Há certos fatos que passam a habitar no “palácio da memória”, como diz Santo Agostinho, e pode ser interessante, e até mesmo necessário, descobrir o motivo dessa hospedagem. Vejo meu pai entrando em casa com o disco do Magnificat de Bach, e, havendo me proposto saber o motivo dessa recorrência, imagino ter descoberto o sentido de todo o resto. Da fato, o disco não vinha com a “letra”. Meu pai falou-me, então, de um antigo Missal: achado o livro, achei a “letra”; gravei o disco, e o ouvia sempre; folheava o livro, e o lia sempre. Tomei gosto pelo Latim, e passei a achar absurdo que o tivessem abandonado por toda parte, dos bancos escolares aos das igrejas. Numa bela tarde de sexta-feira, pela primeira vez entrei no mosteiro de São Bento, em São Paulo. Os monges cantavam e eu logo reconheci a “letra”, e fiquei ali, surpreso. Era o Magnificat. Na sexta-feira seguinte, voltei; e comecei a voltar todas as sextas-feiras, supondo que o Magnificat era cantado somente às sextas-feiras… Desconfiado da conclusão, perguntei a uma senhorinha se os monges cantavam nos outros dias da semana. Disse-me ela que sim; disse-me, aliás, que eles cantavam o Magnificat todos os dias. A senhorinha era Dona Erna. Alemã miúda de olhos azuis, morreu, centenária, há cinco anos. E Dona Erna era uma convertida, pois nascera luterana, e assim viveu até que D. Beda Nebel, beneditino daquele mosteiro, a devolvesse à Igreja. E Dona Erna ficou devotíssima do Santíssimo Sacramento e da Virgem. Depois de Vésperas, lá estava ela, recolhida aos pés do altar da Virgem. E Dona Erna me contou que, certa vez, quando menina, o pai lhe sussurrou à porta do cemitério de sua cidade natal:
“- Olha, filha, do outro lado do muro é o cemitério dos católicos…”.
Há muros que se prolongam mais além.
* * *
E assim, pelas mãos de meu pai, o Magnificat entrou na minha vida, e, com ele, a Santíssima Virgem e própria Igreja católica. Pois sem aquele disco, talvez não viesse mais nada. No raso de meus treze anos, Cristo e a Igreja católica não constavam em nenhuma parte da minha geografia, nem na do Arqui, o colégio marista de São Paulo. É verdade que os Irmãos ainda andavam por lá, alijados ciosamente do magistério, mas espalhados pelos balcões do colégio: o da papelaria; o da sala de material esportivo; o da burocracia miúda da escola. Não por acaso, os melhores professores eram ex-irmãos maristas que deixaram a congregação por salário e filhos. Os demais viviam ali, longe das aulas, agonizando. Já naquela época, a maldita “associação de pais e mestres” se esmerava em fazer do Arquidiocesano um colégio assepticamente “pluralista”.
Hoje, enfim, Bach é quase uma lembrança. Prefiro Música (mais) Antiga. Bach me parece muito moderno. No Natal, porém, um amigo presenteou-me a obra completa para órgão. Seja como for, embora muito religioso, é claro que Bach não podia ser propriamente “litúrgico”. Pensemos, por exemplo, nas Missas que compôs: falta-lhes a medida – no sentido grego da palavra – falta-lhes, portanto, tudo. Na verdade, Bach não podia entender a Missa; entendendo-a apenas como forma musical, perdera tudo. Não é à-toa, de fato, que Santo Tomás fala de um julgamento por conaturalidade: uma coisa é falar “intelectualmente” sobre a mansidão (sem amá-la ou ao menos praticá-la); outra coisa é ter o hábito da mansidão e falar dela como coisa própria, por certa conaturalidade. É claro que alguém poderia dizer que há uma “liturgia luterana”. Mas, sinceramente, não vou entrar por essa porta, pois, como num cenário, sei que não há nada atrás. E assim como o efeito está de certo modo contido em sua causa, e a esta se assemelha, assim também as igrejas inventadas em gabinete, ou circo, têm muito da tristeza de quem as inventou. E o protestantismo é tristíssimo, uma vez que está privado da Eucaristia, isto é, de Cristo mesmo. E que tristeza! Eis por que, nas denominações protestantes, a piedade sempre degenerou em pietismo e pieguice; e o júbilo, se é possível haver algum, em triunfalismo ou espetáculo.

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