SÃO BENTO TEM UM CAPÍTULO – o penúltimo de sua Regra – que trata “do zelo bom que os monges devem ter”. Começa-o com uma distinção: “Assim como há um zelo mau, que é um zelo de amargura, que separa de Deus e conduz ao inferno, existe um zelo bom, que se para dos vícios e conduz a Deus e à vida eterna”. É uma indicação religiosa, mas à concretamente uma indicação ampla e geral de conduta no convívio com os outros.
O mundo sempre foi perturbado pelo zelo de amargura. Não precisamos lembrar os fariseus eos escribas conduzindo a adúltera para acusá-la diante de Jesus. Bastaria lembrar o irmão mais velho do filho pródigo indignando-se com o pai porque este acolhia alegremente o mais moço que voltava.
São Bento fala com especial cuidado do espirito de murmuração. Esse dizer ao ouvido do outro, quase sempre com ares de quem está zeloso pelo bem, é um veneno corrosivo e dissolvente. Gera uma atmosfera de desconfiança e suspeição que destroi a vida em comum, que só pode existir numa base de confiança reciproca.
O tempo de hoje e fortemente perturbado pelo zelo de amargura. Se quisermos assinalar a contribuição mais forte e negativa com que o comunismo vem impregnando a sociabilidade humana, direi que foi a implantação, como principio de convívio (ou de não convívio) do zelo de amargura. Que é senão a instalação do zelo de amargura, como caminho de melhoria social, a propugnação pela luta entre os homens?
A diferença mais fundamental entre Cristo e Marx, na ordenação da convivência humana, está precisamente em que Cristo pregou o amor, o comunismo prega a luta, isto é, o ódio.
Se o homem não é, ou procura ser, o próximo colocado diante do próxímo, o irmão diante do irmão, mas e, ou quer ser, o membro de uma classe e,por isso, inimigo do outro, de outra classe, os homens es tão diante dos homens, como lobo, um para o outro, co mo inimigos, como prevenidos, enfim, como zelosos, num zelo de amargura.
E o zelo amargo se espalha como se multiplicam as classes. E as classes realmente se multiplicam (ou são inventadas…): classe dos pais e classe dos filhos, classe dos homens e classes das mulheres, classe dos adultos e classes das crianças e adolescentes, classe dos professores e classe dos diretores, e vamos ficando cada vez mais longe daquela diversificação social – sexo, idade, profissão – que favorecia, pela complementariedade das tarefas, uma reciprocidade de serviços e o fortalecimento da concordia.
Há uma feição moderna do zelo de amargura que consiste no espirito de contestação. Não me refiro apenas à contestação do adolescente, que tem sua raiz em dado correto de afirmação pessoal em busca de líberação da tutela paterna, mas dessa contestação que hoje assume, não raro, um colorido de desamor e revolta, produto do zelo amargo. Refiro-me de um modo geral aos contestadores de todas as gamas de idades, de todos aqueles que, talvez por não se sentirem seguros de sua maturidade, reclamam meio nervosos serem tratados como homens maduros, e vivem prevenidos com todos os vizinhos. Uma nota particular deste gru po ê a reinvidicação do direito de falar. Não é propriamente o direito de falar que lhes faz falta. Este ninguém lhes tira. Mas a amargura suscita um zelo tirânico: só se sentem falando quando impõem asua opinião. O diálogo reclamado pelo contestador é quase sempre um monólogo.
Tem-se falado muito e escrito sobre a censura. A censura é realmente uma providência antipática. Há contudo, um simplismo meio grosseiro e tolo nas reações que andam por ai contra a censura. A dificuldade da censura está em conseguir coloca-la na medida. Em principio, seria legitima, pois é providência que, ao contrário do que se diz comumente, as segura a liberdade. Liberdade contra a tolice, contra o falso profeta, contra o que se intitula artista, mas é fabricante de moeda falsa. Legitima contra o zelo amargo, contra a murmuração, que, no contexto social, se chamaria de intriga ou de “palpite”. O zelo de amargura reinvidica, a título de direito, poder dar a sua opinião, o direito ao palpite. Palpite, segundo o dicionário, é o “dito do intrometido”. O intrometido entra indebítamentt na vida do ou tro e no assunto do outro.
Não creio que possa haver, menos ainda que deva haver – a não ser em ambientes restritos – censura contra o intrometido. Mas queria dizer que onos so convívio ganharia em cordialidade se o zelo amargo não suscitasse tantos espinhos. Se o homem sabio fosse reconhecido, como auer São Bento. Dela sobriedade no falar
E o mundo ganharia muito se vivêssemos o zelo bom. “Zelo que deve ser praticado com muito amor, isto é, que se empenhem em honrar mutuamente,que suportem as fraquezas do outro, tanto as do corpo como as da mente, que se obedeçam reciprocamente, que ninguém procure o que lhe ë útil, mas de preferência o que o é para o outro, apliquem-se com o coração puro à caridade fraterna; amem a Deus como temor; amem o seu superior, nada preponham a Cristo: (Regra de São Bento, cap. LXXII).
“São Bento e o Livro”, Colégio de São Bento – RJ – 1980.

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