Tomás de Aquino, genética e correção fraterna

Li essa semana, no Jornal do Campus, periódico da USP, que um famoso geneticista brasileiro, Crodowaldo Pavan, membro da Pontifícia Academia de Ciências, pôs-se publicamente em contraste com a posição da Igreja acerca da pesquisa com células tronco embrionárias humanas. No meu parco entendimento, parece que ao ilustre cientista resta apenas a honrosa ocasião de disputar a Questão com seus pares de Academia, e, sendo refutado, subter-se ao consenso ou renunciar à sua cadeira. Há outra saída honrosa ?

Santo Tomás e a “correção fraterna”:

A correção fraterna subordina-se ao preceito. A razão disso é que somos obrigados pelo preceito ao amor ao próximo. O amor, contudo, inclui em si que o homem deseja o bem para aquele que ama; amar alguém, pois, é isto desejar-lhe o bem, como diz o Filósofo, na Metafísica II (no livro da Retórica, cap. IX). E porque o estar isento do mal tem a razão do bem, como se diz no livro V da Ética, disso resulta que a essa razão pertence a do amor, de modo que também desejamos que as coisas más não se encontrem naqueles que amamos. A vontade, contudo, não é eficaz, nem verdadeira, se não se comprovar com a ação; donde também pertence à razão do amor que levemos as coisas boas aos amigos e que afastemos deles as más, como se diz no livro IX da Ética (cap. 1). E em 1 Jo III, 18, diz- se: Não amemos com a palavra nem com a língua, mas com a ação e a verdade. Tríplice, porém, é o bem dos homens e tríplice o mal que a ele se opõe. Há, pois, um bem do homem que consiste nas coisas exteriores, que é o mínimo bem; e por esse bem o homem é obrigado a socorrer o próximo pela distribuição da esmola corporal. Diz-se, pois, em l Jo III, 17: Aquele que possuir os bens deste mundo e vir seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar seu coração: como permanece nele a caridade de Deus? E, do mesmo modo, o homem é obrigado a levar auxílio ao próximo contra as perdas dos bens temporais. Donde se recomenda em Deut XXII, 1: Não verás o boi e ovelha de teu irmão errantes e te desviarás, mas reconduzi-los-ás a teu irmão. Um segundo bem do homem é o bem do corpo, pelo qual deve também o homem auxiliar seu próximo e levar-lhe auxílio, contra um mal contrário. Dizse, pois, em Pr XXIV, 11: Livra os que são conduzidos à morte e os que são arrastados para a destruição, não cesses de libertá-los. O terceiro bem, porém, é o bem da virtude, que consiste no bem da alma, ao qual se contrapõe o mal do pecado. Para conseguir esse bem, contudo, ou para evitar o mal, tanto mais é obrigado o homem pela caridade a levar o auxílio ao próximo, quanto mais pertence à razão o porquê de alguém ser amado pela caridade. Donde, também, o Filósofo diz, no livro IX da Ética (cap. III), que tanto mais deve o homem levar o auxílio ao amigo, mais para evitar os pecados do que para evitar a perda de dinheiro, quanto mais próxima está a virtude da amizade. E, por isso, o homem é obrigado pelo preceito do amor a auxiliar o próximo a seguir a virtude, dando-lhe conselho e ajuda para agir bem, como se diz em Is XXXV, 3-4: Confortai as mãos enfraquecidas e fortalecei os joelhos vacilantes, dizei: confortai-vos, pusilânimes, e não temais. E, por causa disso, pelo preceito do amor, o homem é obrigado a afastar do pecado o irmão que está no pecado, corrigindo-o, como se diz em 1 Tes V, 14: Corrigi os inquietos e confortai os enfraquecidos. Foi desse modo que o Senhor ordenou, em Mt XVIII, 15: Se teu irmão pecar contra ti, corrige-o. Assim, pois, a correção fraterna subordina-se ao preceito. Mas deve-se notar que as ações virtuosas são prescritas pelos preceitos afirmativos; as ações viciosas, contudo, são proibidas pelos preceitos negativos. Aquilo que é, pois, segundo sua natureza, vicioso e pecaminoso, é de qualquer modo mau, porque se aproxima de defeitos singulares, como diz Dionísio, no cap. IV de Sobre os nomes divinos. Por isso, aquilo que é proibido pelo preceito negativo não deve ser feito de modo algum por ninguém. Mas pelo preceito afirmativo prescreve-se a ação de virtude, para cuja retidão muitas circunstâncias concorrem, porque o bem surge de uma única e completa causa, como diz Dionísio, no cap. IV de Sobre os nomes divinos. Donde, aquilo que se subordina ao preceito afirmativo não deve ser observado todo o tempo e de qualquer modo, mas desde que conservadas determinadas condições de pessoas, locais, causas e ocasiões; assim como a honra aos pais não deve ser exibida em qualquer tempo ou lugar, ou de qualquer modo, mas desde que observadas determinadas condições; assim, também, a correção fraterna subordina-se ao preceito, segundo determinadas condições, segundo a natureza da ação virtuosa. Entretanto, não é possível determinar essas circunstâncias pela palavra, e por isso seu julgamento consiste em particularidades; e isso diz respeito à prudência, aquela virtude adquirida com a experiência e com o tempo, aquela que se derrama sobre nós, como se diz em 1 Jo XXI, 27: A unção vos ensinará acerca de tudo.

Quaestiones disputatae de virtutibus quaestio 3, art. 1, c.
Tradução: Paulo Faitanin
Fonte:www.Aquinate.net

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