Sob o céu de Jansênio*
(*) Texto do Dr. José Benedicto Pacheco Salles (1915-2000).
Costuma-se interpretar esta passagem [o Autor refere-se à Suma de Teologia I-II, q.109, a.3, c, cf. abaixo em inglês e francês] como se o homem, após o pecado original, não pudesse, de nenhum modo, amar a Deus sobre todas as coisas. Ora, não é isso o que Santo Tomás afirmou. Muito pelo contrário, ele começa por estabelecer que amar a Deus sobre todas as coisas e mais do que a si mesmo é um fim conatural ao homem, aos irracionais e até às próprias coisas inanimadas. O que ele justifica por uma razão metafísica: o bem da parte depende essencialmente do bem do todo. Portanto, nenhuma coisa pode apetecer o seu próprio bem sem que, e com maioria de razão, apeteça prioritariamente o bem comum a todo universo, que é Deus. Ora, o que é conatural não se extingue a não ser que a natureza à qual se refere também seja extinta. O pecado original diminuiu e deteriorou, mas não extinguiu, e nem podia fazê-lo, o bem intrínseco da natureza humana: este é o erro dos protestantes e jansenistas, como Pascal, que fala de uma segunda natureza anterior ao pecado. Mas se o homem, apesar de prejudicado pelo pecado, continua a ter a mesma natureza, então aquilo que lhe era conatural continua a ser-lhe conatural, ainda que com um prejuízo proporcional. Nem seria admissível que o homem, pelo pecado original, ficasse em condição inferior à das coisas inanimadas, com sua capacidade de amar a Deus sobre todas as coisas. Santo Tomás, porém, nos esclarece que cada coisa tem esse amor a seu modo, secundum quod aptum natura est esse. E assim cada uma, conforme o seu grau de entidade, apetece a perfeição que lhe corresponde, com o que, como já vimos, apetece o próprio Deus, “porquanto as perfeições de todas as coisas são certas semelhenças do ser divino” inquantum perfectiones omnium rerum sunt quaedam similitudines divini esse. Segundo esta consideração, até o demônio tem o seu próprio modo de amar a Deus sobre todas as coisas, pois “também nos condenados permanece a inclinação natural para a virtude: se fosse de outro modo, não haveria neles o remorso da consciência”, etiam in damnatis manet naturalis inclinatio ad virtutem: alioquin non esset in eis remorsus conscientiae. (I-II, q.85, a.2 ad 3). Aos demônios, como aos condenados, continua a ser conatural apetecer a Deus sobre todas as coisas, uma vez que permanece neles a inclinação para a sua própria perfeição, que está na virtude. E a impossibilidade em que se encontram de jamais alcançar este objetivo é que constitui o seu irremediável suplício, a frustração radical de suas existências. Mas por aí mesmo eles refletem a perfeição da justiça divina e realizam, por um outro caminho, o fim para que foram criados. Porque a criatura pode frustrar-se, mas a intencão de Deus não se frustra nunca.
I answer that, As was said above (I, 60, 5), where the various opinions concerning the natural love of the angels were set forth, man in a state of perfect nature, could by his natural power, do the good natural to him without the addition of any gratuitous gift, though not without the help of God moving him. Now to love God above all things is natural to man and to every nature, not only rational but irrational, and even to inanimate nature according to the manner of love which can belong to each creature. And the reason of this is that it is natural to all to seek and love things according as they are naturally fit (to be sought and loved) since “all things act according as they are naturally fit” as stated in Phys. ii, 8. Now it is manifest that the good of the part is for the good of the whole; hence everything, by its natural appetite and love, loves its own proper good on account of the common good of the whole universe, which is God. Hence Dionysius says (Div. Nom. iv) that “God leads everything to love of Himself.” Hence in the state of perfect nature man referred the love of himself and of all other things to the love of God as to its end; and thus he loved God more than himself and above all things. But in the state of corrupt nature man falls short of this in the appetite of his rational will, which, unless it is cured by God’s grace, follows its private good, on account of the corruption of nature. And hence we must say that in the state of perfect nature man did not need the gift of grace added to his natural endowments, in order to love God above all things naturally, although he needed God’s help to move him to it; but in the state of corrupt nature man needs, even for this, the help of grace to heal his nature. (I-II, q.109, a.3, c)
Réponse : Nous l’avons dit dans la première Partie quand nous avons rapporté les diverses opinions sur l’amour naturel des anges : l’homme, dans l’état de nature intègre, pouvait accomplir le bien qui lui est connaturel sans le complément d’un don gratuit, quoi que non sans le secours de la motion divine. Or, aimer Dieu par-dessus tout est connaturel à l’homme, et aussi bien à toute créature, non seulement rationnelle mais irrationnelle, et même inanimée, selon le mode d’aimer qui convient à chaque créature. La raison en est qu’il est naturel à chaque être de désirer et d’aimer quelque chose conformément à son aptitude innée; Aristote écrit que “ toute chose agit selon sa disposition naturelle ”. Or, il est manifeste que le bien de la partie est pour le bien du tout. D’où il suit que chaque être particulier aime, d’un appétit ou amour naturel, son bien propre en vue du bien commun de tout l’univers, qui est Dieu. Et c’est pourquoi Denys peut écrire : “ Dieu fait converger toutes choses vers l’amour de lui-même. ” Dès lors l’homme, dans l’état de nature intègre, référait l’amour de soi à l’amour de Dieu comme à sa fin, et il en était de même de son amour pour toutes les autres choses. Ainsi aimait-il Dieu plus que lui-même et par-dessus tout. Mais, dans l’état de nature corrompue, l’homme en est incapable, car l’appétit de sa volonté rationnelle, en raison de la corruption de la nature, poursuit son bien privé, s’il n’est guéâce de Dieu. Il faut donc conclure que l’homme, dans l’état de nature intègre, n’avait pas besoin, pour aimer Dieu naturellement par-dessus tout, du don d’une grâce surajoutée aux dons naturels, bien qu’il lui fallût à cet effet le secours de Dieu, premier moteur. Mais, dans l’état de nature corrompue, l’homme a besoin du secours de la grâce qui vient guérir la nature. (I-II, q.109, a.3, c)