Integrismo e progressismo (*), por D. Odilão Moura OSB
A posição integrista assemelha-se à farisaica dos tempos de Cristo. Não se veja, entretanto, neste relacionamento, conotação com a atitude moral dos fariseus, isto é, hipocrisia, mas somente sua posição interpretativa da lei, rígida e ininteligente,
O erro fundamental do integrismo é os seus sequazes não distinguirem entre o que é essencial e o que é acidental na doutrina, na liturgia e na pastoral. Falta-lhes a sensibilidade intelectual para perceber os diversos matizes das realidades espirituais. Aderem à religião sem grande perspicácia - não obstante haver entre eles teólogos de muita cultura e que raciocinam conforme as regras da lógica -, mais por um ato forte da vontade que por penetração intelectual. Por isso, são seguidores superfidelíssimos das normas morais, escrupulosos observadores das leis eclesiásticas, exemplos de vida religiosa mecanicamente vivida, razão por que sem embargo da retíssima intenção que lhes dirige as ações, parecem desumanos, não compassivos, duros, desagradáveis.
O defeito primeiro dos integristas não está na vontade em si, mas na vontade mal orientada por uma inteligência não lúcida. O defeito inicial é da inteligência.
Por isso, o integrismo não distingue entre tradição divina - a Palavra de Deus transmitida aos homens - e tradição eclesiástica, doutrinas teológicas, costumes dos católicos, ritos litúrgicos etc., de origem humana e transmitida aos católicos. Enquanto a tradição divina é eterna, imutável, da qual o Magistério Eclesiástico é depositário, conservador, intérprete e esclarecedor, a tradição eclesiástica pode ser conservada ou abolida, modificada ou interpretada, e até criada, pelo mesmo Magistério. Entre os fariseus também as “tradições dos homens” identificavam-se com a Lei.
Da indistinção entre o essencial e o acidental, decorrem muitas teses e atitudes que, em geral, são defendidas pelos integristas: a Idade Média é a única civilização adequada ao Evangelho, a monarquia hereditária é o único regime cristão político, a batina é indispensável ao Padre, o celibato é intrínseco ao sacerdócio, só a Missa de São Pio V é válida, tudo na sociedade atual é obra do demônio, o latim é a única língua que deve ser usada na Liturgia, os ritos dos sacramentos são imutáveis, o Concílio Vaticano II está carregado de erros etc.
(…)
Enquanto a atitude integrista é uma defesa pouco inteligente do sagrado, o progressismo é uma libertação tresloucada do mesmo. Naquela, o humano é confundido com o sobrenatural; nesta, o sobrenatural é anulado pelo humano. O imanentismo perpassa todas as idéias progressistas. É o império do Homem. Tudo existe em função do Homem. O próprio Deus. Deus seria uma espécie de assessor do Homem. Realizando-se o Homem no fluxo inflexível do tempo, na História, tudo subordinase às aspirações e necessidades do Homem: o Dogma, a Liturgia, a estrutura essencial da Igreja, a moral e a própria verdade. O progressismo é, em geral, irenista e eclético.
Reagindo ao formalismo e ao ritualismo existentes em fase anterior à nossa, na Igreja, ao tradicionalismo rotineiro e cego, ao ensino da doutrina compendiada em livros repetidores de fórmulas escolásticas mal assimiladas, ele, na busca de uma libertação de tudo isso, saiu de órbita.
Não se satisfazendo com uma religião destituída de compreensão inteligente, os progressistas, na tentativa de esclarecimentos mais lúcidos para a fé, esquecendo ou desprezando a verdadeira tradição teológica da Igreja, buscam - bem intencionados ou não - as luzes para aquele esclarecimento, nas filosofias e ideologias mais sugestivas no momento, mesmo que elas contradigam a Fé.
O modernismo, que pretendeu explicar a fé pela metafísisa kantiana ou bergsoniana; a nova teologia, que visava encontrar aquela explicação pelas idéias existencialistas; o teilhardismo; as correntes atuais conciliadoras dos princípios cristãos com as elucubrações de Heidegger e com o marxismo - são correntes progressistas.
O progressismo, como o integrismo, deriva de uma corrupção intelectual. Enquanto naquele essa deturpação leva a uma visão limitada da Igreja e das suas exigências, neste, no progressismo, há uma visão exorbitante. Para o progressista, não há normas: nem para o raciocínio, nem para a moral, nem para a sociedade. E o império da arbitrariedade.
As duas correntes - a integrista e a progressista - estão aqui descritas em suas formas puras. Há, certamente, entre essas duas formas opostas e antagônicas de catolicismo disvirtuado, muitas correntes que se aproximam mais ou menos de uma ou de outra.
(*) Título é meu.
FONTE: Idéias católicas no Brasil: Direções do pensamento católico do Brasil no século XX. Editora Convívio, São Paulo, 1978, pp. 205-207.