Rivalidades e nacionalismos.

Fala um francês: Jules Michelet (1798-1874).

ENTRE TÃO NUMEROSOS, SÓLIDOS E LOUVÁVEIS PREDICADOS, tem o grande povo inglês um vício que lhe põe a perder as qualidades. Esse vício imenso, profundo, é o orgulho. Enfermidade cruel, mas que nem por isso deixa de ser para os ingleses o princípio vital, a explicação das suas contradições, o segredo dos seus atos. Nos ingleses, virtudes e crimes são quase sempre orgulho; os seus ridículos também derivam do orgulho. Esse orgulho prodigiosamente sensível e doloroso os faz sofrer infinitamente; e é ainda orgulho o que os ajuda a ocultar esses sofrimentos; estes, porém, transparecem; o idioma inglês tem dois vocábulos peculiares, dois termos expressivos: “disappointment” e “mortification”. Essa adoração do eu, esse culto interior da criatura por si mesma (…) é a impiedade suprema.

Eis por que, não obstante a seriedade, a honradez aparente, a feição bíblica do espírito inglês, nação alguma está mais longe da graça. O povo britânico é a única nacionalidade que não pôde reivindicar a “Imitação de Cristo”. Um francês podia escrever esse livro, como um alemão, um italiano; um inglês, nunca. De Shakespeare a Milton, de Milton a Byron, a bela e severa literatura inglêsa é céptica, (….) anticristã.

(Jules Michelet. Joana d´Arc. Casa Editora Vecchi Ltda. p.190. S/D).

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