Para os antigos gregos
O mundo divino é fundamentalmente ambíguo. A ambigüidade nuança os deuses mais positivos: Apolo é o Brilhante, mas Plutarco nota que, para alguns, ele é também o Obscuro e que, se para uns, as Musas e a Memória se põem a seu lado, para outros, aparecem Esquecimento e Silêncio . Os deuses conhecem a “Verdade”, mas sabem também enganar pelas aparências e pelas palavras. Suas aparências são armadilhas para os homens, suas palavras são sempre enigmáticas, pois escondem tanto quanto revelam: o oráculo “mostra-se através de um véu, assim como a jovem desposada”. A ambigüidade do mundo divino corresponde à dualidade do humano. Existem os homens que reconhecem a aparição dos deuses sob as aparências mais desconcertantes, que sabem entender o sentido oculto das palavras, e depois estão todos os outros que se deixam levar pelo disfarce, que caem na armadilha do enigma.
(Detienne, M. : Os mestres da verdade na grécia archaica, Rio de Janeiro: Zahar, 1988, p. 42)

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