Reflexões sobre o ateísmo contemporâneo, por D. Lourenço de Almeida Prado, OSB
Jacques Monod, Demócrito e o marciano*
Um cientista conteporâneo, há algum tempo falecido, prêmio Nobel de Biologia - Jacques Monod, - num livro que toma o sugestivo título de uma afirmaço de Demócrito - “tudo que existe no universo é o fruto do acaso e de necessidade” - pretende fazer um “ensaio sobre a filosofia natural da Biologia moderna”. Seu livro - “Le hasard et la nécessité, essai sur la philosophie naturelle de la biologie moderne” - entra no assunto, mostrando desde logo, que a maestria do biólogo não encontra apoio em igual maestria de filósofo, que Monod não chega a ser. Mas a investigação inicial é curiosa. Por meio de comparações sugestivas, tenta assinalar os caracteres próprios de um objeto artificial, isto é, o artefato produzido por um ser inteligente, com uma finalidade determinada, e um objeto natural, produzido pela própria natureza, sem a interferência de um plano e de uma inteligência ordenadora.
Imagina, para precisar o seu pensamento, uma NASA de Marte, mandando um marciano explorar a terra. Aqui chegando, esse marciano, inteligente e culto, começa a comparar as coi¬sas que encontra com o intuito de verificar se são naturais ou artificais (pois a sua missão era precisamente verificar só existiria na terra uma atividade organizada, inteligente, cria-dora de artefatos). E incide nos mais graves equívocos : em muitas coisas naturais, a presença de uma ordenação inteli¬gente é mais nítida que em muitos objetos artificiais. O engano mais perturbador ocorreu quando, antes de ter encontrado qualquer ser inteligente, deparou, em lugar ermo, com uma máquina fotográfica. O marciano não teve dificuldades, para perceber que a disposição das lentes, a existência de urna câmara e os demais pormenores deixavam claro tratar-se de um artefato inteligentemente ordenado para cumprir o “projeto” de captar imagens. A conclusão se impunha : há um ser inteligente neste planeta, criador dessa máquina, pois ela não pode ter sido obra do acaso. Aconteceu, porém, que poucos passos adiante, o marciano encontrou um globo ocular e, num rápido exame, verificou a sua grande semelhança com a máquina fotográfica : lentes, diafragma, obturador, pigmentos fotosensíveis… E agora? Haveria uma inteligência criadora? Para não aceitar a resposta afirmativa a esta segunda indagação o materialista tem que recusar o bom senso da conclusão precedente. Nada prova que a máquina fotográfica seja um artefato arquitetado por uma inteligência, em vista de um fim, pois o globo ocular tem as mesmas características e é um objeto natural.
Nós, porém, poderíamos continuar a acreditar em nosso bom senso: não só o globo ocular, mas o ser vivo de que ele é uma parte, com função inserida no conjunto, e o universo inteiro reclamam uma inteligência criadora.
Examinemos uma semente. Ela tem, dentro de si, o que determina o seu desdobramento em direção a uma árvore idêntica à que lhe-deu origem. Um cientista poderá pensar que, tendo descoberto a versatilidade dos ácidos nuclêicos e os mecanismos complexos e precisos do funcionamento do código genético, terá descoberto o segredo da semente. Acontece que o segredo da semente é um segredo de Deus. O cientista descobriu que há uma ordem ou uma ordenação. Mas se recusar a aceitar uma inteligência ordenadora, terá que recorrer ao acaso. O acaso, dirá o filósofo, é o efeito que, por ser o resultado de convergência de duas ou mais séries de causas, não é explicável por uma causa determinada. O lavrador que, ao lavrar a terra, encontra um tesouro é beneficiado por um acaso. Como poderia adivinhar que um cego tinha transformado a terra no seu cofre, para não ser furtado pelo vizinho? O acaso existe na mente do cientista, como na mente do lavrador, mas tudo tem causa. Mas mesmo esse acaso, isto é, essa convergência de causas, tão real que o matemático a enquadra nos seus cálculos de probabilidade, é às vezes, extremamente improvável. O beija-flor que passeia, no seu vôo rápido, pelo campo, não terá muita dificuldade de encontrar a flor que a natureza terá feito nascer ali, com o colorido vivo e o nectar atraentes, para ele. Como a flor, por sua parte, poderá confiar na sua pétala vermelha, no perfume e no nectar, que a natureza lhe deu, para provocar o acaso da vinda do beija-flor, cuja visita é indispensável para a sua sobrevivência. A natureza - por que não Deus? diriqe o beija-flor e a flor para o acaso necessário desse encontro.
Há, porém, acasos mais difíceis. Poder-se-ia fantasiar a hipótese de que um deus homérico passasse milênios lançando as letras do alfabeto, aos milhões, sobre um imenso tabuleiro, a maneira de quem lança dados numa mesa, e que com um lento e paciente expediente, tantas vezes repetido, um dia viesse a acontecer o aparecimento das Obras Completas de Shakespeare, em tudo igual à célebre edição de 1623.
Houve um tempo, em que se questionava a existência real dessa pesssoa que se chamou William Shakespeare, como se questiona em tomo da figura de Homero. Mas ninguém levou tão longe a possibilidade do acaso, para atribuir-lhe a autoria do Rei Lear ou da Comédia dos Enganos. Possíveis dificuldades de Identificação nunca levaram ninguém a duvidar que uma inteligência humana criadora foi a autora desses poemas e a ordenadora dessas letras.
D. Lourenço de Almeida Prado, OSB: Reflexões sobre o ateísmo contemporâneo. Separata de “Liturgia e Vida”, número 152, 1979, Mosteiro de São Bento – RJ).
*sub-título do post é meu.