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	<title>Sal Terrae</title>
	<link>http://salterrae.org</link>
	<description>Catolicismo sem firulas</description>
	<pubDate>Fri, 05 Sep 2008 15:41:33 +0000</pubDate>
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		<title>Um concílio anti-mariano?</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Sep 2008 15:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[BENTO XVI, Papa.
NO 40º ANIVERSÁRIO DO ENCERRAMENTO
DO CONCÍLIO VATICANO II
E SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO
8 de Dezembro de 2005 

Amados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio
Queridos Irmãos e Irmãs! 
Há quarenta anos, no dia 8 de Dezembro de 1965, na Praça diante desta Basílica de São Pedro, o Papa Paulo VI concluiu solenemente o Concílio Vaticano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>BENTO XVI, Papa.<br />
NO 40º ANIVERSÁRIO DO ENCERRAMENTO<br />
DO CONCÍLIO VATICANO II<br />
E SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO</p>
<p>8 de Dezembro de 2005 </p>
<blockquote>
<p>Amados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio</p>
<p>Queridos Irmãos e Irmãs! </p>
<p>Há quarenta anos, no dia 8 de Dezembro de 1965, na Praça diante desta Basílica de São Pedro, o Papa Paulo VI concluiu solenemente o Concílio Vaticano II. Ele tinha sido inaugurado, segundo a vontade de João XXIII, no dia 11 de Outubro de 1962, então festa da Maternidade de Maria, e teve o seu encerramento no dia da Imaculada. Uma moldura mariana circunda o Concílio. Na realidade, é muito mais do que uma moldura: é uma orientação de todo o seu caminho. Remete-nos, como então remetia os Padres do Concílio, para a imagem da Virgem à escuta, que vive na Palavra de Deus, que conserva no seu coração as palavras que lhe vêm de Deus e, reunindo-as como num mosaico, aprende a compreendê-las (cf. Lc 2, 19.51); remete-nos para a grande Crente que, repleta de confiança, se coloca nas mãos de Deus, abandonando-se à sua vontade; remete-nos para a Mãe humilde que, quando a missão do Filho o exige, se põe de lado e, ao mesmo tempo, para a mulher corajosa que, enquanto os discípulos fogem, permanece aos pés da cruz. No seu discurso por ocasião da promulgação da Constituição conciliar sobre a Igreja, Paulo VI tinha qualificado Maria como &#8220;tutrix huius Concilii&#8221; &#8220;protectora deste Concílio&#8221; (cf. Oecumenicum Concilium Vaticanum II, Constitutiones Decreta Declarationes, Cidade do Vaticano 1966, pág. 983) e, com uma alusão inconfundível à narração do Pentecostes, transmitido por Lucas (cf. Act 1, 12-14), disse que os Padres se tinham reunido na sala do Concílio &#8220;cum Maria, Matre Iesu&#8221; e, também no seu nome, dele agora sairiam (Ibid., pág.985). </p>
<p><strong>Permanece indelével na minha memória o momento em que, ouvindo as suas palavras: &#8220;Mariam Sanctissimam declaramus Matrem Ecclesiae&#8221; &#8220;declaramos Maria Santíssima Mãe da Igreja&#8221;, <ins datetime="2008-09-05T15:40:22+00:00">espontânea e repentinamente os Padres se levantaram das suas cadeiras e aplaudiram de pé, prestando homenagem à Mãe de Deus, à nossa Mãe, à Mãe da Igreja</ins>. Efectivamente, com este título o Papa resumia a doutrina mariana do Concílio e oferecia a chave para a sua compreensão.</strong></p>
<p>Maria não se coloca somente numa relação singular com Cristo, o Filho de Deus que, como homem, quis tornar-se seu filho. Permanecendo totalmente unida a Cristo, Ela pertence também de modo integral a nós. Sim, podemos dizer que Maria está próxima de nós como nenhum outro ser humano, porque Cristo é homem para os homens e todo o seu ser é um &#8220;ser para nós&#8221;. Como Cabeça, dizem os Padres, Cristo é inseparável do seu Corpo que é a Igreja, formando juntamente com ela, por assim dizer, um único sujeito vivo. A Mãe da Cabeça é também a Mãe de toda a Igreja; ela é, por assim dizer, totalmente despojada de si mesma; entregou-se inteiramente a Cristo e, com Ele, é entregue como dom a todos nós. Com efeito, quanto mais a pessoa humana se entrega, tanto mais se encontra a si mesma. </p>
<p>O Concílio queria dizer-nos isto: Maria está tão entrelaçada no grande mistério da Igreja, que ela e a Igreja são inseparáveis, da mesma forma que ela e Cristo são inseparáveis. Maria reflecte a Igreja, antecipa-a na sua pessoa e, em todas as turbulências que afligem a Igreja sofredora e fatigante, permanece sempre a sua estrela da salvação. Ela é o seu verdadeiro centro em que confiamos, embora muitas vezes a sua periferia pesa na nossa alma. No contexto da promulgação da Constituição sobre a Igreja, o Papa Paulo VI esclareceu tudo isto mediante um novo título arraigado de modo profundo na Tradição, precisamente com a intenção de iluminar a estrutura interior do ensinamento sobre a Igreja, que se desenvolveu no Concílio. O Concílio Vaticano II devia expressar-se acerca dos componentes institucionais da Igreja: sobre os Bispos e sobre o Pontífice, sobre os sacerdotes, os leigos e os religiosos na sua comunhão e nos seus relacionamentos; devia descrever a Igreja a caminho que, &#8220;contendo pecadores no seu próprio seio, (é) simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação&#8230;&#8221; (Lumen gentium, 8). Mas este aspecto &#8220;petrino&#8221; da Igreja está incluído no &#8220;mariano&#8221;. Em Maria, a Imaculada, encontramos a essência da Igreja de modo não deformado. Dela devemos aprender a tornarmo-nos nós mesmos &#8220;almas eclesiais&#8221;, assim se expressavam os Padres, para podermos também nós, segundo a palavra de são Paulo, apresentar-nos &#8220;imaculados&#8221; diante do Senhor, assim como Ele quis que fôssemos desde o princípio (cf. Cl 1, 21; Ef 1, 4). </p>
<p>Mas agora devemos perguntar-nos: o que significa &#8220;Maria, a Imaculada&#8221;? Este título tem algo a dizer-nos? A liturgia hodierna esclarece-nos o conteúdo desta palavra com duas imagens grandiosas. <strong>Em primeiro lugar, há a maravilhosa <ins datetime="2008-09-05T15:40:22+00:00">narração</ins> do anúncio a Maria, a Virgem de Nazaré, da vinda do Messias. A saudação do Anjo é tecida com fios do Antigo Testamento, especialmente do profeta Sofonias. Ele faz ver que Maria, humilde mulher de província que vem de uma estirpe sacerdotal e traz em si o grande património sacerdotal de Israel, é &#8220;o santo resto&#8221; de Israel ao qual os profetas, em todos os períodos de dificuldade e de trevas, fizeram referência. Nela está presente o verdadeiro Sião, a morada pura e viva de Deus. O Senhor habita nela, e nela encontra o lugar do seu repouso. Ela é a casa viva de Deus, que não habita em edifícios de pedra, mas no coração do homem vivo. Ela é o rebento que, na obscura noite invernal da história, brota do tronco abatido de David. É nela que se cumpre a palavra do Salmo: &#8220;A terra produziu o seu fruto&#8221; (67, 7). Ela é o botão do qual deriva a árvore da redenção e dos redimidos. Deus não fracassou, como podia parecer já no início da história com Adão e Eva, ou durante o período do exílio babilónico, e como novamente parecia no tempo de Maria, quando Israel se tornou definitivamente um povo sem importância, numa região ocupada, com poucos sinais reconhecíveis da sua santidade. Deus não fracassou. Na humildade da casa de Nazaré vive o Israel santo, o resto puro. Deus salvou e salva o seu povo. Do tronco abatido resplandece de novo a sua história, tornando-se uma nova força que orienta e impregna o mundo. Maria é o Israel santo; ela diz &#8220;sim&#8221; ao Senhor, coloca-se plenamente à sua disposição e assim torna-se o templo vivo de Deus.</strong> </p>
<p>A segunda imagem é muito mais difícil e obscura. Esta metáfora tirada do Livro do Génesis fala-nos de uma grande distância histórica, e somente com dificuldade pode ser esclarecida; somente durante a história foi possível desenvolver uma compreensão mais profunda daquilo que ali é mencionado. Prediz-se que durante toda a história continuará a luta entre o homem e a serpente, ou seja, entre o homem e os poderes do mal e da morte. Porém, é também prenunciado que &#8220;a estirpe&#8221; da mulher um dia vencerá e esmagará a cabeça da serpente, da morte; prenuncia-se que a linhagem da mulher e nela a mulher e a própria mãe vencerá e que assim, mediante o homem, Deus vencerá. Se, juntamente com a Igreja crente e orante, nos colocarmos à escuta diante deste texto, então poderemos começar a compreender o que é o pecado original, o pecado hereditário, e também o que é a tutela contra este pecado hereditário, o que é a redenção. </p>
<p>Qual é o quadro que nesta página nos é apresentado? O homem não confia em Deus. Ele tentado pelas palavras da serpente, alimenta a suspeita de que Deus, em última análise, tira algo da sua vida, que Deus é um concorrente que limita a nossa liberdade e que nós só seremos plenamente seres humanos, quando O tivermos posto de lado; em síntese, somente deste modo podemos realizar na plenitude a nossa liberdade. O homem vive na suspeita de que o amor de Deus cria uma dependência e que é necessário libertar-se desta dependência para ser plenamente ele mesmo. O homem não deseja receber de Deus a sua existência e a plenitude da sua vida. Quer haurir ele mesmo, da árvore da ciência, o poder de plasmar o mundo, de se fazer deus elevando-se ao nível d&#8217;Ele e de vencer com as próprias forças a morte e as trevas. Não quer contar com o amor, que não lhe parece confiável; ele conta unicamente com a ciência, dado que ela lhe confere o poder.</p>
<p>Em vez de visar o amor, tem como objectivo o poder com que deseja ter nas suas mãos, de modo autónomo, a própria vida. E ao fazê-lo, confia na mentira e não na verdade, e assim mergulha com a sua vida no vazio, na morte. Amor não é dependência, mas dom que nos faz viver. A liberdade de um ser humano é a liberdade de um ser limitado e, portanto, ela mesma é limitada. Só a podemos possuir como liberdade compartilhada, na comunhão das liberdades: a liberdade pode desenvolver-se unicamente se vivermos do modo justo uns com os outros, e uns para os outros.</p>
<p>Nós vivemos do modo justo, se vivermos segundo a verdade do nosso ser, ou seja, segundo a vontade de Deus. Porque a vontade de Deus não é para o homem uma lei imposta a partir de fora, que o obriga, mas a medida intrínseca da sua natureza, uma medida que está inscrita nele e que o torna imagem de Deus e, assim, criatura livre. Se nós vivermos contra o amor e contra a verdade contra Deus então destruir-nos-emos uns aos outros e aniquilaremos o mundo. Então, não encontraremos a vida, mas defenderemos o interesse da morte. Tudo isto é narrado com imagens imortais na história do pecado original e da expulsão do homem do Paraíso terrestre. </p>
<p>Estimados irmãos e irmãs! Se reflectirmos sinceramente sobre nós mesmos e sobre a nossa história, devemos dizer que com esta narração se descreve não só a história do princípio, mas a história de todos os tempos, e que todos trazemos dentro de nós próprios uma gota do veneno daquele modo de pensar explicado nas imagens do Livro da Génesis. A esta gota de veneno, chamamos pecado original. Precisamente na festa da Imaculada Conceição manifesta-se em nós a suspeita de que uma pessoa que não peque de modo algum, no fundo, seja tediosa; que falte algo na sua vida: a dimensão dramática do ser autónomo; que faça parte do verdadeiro ser homem, a liberdade de dizer não, o descer às trevas do pecado e o desejar realizar sozinho; que somente então seja possível desfrutar até ao fim toda a vastidão e a profundidade do nosso ser homens, do ser verdadeiramente nós mesmos; que devemos pôr à prova esta liberdade também contra Deus, para nos tornarmos realmente nós próprios. Em síntese, pensamos que o mal no fundo seja bem, que dele temos necessidade, pelo menos um pouco, para experimentar a plenitude do ser. Julgamos que Mefistófeles o tentador tem razão, quando diz que é a força &#8220;que deseja sempre o mal e realiza sempre o bem&#8221; (J.W. v. Goethe, Fausto I, 3). Pensamos que pactuar com o mal, reservando para nós mesmos um pouco de liberdade contra Deus, em última análise, seja um bem, talvez até necessário. </p>
<p>Contudo, quando olhamos para o mundo à nossa volta, podemos ver que não é assim, ou seja, que o mal envenena sempre, que não eleva o homem mas o rebaixa e humilha, que não o enobrece, não o torna mais puro nem mais rico, mas o prejudica e faz com que se torne menor. É sobretudo isto que devemos aprender no dia da Imaculada: o homem que se abandona totalmente nas mãos de Deus não se torna um fantoche de Deus, uma maçadora pessoa consencientemente; ele não perde a sua liberdade. Somente o homem que confia totalmente em Deus encontra a verdadeira liberdade, a grande e criativa vastidão da liberdade do bem. O homem que recorre a Deus não se torna menor, mas maior, porque graças a Deus e juntamente com Ele se torna grande, divino, verdadeiramente ele mesmo. O homem que se coloca nas mãos de Deus não se afasta dos outros, retirando-se na sua salvação particular; pelo contrário, só então o seu coração desperta verdadeiramente e ele torna-se uma pessoa sensível e por isso benévola e aberta. </p>
<p>Quanto mais próximo de Deus o homem está, tanto mais próximo está dos homens. Vemo-lo em Maria. O facto de Ela estar totalmente junto de Deus é a razão pela qual se encontra também próxima dos homens. Por isso, pode ser a Mãe de toda a consolação e de toda a ajuda, uma Mãe à qual, em qualquer necessidade, todos podem dirigir-se na própria debilidade e no próprio pecado, porque Ela tudo compreende e para todos constitui a força aberta da bondade criativa. É nela que Deus imprime a sua própria imagem, a imagem daquela que vai à procura da ovelha perdida, até às montanhas e até ao meio dos espinhos e das sarças dos pecados deste mundo, deixando-se ferir pela coroa de espinhos destes pecados, para salvar a ovelha e para a reconduzir a casa. Como Mãe que se compadece, Maria é a figura antecipada e o retrato permanente do Filho. E assim vemos que também a imagem da Virgem das Dores, da Mãe que compartilha o sofrimento e o amor, é uma verdadeira imagem da Imaculada. Mediante o ser e o sentir juntamente com Deus, o seu coração alargou-se. Nela a bondade de Deus aproximou-se e aproxima-se muito de nós. Assim, Maria está diante de nós como sinal de consolação, de encorajamento e de esperança. Ela dirige-se a nós, dizendo: &#8220;Tem a coragem de ousar com Deus! Tenta! Não tenhas medo d&#8217;Ele! Tem a coragem de arriscar com a fé! Tem a coragem de arriscar com a bondade!</p>
<p>Tem a coragem de arriscar com o coração puro! Compromete-te com Deus, e então verás que precisamente assim a tua vida se há-de tornar ampla e iluminada, não tediosa, mas repleta de surpresas infinitas, porque a bondade infinita de Deus jamais se esgota!&#8221;.</p>
<p>Neste dia de festa, queremos agradecer ao Senhor o grande sinal da sua bondade, que nos concedeu em Maria, sua Mãe e Mãe da Igreja. Queremos pedir-lhe que ponha Maria no nosso caminho, como luz que nos ajuda a tornar-nos também nós luz e a levar esta luz pelas noites da história. Amém!</p>
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		<title>Outra reflexão bem atual</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Sep 2008 11:07:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
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Como se erra, portanto, ao considerar a beleza das igrejas e da Liturgia como coisas que nos podem distrair e afastar do tema real dos mistérios litúrgicos para algo superficial! Quem diz que igreja não é museu e que o homem realmente piedoso é indiferente a essas coisas acidentais, apenas revela sua cegueira à magnífica [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p>Como se erra, portanto, ao considerar a beleza das igrejas e da Liturgia como coisas que nos podem distrair e afastar do tema real dos mistérios litúrgicos para algo superficial! Quem diz que igreja não é museu e que o homem realmente piedoso é indiferente a essas coisas acidentais, apenas revela sua cegueira à magnífica função desempenhada pela expressão adequada (e bela) . Em última análise, trata-se de uma cegueira à própria natureza humana. Mesmo que essas pessoas se proclamem &#8220;existencialistas&#8221;, continuam muito abstratas. Esquecem que a beleza autêntica encerra mensagem específica de Deus, que nos eleva as almas. Como dizia Platão : &#8220;À vista da beleza, crescem asas às nossas almas&#8221;. Mais ainda: da beleza sagrada relacionada à Liturgia nunca se afirma que seja temática, como nas obras de arte; pelo contrário, como expressão, têm a função de servir. Longe de obnubilar ou de se substituir ao tema religioso da Liturgia, ajuda a torná-lo fulgurante.</p>
<p>Valor não é sinônimo de &#8220;ser indispensável&#8221;. O princípio básico da superabundância em toda a criação e em todas as culturas manifesta-se, exatamente, nos valores não indispensáveis a certa finalidade ou tema. A beleza da natureza não é indispensável à economia da natureza. Nem a beleza da arquitetura é indispensável para nossas vidas. Mas, o valor da beleza, na natureza e na arquitetura não é diminuído pelo fato de ser um dom, que de muito transcende a mera utilidade. Desse modo, a beleza é importante não só quando é ela mesma o tema (caso da obra de arte), mas também quando a serviço de outro tema. Destacar que a Liturgia deve ser bela não é colorir religião com tratamento estético. A aspiração pela beleza, na Liturgia, nasce do sentido do valor específico que se apóia na adequação da expressão.</p>
<p>A beleza e a sagrada atmosfera da Liturgia são algo não só precioso e valioso por si mesmo (na qualidade de expressões adequadas dos atos religiosos de adoração), mas são, também, de grande importância para o desenvolvimento espiritual das almas dos fiéis. Repetimos : aqueles que, no movimento litúrgico, têm insistido na afirmação de que orações e hinos cansativos deformam o <em>ethos</em> religioso dos fiéis, apelando para o que no interior humano está longe do que é religioso, lançam-no em uma atmosfera que obscurece e embaça o semblante de Cristo. É de enorme importância a beleza sagrada para a formação do verdadeiro <em>ethos </em>do fiel. No livro Liturgia e Personalidade, falamos em detalhe da função profunda da Liturgia em nossa santificação, sem sacrifício de ser o culto de Deus seu tema central. Na Liturgia louvamos e agradecemos a Deus, associamo-nos ao sacrifício e à prece do Cristo. Convidando-nos a orar a Deus com o Cristo, a Liturgia exerce papel fundamental em nossa transformação em Cristo. Esse papel não se restringe ao aspecto sobrenatural da Liturgia. Integra, também, sua forma, a sagrada beleza que toma corpo nas palavras e na música da Santa Missa ou do Ofício Divino. Desprezar esse fato é sinal de grande primitivismo, mediocridade e falta de realismo.</p>
<p>Um dos maiores objetivos do movimento litúrgico tem sido o de substituir orações e hinos inadequados por textos sagrados das preces litúrgicas oficiais e pelo Canto Gregoriano. Assistimos, hoje, a uma deformação do movimento litúrgico quando muitos tentam substituir os sublimes textos latinos da Liturgia por traduções nativas, com gíria. Chegam mesmo a mudar, arbitrariamente, a Liturgia no intuito de &#8220;adaptá-la aos nossos tempos&#8221;. O Canto Gregoriano vai dando lugar, na melhor hipótese, à música medíocre, quando não ao <em>jazz </em>ou ao <em>rock and roll</em>. Essas grotescas substituições empanam o espírito de Cristo incomparavelmente mais do que o fizeram certos tipos antigos e sentimentais de devoção. Esses eram inadequados. Aqueles, além de inadequados, são antitéticos à sagrada atmosfera da Liturgia. É mais do que uma deformação; isso lança o homem em uma atmosfera tipicamente mundana. Apela no homem para algo que o torna surdo à mensagem de Cristo.</p>
<p><strong>(DIETRICH VON HILDEBRAND. <em>Cavalo de Tróia na Cidade de Deus</em>. Agir. Rio. 1971, p.208)</strong></p>
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		<title>O espelho (Machado de Assis)</title>
		<link>http://salterrae.org/2008/09/02/o-espelho-machado-de-assis/</link>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2008 16:04:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Esboço de uma nova theoria da alma humana 

         QUATRO ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, varias questões de alta transcendencia, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espiritos. A casa ficava no morro de Santa Thereza, a sala era pequena, alumiada a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esboço de uma nova theoria da alma humana </p>
<blockquote>
<p>         QUATRO ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, varias questões de alta transcendencia, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espiritos. A casa ficava no morro de Santa Thereza, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se mysteriosamente com o luar que vinha de fóra. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céo, em que as estrellas pestanejavam, atravez de uma atmosphera limpida e socegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metaphysicas, resolvendo amigavelmente os mais arduos problemas do universo. </p>
<p>    Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que faIlavam; mas, além d&#8217;elles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja esportula no debate não passava de um ou outro resmungo de approvação. Esse homem tinha a mesma edade dos companheiros, entre quarenta e cincoenta annos, era provinciano, capitalista, intelligente, não sem instrucção, e, ao que parece, astuto e caustico. Não discutia nunca; e defendia- se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instincto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e accrescentava que os seraphins e os cherubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta n&#8217;aquella noite, contestou-lh &#8216;a um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava elle) reflectiu um instante, e respondeu: </p>
<p>    - Pensando bem, talvez o senhor tenha razão. </p>
<p>    Vae senão quando, no meio da noite, succedeu que este casmurro usou da palavra, e não dous ou trez minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veiu a cahir na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o accordo, mas a mesma discussão tornou-se difficil, senão impossivel, pela mliltiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistencia dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjectura, ao menos. </p>
<p>    - Nem conjectura, nem opinião, redarguiu elle; uma ou outra póde dar logar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que resalta a mais clara demonstração acerca da materia de que se trata. Em primeiro logar, não ha uma só alma, ha duas&#8230; </p>
<p>    - Duas? </p>
<p>    - Nada menos de duas almas. Cada creatura humana traz duas almas comsigo: uma que olha de dentro para fóra, outra que olha de fóra para dentro&#8230; Espantem-se á vontade; pódem ficar de bocca aberta, dar de hombros, tudo; não admitto replica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormIr. A alma exterior pode ser um espirito, um fluido, um homem, muitos homens, um objecto, uma operação. Ha casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessôa; - e assim tambem a polka, o voltarete, um livro, uma machina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o officio d&#8217;essa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metaphysicamente aliando, uma laranja. Quem perde uma as metades, perde naturalmente metade da existencia ; e casos ha, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior d&#8217;aquelle judeu eram os seus ducados; perdel-os equivalia a morrer. &#8220;Nunca mais verei o meu ouro, diz elle a Tubal; é um punhal que me enterras no coração&#8221;. Vejam bem esta phrase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para elle. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma&#8230; </p>
<p>    - Não? </p>
<p>    - Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não alludo a certas almas absorventes, como a patria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de Cesar e de Cromwell. São almas energicas e exclusivas; mas ha outras, embora energicas, de natureza mudavel. Ha cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros annos, foi um chocalho ou um cavallinho de pão, e mais tarde uma provedoria de irmandade, supponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora - na verdade, gentilissima - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por anno. Durante a estação lyrica é a opera; cessando a estação, a alma exterior substitue-se por outra: um concerto, um baile do Casino, a rua do Ouvidor, Petropolis&#8230; </p>
<p>    - Perdão; essa senhora quem é? </p>
<p>    - Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião&#8230; E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado d&#8217;essas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episodio de que lhes fallei. Um episodio dos meus vinte e cinco annos&#8230; </p>
<p>    Os quatro companheiros, anciosos de ouvir o caso promettido, esqueceram a controversia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és tambem o pomo da concordia, fructa divina, de outro sabor que não aquelle pomo da mythologia. A sala, até ha pouco ruidosa de physica e metaphysica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que concerta a ponta do charuto, recolhendo as memorias. Eis aqui como elle começou a narração : </p>
<p>    - Tinha vinte e cinco annos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacionaL Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na villa, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escriptura ; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Supponho tambem que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distincção. Lembro-me de alguns rapazes, que se davam commigo, e passaram a olhar&#8211;me de revez, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessôas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos&#8230; Vae então uma das minhas tias, D. Marcolina, viuva do capitão Peçanha, que morava a muitas leguas da villa, n&#8217;um sitio escuso e solitario, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ella e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pagem, que d&#8217;ahi a dias tornou á villa, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sitio, escreveu á minha mãe, dizendo que não me soltava antes de um mez, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me tambem o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a provincia não havia outro que me puzesse o pé adeante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como d&#8217;antes e ella abanava a cabeça, bradando que não, que era o &#8220;senhor alferes&#8221;. Um cunhado d&#8217;ella, irmão do finado Peçanha, que alli morava, não me chamava de outra maneira, Era o &#8220;senhor alferes&#8221;, não por gracejo, mas a sério, e á vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na meza tinha eu o melhor logar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o enthusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnifica, que destoava do resto da casa, cuja mobilia era modesta e simples&#8230; Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a côrte de Dom João VI. Não sei o que havia n&#8217;isso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delphins esculpidos nos angulos superiores da moldura, uns enfeites de madreperola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom&#8230; </p>
<p>    - Espelho grande? </p>
<p>    - Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do proposito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o &#8220;senhor alferes&#8221; merecia muito mais. O certo é que todas essas cousas, carinhos, attenções, obsequios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu? </p>
<p>    - Não. </p>
<p>    O alferes eliminou o&#8221; homem. &#8221; Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se ; mas não tardou que a primitiva cedesse á outra; ficou-me uma parte minima de humanidade.&#8221; Aconteceu então que a alma exterior, que era d&#8217;antes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortezia e os rapapés da casa, tudo o que me falIava do posto, nada do que me falIava do homem. A unica parte do cidadão que ficou commigo foi aquelIa que entendia com o exercicio da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-Ihes acreditar, não? </p>
<p>    - Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes. </p>
<p>    - Vae entender. Os factos explicarão melhor os sentimentos; os factos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um philosopho antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos factos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciencia do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dôres humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apathica ou um sorriso de favor. No fim de trez semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia MarcoIina uma noticia grave; uma de suas filhas, casada com um .lavrador residente d&#8217;alli a cinco leguas, estava mal e á morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ella, e a mim que tomasse conta do sitio. Creio que, se não fosse a afflicção, disporia o contrario; deixaria o cunhado, e iria commigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande oppressão, alguma cousa semelhante ao effeito de quatro paredes de um carcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espiritos boçaes. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciencia mais debil. Os escravos punham uma nota de humildade nas .suas cortezias, que de certa maneira compensava a affeição dos parentes e a intimidade domestica interrompida. Notei mesmo, n&#8217;aquella noite, que elles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto. Nhô alferes é muito bonito; nhô alferes ha de ser coronel; nhô alferes ha de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e prophecias, que me deixou extatico. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados. </p>
<p>    - Matal-o? </p>
<p>    - Antes assim fosse. </p>
<p>    - Cousa peior? </p>
<p>    - Ouçam-me. Na manhan seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento proprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguem, entre quatro paredes, deante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum folego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo: nada, ninguem, um molequinho que fosse. Gallos e gallinhas, tão somente, um par de mulas, que philosophavam a vida, sacudindo as moscas, e trez bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-Ihes que isto era melhor do que ter morrido? era peior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do damno causado á tia Marcolina; fiquei tambem um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ella, para lhe dar a triste noticia, ou ficar tomando conta da casa. Adaptei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente augmentar a dôr da mãe, sem remedio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse n&#8217;aquelle dia ou no outro, visto que tinha sahido havia já trinta e seis horas. Mas a manhan passou sem vestígio d&#8217;elle; á tarde comecei a sentir uma sensação como de pessôa que houvesse perdido toda a acção nervosa, e não tivesse consciencia da acção musçular. O irmão do tio Peçanha não voltou n’esse dia, nem no outro, nem em toda aquella semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrazou a terra com uma obstinação mais cançativa. .As horas batiam de seculo a seculo no velho relogio da sala, cuja pendula tic-tac,tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote continuo da eternidade. Quando, muitos annos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-Ihes que tive um calafrio: recordei-me d&#8217;aquelles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relogio da tia Marcolina: - Never, for ever! - For ever, never! Não eram golpes de pendula, era um dialogo do abysmo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silencio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguem nas salas, nos corredores, no terreiro, ninguem em parte nenhuma&#8230; Riem-se? </p>
<p>    - Sim, parece que tinha um pouco de medo. </p>
<p>    - Oh! fôra bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o caracteristico d&#8217;aquella situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicavel. Era como um defuncto andando, um somnambulo, um boneco mechanico. Dormindo, era outra cousa. O somno dava-me allivio, não pela razão commum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse phenomeno: - o somno, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava actuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da familia e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando accordava, dia claro, esvaia-se, com o somno a consciencia do meu ser novo e unico, - porque a alma interior perdia a acção exclusiva, e ficando dependente da outra, que teimava em não tornar&#8230; Não tornava. Eu sahia fóra, a um lado e outro, a ver se descobria algum signal de regresso. Sœur Anne, sœur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, cousa nenhuma; tal qual como na lenda franceza. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, .tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janellas, assobiava. Em certa occasião lembrei-me de escrever alguma cousa, um artigo politico, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e phrases soltas, para intercalar no estylo. Mas o estylo, como a tia Marcolina, deixava-se estar. Sœur Anne, sœur Anne&#8230; Cousa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel. </p>
<p>    - Mas não comia? </p>
<p>    - Comia mal, fructas, farinha, conservas, algumas raizes tostadas ao fogo, mas supportaria tudo alegremente, se não fôra a terrivel situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, lyras de Gonzaga, oitavas de Camões, decimas, uma anthologia em trinta volumes. Ás vezes fazia gymnastica; outras dava beliscões nas pernas; mas o effeito era só uma sensação physica de dôr ou de cançaço, e mais nada. Tudo silencio, um silencio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pendula. Tic-tac, tic-tac&#8230; </p>
<p>    - Na verdade, era de enlouquecer. </p>
<p>    - Vão ouvir cousa peior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dous, ao mesmo tempo, n&#8217;aquella casa solitaria; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradicção humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dous. Olhei e recuei. O proprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nitida e inteira, mas vaga, esfumada, diffusa, sombra de sombra. A realidade das leis physicas não permitte negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; attribui o phenomeno á excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse commigo. E levantei o braço com gesto de máo humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado&#8230; Entrei a vestir-me, murmurando commigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrepito, affligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma cousa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma diffusão de linhas, a mesma decomposição de contornos&#8230; Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicavel, por um impulso sem calculo, lembrou-me&#8230; Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéa&#8230; </p>
<p>    - Diga. </p>
<p>    - Estava a olhar para o vidro, com uma persistencia de desesperado, contempIando as proprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento&#8230; Não, não são capazes de adivinhar. </p>
<p>    - Mas, diga, diga. </p>
<p>    - Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vestia-a, aprompei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e&#8230; não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, emfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sitio, dispersa e fugida com os escravos, eil-a recolhida no espelho. Imaginae um homem que, pouco a pouco, emerge de um lethargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessôas dos objectos, mas não conhece individualmente uns nem outros; emfim, sabe que este é Fulano, aquelle é Sicrano; aqui está uma cadeira, alli um sophá. Tudo volta ao que era antes do somno. Assim foi commigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro esprimia tudo. Não era mais um automato, era um ente animado. D&#8217;ahi em deante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me deante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, trez horas, despia-me outra vez. Com este regimen pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir&#8230; </p>
<p>    Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas. </p>
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		<title>Tomás de Aquino belicoso?</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Sep 2008 13:28:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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Santo Tomás sempre prestou respeitosos ouvidos a todos os autores,  mesmo quando não podia partilhar-lhes inteiramente as opiniões, mesmo quando se tratava de autores pré-cristãos ou não-cristãos&#8230; Aliás, a base de sua atitute compreensiva para com todos, sem deixar de ser francamente crítico, todas as vezes que sentia devê-lo ser - e foi-o corajamente [...]]]></description>
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Santo Tomás sempre prestou respeitosos ouvidos a todos os autores,  mesmo quando não podia partilhar-lhes inteiramente as opiniões, mesmo quando se tratava de autores pré-cristãos ou não-cristãos&#8230; Aliás, a base de sua atitute compreensiva para com todos, sem deixar de ser francamente crítico, todas as vezes que sentia devê-lo ser - e foi-o corajamente em muitos casos - está na concepção mesma da verdade.</p>
<p>João Paulo II, Papa<br />
(Alocução no VIII Congresso Tomista Intenacional. 13-8-1980)</p>
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		<title>Igreja santa e pecadora? (Pe. Penido)</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Aug 2008 14:42:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

		<category><![CDATA[Textos Edificantes]]></category>

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Uma das causas comuns de apostasia [da fé] é o horror provocado pelos desfalecimentos humanos no seio da Igreja. A religião pa­rece fonte de imoralidade, ou, pelo menos, não corresponder, na prática, ao que ensina em teoria.
E se o escândalo provoca apostasias, maior ainda o número de conversões que ele faz abortar: &#8220;Eu, agregar-me aos [...]]]></description>
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<p>Uma das causas comuns de apostasia [da fé] é o horror provocado pelos desfalecimentos humanos no seio da Igreja. A religião pa­rece fonte de imoralidade, ou, pelo menos, não corresponder, na prática, ao que ensina em teoria.</p>
<p>E se o escândalo provoca apostasias, maior ainda o número de conversões que ele faz abortar: &#8220;Eu, agregar-me aos católi­cos? Por que, se eles não valem mais do que os outros - muitos deles até valem menos? Eu, ajoelhar-me aos pés de um padre, pecador ele também, talvez mais do que eu?&#8221; Tanto mais ferinas as críticas quanto maiores as pretensões da Igreja: ela se diz di­vina, santa, imaculada? Pois mostre-nos o que vai de tudo isso na vida cotidiana!</p>
<p>Escândalo ilógico, digamo-lo imediatamente. Jamais foi pro­metido por Cristo que a graça supriria o esforço pessoal. Os ta­lentos que o Mestre nos dá, ele exige que os façamos frutificar; não se substituirá jamais a nosso livre arbítrio.</p>
<p>Deveria até confirmar a fé, o fato de que uma sociedade com­posta de homens fracos, falíveis, sujeitos às mesmas paixões que os demais, não haja todavia descambado na mais absoluta cor­rupção, mas antes mantenha rígidos os princípios de moral purís­sima e os pratique, em que pesem os numerosos e indisfarçáveis desfalecimentos individuais.</p>
<p>A Igreja produziu até um tipo novo, original, de homem: o Santo. Tão novo, tão original que Bergson se abalançou a atribuir ao Santo uma essência diversa da nossa. Porém somos assim feitos que menos nos impressionam as vir­tudes do que os desfalecimentos. E por isso vemos tantos e tan­tos abandonarem a fé, porque encontraram um padre cúpido ou devasso, ou simplesmente malcriado; porque tal carola não passa de grandíssimo patife; porque tal senhora misseira, e até beata, é a pior língua da localidade.</p>
<p>Em nossa época este escândalo revestiu forma peculiar; apresenta-se corno reivindicação de justiça social. Embora os Papas hajam condenado não apenas o comunismo senão ainda os abusos do capitalismo, é infelizmente verdade que aquele que não se con­tenta de louvores teóricos às encíclicas, mas procura aplicá-las na prática, incorre muitas vezes na ira dos chamados bem-pen­santes que lhe assacam as pechas de socialista, comunista, etc. Donde ser o catolicismo acusado de querer perpetuar as injus­tiças sociais, de ser o derradeiro baluarte do capitalismo burguês.</p>
<p>Apostasias ilógicas, repetimos, pois não distinguem entre a mensagens divina que merece nossa crença e seus portadores hu­manos, talvez menos dignos. Por ser portador desta mensagem, o mau padre merece ainda ser ouvido e obedecido, embora não faça o que prega. Porventura recusaríeis precioso tesouro, sob pre­texto que vos é trazido por um homem esfarrapado e imundo? pergunta Catarina de Sena. Nem deixa de ser verdadeira a re­ligião porque muitos dos seus adeptos não a praticam. Tão me­díocre a humanidade, apesar da religião, que seria sem religião?</p>
<p>Ademais, com suma injustiça olvidaríamos o que de sublime houve e há na Igreja: aquela plêiade de mártires, de confesso­res, de virgens, que nos causa justo orgulho; a multiplicidade de obras e instituições; as miríades de almas tiradas do lodo; os incontáveis atos de bondade, de misericórdia, de justiça; as inú­meras tentações vencidas. Quantos e quantos atestam que na re­ligião e nela só, encontram força para não resvalar, para cumprir o dever a todo custo? Além dos grandes santos, há os incontá­veis &#8220;pequenos&#8221; santos, que vivem de cotidiano heroísmo cristão.</p>
<p>Na Encíclica &#8220;Mit brennender Sorge&#8221;, o Papa Pio XI fez valer uma outra consideração, ao aludir à exploração pelos na­zistas, dos escândalos da Igreja:</p>
<p>&#8220;A divina missão que a Igreja cumpre entre os homens e deve cumprir por meio de homens, pode ser dolorosamente obscurecida pelo que de humano, talvez de demasiadamente humano, desponta por vezes qual cizânia en­tre o trigo do reino de Deus. Quem conhece a frase do Salva­dor acerca dos escândalos e dos que os dão, sabe como a Igreja e cada indivíduo deve julgar sobre o que foi e é pecado. Todavia, quem, fundando-se sobre esses lamentáveis contrastes en­tre fé e vida, palavra e ação, atitude externa e sentir interior de alguns ou mesmo de muitos, esquece ou passa sob silêncio o imenso cabedal de esforço genuíno em prol da virtude, o es­pírito de sacrifício, o amor fraterno, o heroísmo de santidade de tantos membros da Igreja, este manifesta injusta e reprovável cegueira&#8221;.</p>
<p>De fato, maior direito nos assistira de gemer sobre a inépcia de alguns hierarcas e a mediocridade da maioria dos católicos, se começássemos por gemer sinceramente sobre nossa própria inépcia e mediocridade, muito maiores ainda&#8230;</p>
<p>Todavia, não se nos aquieta inteiramente o espírito. Afigura-­se-nos a Igreja qual realidade híbrida, plasmada de crimes he­diondos e de virtudes inigualáveis - e não já, como afirma o Apóstolo: &#8220;Sem mácula, sem ruga, mas santa e irrepreensível&#8221;.</p>
<p>Como resolver a antinomia?</p>
<p><strong>Os membros pecadores da Igreja.</strong></p>
<p>Uma primeira resposta - tão fácil quanto errônea - con­siste em afirmar que a Igreja só compreende os justos. Por con­seguinte, a massa de pecadores que encontramos na cristandade faz tão pouco parte da Igreja quanto os apóstatas ou os pagãos endurecidos.</p>
<p>A Santa Igreja é aquele puro ser de glória que contemplava o Vidente de Patmos. E por isso mesmo se esconde a nossos olhos de carne.</p>
<p>Tal foi, no século IV, a solução dos Donatistas; na Idade Média, dos Valdenses e dos Hussitas; nos tempos modernos de Lutero, Calvino, Quesnel e do Sínodo de Pistóia. — No fundo, esta opinião identifica Igreja militante e Igreja triunfante.</p>
<p>Porém, como sabiamente adverte Leão XIII, quando inqui­rimos da natureza da Igreja, não nos devemos perder em deva­neios sobre o que poderia ter Cristo feito, senão procurar o que ele de fato quis fazer, e que fez na realidade. Ora, as próprias palavras de Jesus nos revelam o mistério da presença de pecado­res dentro do Corpo Místico.</p>
<p>Na alegoria da videira, Jesus nos diz, logo a princípio: &#8220;Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador; toda a vara em mim que não dá fruto, ele a tira, e poda aquela que dá fruto para que dê mais fruto&#8221; (Jo 15, 1-2). Temos aqui claramente indica­do que tanto o justo como o pecador estão no Corpo Místico de Cristo. Em condições bem diversas, por certo. Um como membro fecundo, destinado à fecundidade maior; outro como membro es­téril, destinado a ser cortado, a secar, e mais tarde a ser lançado ao fogo (15, 6). Só se corta fora o que faz parte de um con­junto, não o que lhe não pertence.</p>
<p><strong>(PENIDO, Pe. Dr. Maurílio Teixeira-Leite: “O Mistério da Igreja”, Editora Vozes, Petrópolis, 2 ed., 1956, pp.243-245).</strong></p>
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		<title>Uma reflexão atualíssima</title>
		<link>http://salterrae.org/2008/08/29/uma-reflexao-atualissima/</link>
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		<pubDate>Fri, 29 Aug 2008 22:30:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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Se alguém se recusasse a ir à missa porque a igreja é feia e a música medíocre, seria culpado de esteticismo, pois estaria substituindo o ponto de vista estético ao ponto de vista religioso. Antítese do esteticismo é apreciar a elevada função da beleza na religião, é compreender o legítimo papel que lhe cabe desempenhar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p>Se alguém se recusasse a ir à missa porque a igreja é feia e a música medíocre, seria culpado de esteticismo, pois estaria substituindo o ponto de vista estético ao ponto de vista religioso. Antítese do esteticismo é apreciar a elevada função da beleza na religião, é compreender o legítimo papel que lhe cabe desempenhar no culto e o desejo das pessoas religiosas em revestir de grande beleza tudo o que se refere ao culto divino. Esta apreciação justa da beleza é até um crescimento orgânico da reverência, do amor a Cristo, do ato mesmo de adoração.</p>
<p>Infelizmente alguns católicos dizem, hoje, que o desejo de dotar de beleza o culto se opõe à pobreza evangélica. É um erro grave e que parece freqüentemente inspirado em sentimentos de culpa por terem eles sido indiferentes às injustiças sociais e negligenciado os legítimos reclamos da pobreza. É então em nome da pobreza evangélica que nos dizem que as igrejas devem ser graves, simples, despojadas de todos os adornos desnecessários.</p>
<p>Os católicos que fazem essa sugestão confundem a pobreza evangélica com o caráter prosaico e monótono do mundo moderno. Deixaram de ver que a substituição da beleza pelo conforto, e do luxo que muitas vezes o acompanha, é muito mais antitético à pobreza evangélica do que a beleza - mesmo esta em sua forma mais exuberante. A noção funcionalista do que é supérfluo é muito ambígua, simples seqüela do utilitarismo. Contradiz as palavras do Senhor: &#8220;Nem só de pão vive o homem&#8221;. No livro <em>Nova Torre de Babel</em>, procuramos mostrar que a cultura é um bem superabundante, algo que necessariamente parece supérfluo à mentalidade utilitarista. Graças a Deus, esta não foi a atitude da Igreja e dos fiéis através dos séculos. São Francisco, que em sua própria vida praticou a pobreza evangélica ao extremo, jamais afirmou que as igrejas devessem ser vazias, despojadas, sem beleza. Pelo contrário, igreja e altar nunca seriam suficientemente belos para ele. Diga-se o mesmo do Cura d&#8217;Ars, São João Batista Vianney.</p>
<p>Acontece um ridículo paradoxo quando, em nome da pobreza evangélica, são demolidas e substituídas as igrejas mais preciosas artisticamente - e a que custo ! - por igrejas prosaicas e monótonas. Não é a beleza e o esplendor da igreja, a casa de Deus, que são incompatíveis com o espírito de pobreza evangélica e que escandalizam o pobre; são muito mais o luxo e o conforto desnecessários, hoje tão em voga. Se o clero deseja retornar à pobreza evangélica, deve reconhecer que em regiões como nos Estados Unidos e na Alemanha o clero possui os carros mais elegantes, as melhores máquinas fotográficas, os aparelhos mais modernos de TV. Beber e fumar muito é, certamente, oposto à pobreza evangélica ; mas não, decerto, a beleza e o esplendor das igrejas.</p>
<p>(Dietrich von Hildebrand. <em>Cavalo de Tróia na Cidade de Deus</em>. Agir. Rio. 1971, p.204-205)</p>
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		<title>Missa em sufrágio de Mère Marie C.S.A.</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Aug 2008 11:36:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Neste sábado, 30 de agosto, às 15.00, na Capela do Colégio Sta. Marcelina.
Rua Cardoso de Almeida, 541 - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3677.0600. 
Nossa querida Mère Marie, das Cônegas de Santo Agostinho (&#8221;Des oiseaux&#8221;), nasceu na Inglaterra em outubro de 1912, numa família anglicana, tendo se convertido ao catolicismo durante o seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Neste sábado, 30 de agosto, às 15.00, na Capela do Colégio Sta. Marcelina.<br />
Rua Cardoso de Almeida, 541 - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3677.0600. </strong></p>
<p>Nossa querida Mère Marie, das Cônegas de Santo Agostinho (&#8221;Des oiseaux&#8221;), nasceu na Inglaterra em outubro de 1912, numa família anglicana, tendo se convertido ao catolicismo durante o seu tempo de estudante num colégio católico da sua futura congregação, onde professou no ano de 1936 em Jupille, na Bélgica. </p>
<p>Tendo sido enviada ao Brasil, já desde 1957 aqui se destacou pelo seu incansável trabalho em prol do Canto Gregoriano, da qual sem dúvida era a mais profunda conhecedora em nosso país, tendo sido diretamente discípula  de D. Eugène Cardine O.S.B. sob a orientação do qual se licenciou em Semiologia Gregoriana no Pontifício Instituto de Música Sacra  (Roma, 1976), apenas um dos seus inúmeros títulos na área do Canto Gregoriano, musicologia, etc. </p>
<p>Mère Marie era conhecida por sua incansável dedicação, sua admirável sinceridade, retidão e seu britânico senso de humor. </p>
<p>Adormeceu no Senhor em 29 de abril.</p>
<p><em>Veni Domine visitare nos</em> &#8230;</p>
<p>RIP</p>
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		<title>Uma carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Aug 2008 19:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[
Lisboa, 13 de Janeiro de 1935.
Meu prezado Camarada:
Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento. 
Em primeiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
Lisboa, 13 de Janeiro de 1935.</p>
<p>Meu prezado Camarada:</p>
<p>Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento. </p>
<p>Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer cousa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica, que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe - Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres.</p>
<p>(&#8230;)</p>
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		<title>A figura deste mundo</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Aug 2008 14:44:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Devo desculpas a mais de um amigo por não conseguir postar aqui, com a desejável regularidade, os prometidos textos de A figura deste mundo  do Dr. Pacheco Salles. De fato, a cópia de que disponho está muito corrompida, de sorte que não posso digitalizá-la via scanner. Resta-me apenas copiar linha por linha. Dá-se, porém, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Devo desculpas a mais de um amigo por não conseguir postar aqui, com a desejável regularidade, os prometidos textos de <em>A figura deste mundo </em> do Dr. Pacheco Salles. De fato, a cópia de que disponho está muito corrompida, de sorte que não posso digitalizá-la via scanner. Resta-me apenas copiar linha por linha. Dá-se, porém, que os dias são corridos etc etc etc. Por falar em amigos, uma das alegrias da vida é tê-los e saber que são virtuosos. Se forem competentes em algum saber, melhor ainda, pois nos iluminam e orientam com seus conhecimentos. O resto é apenas a vida. </p>
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		<title>&#8220;Bare ruined choirs, where late the sweet birds sang&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Aug 2008 11:37:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Omayr José de Moraes Júnior</dc:creator>
		
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Cada estilo arquitetônico descerra a expressão patente de um estado de espírito, de uma fé, de uma concepção de vida, de um modo de ser. Em suma, essa caracterização não muda, não se converte&#8230; A população de uma cidade pode mudar de religião da noite para o dia (e a História conta-nos fatos deste tipo), [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<strong>Cada estilo arquitetônico descerra a expressão patente de um estado de espírito, de uma fé, de uma concepção de vida, de um modo de ser. Em suma, essa caracterização não muda, não se converte&#8230; A população de uma cidade pode mudar de religião da noite para o dia (e a História conta-nos fatos deste tipo), mas o estilo de uma igreja não transige. Agonizam os templos fiéis à sua natureza, ao seu feitio. Vi, na Alemanha, muitas igrejas, originalmente católicas, cujos fiéis passaram-nas para o domínio do luteranismo. Vi mosteiros sem monges - como o de Maulbron - transformados em propriedade reformista. Era sempre com melancolia que contemplava essas casas de Deus. Davam-me um aspecto de desolação, de inconformismo. Sentiam com certeza saudades do ritual católico, das antífonas, da antiga liturgia &#8230; Os edifícios são mais persistentes do que nós. </strong></p>
<p><strong>(Cassiano Nunes. <em>Sedução da Europa</em>. Saraiva. São Paulo. 1958. p.88).</strong></p>
<p>&#8220;Bare ruined choirs, where late the sweet birds sang&#8221;:  provável alusão de Shakespeare (Sonnet LXXIII) à Pseudo-Reforma protestante. &#8220;Sweet birds&#8221; seriam os monges. </p>
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