Regras não escritas
Por mais soberbo e inflexível que fosse, o barão tinha, em seu feudo, um regulamento que, por não ser escrito, só parecia mais respeitável. Esse regulamento era o uso, a tradição. Nas maiores violências, o fidalgo via os seus homens acudirem e dizerem respeitosamente: “Senhor, não é êste o uso da boa gente desta casa.”
Apresentavam-lhe os homens experientes, os anciãos do lugar, que se diriam o uso personificado, homens que tinham visto nascer o senhor, que este via diaríamente e conhecia pelo nome. De ordinário, o arrebatamento brutal do jovem nobre se dissipava, em presença desses velhos, ante a imagem venerável e humilde da antiguidade.
O temor de Deus, o respeito à tradição, os dois freios da era feudal, romperam-se no século XV. O senhor deixa de residir na sua propriedade; já não conhece a sua gente nem os costumes dos seus domínios. Quando lá regressa, é com um séquito de soldados, para arrecadar arrogantemente provisões de dinheiro. Precipita-se, de quando em quando, sobre as suas terras, como a tempestade ou o granizo. À sua aproximação, todos se escondem; e, em toda a região, é o alarma, o “salve-se quem puder”.
Embora use o nome senhoril do pai, esse senhor não é um fidalgo; de ordinário, não passa dum capitão rude, dum bárbaro que mal merece o nome de cristão. É muitas vêzes um chefe de “houspilleurs”, de “tosquiadores”, de “esfoladores,” como o bastardo de Bourbon, o bastardo de Vaurus, um Chabannes, um La Hire. “Esfoladores” é a denominação apropriada. Consumando a ruína do que estava em ruínas, arrebatando a camisa a quem ficara em camisa, quando não restava senão a pele, êles arrancavam até a pele.
Seria engano crer que só os capitães esfoladores, os bastardos, os senhores sem senhoria se mostravam tão ferozes. Os grandes, os príncipes também haviam adquirido, nessas guerras hediondas, um gôsto singular para o sangue. Que se há de dizer, vendo João de Ligny, da casa de Luxemburgo, treinar o sobrinho, o conde de Saint-Pol, criança de quinze anos, em chacinar fugitivos?
De resto, êsses homens tratavam os seus como os inimigos. Mais valia até, pela própria segurança, ser inimigo do que parente.
Dir-se-ia que, naquela época, não havia pais nem irmãos.
(Michel, Jules. Joana d´Arc, Casa Editora Vecchi Ltda, s/d, pp.225-226)