“Explorar mais do que provar. Cientes de nossas limitadas capacidades de percepção, podemos tentar nos aproximar o mais possível do verossímil, evitando atulhar a mente de informações pouco relevantes e dando espaço às diferenças que consideramos mais importantes. Isto implica em escolher as prioridades corn curiosidade e combinar fontes de natureza diversa para alargar o quadro dos fenômenos considerados e para aplicar um controle cruzado nas informações. De fato, existem estratégias piores ou melhores para tentar compreender partes mais ou menos necessárias o todo ue é a coisa em si. Isto nos consente de não sermos pessimistas demais em relação a capacidade que têm as coisas de serem conhecidas (…) podemos sempre descartar, aumentar, melhorar as hipóteses, acrescentando as evidências e evitando que as nossas idéias sobre elas percam a coerência”.
CARANDINI, Andrea – La nascita di Roma. Dei, Lari. eroi e uomini all’alba di uma civiltà. Torino, Einaudi, 1998:6.
História e Arqueologia são duas modalidades de fazer ciência, isto é, de se auferir conhecimento sistemático a partir de algumas hipóteses fundantes. Se esse status de ciência foi quase sempre reconhecido no caso da História, nem sempre o foi no da Arqueologia. Esta, no entanto, na medida em que elaborou e passou a servir-se de método e discurso próprios capazes de produzir conhecimento, decerto se alçou como ciência autônoma cujo escopo, obviamente, não pode se identificar com os meios de que se serve, a saber: os levantamentos de campo e a classificação dos achados. A Arqueologia e a História visam, de fato, à produção de saber partindo de dois tipos de evidência histórica: a evidência literária e a material. Do ponto de vista meramente lógico, a evidência literária e a material podem estar em relação de acordo ou de conflito; em ambos os casos, contudo, são capazes de se iluminar mutuamente. Sob o ponto de vista metodológico, e do mero bom senso, não é possível pensar que algum tipo de evidência, literária ou material, tem a priori mais “valor”. Mas isso nem sempre foi ponto pacífico, pois longa tradição assumia implicitamente que as fontes escritas eram inquestionáveis até que se “provasse” o contrário. É evidente que essa postura confere precedência automática à evidência literária em detrimento da material. Note-se, porém, que se não é possível se falar em superioridade apriorística de um tipo de evidência, isso não quer dizer de modo algum que, nos casos concretos, não se deva atribuir prevalência relativa de algumas evidências sobre as outras. Dá-se apenas que essa prevalência não pode se apresentar à indagação histórica como imposição genérica e extrínseca, mas, antes, deve corresponder às especificidades reconhecíveis no objeto. E isso nada mais é que escalonar as variáveis segundo o grau de transparência ou “legibilidade” que elas são capazes de conferir ao todo. E, se é verdade que um quadro teórico mínimo é necessário a fim de enfeixar o problema, é sobretudo verdade que a proposição das questões deve derivar necessariamente das evidências disponíveis, e não o contrário. Isto é: o modelo não deve encobrir a realidade e polarizar a mente do pesquisador. Cada caso é um caso. Com esta asserção banal quero dizer que modelos rígidos e generalizações são fatais para a investigação: tem-se um “modelo” e a realidade deve se encaixar nele, mesmo que isso se faça a golpes de marreta. De fato, a compreensão do passado – finalidade aliás quase sempre perfectível – se inicia pela proposição das “perguntas certas”, cujas respostas devem nos conduzir a uma região de certeza ou melhor, de verosimilhança, a partir da qual é justo se esperar a conformação de novos saberes oriundos da trama inicial de hipóteses. Sob esse aspecto, a condução do discurso não é arbitrária, mas depende liminarmente das questões levantadas a partir das evidências disponíveis. Ora, a qualificação e o escalonamento das evidências, isto é, saber se os textos e os achados arqueológicos foram corretamente compreendidos, não é tarefa fácil e supõe perspicácia intelectual; os insumos devem ser confrontados cuidadosa e judiciosamente, e isso não se confunde de modo algum com a mera erudição, a qual, de fato, pode saturar a mente do pesquisador fazendo com que a parte se torne maior que o todo, abortando o processo mesmo de identificação das premissas. Essa deliberação é crucial, e dá é o verdadeiro start do processo, pois as conclusões estão de certo modo embutidas nas premissas e valores iniciais.
