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Omayr José de Moraes Júnior

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junho 23rd, 2008

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Reflexões sobre o ateísmo contemporâneo, por D. Lourenço de Almeida Prado, OSB

Jacques Monod, Demócrito e o marciano*

Um cientista conteporâneo, há algum tempo falecido, prêmio Nobel de Biologia – Jacques Monod, – num livro que toma o sugestivo título de uma afirmaço de Demócrito – “tudo que existe no universo é o fruto do acaso e de necessidade” – pretende fazer um “ensaio sobre a filosofia natural da Biologia moderna”. Seu livro – “Le hasard et la nécessité, essai sur la philosophie naturelle de la biologie moderne” – entra no assunto, mostrando desde logo, que a maestria do biólogo não encontra apoio em igual maestria de filósofo, que Monod não chega a ser. Mas a investigação inicial é curiosa. Por meio de comparações sugestivas, tenta assinalar os caracteres próprios de um objeto artificial, isto é, o artefato produzido por um ser inteligente, com uma finalidade determinada, e um objeto natural, produzido pela própria natureza, sem a interferência de um plano e de uma inteligência ordenadora.
Imagina, para precisar o seu pensamento, uma NASA de Marte, mandando um marciano explorar a terra. Aqui chegando, esse marciano, inteligente e culto, começa a comparar as coi¬sas que encontra com o intuito de verificar se são naturais ou artificais (pois a sua missão era precisamente verificar só existiria na terra uma atividade organizada, inteligente, cria-dora de artefatos). E incide nos mais graves equívocos : em muitas coisas naturais, a presença de uma ordenação inteli¬gente é mais nítida que em muitos objetos artificiais. O engano mais perturbador ocorreu quando, antes de ter encontrado qualquer ser inteligente, deparou, em lugar ermo, com uma máquina fotográfica. O marciano não teve dificuldades, para perceber que a disposição das lentes, a existência de urna câmara e os demais pormenores deixavam claro tratar-se de um artefato inteligentemente ordenado para cumprir o “projeto” de captar imagens. A conclusão se impunha : há um ser inteligente neste planeta, criador dessa máquina, pois ela não pode ter sido obra do acaso. Aconteceu, porém, que poucos passos adiante, o marciano encontrou um globo ocular e, num rápido exame, verificou a sua grande semelhança com a máquina fotográfica : lentes, diafragma, obturador, pigmentos fotosensíveis… E agora? Haveria uma inteligência criadora? Para não aceitar a resposta afirmativa a esta segunda indagação o materialista tem que recusar o bom senso da conclusão precedente. Nada prova que a máquina fotográfica seja um artefato arquitetado por uma inteligência, em vista de um fim, pois o globo ocular tem as mesmas características e é um objeto natural.

Nós, porém, poderíamos continuar a acreditar em nosso bom senso: não só o globo ocular, mas o ser vivo de que ele é uma parte, com função inserida no conjunto, e o universo inteiro reclamam uma inteligência criadora.

Examinemos uma semente. Ela tem, dentro de si, o que determina o seu desdobramento em direção a uma árvore idêntica à que lhe-deu origem. Um cientista poderá pensar que, tendo descoberto a versatilidade dos ácidos nuclêicos e os mecanismos complexos e precisos do funcionamento do código genético, terá descoberto o segredo da semente. Acontece que o segredo da semente é um segredo de Deus. O cientista descobriu que há uma ordem ou uma ordenação. Mas se recusar a aceitar uma inteligência ordenadora, terá que recorrer ao acaso. O acaso, dirá o filósofo, é o efeito que, por ser o resultado de convergência de duas ou mais séries de causas, não é explicável por uma causa determinada. O lavrador que, ao lavrar a terra, encontra um tesouro é beneficiado por um acaso. Como poderia adivinhar que um cego tinha transformado a terra no seu cofre, para não ser furtado pelo vizinho? O acaso existe na mente do cientista, como na mente do lavrador, mas tudo tem causa. Mas mesmo esse acaso, isto é, essa convergência de causas, tão real que o matemático a enquadra nos seus cálculos de probabilidade, é às vezes, extremamente improvável. O beija-flor que passeia, no seu vôo rápido, pelo campo, não terá muita dificuldade de encontrar a flor que a natureza terá feito nascer ali, com o colorido vivo e o nectar atraentes, para ele. Como a flor, por sua parte, poderá confiar na sua pétala vermelha, no perfume e no nectar, que a natureza lhe deu, para provocar o acaso da vinda do beija-flor, cuja visita é indispensável para a sua sobrevivência. A natureza – por que não Deus? diriqe o beija-flor e a flor para o acaso necessário desse encontro.

Há, porém, acasos mais difíceis. Poder-se-ia fantasiar a hipótese de que um deus homérico passasse milênios lançando as letras do alfabeto, aos milhões, sobre um imenso tabuleiro, a maneira de quem lança dados numa mesa, e que com um lento e paciente expediente, tantas vezes repetido, um dia viesse a acontecer o aparecimento das Obras Completas de Shakespeare, em tudo igual à célebre edição de 1623.

Houve um tempo, em que se questionava a existência real dessa pesssoa que se chamou William Shakespeare, como se questiona em tomo da figura de Homero. Mas ninguém levou tão longe a possibilidade do acaso, para atribuir-lhe a autoria do Rei Lear ou da Comédia dos Enganos. Possíveis dificuldades de Identificação nunca levaram ninguém a duvidar que uma inteligência humana criadora foi a autora desses poemas e a ordenadora dessas letras.

D. Lourenço de Almeida Prado, OSB: Reflexões sobre o ateísmo contemporâneo. Separata de “Liturgia e Vida”, número 152, 1979, Mosteiro de São Bento – RJ).

*sub-título do post é meu.

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Omayr José de Moraes Júnior

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junho 21st, 2008

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Tomás de Aquino, genética e correção fraterna

Li essa semana, no Jornal do Campus, periódico da USP, que um famoso geneticista brasileiro, Crodowaldo Pavan, membro da Pontifícia Academia de Ciências, pôs-se publicamente em contraste com a posição da Igreja acerca da pesquisa com células tronco embrionárias humanas. No meu parco entendimento, parece que ao ilustre cientista resta apenas a honrosa ocasião de disputar a Questão com seus pares de Academia, e, sendo refutado, subter-se ao consenso ou renunciar à sua cadeira. Há outra saída honrosa ?

Santo Tomás e a “correção fraterna”:

A correção fraterna subordina-se ao preceito. A razão disso é que somos obrigados pelo preceito ao amor ao próximo. O amor, contudo, inclui em si que o homem deseja o bem para aquele que ama; amar alguém, pois, é isto desejar-lhe o bem, como diz o Filósofo, na Metafísica II (no livro da Retórica, cap. IX). E porque o estar isento do mal tem a razão do bem, como se diz no livro V da Ética, disso resulta que a essa razão pertence a do amor, de modo que também desejamos que as coisas más não se encontrem naqueles que amamos. A vontade, contudo, não é eficaz, nem verdadeira, se não se comprovar com a ação; donde também pertence à razão do amor que levemos as coisas boas aos amigos e que afastemos deles as más, como se diz no livro IX da Ética (cap. 1). E em 1 Jo III, 18, diz- se: Não amemos com a palavra nem com a língua, mas com a ação e a verdade. Tríplice, porém, é o bem dos homens e tríplice o mal que a ele se opõe. Há, pois, um bem do homem que consiste nas coisas exteriores, que é o mínimo bem; e por esse bem o homem é obrigado a socorrer o próximo pela distribuição da esmola corporal. Diz-se, pois, em l Jo III, 17: Aquele que possuir os bens deste mundo e vir seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar seu coração: como permanece nele a caridade de Deus? E, do mesmo modo, o homem é obrigado a levar auxílio ao próximo contra as perdas dos bens temporais. Donde se recomenda em Deut XXII, 1: Não verás o boi e ovelha de teu irmão errantes e te desviarás, mas reconduzi-los-ás a teu irmão. Um segundo bem do homem é o bem do corpo, pelo qual deve também o homem auxiliar seu próximo e levar-lhe auxílio, contra um mal contrário. Dizse, pois, em Pr XXIV, 11: Livra os que são conduzidos à morte e os que são arrastados para a destruição, não cesses de libertá-los. O terceiro bem, porém, é o bem da virtude, que consiste no bem da alma, ao qual se contrapõe o mal do pecado. Para conseguir esse bem, contudo, ou para evitar o mal, tanto mais é obrigado o homem pela caridade a levar o auxílio ao próximo, quanto mais pertence à razão o porquê de alguém ser amado pela caridade. Donde, também, o Filósofo diz, no livro IX da Ética (cap. III), que tanto mais deve o homem levar o auxílio ao amigo, mais para evitar os pecados do que para evitar a perda de dinheiro, quanto mais próxima está a virtude da amizade. E, por isso, o homem é obrigado pelo preceito do amor a auxiliar o próximo a seguir a virtude, dando-lhe conselho e ajuda para agir bem, como se diz em Is XXXV, 3-4: Confortai as mãos enfraquecidas e fortalecei os joelhos vacilantes, dizei: confortai-vos, pusilânimes, e não temais. E, por causa disso, pelo preceito do amor, o homem é obrigado a afastar do pecado o irmão que está no pecado, corrigindo-o, como se diz em 1 Tes V, 14: Corrigi os inquietos e confortai os enfraquecidos. Foi desse modo que o Senhor ordenou, em Mt XVIII, 15: Se teu irmão pecar contra ti, corrige-o. Assim, pois, a correção fraterna subordina-se ao preceito. Mas deve-se notar que as ações virtuosas são prescritas pelos preceitos afirmativos; as ações viciosas, contudo, são proibidas pelos preceitos negativos. Aquilo que é, pois, segundo sua natureza, vicioso e pecaminoso, é de qualquer modo mau, porque se aproxima de defeitos singulares, como diz Dionísio, no cap. IV de Sobre os nomes divinos. Por isso, aquilo que é proibido pelo preceito negativo não deve ser feito de modo algum por ninguém. Mas pelo preceito afirmativo prescreve-se a ação de virtude, para cuja retidão muitas circunstâncias concorrem, porque o bem surge de uma única e completa causa, como diz Dionísio, no cap. IV de Sobre os nomes divinos. Donde, aquilo que se subordina ao preceito afirmativo não deve ser observado todo o tempo e de qualquer modo, mas desde que conservadas determinadas condições de pessoas, locais, causas e ocasiões; assim como a honra aos pais não deve ser exibida em qualquer tempo ou lugar, ou de qualquer modo, mas desde que observadas determinadas condições; assim, também, a correção fraterna subordina-se ao preceito, segundo determinadas condições, segundo a natureza da ação virtuosa. Entretanto, não é possível determinar essas circunstâncias pela palavra, e por isso seu julgamento consiste em particularidades; e isso diz respeito à prudência, aquela virtude adquirida com a experiência e com o tempo, aquela que se derrama sobre nós, como se diz em 1 Jo XXI, 27: A unção vos ensinará acerca de tudo.

Quaestiones disputatae de virtutibus quaestio 3, art. 1, c.
Tradução: Paulo Faitanin
Fonte:www.Aquinate.net

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Omayr José de Moraes Júnior

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junho 12th, 2008

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Paixão da Igreja, por Gerardo Dantas Barreto

Restava-nos a Igreja de Cristo como um baluarte incomovível. Por muitos séculos constituía-se sua glória maior ser santa com membros pecadores (1). Porém confiada a homens, ainda que divina não poderia escapar desse desastre cósmico. Também ela agora se vê a braços com talvez a maior convulsão de sua bimilenária história. Pois o de que se trata é de uma crise de fé e de costumes – e não de liturgia, como pensam certos ingênuos, ou “hábeis”, ou estúpidos -, crise da mais extrema gravidade a ponto de, não raro, os que teimam em permanecer fiéis só com dificuldade reconhecem a una, sancta et apostolica Ecclesia. As pieguices mais estravagantes são tidas por inspirações; as técnicas sociológicas tomam o lugar da apologética; planos de pastoral pomposos, mirabolantes, demagógicos – sobretudo ineficazes – entregues a executores notoriamente levianos, simulam, fazem as vezes da clara pregação inteligente da doutrina cristã, da prática e da vivência do Evangelho; as filosofias mais distanciadas do dogma cristão são chamadas a interpretá-lo senão a substituí-lo, quando todos sabemos (2) que só como estado nascente podemos procurar a filosofia e a teologia na não-filosofia e na não-teologia. Os promotores, os mal-aventurados responsáveis por essa anarquia não percebem que o resíduo informe que subsiste no fundo de suas manipulações a tal ponto é desvitalizado que em grau nenhum – como assinalava Gabriel Marcel pouco antes de falecer – é susceptível de alimentar as almas. E aí está na verdade tudo o que importa: alimentar almas, isto é, defendê-Ias contra a tentação do desespero na qual certamente nenhum de nós está seguro de não correr o risco de sucumbir um dia.

O próprio Santo Padre, como solitário e patético defensor da ortodoxia, ou já não é ou muito pouco é ouvido e obedecido, questionando-se-lhe os documentos mais qualificados e, mesmo, o infalível magistério nas matérias específicas sem que, até agora, se tenha erguido em sua defesa, como era de prever ou de esperar, a voz unânime do episcopado mundial. Não sei até onde irá a crise da Igreja, que não diminui, antes parece crescer de intensidade na medida em que a própria Igreja duvida da sua mensagem divina.

Os supérstites que ainda vigiam dentro dessa noite – custos quid de nocte? – (3) dão-se conta de que quase não existe corrente pré-conciliar que hoje não seja uma ainda mais forte corrente pós-conciliar (pois, que saibamos, ninguém se reconheceu desautorizado pelo Concílio Vaticano II em suas opiniões pré-conciliares), sobretudo aquelas decididamente apostadas, luciferinamente empenhadas na invasão da Igreja pelas ideologias dominantes do mundo profano, na eliminação do sobrenatural, numa espécie de redução laicizante do mistério cristão. Como se o mistério, hélas, estivesse reservado a uma idade provisória da inteligência! Tenta-se mesmo extinguir toda a vida sacramental fazendo-se desaparecer os seus administradores e alimentadores específicos. Não exagero: por toda a Cristandade abertamente se discute, põe-se em causa e em dúvida o sacerdócio ministerial; têm-no já por arcaico e ultrapassado. Subitamente involuídos até a faixa da adolescência mental, os próprios ministros do altar e da palavra evangélica proclamam-se em permanente crise de identidade sacerdotal. Como se na verdade sem a profunda vivência do Sacramento da Ordem, do caráter sacerdotal, do seu mister humanizador, apostólico, santificador e salvífico, fácil fora ver, na civilização técnica e urbana de hoje, o papel do padre, ou detectar-lhe a insubstituível missão numa sociedade da qual, ele próprio, contribui para eliminar o sagrado !

Sou dos que pensam que o aggiornamento, o movimento da Igreja era necessário, mas também dos que negam que ele autorize ou justifique qualquer movimento. Por isso mesmo, denuncio aqui e agora um “pluralismo teológico” mal conceituado, espúrio, hoje mágico e poderoso slogan que dá cobertura a muitas atitudes insensatas, aos mais desatinados posicionamentos em nome da doutrina católica e, ao mesmo tempo, paralisa ou freia as intervenções necessárias e inadiáveis daqueles que, ao menos de direito, são mestres autênticos na Igreja (4). Também não era para menos, pois parece escassearem, haverem desaparecido, silenciado – ou já não encontram audiência – os grandes teólogos e mestres espirituais. Negrejam sem embargo e rodopiam, ao sabor da rosa-dos-ventos ideológicos, gnomos da picaretagem intelectual, do aventureirismo cultural, camelôs de si próprios; alegres, triunfantes, irresponsáveis biscateiros da intelligentzia, que pretende falar em nome da doctrina sacra, paradoxalmente – porém significativamente – alérgicos à filosofia e à teologia. A essa altura já constituem legiões: mihi nomen est legio quia multi sumus (5). São pequenos subprodutos progressistas ou reacionários, ou irenistas, ou mesmo integristas com as melhores intenções que o Demônio freqüentemente une e irmana na mesma desvairada estultícia. Aqui o paralelismo expressa um exato juízo de valor. Carentes de fé e de compostura uns; ou confundindo a fé com fanatismo, outros – todos afinal faltos de discernimento e de prudência -, sem o mínimo respeito a si próprios, à verdade e à justiça – a Deus -, com indisfarçável ânimo de despique, deleitam-se morosa, freudeanamente com fazer públicos strip-teases, não só de obscuros, inconfessáveis ressentimentos, de torpes idiossincracias, de revoltas mal contidas, de pequeninas, baixas, pérfidas intrigas, de prepotentes manobras (as mais das vezes menos perversas que ingênuas); senão também das mais chocantes atitudes dialéticas com que pretendem manter suas posições, defender seus pontos-de-vista ortodoxos ou heterodoxos. Corno se o fato de nos acomodarmos a uma corrente de opinião, de per si fosse garantia suficiente para a reflexão, ou o medo de parecer estúpido fizesse as vezes de amor à Verdade! Um cristianismo que não atualiza mais suas inexauríveis virtualidades salvíficas, cujo discurso, cujo código já não sabemos usar para ler os sinais do tempo, decifrar-lhe os desconcertos e remediá-los; ou que se deixa fascinar por todas as modas políticas e culturais que assaltam e monopolizam a atenção indefesa dos homens durante três ou cinco anos e depois caem no esquecimento – ainda pode ser chamado de verdadeiro cristianismo ?

Com as exceções de praxe, os católicos parece hoje viverem, assim, no mundo inteiro, em ghettos de ressentimento e de desforra, perdidos em aporias insolúveis, quando não sobrevivem em trágicas diásporas conduzidas pelo “Senhor do Mundo”, prisioneiros do medo e da dúvida sem promessas nem esperanças. Poder-se-ia esperar outra situação? Na medida em que a mensagem da Igreja se dissolve em mensagem puramente temporal, se edulcora em doutrina de salvação social e política – deixando na sombra o sobrenatural, o projeto salvífico da Humanidade que Deus lhe cometeu – cessa de veicular essa liberdade e paz interiores, que dão sentido à vida e ao trabalho do homem e das quais o Cristo nos deixou o segredo e a chave no Sermão da Montanha (6).

(1) Cf. J. Maritain, Religion et culture, nov. ed., Paris, Desclée de Brouwer, 1946, p. 59.
(2) O autor lembra que falava para uma assembléia de “filósofos”. Nota de 1976.
(3) Is. 5,7.
(4) Ver, a propósito, J. A. de Aldama, S. J. et alii, Los movimentos teologicos secularizantes, Madrid, BAC, 1973, passim, especialmente pp. 165-189.
(5) Mc. 5,9.
(6) Mt. 5,1-12; como é sabido porém, o sermão da montanha prolonga-se até ao capítulo 7,28.

Dantas Barreto, Gerardo. Santo Tomás em face da crise do Mundo e da Igreja. Coleção Tema Atual, Presença, Rio de Janeiro, 1977, pp.9-11.

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Omayr José de Moraes Júnior

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junho 11th, 2008

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UCLA, Turquia e Aznavour (sobre o genocídio armênio)

PAÍS FAZ LOBBY PARA “APAGAR” GENOCÍDIO ARMÊNIO.

Os esforços feitos pela Turquia para apagar a memória do genocídio dos Armênios sofreram um revés nos EUA. A Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) recusou-se a permitir que Ancara financie uma cadeira de “estudos otomanos” porque o governo turco condicionara doação de US$ 1 milhão à exigência de que os acadêmicos ignorem o massacre ocorrido em 1915.

O banho de sangue ocorreu em 1915, quando centenas de milhares de homens armênios foram massacrados pelas forças turcas, enquanto suas mulheres e seus filhos foram despachados em número igual para o deserto sírio para morrerem nas mãos de estupradores ou da polícia turca. É um fato histórico aceito como tal em todos os países, menos a Turquia.

No deserto da região que é hoje o norte da Síria os turcos até inventaram a primeira câmara de gás do mundo: uma caverna subterrânea na qual encerraram milhares de prisioneiros e para a qual policiais turcos canalizaram fumaça, para completar o genocídio.

A reação da UCLA deve ter sido um choque para os Turcos. Afinal eles fizeram doações às universidades de Princeton, Georgetown, Indiana e Chicago, com exigências quase idênticas: que os acadêmicos que ocupam a cadeira devem usar arquivos turcos e manter “relações estreitas e cordiais com círculos acadêmicos na Turquia”.

Qualquer estudioso que admita o Holocausto armênio não poderá ter relação cordial com acadêmicos turcos, muito menos obter acesso a arquivos otomanos. Assim, quando a UCLA recusou a oferta de Ancara, criou um precedente.

O embaixador turco nos EUA, Nuzhet Kandemir, já havia pago um quarto do valor total de US$ 1 milhão para uma cadeira no departamento de história da UCLA.

Mas acadêmicos armênios imediatamente apontaram que o acesso aos arquivos otomanos é rigidamente controlado pela Turquia, além de ser negado a qualquer pessoa que critique o tratamento dado pelos Turcos aos Armênios ou às violações dos direitos humanos hoje cometidas no país.

A seguir, o embaixador Kandemir foi identificado como tendo sido o diplomata que enviou cartas a organizações judaicas, afirmando que o Holocausto armênio, diferentemente do extermínio dos Judeus por Hitler, foi falso.

Consta que Hitler, antes de dar início ao genocídio dos Judeus da Europa, teria perguntado:”Quem ainda se lembra dos Armênios?”

Até 1920, estimados 1,5 milhão de Armênios haviam morrido. Os Turcos afirmam que foram vítimas de uma guerra civil.

Quando a UCLA primeiro aceitou a oferta turca (lamentavelmente, as discussões iniciais foram mantidas a portas fechadas), o campus foi invadido por uma enxurrada de abaixo-assinados.

Um deles, assinado por 57 acadêmicos e escritores, condena a proposta porque “o governo turco proíbe a liberdade intelectual, exclui investigações sobre o país e sua história, encarcera seus intelectuais e possui um dos piores históricos de violações de direitos humanos do mundo atual”.

Um abaixo-assinado criticando a criação da cadeira foi assinado pelos escritores Norman Mailer, Kurt Vonnegut, Artur Miller e Susan Sontag. O corpo docente rejeitou a doação turca por uma margem estreita de votos: 18 a 17.

FONTE http://www.direitos.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1977&Itemid=25

ILS SONT TOMBÉS

Charles Aznavour

http://br.youtube.com/watch?v=wIVKND4Jm40&feature=related

Ils sont tombés sans trop savoir pourquoi
Hommes, femmes et enfants qui ne voulaient que vivre
Avec des gestes lourds comme des hommes ivres
Mutilés, massacrés les yeux ouverts d’effroi
Ils sont tombés en invoquant leur Dieu
Au seuil de leur église ou le pas de leur porte
En troupeaux de désert titubant en cohorte
Terrassés par la soif, la faim, le fer, le feu

Nul n’éleva la voix dans un monde euphorique
Tandis que croupissait un peuple dans son sang
L’ Europe découvrait le jazz et sa musique
Les plaintes de trompettes couvraient les cris d’enfants
Ils sont tombés pudiquement sans bruit
Par milliers, par millions, sans que le monde bouge
Devenant un instant minuscules fleurs rouges
Recouverts par un vent de sable et puis d’oubli

Ils sont tombés les yeux pleins de soleil
Comme un oiseau qu’en vol une balle fracasse
Pour mourir n’importe où et sans laisser de traces
Ignorés, oubliés dans leur dernier sommeil
Ils sont tombés en croyant ingénus
Que leurs enfants pourraient continuer leur enfance
Qu’un jour ils fouleraient des terres d’espérance
Dans des pays ouverts d’hommes aux mains tendues

Moi je suis de ce peuple qui dort sans sépulture
Qu’a choisi de mourir sans abdiquer sa foi
Qui n’a jamais baissé la tête sous l’injure
Qui survit malgré tout et qui ne se plaint pas
Ils sont tombés pour entrer dans la nuit
Éternelle des temps au bout de leur courage
La mort les a frappés sans demander leur âge
Puisqu’ils étaient fautifs d’être enfants d’Arménie

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Omayr José de Moraes Júnior

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junho 10th, 2008

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Vocabula computatralia

A

abort 1. vt interrumpere 2. subst. interruptus,us m.

address 1. (memory location) subst. locus (memoriae, in memoria); numerus octeti 2. (net location, URL) subst. inscriptio (interretialis vel interneti) 3. (e-mail) subst. inscriptio (cursualis) electronica 4. (to select a memory location) vt. locum (memoriae) eligere

assembler 1. (assembly language) subst. lingua machinalis; assembler,i m. 2. (compiler) subst. compilatrum (assembleri)

B

background 1. (of a picture) subst. fundus,i m 2. (about windowed desktop) ima,orum n.; to put a window into background fenestram in ima reponere. 3. (about a process) adj. inferus, posterus; to put into background in ima mittere; inferiorem facere

binary adj. binaris,e

bit subst. bitus,i m (binaris digitus); least significant bit bitus minimi momenti; bitus minimus

boot 1. subst. initiatio systematis; cold ~ initiatio frigida, initiatio e frigido; warm ~ initiatio calida, initiatio e calido. 2. vt. initiare

branch 1. (a relative jump) subst. saltus relativus 2. (a conditional jump) subst. saltus condicionalis (non: ’saltus conditionalis’, quia non conditura, sed condicione saltus fiunt).

browse 1. (to look over text documents) vt. perlustrare 2. (the Web) vt. navigare

browser 1. (text viewer) subst. exhibitrum,i n. 2. (Web viewer) subst. navigatrum,i n.

bug (a mistake in program code) subst. mendum,i n

buggy (full of bugs) adj. mendosus,i m

bus (communication lines between computer components) subst. magistrale,is n; data ~ magistrale datorum; address ~ magistrale locativum

byte (eight bits) subst. octetus,i m; most significant ~ octetus maximi momenti, octetus maximus; least significant ~ octetus minimi momenti, octetus minimus; higher ~ octetus maioris momenti, octetus maior; middle ~ octetus mediocris; lower ~ octetus minoris momenti, octetus minor; least significant ~ octetus minimi momenti, octetus minimus; even ~ octetus par; odd ~ octetus impar

C

calculation subst. computatio,onis f.; ratio,onis f.

channel (virtual I/O device) subst. canalis,is m.

chip (an intergrated electronic circuit) subst. talus,i m.; integrated ~ talus integratus

clipboard subst. latibulum,i n.

command subst. iussum,i n.; mandatum,i n.

compilation 1. (translation into object form) subst. compilatio, onis f. 2. (collection) subst. collatio,onis f.

compile (translate into object form) vt. compilare

compiler (source to object translator program) subst. compilatrum,i n.

computer 1. subst. computatrum,i n; ordinatrum,i n. 2. adj. computatralis,e; ordinatralis,e

condition 1. (ref. to ‘if’ statement) subst. condicio,onis f. 2. (a state) subst. condicio,onis f.; status,us m.

connect vt. conectere

connection 1. (a link between computer elements) subst. ligamen,inis n. 2. (a link between computer systems via net) subst. conexus,us m.

constant subst. (valor) constans,ntis m.

coprocessor subst. processorium,i n. mathematicum

copy 1. (to duplicate a file) vt. copiare 2. (a result of copying) subst. exemplar,aris n.

crash 1. (about computer systems: to fail completely so that the machine has to be rebooted) vt. corruere; collabi; the system ~ed systema corruit 2. (about programs: to make a computer system crash) vt. diruere aliquid; evertere aliquid; the program has ~ed the system systema a programmate dirutum est 3. subst. collapsus,us m.

cursor subst. indicium,i n.

cyberspace subst. spatium cyberneticum; cyberspatium,i n.

D

data subst. data,orum n.

database 1. (program) subst. datorum ordinatrum 2. (data) subst. data,orum n.; plicae datorum

daemon subst. daemon,onis m.

debug (to correct mistakes in a program) vt. emendare

debugger (debugging program) subst. emendatrum,i n.

debugging subst. emendatio,onis f.

decimal adj. decimalis,e

delete vt. delere; eradere

desktop subst. tabula,ae f. (systematis); mensa,ae f.

digital adj. digitalis,e

direct adj. directus,a,um; rectus,a,um; ~ Client Connection (DCC) subst. Directus Clientium Conexus

directory subst. (plicarum) index,icis m.

disk 1. (physical device, disk drive) subst. discus,i m.; ~ image disci simulacrum 2. (hard disk) subst. discus durus; discus rigidus; discus fixus 3. (floppy diskette) subst. discus flexibilis; disculus,i m. 4. (CD-ROM) subst. discus compactus 5. (logical device, partition) subst. volumen,inis n.; discus,i m. 6. (floppy disk drive) subst. statio disculorum

diskette subst. disculus,i m.

download vt. extrahere (aliquid ex rete); prehendere

E

electronic adj. electronicus,a,um

e-mail 1. (a letter sent via the net) subst. litterae electronicae 2. (electronic mail) subst. cursus publicus electronicus

erase vt. eradere, delere

execute (to make a program run) vt. pellere

F

FAQ Frequenter Allatae Quaestiones

file subst. scapus,i m.; plica,ae f.

folder subst. index,icis m.; scrinium,i n.

font subst. typus,i m.

format 1. (data representation) subst. forma,ae f.; compositio,onis f. 2. (to organize data) vt. formare; conformare 3. (to format a disk) vt. formare 4. (to soft-format a disk) vt. purgare

G

generator (a program) subst. generatrum,i n.

H

hardware subst. armatura electronica; supellex,ctilis f.

hexadecimal adj. sedecimalis,e

homepage subst. pagina domestica

hypertext 1. subst. hypertextus,us m. 2. adj . hypertextualis,e

I

icon subst. icon,onis f.

indirect adj. indirectus,a,um

input 1. vt. data inducere 2. subst. initus,us m.

install vt. instituere; instruere

instruction subst. iussum,i n.

integer 1. adj. integer,gra,grum 2. subst . (valor) integer,gri m.

Internet 1. subst. Internetum; Interrete,is n. 2. adj. Internetalis,e; Interretialis,e

interpretate vt. intepretari

intepretation subst. intepretatio,onis f.

interpreter (a program) subst. intepretatrum, i n.

interrupt (hardware event) subst. interruptio,onis f.

IRC Interretialiter Relatum Colloquium

J

joystick subst. manipulus,i m.

jump 1. vt salire 2. subst. saltus,us m.

K

key subst. clavis,is f.

keyboard subst. claviatura,ae f.

kill (force termination) vt. occidere

L

library (collection of complex functions) bibliotheca,ae f.; shared ~ bibliothetca mutua

link 1. (hypertext link) coniunctio,onis f.; ligamen,inis n. 2. (to add precompiled libraries to an object code) vt consolidare

linker (a program) subst. consolidatrum,i n.

linking subst. consolidatio,onis f.; static ~ consolidatio statica; dynamic ~ consolidatio dynamica

list 1. (data structure) catena,ae f. 2. ( mailing list) grex Interneti 3. (mailing list owner) moderator gregis

listing v. program

load 1. (to copy data from a disk to the memory) vt legere; computer ~s a file plica a computatro legitur 2. (move data from the memory to a register) vt. movere

login (enter a network) vt. inire

logout (exit from network) vt. exire

loop (program structure) vt. ambitus,us m.

M

magnetic adj. magneticus,a,um

mail v. e-mail

mailing list v. list

memory subst. memoria,ae f.

modem subst. transmodulatrum,i n.

monitor subst. monitorium,i n.

mouse subst. mus,muris m.; musculus,i m.

multitasking 1. subst. processio multiplex 2. adj. ?

N

net subst. rete,is n.

netserver 1. (computer) subst. moderatrum,i n. 2. (program) subst. daemon moderans

node subst. nodus,i n.

O

operating system subst. systema internum

P

parallel 1. (hardware) adj. parallelus,a,um 2 . (software) simul operans

password subst. signum,i n.

pointer subst. index,indicis m.; stack ~ struis index; mouse ~ muris index

port 1. (connector) subst. portus,us m. 2 . (network device) subst. portus,us m. 3. (adjust a program for another platform) vt. transferre; transportare

procedure subst. procedura,ae f.

process subst. processus,us m.

processor subst. processorium,i n.

program 1. subst. programma,atis n.; ~ listing textus programmatis 2. vt. programmare

programmer 1. (human) subst. programmator,oris m. 2. (EPROM burner) subst. programmatrum,i n.

R

RAM subst. memoria volatilis; static ~ memoria statica; dynamic ~ memoria dynamica

real 1. adj. realis,e 2. (floating point value) subst. numerus (vel valor) realis

register 1. (a part of CPU or hardware port) subst. regestrum,i n. 2. vt. nomen addere; nomen profiteri

ROM subst. memoria fixa

rotate (bits) vt. volvere; rotare

routine v. procedure

run 1. vt. operari; the program is ~ning programma operatur 2. (running) subst. operatio,onis f. 3. (data structure, string) catena,ae f.

S

save vt. servare; conservare; reponere

scan vt. scandere (e.g. paginam, imaginem etc.)

scanner subst. scansorium, i n.

screen subst. scrinium,i n.; quadrum,i n.

screenmode subst. modus (imaginem) exhibendi

send vt. mittere

serial adj. serialis,e

server v. netserver

shift 1. (the key) clavis “shift” 2. ( to shift bits) relocare; to ~ left relocare sinistrorsus

shutdown 1. vt. claudere 2. subst. clausura,ae f.

software v. program

sound 1. subst. sonus,i m.; ~ generator sonorum generatrum 2. vt. sonare

spam 1. vt. saginare (aliquem); 2. subst. saginatio,onis f.

spreadsheet subst. tabula computativa

stack subst. strues,is f.

stop vt. sustinere

stream 1. (continuous sequence of data or instructions) fluctus,us m. 2. (logical channel) canalis,is m.

string subst. series,ei f.; character ~ litterarum series

subdirectory v. folder

subroutine subst. supprocedura,ae f.; supprogramma,ae f.

system subst. systema,atis n.

T

tape subst. taenia,ae f.

terminal subst. terminale,is n.

U

UNIX subst. Unix,icis m.

upload vt. mittere (aliquid ad rete); imponere

URL (Universal Resource Locator) Universale Rerum Locatrum n.

V

value subst. valor,oris m.

variable subst. (valor) variabilis; variabile,is n.

vector (a sort of a pointer) subst. index,icis m.; a jump through a ~ per indicem saltus

viewer subst. exhibitrum,i n.

W

window subst. fenestra,ae f.

wire subst. filum,i n.

word 1. (short word, 16 bits) subst. verbum,i n. 2. (long word, 32 bits) subst. verbum longum; verbum duplex

wordprocessor subst. (programma) editorium

web subst. tela,ae f.; World Wide ~ Tela Totius Terrae

write 1. (to create a program) vt. scribere, componere 2. (store data on the disk) v. save

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

junho 9th, 2008

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San Gabriel (Camilo Pessanha)

Inutil! Calmaria. Já colheram
As vellas. As bandeiras socegaram
Que tão altas nos topes tremularam,
- Gaivotas que a voar desfalleceram.

Pararam de remar! Emmudeceram!
(Velhos rithmos que as ondas embalaram).
Que cilada que os ventos armaram!
A que foi que tão longe nos trouxeram?

San Gabriel, archanjo tutelar,
Vem outra vez abençoar o mar.
Vem-nos guiar sobre a planicie azul.

Vem-nos levar á conquista final
Da luz, do Bem, doce clarão irreal.
Olhae! Parece o Cruzeiro do Sul!

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

junho 8th, 2008

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Regras não escritas

Por mais soberbo e inflexível que fosse, o barão tinha, em seu feudo, um regulamento que, por não ser escrito, só parecia mais respeitável. Esse regulamento era o uso, a tradição. Nas maiores violências, o fidalgo via os seus homens acudirem e dizerem respeitosamente: “Senhor, não é êste o uso da boa gente desta casa.”

Apresentavam-lhe os homens experientes, os anciãos do lugar, que se diriam o uso personificado, homens que tinham visto nascer o senhor, que este via diaríamente e conhecia pelo nome. De ordinário, o arrebatamento brutal do jovem nobre se dissipava, em presença desses velhos, ante a imagem venerável e humilde da antiguidade.

O temor de Deus, o respeito à tradição, os dois freios da era feudal, romperam-se no século XV. O senhor deixa de residir na sua propriedade; já não conhece a sua gente nem os costumes dos seus domínios. Quando lá regressa, é com um séquito de soldados, para arrecadar arrogantemente provisões de dinheiro. Precipita-se, de quando em quando, sobre as suas terras, como a tempestade ou o granizo. À sua aproximação, todos se escondem; e, em toda a região, é o alarma, o “salve-se quem puder”.

Embora use o nome senhoril do pai, esse senhor não é um fidalgo; de ordinário, não passa dum capitão rude, dum bárbaro que mal merece o nome de cristão. É muitas vêzes um chefe de “houspilleurs”, de “tosquiadores”, de “esfoladores,” como o bastardo de Bourbon, o bastardo de Vaurus, um Chabannes, um La Hire. “Esfoladores” é a denominação apropriada. Consumando a ruína do que estava em ruínas, arrebatando a camisa a quem ficara em camisa, quando não restava senão a pele, êles arrancavam até a pele.

Seria engano crer que só os capitães esfoladores, os bastardos, os senhores sem senhoria se mostravam tão ferozes. Os grandes, os príncipes também haviam adquirido, nessas guerras hediondas, um gôsto singular para o sangue. Que se há de dizer, vendo João de Ligny, da casa de Luxemburgo, treinar o sobrinho, o conde de Saint-Pol, criança de quinze anos, em chacinar fugitivos?

De resto, êsses homens tratavam os seus como os inimigos. Mais valia até, pela própria segurança, ser inimigo do que parente.

Dir-se-ia que, naquela época, não havia pais nem irmãos.

(Michel, Jules. Joana d´Arc, Casa Editora Vecchi Ltda, s/d, pp.225-226)

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

junho 8th, 2008

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Judas, Bruto e Cássio no Inferno de Dante

63 Quell’ anima là sù c’ha maggior pena»,
disse ‘l maestro, «è Giuda Scarïotto,
che ‘l capo ha dentro e fuor le gambe mena.

64 De li altri due c’hanno il capo di sotto,
quel che pende dal nero ceffo è Bruto:
vedi come si storce, e non fa motto!;

67 e l’altro è Cassio, che par sì membruto.
Ma la notte risurge, e oramai
è da partir, ché tutto avem veduto.

“That one,” said my guide,
“Who suffers the greatest punishment,
Is Judas Iscariot, with his head stuck inside *

And his legs thrashing. Of those other two in torment
With their heads out, Brutus hangs from the black face ; *
See how he squirms but remains silent;

Large–limbed Cassius completes this trio of base
Betrayers. But now night is falling, and it would
Be best to leave, for we’ve seen all of this place.”

(Canto XXXIV)

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

junho 7th, 2008

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Cristo se uniu a todos os homens ?

O Concílio de Éfeso ensina que “o Verbo, unindo a Si em Sua pessoa uma carne animada por uma alma racional, fez-Se homem”, Verbum, unita Sibi secundum hypostasim carne animata rationali anima, (…) hominem factum esse (DS 250), isto é, a Encarnação deu-se em uma Pessoa, em um indivíduo, assim como insiste Santo Tomás (Dei Verbum non assumpsit naturam humanam in universali (…) sed in individuo: III, q.2, a.2 c; in unitatem personae: q.35, a.4 c; assumptio terminatur ad personam: q.4, a.4 c; unio incarnationis, cum sit in esse personali: q.2, a.11 c); em outras palavras, foi a humanidade de Jesus que foi assumida pelo Verbo, e não a humanidade abstratamente considerada, até mesmo porque “é impossível que a natureza humana exista fora da matéria” (q.4, a.4 c). Por conseguinte, embora todo o gênero humano pertença a Cristo por direito natural e por direito de conquista, isso não quer dizer que, pela Encarnação, Ele tenha se unido a todos os seres humanos indistintamente. É justamente o contrário: estes é que adquiriram a faculdade de se unirem a Ele na medida da respectiva correspondência à vocação divina. E tal faculdade pode ou não ser usada (q.8, a.3 c). Por outro lado, se é verdade que sempre se falou que, pela Encarnação, deu-se um matrimônio entre Deus e a humanidade, deve se sublinhar que isso foi dito em sentido largo, mediante a justaposição de formas adverbiais que modificavam o sentido da expressão, metaforizando-a. Assim o fizeram, v.g., o próprio Santo Tomás (III, q.30, a.1 c) e também o Magistério: “O Filho eterno de Deus, querendo assumir a natureza do homem para redimi-lo e nobilitá-lo, consumando assim um matrimônio místico com todo o gênero humano, não realizou este Seu desígnio senão depois de obter o libérrimo consentimento daquela que fora designada para ser Sua Mãe, a qual, de certo modo, representava todo o gênero humano”, Filius Dei aeternus, quum, ad hominis redemptionem et decus, hominis naturam vellet suscipere, eaque re mysticum quoddam cum universo humano genere initurus esset connubium, non id ante perfecit quam liberrima consensio accessisset designatae Matris, quae ipsius generis humani personam quodammodo agebat (Leão XIII, Octobri mense. Leonis XIII P. M. Acta, XI, p. 303).

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

junho 7th, 2008

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SÔBOLOS RIOS QUE VÃO, Camões

Sobre os rios que vão
por Babilónia m’ achei
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado:
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val
que então se entende milhor
quando mais perdido for;
vi o bem suceder mal,
e o mal muito pior.
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas águas
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.
Como homem que, por exemplo,
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou,

assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei,
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: «Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo;
e as águas, que iam decendo,
tornavam logo a subir.
Jamais vos não ouvirão
os tigres, que se amansavam;
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que, por vos ouvir, deixavam.

Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florecente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudestes mover
desconcertos da ventura.

Ficareis oferecida
à Fama, que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquedade
aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança
amanhã já o não vejo;
assi nos traz a mudança
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte
que quanto da vida passa
está receitando a morte!

Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade…
Não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.
Que idade, tempo, o espanto
de ver quão ligeiro passe,
nunca em mim puderam tanto
que, posto que deixe o canto,
a causa dele deixasse.

Mas, em tristezas e enojos
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
terné presente á los ojos
por quien muero tan contento».
Órgãos e frauta deixava,
despojo meu tão querido,
no salgueiro que ali estava;
que para troféu ficava
de quem me tinha vencido.

Mas lembranças da afeição,
que ali cativo me tinha,
me perguntaram então
que era da música minha
qu’eu cantava em Sião.
Que foi daquele cantar
das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda a passar
qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por antre o espesso arvoredo;
e de noite o temeroso,
cantando, refreia o medo.
Canta o preso docemente
os duros grilhões tocando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.

Eu, que estas cousas senti
n’ alma, de mágoas tão cheia,
«Como dirá, respondi,
quem tão alheio está de si
doce canto em terra alheia?»
Como poderá cantar
quem en choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito.

Que não parece razão
nem seria cousa idónea,
por abrandar a paixão,
que cantasse em Babilónia
as cantigas de Sião.
Que, quando a muita graveza
de saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes moura de tristeza
que, por abrandá-la, cante.

Que, se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?
Nem na frauta cantarei
o que passo e passei já,
nem menos o escreverei;
porque a pena cansará,
e eu não descansarei.

Que, se vida tão pequena
se acrecenta em terra estranha
e se amor assi o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.
Porém se, para assentar
o que sente o coração,
a pena já me cansar,
não canse para voar
a memória em Sião.

Terra bem-aventurada,
se, por algum movimento,
d’ alma me fores mudada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.
A pena deste desterro,
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida,
em castigo de meu erro.

E se eu cantar quiser
em Babilónia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
a voz, quando a mover,
se me congele no peito.
A minha língua se apegue
às fauces, pois te perdi,
se, enquanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti.

Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.
Que a alma é tábua rasa
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina
que voa da própria casa,
e sobe à pátria divina.

Não é logo a saudade
das terras onde naceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa cidade,
donde esta alma descendeu.
E aquela humana figura,
que cá me pôde alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio da fermosura
que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que ateia
o fogo que cá sujeita,
não do sol, mas da candeia,
é sombra daquela Ideia
que em Deus está mais perfeita.
E os que cá me cativaram
são poderosos efeitos
que os corações têm sujeitos:
sofistas, que me ensinaram
maus caminhos por direitos.

Destes o mando tirano
me obriga, com desatino,
a cantar ao som do dano
cantares de amor profano
por versos de amor divino.
Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
de confusão e de espanto,
como hei-de cantar o canto
que só se deve ao Senhor?

Tanto pode o benefício
da Graça que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que tomei por vício
me fez grau para a virtude.
E faz este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra real,
da particular beleza
para a Beleza geral.

Fique logo pendurada
a frauta com que tangi,
ó Hierusalém sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti!
Não cativo e ferrolhado
na Babilónia infernal;
mas dos vícios desatado,
e cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.

E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto já fiz
do grão livro dos viventes.
E tomando já na mão
a lira santa e capaz
doutra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão da paz.

Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento santo,
mova-se no mundo espanto,
que do que já mal cantei
a palinódia já canto.
A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
da alta torre de Sião,
à qual não posso subir
se me vós não dais a mão.

No grão dia singular
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles, que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co poder vão;
arrasai-os igualmente,
conheçam que humanos são.

E aquele poder tão duro
dos efeitos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que já me entraram o muro
do livre alvídrio que tenho;
estes, que tão furiosos
gritando vêm a escalar-me,
maus espíritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derrubar-me;

derrubai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nós
nem com eles ir a Vós,
nem sem Vós tirar-nos deles.
Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se vós, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.

E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhoreia!
Beato só pode ser
quem co a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste;

quem com disciplina crua
se fere mais que üa vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne na alma fez;
e beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e, em nacendo, os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes;

quem com eles logo der
na pedra do furor santo
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;
quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;

quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível,
ali achará alegria
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia
que nem, por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia.

Ali verá tão profundo
mistério na suma alteza
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
minha pátria singular!
Se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?

Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, despois de a ti subir,
lá descanse eternamente.