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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 31st, 2009

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“Regra de São Bento”, cap. 4: Os instrumentos das boas obras,

[1] Primeiramente, amar ao Senhor Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.
[2] Depois, amar ao próximo como a si mesmo.
[3] Em seguida, não matar.
[4] Não cometer adultério.
[5] Não furtar.
[6] Não cobiçar.
[7] Não levantar falso testemunho.
[8] Honrar todos os homens.
[9] E não fazer a outrem o que não quer que lhe seja feito.
[10] Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo.
[11] Castigar o corpo.
[12] Não abraçar as delícias.
[13] Amar o jejum.
[14] Reconfortar os pobres.
[15] Vestir os nus.
[16] Visitar os enfermos.
[17] Sepultar os mortos.
[18] Socorrer na tribulação.
[19] Consolar o que sofre.
[20] Fazer-se alheio às coisas do mundo.
[21] Nada antepor ao amor de Cristo.
[22] Não satisfazer a ira.
[23] Não reservar tempo para a cólera.
[24] Não conservar a falsidade no coração.
[25] Não conceder paz simulada.
[26] Não se afastar da caridade.
[27] Não jurar para não vir a perjurar.
[28] Proferir a verdade de coração e de boca.
[29] Não retribuir o mal com o mal.
[30] Não fazer injustiça, mas suportar pacientemente as que lhe são feitas.
[31] Amar os inimigos.
[32] Não retribuir com maldição aos que o amaldiçoam, mas antes abençoá-los.
[33] Suportar perseguição pela justiça.
[34] Não ser soberbo.
[35] Não ser dado ao vinho.
[36] Não ser guloso.
[37] Não ser apegado ao sono.
[38] Não ser preguiçoso.
[39] Não ser murmurador.
[40] Não ser detrator.
[41] Colocar toda a esperança em Deus.
[42] O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo.
[43] Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si mesmo atribuí-lo.
[44] Temer o dia do juízo.
[45] Ter pavor do inferno.
[46] Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual.
[47] Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo.
[48] Vigiar a toda hora os atos de sua vida.
[49] Saber como certo que Deus o vê em todo lugar.
[50] Quebrar imediatamente de encontro ao Cristo os maus pensamentos que lhe advêm ao coração e revelá-los a um conselheiro espiritual.
[51] Guardar sua boca da palavra má ou perversa.
[52] Não gostar de falar muito.
[53] Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso.
[54] Não gostar do riso excessivo ou ruidoso.
[55] Ouvir de boa vontade as santas leituras.
[56] Dar-se freqüentemente à oração.
[57] Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e gemidos, as faltas passadas e [58] daí por diante emendar-se delas.
[59] Não satisfazer os desejos da carne.
[60] Odiar a própria vontade.
[61] Obedecer em tudo às ordens do Abade, mesmo que este, o que não aconteça, proceda de outra forma, lembrando-se do preceito do Senhor: “Fazei o que dizem, mas não o que fazem”.
[62] Não querer ser tido como santo antes que o seja, mas primeiramente sê-lo para que como tal o tenham com mais fundamento.
[63] Pôr em prática diariamente os preceitos de Deus.
[64] Amar a castidade.
[65] Não odiar a ninguém.
[66] Não ter ciúmes.
[67] Não exercer a inveja.
[68] Não amar a rixa.
[69] Fugir da vanglória.
[70] Venerar os mais velhos.
[71] Amar os mais moços.
[72] Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos.
[73] Voltar à paz, antes do pôr-do-sol, com aqueles com quem teve desavença.
[74] E nunca desesperar da misericórdia de Deus.
[75] Eis aí os instrumentos da arte espiritual: [76] se forem postos em ação por nós, dia e noite, sem cessar, e devolvidos no dia do juízo, seremos recompensados pelo Senhor com aquele prêmio que Ele mesmo prometeu: [77] “O que olhos não viram nem ouvidos ouviram preparou Deus para aqueles que o amam”. [78] São, porém, os claustros do mosteiro e a estabilidade na comunidade a oficina onde executaremos diligentemente tudo isso.

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 29th, 2009

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Meditação abstrusa e charadística sobre um texto de Carandini

“Explorar mais do que provar. Cientes de nossas limitadas capacidades de percepção, podemos tentar nos aproximar o mais possível do verossímil, evitando atulhar a mente de informações pouco relevantes e dando espaço às diferenças que consideramos mais importantes. Isto implica em escolher as prioridades corn curiosidade e combinar fontes de natureza diversa para alargar o quadro dos fenômenos considerados e para aplicar um controle cruzado nas informações. De fato, existem estratégias piores ou melhores para tentar compreender partes mais ou menos necessárias o todo ue é a coisa em si. Isto nos consente de não sermos pessimistas demais em relação a capacidade que têm as coisas de serem conhecidas (…) podemos sempre descartar, aumentar, melhorar as hipóteses, acrescentando as evidências e evitando que as nossas idéias sobre elas percam a coerência”.

CARANDINI, Andrea – La nascita di Roma. Dei, Lari. eroi e uomini all’alba di uma civiltà. Torino, Einaudi, 1998:6.

História e Arqueologia são duas modalidades de fazer ciência, isto é, de se auferir conhecimento sistemático a partir de algumas hipóteses fundantes. Se esse status de ciência foi quase sempre reconhecido no caso da História, nem sempre o foi no da Arqueologia. Esta, no entanto, na medida em que elaborou e passou a servir-se de método e discurso próprios capazes de produzir conhecimento, decerto se alçou como ciência autônoma cujo escopo, obviamente, não pode se identificar com os meios de que se serve, a saber: os levantamentos de campo e a classificação dos achados. A Arqueologia e a História visam, de fato, à produção de saber partindo de dois tipos de evidência histórica: a evidência literária e a material. Do ponto de vista meramente lógico, a evidência literária e a material podem estar em relação de acordo ou de conflito; em ambos os casos, contudo, são capazes de se iluminar mutuamente. Sob o ponto de vista metodológico, e do mero bom senso, não é possível pensar que algum tipo de evidência, literária ou material, tem a priori mais “valor”. Mas isso nem sempre foi ponto pacífico, pois longa tradição assumia implicitamente que as fontes escritas eram inquestionáveis até que se “provasse” o contrário. É evidente que essa postura confere precedência automática à evidência literária em detrimento da material. Note-se, porém, que se não é possível se falar em superioridade apriorística de um tipo de evidência, isso não quer dizer de modo algum que, nos casos concretos, não se deva atribuir prevalência relativa de algumas evidências sobre as outras. Dá-se apenas que essa prevalência não pode se apresentar à indagação histórica como imposição genérica e extrínseca, mas, antes, deve corresponder às especificidades reconhecíveis no objeto. E isso nada mais é que escalonar as variáveis segundo o grau de transparência ou “legibilidade” que elas são capazes de conferir ao todo. E, se é verdade que um quadro teórico mínimo é necessário a fim de enfeixar o problema, é sobretudo verdade que a proposição das questões deve derivar necessariamente das evidências disponíveis, e não o contrário. Isto é: o modelo não deve encobrir a realidade e polarizar a mente do pesquisador. Cada caso é um caso. Com esta asserção banal quero dizer que modelos rígidos e generalizações são fatais para a investigação: tem-se um “modelo” e a realidade deve se encaixar nele, mesmo que isso se faça a golpes de marreta. De fato, a compreensão do passado – finalidade aliás quase sempre perfectível – se inicia pela proposição das “perguntas certas”, cujas respostas devem nos conduzir a uma região de certeza ou melhor, de verosimilhança, a partir da qual é justo se esperar a conformação de novos saberes oriundos da trama inicial de hipóteses. Sob esse aspecto, a condução do discurso não é arbitrária, mas depende liminarmente das questões levantadas a partir das evidências disponíveis. Ora, a qualificação e o escalonamento das evidências, isto é, saber se os textos e os achados arqueológicos foram corretamente compreendidos, não é tarefa fácil e supõe perspicácia intelectual; os insumos devem ser confrontados cuidadosa e judiciosamente, e isso não se confunde de modo algum com a mera erudição, a qual, de fato, pode saturar a mente do pesquisador fazendo com que a parte se torne maior que o todo, abortando o processo mesmo de identificação das premissas. Essa deliberação é crucial, e dá é o verdadeiro start do processo, pois as conclusões estão de certo modo embutidas nas premissas e valores iniciais.

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 26th, 2009

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Lições de um mestre (*), por Luiz Paulo Horta

Pesquisa vai, pesquisa vem, e o Colégio São Bento continua a ser avaliado como o melhor do Brasil. Haverá algum mistério nisso? Uma explicação rápida seria a de que ali não há meninas; e, assim, os meninos prestam mais atenção. Se fosse tão simples…

É um colégio de monges, no Centro do Rio de Janeiro. A ordem beneditina tem 1.500 anos. Será que os monges aderiram às pedagogias mais modernas? O que haverá naquelas salas onde, às vezes, chega o eco do canto gregoriano? Eu ousaria dizer que o “mistério” é o trabalho de D. Lourenço de Almeida Prado, recentemente falecido, que dirigiu o colégio por mais de 40 anos.

O pensamento e a ação de D. Lourenço ficaram, ali, como um resíduo sutil, que continua a inspirar os seus sucessores.

Boa parte desse pensamento foi exposta em palestra magistral (no São Bento) de D. Justino de Almeida Bueno. D. Justino fala dos mestres do próprio D. Lourenço – Aristóteles, São Tomás de Aquino, Maritain. Dali se extrai toda uma filosofia – alta e profunda – sobre a condição humana e o papel da educação.

Para essa família de pensadores, o homem é um ser perfectível; é um ser social, que precisa do outro; e é um ser que cresce no processo educativo. Isso é profundamente humano: é o que nos distingue de um animal, que já vem pronto ao mundo, com os seus instintos, e até com sua capacidade de locomoção nos primeiros dias de vida.

O processo humano é mais complicado – mais rico, também. Escreve D.

Lourenço: “O homem é um ser social, um ser naturalmente comunicativo, mas é também um ser que reflete, que tem uma vida própria, pessoal, incomunicável; que tem, em suma, uma vida interior.” Ele então explica que essas duas perspectivas não são opostas, nem contraditórias. E que a vida interior é o próprio ponto de partida da comunicação.

“É dentro da estrutura interior do espírito humano que vive e se forma essa carência do outro. Mas se a vida interior nada tem que ver com o isolamento, a vida de comunicação nada tem que ver com o tumulto.” É o mundo da subjetividade, de que falava Heidegger, para o qual tem chamado a atenção um Eduardo Portella. E D. Lourenço se indaga: “Será que o mundo de hoje favorece essa busca, essa expansão ‘por dentro’ da criatura humana?” Ele menciona “o descompasso entre o vertiginoso crescimento do volume de conhecimentos, do tipo ‘informação’, que assalta a inteligência humana, reclamando o seu lugar nos currículos escolares, e o discreto amadurecimento da sabedoria, isto é, da capacidade de discernir e de avaliar os valores mais profundos das coisas”. E conclui: “A progressão quase geométrica do saber não parece conduzir a uma situação favorável para que o homem tenha silêncio interior e possa pensar na razão de ser da sua vida.” Reclama-se (prossegue o mestre) da escola antiga, que deixava o aluno numa posição meramente passiva. O professor era tudo, cabendo-lhe plasmar o aluno como se impõe o timbre a uma cera. Propõe-se a escola ativa, isto é, a que atribui ao aluno maiores iniciativas na busca do conhecimento.

Multiplicam-se as pesquisas, os exercícios práticos, os recursos audiovisuais, a dinâmica de grupo. E à aula em que todos falam, todos agem, todos usam não apenas lápis e régua mas martelo, serrote e slides, chamam de aula participada.

“Os antigos tinham uma preocupação muito séria com o silêncio. Esse silêncio não consistia apenas num deixar de falar, mas era sobretudo uma atitude interior de atenção; era a busca de uma condição favorável para ouvir.

Hoje em dia, se falamos num silêncio para favorecer a comunicação, estamos arriscados a ser contestados por um ardente defensor do diálogo.

Mas, sem ouvir, a nossa participação fica artificial.” Até aqui, D. Lourenço.

No coração do Rio de Janeiro, a colina onde fica o Mosteiro de São Bento ainda tem os seus espaços de silêncio.

Talvez por isso, ali, a educação seja mais fácil, e mais profunda. Afinal, eles seguem a Regra de São Bento, que tem 1.500 anos, e que começa assim: “Escuta, filho, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração…”

(*) O GLOBO
23/05/2009

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 24th, 2009

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Gaudete

Tomás distingue três espécies de alegria espiritual: a) “deleitação” (delectatio), que é o sentimento de amor desinteressado, que se fixa na contemplação do Bem divino (II-II, q.188, a.7); b) “gáudio” (gaudium), que é a alegria própria da caridade, fruto da união afetiva (II-II, q.28, a.2); c) “letícia” (laetitia) que designa a alegria da esperança, alegria espiritual que resulta da devoção (I-II, q.33, a.1). Na letícia se dá uma interessante “causalidade circular”: a esperança leva à alegria, e a alegria leva a uma esperança ainda mais forte. Ao falar da esperança, Tomás repete com freqüência: nossa esperança se funda na graça de Deus; em sua suprema majestade (De spe a.4 ad 14); em seu poder e misericórdia (II-II, q.18 a.4 ad 2; II-II, q.21 a.4, In Ps. 20); em sua infinita liberalidade (In Sent. 3 d.26 q.2 a.4 arg.3s.c.). Isso quer dizer que a esperança vem em auxílio de nossas ações e as robustece. A experiência é causa da esperança na medida em que mostra ser possível aquilo que antes parecia impossível (I-II, q.40, a.5).

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 24th, 2009

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T.S.Eliot (The Rock, VII)

Our age is an age of moderate virtue
And of moderate vice
When men will not lay down the Cross
Because they will never assume it.
Yet nothing is impossible, nothing,
To men of faith and conviction.

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 21st, 2009

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Vôo a vela

A prudência é “reta razão aplicada ao agir”, recta ratio agibilium (Tomás de Aquino: S. Th. II-II, q. 47, a. 5), isto é, a virtude da boa decisão, da ação e da responsabilidade. De fato, em face das indeterminações, incertezas, elementos positivos e negativos das situações concretas – irrepetíveis na conjugação de seus fatores -, a prudência intervém na qualidade de “amor clarividente” (Agostinho: De moribus Ecclesiae c.15,25, PL 32,1322) que nos conduz ao verdadeiro bem. Nada tem a ver, portanto, com a atitude timorata e mesmo negativa que comumente se associa ao termo. Trata-se, na verdade, de uma sagacidade que sabe discernir e ordenar os meios mais aptos em vista de um fim (Tomás de Aquino: S. Th. II-II, q.49, a.4 c); esse discernimento se adquire por repetição de atos virtuosos, ou seja, “pelo fato de agirmos frequentemente segundo a razão,” ex eo quod multoties agimus secundum rationem (Tomás de Aquino: In Ethic. lect.1 n.249). Agir “conforme a razão” significa agir apenas e tão-somente com base na realidade. Retomando uma antiga imagem, cada virtude pode ser comparada aos instrumentos de um conjunto musical cuja harmonização é precisamente obra da prudência. Sem a prudência não pode haver as demais virtudes morais, porque toda a virtude moral é um hábito seletivo (electivus); mais ainda: “sem a prudência, as demais virtudes, quanto maiores fossem, mais dano causariam” (Tomás de Aquino: In III Sent. d.33, q.2, a.5 sc 3). Tomás, de fato, é herdeiro da tradição segundo a qual as virtudes não podem ser perfeitas se estiverem separadas: a prudência não pode ser verdadeira, se não for justa, temperante e forte. Três vícios opõem-se à prudência: a) precipitação: resolver sem ponderar; b) lentidão: apesar de deliberação madura, as oportunidades se perdem ao mudarem as circunstâncias; c) tenacidade: desprezar o conselho alheio, por excessiva confiança em si mesmo (Tomás de Aquino: S. Th. II-II, q.138, aa.1.2).

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 5th, 2009

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“Os fins da vida religiosa”, Fr P. Philipe, O.P.

A doutrina de Sto. Tomás sobre os fins da vida religiosa concorda com a mais sólida tradição cristã: foi elaborada à luz do Evangelho, segundo as normas dos Padres e Doutores da Igreja. Compraz-se o santo doutor em citar, principalmente, São Gregório Magno, que foi o mestre da vida espiritual, mais estimado, no Ocidente, até o século XII. Mas, Sto. Tomás não quis apenas recolher e transmitir a doutrina tradicional. A esse respeito, por primeiro na história ele fez obra de teólogo; elaborou e expôs a doutrina da vida religiosa segundo a natureza mesma de seus elementos constitutivos e dos seus fins. O seu tratado baseia-se nas noções exatas de perfeição cristã, de estado de perfeição, de conselho evangélico, de virtude e voto de religião.

Os princípios aplicados pelo doutor Angélico, longe de restringir, indevidamente, e conceito de vida religiosa e fixá-la em formas rígidas que poderiam impedir o desenvolvimento no seio da Igreja, garantem-lhe, visto como emanam da natureza mesma das coisas, a perseverança na pureza da sua essência de vida consagrada a Deus, e justificam ao mesmo tempo, as mais variadas formas de Institutos religiosos consagrados ao serviço do próximo.

Com efeito, a virtude da religião, segundo Sto. Tomás, pode levar ao cumprimento de todos os atos bons para a honra de Deus. E quando esta virtude, por inspiração da caridade, consagra a Deus a vida inteira pelos três votos de pobreza, obediência e castidade, pode aplicar o homem não só aos exercícios da vida contemplativa para ocupar-se sboente de Deus, mas também a todas as obras de beneficência a serviço do próximo.

Graças a este conceito preciso e compreensivo da vida religiosa, Sto. Tomás pode justificar, em seus tempos, a fundação de Ordens consagradas à vida ativa, e até à obra puramente temporal do serviço armado em defesa do povo cristão. De um modo bastante geral, Sto. Tomás escreve que não há obra de misericórdia, para cujo exercício não se possa fundar uma Ordem religiosa, ainda que até hoje não tenha sido fundada .

Todavia, em todo Instituto de vida ativa, seja qual for a sua forma, o estado religioso deve ser verdadeiramente tal, com o seu fim essencial de total “emancipação” ou consagração ao Senhor por amor dele. E isto requer em primeiro lugar para cada um de seus membros, a oferta a Deus da própria alma, por uma intenção de caridade contemplativa, da qual em seguida, procederão tôdas as formas de serviço ao próximo.

Hoje, enquanto em toda a Igreja, se manifesta o desejo dos homens, de um serviço sempre mais idôneo e eficaz por conseguinte, de uma atualização das Regras religiosas, Sto. Tomás nos ajuda a compreender que este movimento não conseguiria bons resultados, se o nosso trabalho consistisse apenas em buscar fórmulas e métodos com critérios exclusivamente temporais ou com a única preocupação de eficácia exterior.

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 4th, 2009

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Cavalo (jegue, hipopótamo, dragão, camaleão) de Tróia

Abaixo, uma excelente reflexão de DIETRICH VON HILDEBRAND em seu “Cavalo de Tróia dentro da Igreja”, pp. 109-110.

Assistimos, hoje, a uma deformação do movimento litúrgico quando muitos tentam substituir os sublimes textos latinos da Liturgia por traduções nativas, com gíria. Che­gam mesmo a mudar, arbitràriamente, a Liturgia no intuito de “adaptá-la aos nossos tempos”. O Canto Gregoriano vai dando lugar, na melhor hipótese, à música medíocre, quando não ao jazz ou ao rock and roll. Essas grotescas substituições empanam o espírito de Cristo incomparàvelmente mais do que o fizeram certos tipos antigos e sentimentais de devo­ção. Esses eram inadequados. Aquêles, além de inadequa­dos, são antitéticos à sagrada atmosfera da Liturgia. É mais do que uma deformação; isso lança o homem em uma atmosfera tipicamente mundana. Apela no homem para algo que o torna surdo à mensagem de Cristo.

Mesmo quando se substitui a beleza sagrada, já não pela vulgaridade profana, mas por abstração neutra, incor­re-se em sérias conseqüências para as vidas dos fiéis, pois, como indicamos, a Liturgia católica se dirige à personalidade total do fiel. O fiel não é atraído ao mundo de Cristo apenas por sua crença ou por símbolos estritos. São levados a um mundo mais alto pela beleza da igreja, por seu ambiente sa­grado, pelo esplendor do altar, pelo ritmo dos textos litúr­gicos, pela sublimidade do Canto Gregoriano ou por músicas verdadeiramente sacras, tais como a Missa de Mozart ou de Bach. Até mesmo o perfume do incenso tem função sig­nificativa, nesse sentido. O emprêgo de todos os canais ca­pazes de introduzir-nos no Santuário é profundamente ree-­lista e profundamente católico. É autênticamente existen­cial e realiza função notável em ajudar-nos a elevar nossos corações.

Se é verdade que considerações de cunho pastoral po­derão recomendar como desejável o uso do vernáculo, o Latim da Missa – na missa silenciosa, dialogada e, espe­cialmente, cantada com o Gregoriano – jamais deveria se abandonado. Não se trata de guardar o Latim de Missa por certo tempo até que os fiéis se habituem à missa em ver­náculo. Como a Constituição da Sagrada Liturgia claramente determina, é permitido o uso do vernáculo, mas a Missa em Latim e o Canto Gregoriano conservam tôda sua importân­cia. Foi essa a intenção do motu proprio, de São Pio X, que afirmou ser o Latim da missa, como o Canto Gregoriano, responsável também pela formação da piedade dos fiéis, através da atmosfera sagrada e única gerada por sua di­ção. Assim os anseios de muitos católicos e do movimento Una Voce não se dirigem contra o uso do vernáculo, mas contra a eliminação da Missa em Latim e do Canto Grego­riano. Eles apenas estão pedindo que se cumpra, realmente, a Constituição da Sagrada Liturgia.

Contudo, certos católicos de hoje manifestam o desejo de mudar a forma exterior da Liturgia, adaptando-a ao es­tilo de vida de nossa época dessacralizada. Esse desejo denota cegueira com relação à natureza da Liturgia, bem como ausência de respeito reverencial e gratidão pelos dons sublimes de dois mil anos de vida cristã. Acreditar que as formas tradicionais podem ceder o lugar a algo melhor é dar provas de uma ridícula auto-suficiência. E êsse con­ceito é particularmente incongruente nos que acusam a Igreja de “triunfalismo”. De um lado, eles consideram falta de humildade da Igreja proclamar que Ela só é deten­tora da plena revelação divina (em vez de perceber que essa proclamação se fundamenta da natureza da Igreja e decorre de sua missão divina) . De outro lado, demonstram ridículo orgulho quando simplesmente assumem que nossa época mo­derna é superior às anteriores.

Podem-se ouvir, hoje, vozes de protesto declarando, por exemplo, que o texto do Glória e de outras partes da Missa estão repletos de expressões cansativas de louvor e glorifi­cação a Deus, quando deveriam fazer mais referências a nossas vidas. É um contra-senso que revela como tinha ra­zão Lichtemberg ao dizer que, se fôsse dado a um macaco ler as epístolas de São Paulo, êle veria sua própria imagem refletida nelas. Admiram-se os nossos “teólogos” modernos não apresentarem, dentro em breve, uma nova versão do “Pai Nosso”, como o fêz Hitler. O “Pai Nosso” claramente enfatiza o primado absoluto de Deus, tão distante da men­talidade típica moderna. Um único pedido diz respeito ao bem-estar terrestre : “o pão nosso de cada dia” … O res­tante diz respeito ao próprio Deus, a seu Reino, a nosso bem-estar eterno.