Assunta
Que grandeza, que qualidades, que virtudes não deveremos nós contemplar nesta Mãe para ser não só Mãe de Deus, mas idônea, competente, congruente e, numa só palavra, digna Mãe de Deus ? Que excelência, que perfeição, que magnificência lhe não deveria convir para esta dignidade ? Cale-se aqui a língua de carne, porque este é assunto que excede ao nosso entendimento, à nossa expressão.(…)
Ela só confessa que o Onipotente a fez grande: fecit mihi magna qui potens est; mas essa grandeza, qual grandeza seja, deixa-o em silêncio a sua humildade, e a nossa contemplaçao não a compreende. São Jerônimo diz que toda a enchente das graças que teve o Filho, teve, ainda que de outro modo, a Mãe. Enfim, para que nos cansamos? De tantos mil livros que escreveram os Santos Padres, nenhum diz mais do que o livro da geração de Jesus Cristo, em que se compreende todo o louvor e toda a longa história da Santa Virgem nestas brevíssimas palavras: “Maria, da qual nasceu Jesus”.
Mas qual Jesus? O Filho de Deus, o esplendor do Pai, o candor da luz eterna, a honra do Mundo, a formosura do Mundo, o remédio do Mundo; a quem os Anjos sempre desejam ver, e a quem os homens sempre devem seguir. Que mais do que isto podemos dizer da Santa Virgem ? Que foi humilde, que foi pura, que foi santa, que foi cheia de graça e de virtudes ? Que superfluidade ! Por ventura poderia a Mãe de Deus ser soberba, iracunda, impura ou imperfeita ? Que glória, que esplendor, que virtude, que graça e que perfeição lhe não convinha e lhe não seria devida para ser Mãe de Deus? O Homem que dela nasceu foi o mesmo Altíssimo que a fundou; e qual a deveria fabricar o mesmo Artífice, que a elegeu para dela nascer ? Eis aqui o ponto em que vêm a parar os vôos de todas as penas dos Anselmos, dos Fulgêncios, dos Bernardos, dos Idelfonsos, dos Damiãos, e dos Boaventuras.
(Sermão de Nossa Senhora do Carmo, ignoto autor luso do século XVIII)