De coisas idênticas pode uma pessoa usar mal, e outra bem: a que usa mal, está presa às mesmas coisas pelo amor [ desordenado], e nelas se embaraça, submetendo-se àquilo que lhe devia estar submetido (…); a que usa retamente das coisas, mostra na verdade, que estas são boas (…), não estando a elas presas pelo amor, nem fazendo dessas realidades como que membros do seu espírito, como acontece no amor (…), mas elevando-se acima dessas coisas, está pronta não só a possuí-las e dirigi-las, como também a perdê-las e não possuí-las. Sendo assim, achas por ventura que a prata e ouro devem ser incriminados por causa dos avaros, ou os alimentos por causa dos glutões, ou o vinho por causa dos ébrios, ou as formas femininas por causa dos prostibulários e adúlteros, e assim, outras coisas? Isto, pois, considera, sobretudo ao veres o médico que usa bem do fogo, e o envenenador que usa criminosamente de um pedaço de pão.
Santo Agostinho
De libero arb., I, 15, 33
