Entry details

Author

Omayr José de Moraes Júnior

Date

outubro 18th, 2009

Comments

No Comments so far.
Add yours.

Eton College não o salvou (nem poderia).

O MÉTODO DO DR. KEATE

Em 1809, o rei George III da Inglaterra pôs à testa do aristocrático colégio de Eton o Dr. Keate, homenzinho terrível, que considerava a sova de pau uma estação necessária no caminho de toda perfeição moral e que terminava os seus sermões dizendo: “Sejam caridosos, boys, do contrário meto-lhes o cacete até vocês o ficarem.”

Os gentlemen e os ricos negociantes cujos filhos eram por ele educados viam sem desprazer essa piedosa ferocidade e tinham por singularmente estimável um homem que surrara quase todos os primeiros-ministros, bispos e generais do país.

Naquele tempo, toda disciplina severa era aprovada pela elite. A Revolução francesa acabava de mostrar os perigos do liberalismo quando ele infecta as classes dirigentes. A Inglaterra oficial, alma da Santa Aliança, acreditava combater em Napoleão a filosofia coroada. Exigia de suas escolas públicas uma geração ajuizadamente hipócrita.

Para domar o possível ardor dos jovens aristocratas de Eton, uma prudente frivolidade organizava-lhes os estudos. Ao cabo de cinco anos, um aluno lera duas vezes o seu Homero, quase todo o Virgílio, Horácio expurgado, e podia compor em latim epigramas sofríveis sobre Wellington ou Nelson. O gosto das citações estava por essa época tão desenvolvido entre os rapazes desta classe que de uma feita, no Parlamento, tendo Pitt interrompido em meio um verso da Eneida, toda a Câmara, Whigs e Tories, levantou-se e terminou o verso. Belo exemplo de cultura homogênea. As ciências eram facultativas, portanto descuradas; a dança, obrigatória. Quanto à religião, Keate julgava criminoso pô-la em dúvida, inútil falar sobre ela. O doutor temia o misticismo muito mais do que a indiferença.

(…)

Costumes assaz bárbaros regulavam as relações dos alunos entre si. Os “pequenos” eram os fags, ou escravos dos “grandes”. Cada fag fazia a cama do seu suserano, bombeava a água para ele de manhã, escovava-lhe as roupas e os sapatos. Toda desobediência era punida com suplícios convenientes. Escrevia um menino aos pais, não para se queixar, mas para contar o seu dia: “Rolls, de quem sou fag, pôs as esporas e queria fazer-me saltar um fosso largo demais. A cada esquiva, esporeava-me. Naturalmente tenho a coxa em sangue, os meus “Poetas Gregos” estão reduzidos a uma papa, e a minha roupa nova ficou toda rasgada.”

O boxe era tido em grande apreço. Tão violento foi um desses combates que um menino caiu morto no assoalho. Keate veio ver o cadáver e disse: “É lastimável, mas faço questão antes de tudo que os alunos de Eton estejam preparados para responder a um golpe com outro.”

O objetivo profundo e oculto do sistema era formar caracteres duros vazados num molde único. A independência das ações era grande; mas a originalidade do pensamento, da linguagem ou do modo de vestir, o crime mais detestado. Um interesse um pouco vivo por estudos ou idéias passava por afetação insuportável, que cumpria corrigir pela força.

Tal qual era, essa vida estava longe de desagradar à maioria dos rapazes ingleses. O orgulho de participar na manutenção das tradições de uma escola tão antiga, fundada por um rei e em todos os tempos vizinha e protegida dos reis, compensava-os bem dos seus sofrimentos. Só algumas almas sensíveis sofriam por muito tempo.

“Ariel ou a Vida de Shelley”
André Maurois
(Trad. Manuel Bandeira)

Eton College não salvou Shelley das idiotices do Iluminismo. Afogou-se em vícios e, depois, no mar.

Comments are closed