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Omayr José de Moraes Júnior

Date

outubro 13th, 2009

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If nothing is new…

São conhecidas (…) as dificuldades e as amarguras da época em que viveu S. Francisco. É verdade que então estava a fé mais profundamente arraigada no povo; a prova disto está nas Cruzadas que, num santo impeto, levaram à Palestina não somente uma leva de soldados assalariados, mas também cidadãos de todas as classes, para a libertação do Santo Sepulcro. Mas, na vinha do Senhor haviam feito invasão aos poucos e serpeavam heresias, propagadas quer por seus autores conhecidos quer por impostores ocultos, que, sob a aparência simulada de austeridade, disciplina e virtude, facilmente enganavam as almas simples e fracas; destes focos partiam centelhas malignas que atiçavam a revolta nas multidões. Surgiam homens estigmatizando a Igreja de Deus por causa destas faltas individuais e pretendendo com orgulho serem pelo céu chamados para a sua reforma; não tardava, porém, que, pela rejeição do magistério e da autoridade da Sé Apostólica, ficassem patentes os desígnios que os guiavam. Efetivamente, na sua maioria, bem depressa caíram na devassidão e na luxúria, e até chegaram a perturbar a ordem pública, abalando os fundamentos da religião, da propriedade, da família e do Estado. Aconteceu então o que mais de uma vez se deu no decurso dos séculos: as sedições, aqui e -acolá suscitadas contra a Igreja e o Estado, tomaram incremento coadjuvando-se mutuamente.

Se bem que a fé católica permanecesse intacta nas almas, ou ao menos nelas não estivesse inteiramente obscurecida, o espírito evangélico quase desaparecera e a caridade de Cristo a tal ponto arrefecera na sociedade, que se afigurava como extinta.

Sem falarmos das lutas entre os partidos, dos quais uns esposavam a causa do Império e outros a da Igreja, as cidades da Itália se dilaceravam em guerras intestinas: as cidades vassallas queriam sacudir o jugo de suas suseranas e conquistar a liberdade política; as mais poderosas tentavam submeter as mais fracas e, numa e mesma cidade, as facções disputavam o poder; em consequência, de ambas as partes havia cruéis morticínios e incêndios, pilhagens e devastações, exílios e confiscações de bens e propriedades.

Tristíssima era a sorte de muitos: entre os patrões e os empregados, ou entre os assim chamados “maiores” e “menores”, entre os proprietários e os rendeiros, existiam diferenças demasiado profundas, que não condiziam com a civilização, e a gente humilde se via exposta sem defesa à opressão e às vexações dos poderosos. Dominados pelo egoísmo e pelo interesse, todos aqueles que não pertenciam à miserável classe plebeia ardiam numa cobiça insaciável de riquezas; como não existissem em parte alguma leis suntuárias, fazia-se jactanciosa exibição duma afetação insensata no vestuário, nos banquetes e nos divertimentos de todo o gênero; desprezavam-se os pobres e a pobreza; tinha-se incontida aversão aos leprosos, tão numerosos naquele tempo, mantendo-os relegados ao abandono; e até não estavam isentos desta louca paixão de gozos e prazeres aqueles que deveriam levar uma vida mais religiosa, se bem que muitos entre o clero se recommendassem pela austeridades de costumes.

Daí se tornara uso tirar cada qual os maiores e mais pingues proventos de quanto lhe fosse possível; muitos, pois, não somente extorquiam o dinheiro por meio da violência e usura, mas até vendiam os cargos públicos, as honras, a administração da justiça e a própria impunidade dos criminosos, afim de aumentarem e avolumarem o patrimônio. A Igreja não guardava silêncio nem deixava de punir; mas, que resultado podia colher, quando até os Imperadores davam em público os piores exemplos e provocavam os anátemas da Sé Apostólica, desprezando-os com contumácia? O própria instituição monástica, que produzira tão belos e sazonados frutos, estava coberto de pó mundano, tornando-se impotente para uma eficaz resistência; e se novas ordens religiosas de homens davam alguma proteção e vigor à disciplina eclesiástica, contudo a sociedade enferma exigia para o seu restabelecimento uma efusão mais abundante de luz e caridade.

Pio XI
Carta Encíclica “Rite expiatis”
No sétimo centenário da morte de São Francisco de Assis.
30 de abril de 1926.

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