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Omayr José de Moraes Júnior

Date

agosto 7th, 2008

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Divulgação: “Aristóteles Metafísica Livros VII e VIII”

TÍTULO: Aristóteles Metafísica Livros VII e VIII
TRADUÇÃO: Lucas Angioni
Coleção: Clássicos da Filosofia – Cadernos de Tradução n° 11 (Departamento de Filosofia Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – IFCH- UNICAMP)

SUMÁRIO

Advertência 5
Introdução 7
Livro VII (Zeta) 17
Livro VIII (Heta) 105
Notas 131
Glossário 147
Bibliografia 157

INTRODUÇÃO

LUCAS ANGIONI

Os livros VII e VIII da Metafísica de Aristóteles, dedicados à noção de ousia, dispensam prelúdios apologéticos ou protrépticos, pois ocupam um lugar decisivo não apenas na filosofia aristotélica, como também na própria trajetória da filosofia ocidental. Por isso, não preciso demorar-me em reunir as diversas razões que justificariam a oportunidade desta tradução – a não ser uma delas: dedico-me ao estudo desses livros há um bom tempo, e julgo oportuno prestar contas de meu trabalho oferecendo ao público, em versão preliminar, uma tradução integral dos mesmos.

Tenho em vista, sobretudo, oferecer aos alunos de graduação e pósgraduação um instrumento de trabalho minimamente viável, que contribua para sedimentar entre nós o interesse pela filosofia aristotélica. A médio prazo, pretendo retomar este trabalho e oferecer ao público uma tradução comentada dos livros VII e VIII da Metafisica. Mas não me pareceu justo postergar ainda mais a apresentação desta tradução, esperando o momento em que pudesse juntar a ela um comentário pormenorizado de cada passagem. Além do mais, em vista de uma futura tradução comentada, a presente publicação é propícia na medida em que dará ensejo e ocasião para testar a aceitabilidade e viabilidade de algumas propostas de tradução, fornecendo-me condições para corrigir os inevitáveis equívocos interpretativos que terei aqui cometido.

Não fornecerei aqui um resumo de tais livros. Na bibliografia disposta ao final deste volume, apresento algumas indicações para auxílio de quem quiser explorar alguma temática relacionada aos mesmos. Tampouco exporei aqui minha própria interpretação, que naturalmente serviu de base para confeccionar a tradução. Dediquei minha iniciação científica, minha dissertação de mestrado e jninha tese de doutorado a esse assunto – a noção aristotélica de ousia delineada nesses livros -, e nelas poderia ser rastreada, nos seus mínimos detalhes, a interpretação que proponho.

Devo, no entanto, expor algumas premissas metodológicas que orientaram a confecção deste trabalho. Antes de tudo, esta introdução não se pode furtar ao problema da tradução do termo “ousia”. Mas serei breve nesse assunto. O termo “ousia” é utilizado por Aristóteles basicamente em duas acepções, e ambas estão presentes nos livros VII e VIII: de um lado, “ousia” designa uma entidade dotada de certa auto-subsistência pela qual existe continuadamente e se apresenta de maneira “separada”. Este sentido de “ousia” comparece em frases como “Sócrates é uma ousia”, “este cavalo é uma ousia”, “as plantas em geral são ousia!’. De outro lado, “ousia” designa o princípio ou a causa pela qual uma entidade daquele tipo é precisamente aquilo que ela é em si mesma e, neste sentido, o termo pede um complemento: trata-se, assim, da “ousia de alguma coisa”, tal como ocorre em frases como “a ousia do trovão”, “a ousia dos animais”, “a ousia da alma”, etc.

Ambos esses sentidos comparecem lado a lado nos livros VII e VIII. Embora o assunto seja controverso, vem recebendo aceitação crescente a idéia de que a investigação empreendida nesses livros concentra-se no segundo sentido acima mencionado. As dificuldades e controvérsias justificam-se, porém, porque Aristóteles também se preocupa, de algum modo, com o primeiro sentido de “ousia”. Na verdade, tudo se passa como se o interesse maior de Aristóteles fosse determinar quais são as coisas que merecem, sobretudo e no mais alto grau, o título de “ousia” no primeiro sentido acima assinalado. No entanto, parece que, para atingir uma resposta satisfatória desse problema, Aristóteles passa a se preocupar em definir o segundo sentido de “ousia”, no domínio restrito das entidades sensíveis.

É plenamente aceitável a proposta de traduzir “ousia” no primeiro sentido por “substância” e “ousia” no segundo sentido por “essência (de algo)”. No entanto, isso não resolve nossos problemas. Poderíamos dizer que, no final do capítulo 2 e início do capítulo 3 do livro VII, Aristóteles propõe-se a determinar o sentido exato de “essência”, tendo por interesse delimitar quais são as entidades que, no mais alto grau, merecem o título de “substância”. Este último interesse recua, por assim dizer, para o horizonte remoto, e não constitui o objeto imediato dos livros VII-VIII. Mesmo assim, não seria adequado adotar um procedimento de tradução circunstancial, quero dizer: traduzir “ousia” por “substância” ou por “essência” conforme as circunstâncias contextuais o exigirem. Esse procedimento seria elucidativo para passagens isoladas, mas, tendo em vista o empreendimento de Aristóteles em seu todo (nos livros VII e VIII), deixaria escapar alguns pontos fundamentais. Esta introdução não é o lugar mais adequado para escrutinar esses pontos, mas devo mencioná-los, ainda que de maneira simplificada: (i) a distinção entre esses dois sentidos de “ousia” parece ser um recurso argumentativo contra o platonismo, que acreditava que mereceria o título de “substância” no mais alto grau aquilo que fosse princípio e “essência” das outras coisas; (ii) apesar de haver uma distinção, há também um forte vínculo entre os dois sentidos, e esse vínculo parece relevante para traçar a fronteira entre o domínio das entidades sublunares (sensíveis e corruptíveis) e o domínio das entidades separadas, necessárias e eternas; (iii) em alguns contextos, a mesma palavra parece designar uma terceira noção: a noção de “realidade” como domínio de entidades substanciais cuja subsistência e inteligibilidade seria garantida por suas respectivas essências.

Digamos que, a partir do capítulo 3 do livro VII, o problema filosófico que Aristóteles propõe para análise ulterior consiste em saber quais são as características que poderiam definir, de maneira satisfatória, o que é a ousia entendida ,.como causa e princípio pelo qual as entidades denominadas de “ousia” no primeiro sentido do termo são precisamente o que são. Assim, parece que os livros VII-VIII ocupam-se preponderantemente em analisar a noção de “essência de uma substância sensível”, ainda que o faça no interesse de, subseqüentemente, voltar ao problema de saber quais são as entidades que merecem no mais alto grau o título de “substância”. Diante disso, traduzir “ousia” por “essência” ainda se me afigurou como mal menor. Ainda julgo um péssimo argumento alegar a “força da tradição” ou “o gosto da maioria” (como fez Yebra, [1982], p. XXXVII) como motivo suficiente para manter a tradução consagrada de “ousiá” por “substância”. No entanto, considero a hipótese de, futuramente, adotar o recurso da tradução circunstanciada: “substância” para o primeiro sentido, “essência” para o segundo. Ainda não o fiz porque ainda não me decidi sobre o que fazer nos contextos em que a decisão entre o primeiro ou o segundo sentido é problemática, justamente em argumentos contra o platonismo.

Sobre as premissas metodológicas mais gerais que nortearam esta tradução, não repetirei o que já disse, em outras ocasiões, sobre o estatuto dos textos aristotélicos. No entanto, convém dizer que não julgo desejável propor em português

Sobre esse assunto, já me pronunciei por ocasião da Introdução das outras traduções que publiquei na coleção Textos Didáticos ver Textos Didáticos n°. 34, p. 4-5, Textos Didáticos n°. 38, p. 4-5 e Textos Didáticos n’. 41, p. 15-17. certas elipses e construções sintáticas que seriam inteligíveis apenas aos leitores minimamente familiarizados com o grego. Por isso, explicitei diversos segmentos de frase que muita vez não se encontram na letra do texto grego, mas que qualquer leitor de grego compreenderia como subentendidos. Em português, seria impossível manter tais elipses, sob pena de comprometer a inteligibilidade do texto. Nas primeiras versões preparatórias, eu havia sinalizado a suplementação dessas elipses com colchetes, mas a proliferação indecorosa desses colchetes aconselhou-me a utilizar este recurso apenas em alguns casos extremos, nos quais poderia haver alguma polêmica com respeito à palavra ou expressão que se encontra subentendida.

Outra dificuldade de tradução diz respeito aos modos verbais. O grego não apenas possui múltiplos recursos de modalização (pois dispõe do modo optativo, do irreal construído com a partícula “an”, etc.), como também utiliza o presente ou o futuro do indicativo em situações nas quais o português exigiria o subjuntivo, ou o futuro do pretérito, ou certas construções mais complexas (com verbos auxiliares). Muitos problemas interpretativos decorrem da precariedade com que se interpreta a modalização dos verbos (ou sua ausência) no texto aristotélico: assim, argumentos que ele imputaria a adversários são entendidos como se fossem seus; argumentos de redução ao absurdo são concebidos como se fossem argumentos simples em favor da premissa que ele justamente quer refutar. E assim por diante. Diante desses problemas, minha disposição foi a seguinte: aterme à compreensão do argumento original e reescrevê-lo com os recursos próprios da língua portuguesa, sem me prender a pretendidas similaridades entre formas e modos verbais das duas línguas. Não hesitei, por exemplo, em transformar um optativo potencial num operador modal incidindo sobre a inteira sentença original: “é possível/ plausível que…” – desde que tal formulação tenha-me parecido adequada para captar e exprimir o argumento que se desenha no texto grego. Na primeira versão desta tradução, embora eu já tivesse explicitado essa premissa metodológica, ainda cometi muitos deslizes em sua aplicação: na crença ingênua de “fidelidade” ao texto grego, mantive em português presentes ou futuros do indicativo, ferindo as regras do português para a construção de períodos subordinados, e, o que é muito pior, lançando gratuitamente na argumentação aristotélica uma obscuridade que está ausente em sua formulação original. Talvez, para corrigir esse erro anterior, eu tenha resvalado exageradamemte para o lado oposto.

Outra dificuldade consiste na tradução de adjetivos e particípios no neutro (sobretudo no plural) usados isoladamente, sem o acompanhamento de substantivos. Em português, o uso absoluto de alguns adjetivos é tolerável, sobretudo no uso filosófico, em que a substantivação indica uma tematização conceitual (dizemos “o belo”, por exemplo). Esse recurso de tradução, no entanto, tem sérios limites, justamente porque, na maior parte de suas ocorrências, essas expressões gregas não assinalam uma substantivação que as promovesse para o nível dos conceitos abstratos; pelo contrário, tais expressões funcionam como descrições definidas, que remetem justamente a algum objeto particular, usualmente já mencionado anteriormente no contexto – aliás, isso é verdade não apenas para adjetivos e particípios, mas também para substantivos acompanhados por artigo definido. Equívocos com relação a esse ponto estão na origem de confusões conceituais com longa tradição.

Além disso, a tradução da maioria dos particípios gregos exige orações relativas adjetivas e, nesses casos, nem sempre é tolerável introduzir expressões como “os que + verbo”. Podemos traduzir — por “os que dizem” ou “os que enunciam”. Mas, em outros casos, sobretudo devido ao acúmulo sucessivo de diversos particípios, torna-se difícil traduzi-los sem inserir algum substantivo antes do pronome relativo, para melhorar a legibilidade do texto. Por isso, muitas vezes explicitei na tradução o substantivo que o contexto parece subentender. Quando isso foi impossível, utilizei os termos “coisa” e “item”.

Em atenção às dificuldades lexicais que me atormentaram e que certamente serão percebidas pelo leitor, ofereço no final deste volume um pequeno glossário, em que examino algumas alternativas disponíveis e justifico algumas opções.

BIBLIOGRAFIA

I. Edições do texto grego da Metafísica:

BEKKER, E. [1961]. Aristotelis Opera, editio altera Olof Gigon, Berlin: Walter De Gruyter.
CHRIST, W. [1906]. AristotelisMetaphysica, Leipzig: Teubner,
ROSS, D. [1924]. Aristotle’s Metaphysics, a revised text with introduction and commentary, 2 vols., Oxford: Clarendon Press.
JAEGER, W. [1957]. Metaphysica, Oxford: Clarendon Press.
YEBRA, V. G. [1982]. Metafisica de Aristóteles, ed. trilíngüe,Madrid: Gredos, 2′ ed.

II. Bibliografia secundária:

1. Para uma análise detalhada e paulatina de cada argumento:
BOSTOCK, David. [1994]. Aristotle Metaphysics – Books Ze,id H(tradução e comentário), Oxford: Clarendon Press.
BURNYEAT, M. F. (record.) [1979]. Notes on Zeta. Study Aiis, Monograph n° 1, Sub-faculty of Philosophy, Oxford.
TOMÁS DE AQUINO, St. [1950]. In duodecim libros metaphysicorum Aristotelis Expositio, cura et studio P. Fr. Raymundi M. Spiazzi, Roma/Turim: Marietti Editori.

2. Para interpretações de maior fôlego, que buscam construir um painel filosófico mais amplo que se depreenderia dos livros VII-VIII e das questões aí apresentadas:
ANGIONI, L. [2000]. A Noção Aristotélica de ousia, Tese de doutoramento, Campinas: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/Unicamp, mimeo.
FURTH, Montgomery. [1988]. Substance, form and Psyche- an Aristotelian metaphysics. Cambridge: Cambridge University Press.
GILL, Mary Louise. [1989]. Aristotle on Substance: the Paradox of Unity, Princeton: Princeton University Press.
LOUX, Michael. [1991]. Primary Ousia: an Essay on Aristotle’s Metaphysics Z and H. Ithaca: Cornell University Press.
LEWIS, Frank A. [1991]. Substance and Predication in Aristotle, Cambridge: Cambridge University Press.
WITT, Charlotte. [1989a]. Substance and Essence in Aristotle – an interpretation of Metaphysics VII-IX, Ithaca and London: Cornell University Press.

3. Para análises de conjunto, que buscam discriminar quais seriam as questões fundamentais a serem respondidas pelos livros VII-VIII:
BOLTON, Robert. [1995]. “Science and Science of Substance in Aristotle’s Metaphysics Z”, Pacific Philosophical Quarterly, vol. 76, n° 3 & 4 (special double issue), pp. 419- 469.
CODE, Alan. [1984]. “The Aporematic Approach to Primary Being in Metaphysics Z’, Canadian Journal of Philosophy, suppl. vol. X , ed. F. J. Pelletier & J. K.- Farlow, pp. 1-20.
CODE, Alan D. [1997]. “Aristotle’s Metaphysics as a science of principles”, Revue Internationale de Philosophie, vol. 51, n° 201, pp. 357-378.
MOSER, Paul. [1983]. “Two Notions of Substance in Metaphysics Z”, Apeiron 17, pp. 103-112.
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- Ver também, para a compreensão do pano de fundo que enquadra os livros VII-VIII e para perspectivas mais abrangentes:

BALME, D. M. [1987/1980]. “Aristotle’s biology was not essentialist”, in Gotthelf, A. & Lennox, J. (edd.), Philosophical Issues in Aristotle’s Biology, Cambridge: Cambridge University Press, pp. 291-302.
COHEN, Sheldon M. [1996]. Aristotle on Nature and Incomplete Substance, Cambridge: Cambridge University Press.
FREDE, Michael. [1985]. “Substance in Aristotle’s Metaphysics”, in Gotthelf, A. (ed.), Aristotle on Nature and Living Things, Pittsburgh: Mathesis publications, pp. 17-26.
IRWIN, Terence. [1988]. Aristotle’sFirstPrinciples, Oxford: Clarendon Press.
KOSMAN, L.A. “Animals and other beings in Aristotle”, in Gotthelf, A. & Lennox J. (edd.), Philosophical Issues in Aristotle’s Biology, Cambridge University Press, 1987, pp. 360-391.
KUNG, Joan. [1977]. “Aristotle on Essence and Explanation”, Philosophical Studiesvol. 31, n°6, pp. 361-383.
OWEN, G. E. L. [1986/1966]. “The Platonism of Aristotle”, in Logic, Science and Dialectic, (edited by Martha Nussbaum), London: Duckworth, 1986, pp. 306-325.
WHITING, Jennifer E. [1991]. “Metasubstance: Critical notice of Frede-Patzig and Furth”, Philosophical Review 100, n° 4, pp. 603-39.

* Omitimos o restante da rica bibliografia, que comporta outros subtítulos (de 4 a 10).

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