Surpérfluo (1)

Os educadores, sobretudo quando inspirados por um afã de praticismo, pensam que o que se deve fazer com os jovens é prepará-los do modo mais concreto possível para a vida como ela é, deixando de lado todas as disciplinas e enfoques que parecem ornamentais, suntuários e supérfluos. Acontece, porém, que a vida histórica tem a peculiaridade de estar em constante mutação. A história é permanente inquietude e mutação. De modo que, se se educa um jovem preparando-o concretamente para a vida tal qual é hoje, quando ele chega à idade adulta, vai surpreender-se vendo-a inteiramente diferente. Quanto mais praticamente preparado estiver para a primeira, tanto mais desajustado estará para a que virá encontrar, na qual tem que atuar. É o que chamei de anacronismo constitutivo da usual pedagogia… Pois bem, a Inglaterra, não sei se com consciência bem clara disso, ou graças à infalível penumbra do instinto, resolve a contradição pelo inverso: faz com que durante alguns anos, a sua melhor juventude vá viver em Atenas, no século de Péricles. Quer dizer que, em vez de adaptá-la ao tempo presente, projeta-a fora de todo o tempo, uma vez que o século de Péricles é uma data irreal, um tempo imaginário, convencional e paradigmático, que compreende idealmente qualquer tempo determinado. Dentro dessa Grécia irreal, são educados os jovens nas formas essenciais de viver, isto é, preparam-se neles puras disponibilidades capazes de se ajustarem às mais diversas situações concretas, precisamente porque não estão, de antemão, modelados singularmente por nenhuma”. (ORTEGA Y GASSET, J. Una interpretatión de la Historia Universal. Revista de Occidente, Madrid, 1960).

(negrito nosso).

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