“Aliás, basta-me ouvir a palavra pólis para começar a sentir náuseas”.
Li a frase acima em http://www.oindividuo.com de hoje. É do Pedro.
Aproveito o ensejo para dizer o seguinte:
Isso é a perfeita síntese do que tenho sentido ao deparar com uma insanável leva de deslumbrados blogs. Dou um exemplo dessa enfermidade: é difícil achar ao menos um que não tenha 400 expressões em língua estrangeira num único post, post mesmo…, onde caberiam, perfeitamente, as correlatas em Português. Veja bem: não me refiro a termos técnicos, como pólis !, mas expressões óbvias, não técnicas, ou quase idênticas em Português (por ex.: expositio, exposição). Mais ainda: nada tenho de xenófobo, e destesto nacionalismos sobretudo os legítimos.
Não é bem o caso, mas já me dizia D. Odilão Moura há muito tempo, “no Brasil, quem sabe uma língua estrangeira acha-se um gênio”. Aliás, os que tiveram a grata oportunidade de conhecer bem D. Odilão fizeram um sadio “curso de des-deslumbramento”. Sua fina ironia e sua autoridade intelectual tornavam este “curso” uma vacina eficacíssima. Essa vacinação produz náusea (física, não metafórica) quando em presença do elemento “deslumbrado” ou de algo de sua deslumbrada e insossa lavra. Hoje, basta um zé mané sobraçar um Copleston da vida (en edición castellana, por supuesto, hombre!) para sonhar-se douto, sábio, profundo e olímpico. Se a isso somar-se o pré-especulativo folhear dalguma vetusta edição da BAC, então o gozo deslumbratício, como diria Odorico Paraguaçu, é frenético, é trêmulo, é espumante.
Ia esquecendo do velho Jolivet…
Mas que gente ingênua !
Aproveito para confessar o seguinte. Meus amigos sabem, e imagino que outras poucas pessoas, que publiquei o comentário da Ave-Maria feito por Santo Tomás. Ao terminar o livrinho, imprimi uma prova, encardernei e levei-a a D. Estêvão Bettencourt para pedir-lhe uma resenha (minha intenção era que a resenha ficasse pronta juntamente com impressão). D. Estêvão voltou-se para mim, e perguntou-me se eu não preferiria uma Apresentação. Um pouco surpreso, e honrado, disse-lhe que sim. Em duas semanas estava pronta. Um amigo foi gentilmente buscá-la, pois não moro no Rio, transcreveu-a e mandou por e-mail. Na Apresentação, D. Estêvão, não sei por que, chamou-me de “latinista”, embora não o seja nem jamais tenha pensado em semelhante ousadia: só Deus sabe quantas farpas tive que aturar por conta desse elogio (totalmente imerecido) que recebi daquele venerável monge. Na verdade, D. Estêvão estava contribuindo mesmo para minha santificação, e, é claro, para conhecer um pouco da sordidez e da nobreza humana em face de algumas reações que percebi. Também na resenha de outro livrinho que traduzira antes, o comentário ao Pai-nosso, de Santo Tomás, D. Estêvão me chama de “professor”. Ora, eu nem sei de onde saiu isso (talvez a Sra. Editora do livro tenha me apresentado assim a D. Estêvão, a quem não conhecia então, a fim de “valorizar o produto” na página do JB que publicou a resenha).
Não sou “latinista”. Mas, como ninguém deve faltar à justiça, nem para consigo mesmo, devo dizer que tenho alguma facilidade para traduzir os textos latinos medievais, desde que sejam questões disputadas, sumas, exposições: o trivial enfim. Faço-o à primeira vista, sem engasgar. Mas não me tragam, por favor, hinos, seqüências e congêneres. Poesia, em geral, precisa ser bem pensada. No entanto - e faz tempo que eu queria dizer isso -, tem gente que não sabe nem a primeira declinação e diz que traduz a partir do original. Mas raios ! Onde está o amor à verdade ?
Ó mundo, mundo, como vais ganhando honra, em razão de haver poucos que te conheçam (Teresa d’Ávila, Livro da vida, III, 27).