: Carlos Arthur do Nascimento
Introdução: Francisco Benjamin de Souza Neto
Vozes, Petrópolis, 2 edição, 45 pp.

Trecho da Introdução

(…)
O terminus a quo de toda a Metafísica de Santo Tomás é o “ENS”. É desde a divisão deste que as peculiaridades do pensamento se desvelam. De início, ens e essentia se divisam como “aquilo” que, primeiro, o intelecto concebe. Com isto elimina-se todo realismo ingênuo. Ao contrário, assume-se o “ens qua ens”, mas este só se tem em conta de acessível em seu ser concebido pelo intelecto. Isto equivale a dizer que é só enquanto concebido que o ente e a essência são acessíveis. É, portanto, a potência ativa de conceber que faz o homem capaz do ente e da essência. O longo itinerário que este percorre entre a “sensatio” a mais extrínseca e a “conceptio” só nesta se eleva ao ente, embora este esteja sempre necessariamente na origem de todos os momentos psicogenéticos do processo cognitivo. No mínimo isto equivale a dizer que é só então que há saber conceptivo, porque é só então que o ente se rende ao homem. É justo pensar que ocorre aí o dom da universalidade. Mas não é esta que ocupa o primeiro plano nas preocupações de Tomás de Aquino; é antes de tudo o estatuto originário e originante do ente no intelecto que lhe interessa. Originário, o ente não é apenas fundante “in abstracto”, isto é, abrangente, mas é nele que se capta o que é em sua potência, em sua essência e em seu ser. Donde ser a divisão do ente a divisão do real, da esfera das “coisas”, já que esta é simplesmente a esfera “do que é”. O real é apenas a denominação recente da totalidade discreta dos entes.

Dada sua concepção, dado como conceito, pode ser o ente dividido, seja no que enuncia a verdade da proposição, seja no que compreende os dez predicamentos. Todavia, no primeiro caso ele compreende o nada, privatio et negatio. Ora, como o nada simplesmente não é, resta a afirmação do ente enquanto divisível nos dez predicamentos e, porque estes não se dizem de modo equívoco mas com referência à substância, importa primeiro considerar como o ente e a essência nesta se efetivam. Por sua vez, podendo ser a substância simples ou composta, seria o caso de se principiar por aquela para chegar a esta. Tomás de Aquino opta pela via inversa por uma precisa razão: tudo que cai imediatamente sob o alcance do saber humano é composto. Em verdade, o homem se eleva deste ao simples, do que é posterior ao que é anterior, do que é segundo ao que é primeiro: eis o “ordo inventionis” do processus humano de cognição.

É na substância composta que primeiro o intelecto demanda a essência e, nesta, ela se revela irredutível não só à matéria mas também à forma tomada em separado. A substância composta é, por definição, matéria e forma, mais precisamente, forma na matéria determinada por certa forma. Jamais se depara com a matéria prima a ser em estado puro. Mas o mesmo não ocorre com a forma. Assim como é ela que torna cognoscível a matéria, em si mesma incognoscível, porque indeterminada, desde o seu ser na matéria, ela, a forma, abre o caminho primeiro para a investigação da possibilidade, depois da efetividade de formas às quais caiba ser independentemente da matéria. Parte-se do intelecto potencial ou possível que se torna a forma do ente que conhece mas sem que, para isto, esta se faça inerente à matéria, embora a cognição capte e preserve a referência a esta. Obra do intelecto agente, este modo de ser da forma sem a matéria, conferido a formas que, na natureza das coisas, são inerentes à matéria, desvela ser o intelecto, enquanto intelecto, isento da materialidade: nada pode ser inferior em perfeição àquilo a que confere o ser. Uma vez demonstrada esta isenção, abre-se o caminho à especulação sobre as substâncias separadas. Estas seriam idênticas à forma. O que quer que se pense de tanta generosidade com uma simples possibilidade, a separabilidade da forma tem-se em conta de indissociável de seu primado sobre a matéria. Tudo o que um ente é, ele o é por força e em razão de sua forma, sem prejuízo das causas externas. Pode-se pensar em um “platonismo via Aristóteles” mas é prudente não avançar sem cautela, mesmo porque é ampla e variada a mediação patrística. É na substância composta limítrofe, o homem, que a imaterialidade da forma se desvela no próprio ato de se conhecer por conceitos.

A substância simples é a expressão quase necessária do primado da forma. Ela só não chega a tal necessidade porque todo ente até aqui estudado tem uma essência inidêntica a seu ser. Isto não se diz expressamente até que a alusão à substância simples importe a consideração do que, de início, se diz Ente primeiro, aqui no sentido de primordial, em verdade o ente suprasubstancial e o Puro Ser. Ato puro, inferido a partir da própria atualidade do simplesmente possível, o nosso contingente, n’Ele não se trata mais de identidade essência-forma, mas essentiaesse. É possível divisar, nesta altura do De Ente et Essentia, a Metafísica subjacente às cinco vias. Para além da forma, é divisado o ser, ESSE e não ENS. A argumentação pressupõe a teoria geral da substância, até aqui exposta, ainda que de forma concisa: tudo o que não é o seu esse, recebe-o: ora, o Ato Puro, pressuposto pela própria atualidade do possível, da matéria à forma desta isenta, por definição não é receptivo, porque isento de toda passividade; logo é puro ESSE. Tal identidade é plenitude de ser, não indigência; não é ela carência da essência, mas o próprio ser supra-essencial, supereminentemente compreensivo de toda a escala das perfeições da essência. Insusceptível de ser recebido, tal esse não pode ser o ser do mundo como totalidade nem multiplicar-se, pois o multiplicar-se exige a adição da diferença e a pureza do ato implica a absoluta simplicidade irreceptiva de um ato subseqüente. A fortiori, exclui-se a matéria, pois esta importaria composição.

Há, portanto, um lugar entre o puro ESSE e a substância composta, para a substância separada, pura forma. A angelologia há de instalar-se no âmbito desta possibilidade metafísica. Apenas, importa notar que, simples come essências porque puras formas, tais substâncias são, como entes, distintas do ser que lhes cabe. São elas também únicas no ser que lhes cabe, pois sendo puras formas, não há nelas ou fora delas qualquer fator de multiplicação numérica. Com efeito, no que concerne às substâncias compostas, Tomás de Aquino defende aqui e após a tese segundo a qual a multiplicação destas se faz em razão da matéria assinalada pela quantidade, tese esta que há de ser um dos aspectos mais discutidos de seu pensamento.

Feita a precisão acima, o pensamento humano, o quanto é-lhe possível, abrange o ente na totalidade de suas possibilidades, do puro ESSE à pura potência, do absolutamente necessário ao simplesmente possível. É só então que, no movimento conjunto do opúsculo, o autor se permite traçar a escala hierárquica dos entes, que desce do Ato Puro de ser, o ESSE, passa pela potência em relação ao ser e desce à potência em relação à forma, à matéria-prima. O capítulo V do De Ente et Essentia é a brilhante e concisa exposição desta concepção. Com ele, chega o autor ao “ordo essendi” de sua ontologia. Mas, antes de isto poder ocorrer, foi-lhe necessário, em seu modo de ver, partir do ente como “prima conceptio”, proceder à análise da constituição intrínseca da substância composta, discernir, em seguida, o exato teor da relação forma-matéria, elevar-se adiante à forma sem matéria, à substância simples, detectar a necessidade, entre estas, da substância em verdade supra-substancial, fundante e originante de todas as demais inclusive quanto ao ser destas, para, enfim, divisar a absoluta necessidade de a essência desta ser idêntica a seu ser, isto é, de ela apenas ser o seu ESSE. Só então é possível discernir a ordem no ser e operar a síntese do capítulo VI.

É manifesto, trata-se de uma ontologia que não só reconhece o primado do ato, a “enérgeia” de Aristóteles, sobre a potência, a “dynamis”, mas que faz deste primado o princípio segundo o qual se articula o movimento com o qual perfaz o conhecimento do ente, elevando-se do primado da forma na constituição da essência ao primado do ser na constituição do ente e sobre o próprio ente ao inferir a necessidade de o ente primeiro ser puramente SER, princípio, origem e fundamento de todo ente e de cada ente a cuja essência confere o ser que lhe cabe como ato. Observe-se, a propósito, que nosso autor não atribui à palavra existência o valor de sinônimo de ser em toda a universalidade deste, dela se valendo e do verbo que lhe corresponde para casos particulares de ser, como forma lingüística complementar e sempre com muita usura.

O capítulo VI do opúsculo, como se previra, é dedicado a precisar como e em que sentido é a essência nos acidentes. Ora, assim como o acidente não pode ser definido sem o sujeito ao qual é inerente, não lhe cabe o ser substancial, mas o acidental, não lhe cabe também a razão de uma essência completa. Nesta altura, Sto. Tomás fala ainda de ser acidental e de certo ser segundo que o acidente causa. Esta linguagem, posteriormente, há de parecer conceder demais ao acidente e ele dirá que todo o ser deste consiste em ser-em, “inesse” (ver, por exemplo, a Suma de Teologia I, q. 28 a.2 c). Não é o momento de se reconstituir a caminhada nesta direção mas à altura do IV livro do Comentário às Sentenças ela já está encetada. A consideração deste pormenor dá ensejo a que se precise o lugar do De Ente et Essentia na obra de seu autor: é ele um marco decisivo; as posições aí adotadas decidem em grande parte o destino do pensamento ao qual dá forma: o ente, a essência, o ser, a substância em suas divisões e em sua individuação, o acidente, as relações de tudo isto com as intenções lógicas, mas nada disto obsta que precisões assinalem certa evolução que, como no caso exemplificado, são exigências do próprio pensamento em seus princípios e formas. É manifesto, porém, que quaisquer transformações e a determinação de seu alcance, aperfeiçoamento ou ruptura, é algo a ser determinado a nível monográfico, caso por caso. Permanece, todavia, válido ser o De Ente et Essentia a exposição da metafísica tomista em seu movimento de conjunto: nada em sua obra pode ser alegado contra esta tese.

Eis o que foi possível dizer, em breves linhas, no sentido de atrair a atenção do leitor para as teses fundamentais do De Ente et Essentia.

Francisco Benjamin de Souza Neto

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Agosto 22, 2008

Um programa metapolítico

(…) IL Y A LES ALLIANCES AVEC LES MILIEUX ISLAMITES (camouflés derrière des associations-paravents), mais il y a aussi les conversions à l’Islam dans telle ou telle de ses variantes fondamentalistes, sur la base d’un anticapitalisme radical, susceptible d’attirer extrémistes de droite et de gauche. Car l’anti-occidentalisme des islamistes peut s’interpréter à la fois comme un antiaméricanisme et comme un anticapitalisme, avec les inévitables connotations de cet « isme » (diabolisation de l’argent, de la ploutocratie, de la «finance juive», etc.)158. Lors d’une conférence prononcée au Conseil islamique de défense européenne, le 29 juin 2003 à Paris, l’ancien militant nationaliste français Tahir de la Nive, converti à l’Islam, croit pouvoir expliquer ainsi la fascination exercée par l’Islam sur les militants d’extrême gauche et d’extrême droite : « L’Islam ne peut d’aucune manière transiger avec l’Occident capitaliste. Le grand métaphysicien indien Mohammed Iqbal a pu écrire Qu’est-ce que le Coran? C’est une sentence de mort pour le capitalisme. Il n’y a là aucune exagération, car c’est Dieu lui-même qui, dans le Coran, déclare la guerre à qui se nourrit de l’usure. Il n’y a donc aucun terrain d’entente, aucune trêve possible entre l’Islam et le capitalisme qui […] est basé sur l’usure, sur l’esclavage, aussi bien des peuples que des individus.» 159 Cette perspective n’est nullement nouvelle dans l’Europe d’après-guerre : l’islam a été pensé comme la solution d’ensemble à tous les problèmes nés du monde moderne, jugés insolubles dans le cadre des valeurs et des normes de ce dernier. Les milieux traditionalistes non chrétiens ou désespérant du christianisme ont cru reconnaître dans l’islam les fondements d’une culture traditionnelle. En 1979 paraissait dans une revue néo-fasciste, ou «traditionaliste révolutionnaire», Totalité, créée par des disciples français et italiens de Julius Evola, un article signé Feirefiz, «Les communautés musulmanes d’Europe » 160, dont la conclusion est fort explicite

« La présence de 13 000 000 de musulmans sur le territoire européen - 50 000 000 si nous envisageons la perspective d’une grande Europe de Brest à Vladisvostok - représente une garantie efficace pour le rattachement de notre civilisation à la Tradition. Les organisations initiatiques de l’Islam, vivantes et agissantes dans les Balkans, sont actuellement […] les seuls centres ésotériques dont l’Europe puisse disposer pour sa reconstruction traditionnelle. Leur fonction, dans l’éventualité d’une renaissance spirituelle et politique de l’Europe, est donc irremplaçable l’objectif de la formation d’une élite occidentale (au sens guénonien de l’expression) ne peut faire abstraction du rôle de “pont” que ces confréries peuvent jouer entre l’Occident et les parties de l’Orient restées traditionnelles.»161

Tel est donc le programme métapolitique dessiné par l’idéologue signant Feirefiz : prendre appui sur l’islam, « conservatoire » de la vision traditionnelle de l’ordre social, pour «rectifier» l’évolution du monde moderne; bref, accomplir une islamisation de la modernité. Il importe de prendre en considération la commune fascination éprouvée pour l’islam par ces milieux traditionalistes (« réactionnaires », anti-modernes) et les nouvelles mouvances révolutionnaires (anticapitalistes, anti-mondialisation) qui ont intégré dans leur vision du monde la critique radicale du progrès techno-scientifique telle qu’on la trouve au fondement de la pensée écologique. Les malentendus et les équivoques viennent de ce que, dans l’entre-deux où nous nous situons aujourd’hui, les militants des « nouvelles radicalités » continuent de se présenter ou de s’imaginer comme des «progressistes » (au sens politique du terme) ou comme des membres du « camp progressiste ». Le paradoxe, à visage tragique ou comique selon les situations, est que ces étranges « progressistes » (auto-désignés ou hétéro-désignés) sont de plus en plus souvent des ennemis, déclarés ou non, du « progrès » au sens classique du terme. Voilà une génération montante de « progressistes » anti-progrès ou « anti-progressistes », voire anti-modernes. Certains d’entre eux avouent ne pas ou ne plus croire à la démocratie, laquelle ne serait qu’un paravent de la ploutocratie (thèse soutenue surtout en référence aux États-Unis, conformément à la logique de la diabolisation « anti-impérialiste »). La démonologie politique, fondée sur l’assimilation de la modernité capitaliste/impérialiste au principe du Mal dans l’Histoire ou sur une vision conspirationniste du capitalisme (complot des « maîtres du monde »), exerce pleinement ses effets symboliques à l’extrême droite non moins qu’à l’extrême gauche162.

Le néo-progressiste radical, qui se veut « vigilant », outre le fait qu’il est un pseudo-progressiste (par son « écologisation »), est en réalité un visionnaire : il voit des « racistes », des « sionistes », des « Juifs extrémistes », des « intégristes laïcards », des « islamophobes » et des « réactionnaires » partout, et engage furieusement le combat contre les porteurs supposés de ces abstractions redoutables (rejet, exclusion, stigmatisation, réaction). Illusion narcissique suprême, qui prête à sourire : le conformiste de type nouveau s’imagine « résister » à tout moment, il se prend pour un grand « résistant ». Il résiste à tout, sauf à l’islam o-terrorisme ! Après l’attentat organisé par Al-Qaida à Madrid, le 11 mars 2004 (191 morts, des centaines de blessés), mû par un mélange de peur et de satisfaction (celle de paraître avoir eu raison en dénonçant « Aznar, valet de Bush », il défile avec ses amis, les gauchistes « antiguerre », les « antisionistes » de tous bords et les islamistes, en vociférant contre Bush et Sharon, hurlant « Troupes d’occupation, hors d’Irak ! » 163. Les attaques antioccidentales le réjouissent plus ou moins secrètement, et il s’imagine pouvoir s’en protéger en pactisant avec les islamistes radicaux. Le printemps venant, en France, lorsqu’il est agent du service public, au nom de la préservation des « acquis » 164, il se donne le droit - comme en 2003 et en 2004 - de casser ou de dévaloriser son instrument de travail par la grève permanente et sauvage, mais il exige, pour ces actions « citoyennes », d’être respecté et rémunéré. Erostrate fonctionnaire : personnage comique imprévu.

Notas

158. Sur l’offensive islamiste aux États-Unis, voir Richard Pipes, Militant Islam Reaches America, New York et Londres, W. W. Norton & Company, 2002.
159. Tahir de la Nive, « Demain, quelle Europe? », conférence du 29 juin 2003 (en ligne le 6 juillet 2003 sur le site « nationaliste révolutionnaire et solidariste » : http://www.voxnr.com). Créateur du Centre islamique de défense européenne, le converti Tahir de la Nive-anime la revue Centurio, « dédiée aux traditions militaires de l’Europe ». U a notamment publié un essai à la fois antiaméricain et anti-islamophobe : Les Croisés de l’Oncle Sam. Une réponse européenne à Guillaume Faye et aux islamophobes, préface de Claudio Mutti, postfaces de Tiberio Graziani pet Christian Bouchet, Kildare (Irlande), avatar/éditions, 2003. Sur Claudie.Mutti,’disciple italien de Julius Evola et idéologue islamiste, militant de la droite radicale italienne qui réédita les Protocoles des Sages de Sion en 1976, voir supra, partie III, chap. 6.
160. Feirefiz, « Les communautés musulmanes d’Europe », Totalité, 2e année, n° 8, juillet-août 1979, pp. 59-61. Dans ce même « numéro spécial sur l’Islam et l’Europe » de la revue Totalité, l’on trouve un appel intitulé « Solidarité avec Claudio Mutti ! », dénonçant l’arrestation, le 16 mai 1979, du collaborateur et correspondant de ladite revue en Italie (pp. 12-13). On y trouve cette présentation de Mutti : « […] Principal théoricien de la droite radicale en Italie, militant anti-impérialiste et antisioniste de la première heure, membre fondateur de l’Association Europe-Islam » (p. 13). Il est aussi rappelé que Mutti avait été « victime en 1973 d’une interdiction professionnelle et d’un emprisonnement de six mois à la suite de la création de l’Association Italie-Libye et de la première édition européenne des discours du colonel Kadhafi » (p. 12).
161. Feirefiz, art. cit., p. 61; texte repris en guise d’introduction à la brochure intitulée À la lumière d’Allah ou les conversions à l’Islam, Nancy, Taranis, 1991, [pp. 2-4], p. 4. Sur la quatrième page de couverture l’on peut lire une citation de Nietzsche : « Si l’Islam méprise le christianisme, il a mille fois raison : l’Islam suppose des hommes pleinement virils… » (1888). L’éditeur est un groupe d’extrême droite nancéen (de tendance dite « nationaliste révolutionnaire »), « antisioniste » et propalestinien, qui a également réédité, dans la même série (s.d.), la brochure de Payez A. Sayegh, Le Colonialisme sioniste en Palestine (i’s éd., Beyrouth, O.L.P., Centre de Recherches, avril 1966). Le même groupe a édité quelques autres brochures. Deux d’entre elles rassemblent des textes d’un célèbre théoricien du nationalisme arabe, dont Saddam Hussein a été l’un des disciples : Michel Aflak, Choix de textes du fondateur du Parti Ba’th, vol. 1, 1990, et vol. 2, 1991; une autre brochure est la réédition (sans la moindre précision) du court essai d’un idéologue du fascisme italien : Romolo Sartori, Aperçus sur le corporatisme, 1991 (il s’agit en fait d’une conférence prononcée le 28 février 1934 à Casablanca, originellement publiée, par le Comité de Casablanca de la Société nationale Dante Alighieri, sous le titre Corporatisme d’hier et d’aujourd’hui).
162. Pour le champ nord-américain, voir Mark Fenster, Conspiracy Theories Secrecy and Power in American Culture, Minneapolis, MN, University of Minnesota Press, 1999; Michael Barkun, A Culture of Conspiracy: Apocalyptic Visions in ContemporaryAmerica, Berkeley/Los Angeles/Londres, University of California Press, 2003.
163. Slogan entendu lors de la manifestation « antiguerre » du 20 mars 2004, à Paris.
164. Le journaliste américain Ted Stanger, ironisant sur le narcissisme, l’arrogance et l’esprit de sérieux des intellectuels à la française, vieux ados « enfants de mai 1968 », note : « Dans un dîner, un étranger qui ne sait plus quoi dire peut toujours lancer une petite phrase du genre : “Et les acquis de mai 1968 où sont-ils?” Les invités vont passer le reste de la soirée à s’entre-déchirer. » (Sacrés Français ! Un Américain nous regarde, Paris, Éditions Michalon, 2003, p. 204). Quelques jours avant de battre à mort sa compagne, Marie Trintignant, le chanteur « antifasciste » et « altermondialiste » Bertrand Cantat déclarait dans un entretien accordé au magazine Rock & Folk (« Noir Désir/Zebda », n° 432, août 2003 [paru le 15 juillet], p. 29) : « De tous les côtés, nos valeurs sont attaquées : culture, acquis sociaux. […] Avec Sarkozy, Fillon and Co, on n’est pas dans la notion d’espoir [sic] mais dans le libéralisme dur». Le farouche Cantai avait plus haut prévenu ses contemporains : « […] Ceux qui nous jugent doivent faire attention à ce qu’ils disent, parce qu’on n’hésite pas à sortir les missiles. » (Ibid.) Dans le chapeau de l’interview, on pouvait lire : « La France est en ébullition. Les deux fers de lance du rock jettent de la nitroglycérine sur le brasier revendicatif et présentent le festival Septembre… Ensemble. Noir Désir et Zebda s’expliquent. » Les deux groupes, précise l’interviewer, « se sont retrouvés à plusieurs reprises, [… ] surtout à l’occasion de mobilisations citoyennes, notamment contre l’extrême droite» (ibid.). Le lecteur est rassuré : Mustapha Amokrane et Bertrand Cantat sont de bons garçons. Après le tabassage mortel de Marie Trintignant, certains, parmi les fans de Noir Désir, se sont demandés publiquement comment une telle violence était possible. Joseph Macé-Scaron reformule la question et indique la réponse : « Comment un artiste champion de l’antimondialisation, amateur des idées de José Bové, a-t-il pu en arriver à de telles extrémités? Un bon conseil : qu’ils retournent aux albums du groupe, qu’ils revisualisent ses clips. Ils comprendront. » (« La douleur des femmes », Le Figaro Magazine, n° 18352, 9 août 2003, p. 5).

FONTE: Pierre-André Taguieff. Prêcheurs de haine: traversée de la judéophobie planétaire. Mille et une nuits. Paris. 2004, pp.885-889.

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Agosto 20, 2008

Em defesa de Pio XII

Organizações e personalidades judaicas representativas reconheceram várias vezes oficialmente a sabedoria da diplomacia do Papa Pio XII. Por exemplo, na quinta-feira 7 de Setembro de 1945 Giuseppe Nathan, Comissário da União das Comunidades Israelitas Italianas, declarou:

«Em primeiro lugar dirigimos uma reverente homenagem de reconhecimento ao Sumo Pontífice, aos religiosos e às religiosas que, actuando as directrizes do Santo Padre, não viram nos perseguidos senão irmãos, e com impulso e abnegação prestaram a sua obra inteligente e eficaz para nos socorrer, não tendo medo dos gravíssimos perigos a que se expunham» (L’Osserv. Rom. ed. quot. de 8/9/1945, pág. 2).

No dia 21 de Setembro do mesmo ano, Pio XII recebeu o Dr. A. Leo Kubowitzki, Secretário-Geral do «World Jewish Congress», em audiência para apresentar

«ao Santo Padre, em nome da União das Comunidades Israelitas, os mais sentidos agradecimentos pela obra realizada pela Igreja católica a favor da população judaica em toda a Europa durante a guerra» (L’Osserv. Rom. ed. quot. de 23/9/1945, pág. 1).

Na quinta-feira, 29 de Novembro de 1945, o Papa recebeu cerca de 80 delegados dos refugiados judeus, provenientes dos campos de concentração na Alemanha, que vieram manifestar-lhe

«a suma honra de poder agradecer pessoalmente ao Santo Padre a sua generosidade demonstrada para com eles, perseguidos durante o terrível período do nazifascismo» (L’Osserv. Rom. ed. quot. de 30/11/1945, pág. 1).

Em 1958, por ocasião da morte do Papa Pio XII, Golda Meir enviou uma eloquente mensagem:

«Compartilhamos a tristeza da humanidade… Quando o terrível martírio se abateu sobre o nosso povo, a voz do Papa elevou-se em favor das suas vítimas. A vida do nosso tempo foi enriquecida por uma voz que falou claramente acerca das grandes verdades morais, acima do tumulto do conflito quotidiano. Choramos um grande servidor da paz».

FONTE: Comissão para as relações religiosas com o Judaísmo.Nós recordamos: uma reflexão sobre o Shoah. Nota 16
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/
rc_pc_chrstuni_doc_16031998_shoah_po.html

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