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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 31st, 2008

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Em defesa da vida humana, por Dom Geraldo M. Agnelo

A descoberta das células-tronco, capazes de regenerar diferentes tecidos de diferentes órgãos do corpo humano, constitui uma conquista da ciência, que abre para a esperança de terapias de grande eficácia, debelando doenças até agora sem solução. O estágio da pesquisa ainda é bastante inicial, com o entusiasmo e a confusão típicos dessas etapas de descoberta.

O debate atual a respeito do uso de embriões humanos para retirar células- tronco pluri-potentes, com finalidades terapêuticas, nasce de um grande equívoco, que ignora o significado de um embrião e as conseqüências para a criação de uma mentalidade desumana.

Um embrião não é um grumo de células, mas um indivíduo da espécie humana, e não é necessário partilhar uma visão cristã para compreender isto. Não se trata de uma verdade de fé, e sim de uma verdade que a razão é capaz de reconhecer. Com efeito, o embrião, apesar de seu pequeno tamanho, contém a informação genética (genoma) que presidirá ao seu desenvolvimento, até o nascimento e até a idade adulta. Não é vegetal, é animal. Tem a estrutura genética de um vertebrado, mamífero, humano. Desenvolveu-se humanamente, tanto é verdade, que pode ser submetido a tratamento terapêutico, para garantir o seu desenvolvimento.

Existindo uma seqüência do DNA típica e exclusivamente humana, cada ser que a possui pertence à humanidade e é um ser humano. E se é um ser humano, é uma pessoa, possui subjetividade jurídica. E se de pessoa se trata, devem ser-lhe reconhecidos os direitos fundamentais das outras pessoas, e entre estes, o direito à vida e à integridade física.

Essa é uma conquista da civilização e seria muito grave retornar aos tempos nos quais, não todos os seres humanos eram considerados pessoas, podendo ser comprados e vendidos, tratados como objetos.

No horizonte da fé cristã, que compreende o ser humano como criação, imagem e semelhança de Deus criador, ao ser humano é reconhecida uma dignidade inviolável, por isso ele é indisponível a qualquer tipo de redução a coisa.

Pensar que um embrião possa ser destruído, manipulado, tratado como um objeto, para aproveitar o poder especial que as suas células contêm, não é muito diferente do que comercializar crianças com a finalidade de utilizar seus órgãos, transplantando-os em indivíduos doentes.

Um ser humano não pode ser, em hipótese alguma, tratado como um meio, para qualquer fim, nem mesmo no caso em que esse fim fosse prolongar a vida de um semelhante.

A finalidade curativa é admirável, a finalidade econômica é interessante, o problema é o meio: o embrião torna-se um meio, uma coisa, um objeto de manipulação e de relações jurídicas (comprar, vender), como aconteceu com os negros, quando eram trazidos escravos da África.

As células-tronco existem não somente no embrião, mas também na placenta, no cordão umbilical e em algumas outras partes de um organismo humano adulto, de onde podem ser retiradas sem comprometer a sua existência. É verdade que as células dos embriões são mais potentes, oferecendo condições mais eficazes de ação terapêutica. Isto não pode constituir pretexto para lançar mão dos embriões, antes, quer dizer que a pesquisa deve avançar até encontrar formas de terapias que correspondam à dignidade humana e ao valor inviolável da existência.

É também falacioso o argumento de que “os embriões já existem, pois foram produzidos para a fecundação em laboratório em quantidade superior ao uso, portanto, deverão ser destruídos. Então, é melhor que sejam usados para fins terapêuticos, assim, terão a sorte de serem úteis a outros seres humanos e perpetuarão sua existência nas pessoas nas quais serão implantados, à semelhança da doação de órgãos de pessoas falecidas”.

Em primeiro lugar, trata-se de indivíduos vivos e não de cadáveres. Em segundo lugar, já a produção de embriões para fecundação artificial e, de modo especial, os embriões supranumerários são um problema que deve ser resolvido adequadamente. Não se resolve um problema acrescentando a ele um outro maior.

É importante prestar atenção às conseqüências que medidas dessa natureza trazem na mentalidade comum: vai tomando espaço a idéia de que o ser humano não é inviolável, podendo ser usado (comprado e vendido, fabricado e destruído) sempre que interesse de alguns, interesse do mercado, assim o exigirem. Não é necessária muita fantasia para compreender como se desenvolve, dessa maneira, uma mentalidade que transborda dos laboratórios de genética, passando a determinar a conduta das pessoas na convivência cotidiana. A cultura da morte está assim instalada e estão aí seus frutos de violência, de brutalidade, de prevalência do critério da utilidade sobre a dignidade sagrada e inviolável da pessoa.

Dom Geraldo M. Agnelo
Cardeal Arcebispo de Salvador

18/08/2004

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 30th, 2008

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Embriões humanos: nota da CNBB sobre a decisão do STF

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lamenta a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou a validade constitucional do artigo 5o e seus parágrafos da Lei de Biossegurança, n. 11.105/2005, que permite aos pesquisadores usarem, em pesquisas científicas e terapêuticas, os embriões criados a partir da fecundação in vitro e que estão congelados há mais de três anos em clínicas de fertilização.

A decisão do STF revelou uma grande divergência sobre a questão em julgamento, o que mostra que há ministros do Supremo que, nesse caso, têm posições éticas semelhantes à da CNBB. Portanto, não se trata de uma questão religiosa, mas de promoção e defesa da vida humana, desde a fecundação, em qualquer circunstância em que esta se encontra.

Reconhecer que o embrião é um ser humano desde o início do seu ciclo vital significa também constatar a sua extrema vulnerabilidade que exige o empenho nos confrontos de quem é fraco, uma atenção que deve ser garantida pela conduta ética dos cientistas e dos médicos, e de uma oportuna legislação nacional e internacional.

Sendo uma vida humana, segundo asseguram a embriologia e a biologia, o embrião humano tem direito à proteção do Estado. A circunstância de estar in vitro ou no útero materno não diminui e nem aumenta esse direito. É lamentável que o STF não tenha confirmado esse direito cristalino, permitindo que vidas humanas em estado embrionário sejam ceifadas.

No mundo inteiro, não há até hoje nenhum protocolo médico que autorize pesquisas científicas com células-tronco obtidas de embriões humanos em pessoas, por causa do alto risco de rejeição e de geração de teratomas.

Ao contrário do que tem sido veiculado e aceito pela opinião pública, as células-tronco embrionárias não são o remédio para a cura de todos os males. A alternativa mais viável para essas pesquisas científicas é a utilização de células-tronco adultas, retiradas do próprio paciente, que já beneficiam mais de 20 mil pessoas com diversos tipos de tratamento de doenças degenerativas.

Reafirmamos que o simples fato de estar na presença de um ser humano exige o pleno respeito à sua integridade e dignidade: todo comportamento que possa constituir uma ameaça ou uma ofensa aos direitos fundamentais da pessoa humana, primeiro de todos o direito à vida, é considerado gravemente imoral.

A CNBB continuará seu trabalho em favor da vida, desde a concepção até o seu declínio natural.

Brasília, 29 de maio de 2008.

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 27th, 2008

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A Morte de Indefesos, D. Eugênio de Araújo Sales

A coerência de atitudes decorre do nível moral e intelectual. O baixo grau de inteligência e a inexistência de valores na formação do caráter leva o indivíduo a adotar posições, avaliar comportamentos que afrontam as características de um homem de bem. Interesses subalternos emergem e assumem a liderança nas opções a serem feitas. Isso ocorre quando o assunto discutido é por exemplo, o aborto.

A humanidade, nos últimos tempos, percorreu, rapidamente, um extenso caminho no reconhecimento da dignidade humana e, em conseqüência, tomou posições louváveis na defesa dos direitos do indivíduo, especialmente da vida humana. Embora eles continuem a ser infringidos, clara é a condenação pela consciência universal a certas práticas, como a tortura, a falta de proteção à criança, a discriminação dos fracos, etc. Tribunais Internacionais têm sua área de atuação ampliada quando se trata dessa matéria. No entanto, continuam intocáveis gritantes violações da mais elementar concepção da dignidade humana, como se permanecessem no tempo os campos de concentração no padrão dos existentes na época de Hitler. É do Papa João Paulo II, a 4 de junho de 1991, esse impressionante comentário, feito na Diocese de Radom, Polônia: “O cemitério das vítimas da crueldade humana se estende em nosso século até incluir outro vasto cemitério, o dos não nascidos; cemitério dos indefesos, cujo rosto não foi conhecido nem sequer pela própria mãe que consentiu ou cedeu à pressão, fazendo com que a vida, mesmo antes de nascer, lhes fosse tirada”.

Parece estranho que a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” solenemente proclamada em 1948 seja esquecida em relação aos nascituros. Uma visão egoísta se reserva o direito de decidir quem pode ou não vir à luz. Essa mentalidade é altamente perigosa, como a tese do direito da mãe sobre seu corpo a se estender à supressão da vida do ser que foi por ela concebido. Diz o Papa na mesma ocasião em Radom: “Os códigos humanos do direito defendem a vida e punem os assassinos. Contemporaneamente, porém, é difícil não afirmar que o nosso século é o século marcado pela morte de milhões de homens inocentes”.

No entanto, a mesma sociedade que se horroriza, e com razão, pelos crimes contra os direitos humanos e pressiona os seus governantes para agir e tomar atitudes concretas, procede de maneira oposta quando se advoga o abortamento. Os números de supressão da vida intra-ulterina são fantásticos e por todo o mundo. Trata-se de um espécimen de incoerência.

No atual nível de conhecimentos científicos não se pode honestamente pôr em dúvida que a prática abortista seja a eliminação de um ser humano. É uma modalidade de aplicar a pena de morte a um inocente, e isso sem processo legal e regular. No caso de estupro, que culpa tem o feto no crime do estuprador? Paga pelo que não cometeu. É uma vítima da própria mãe. O mesmo se diga das razões genéticas. Por toda parte se defende a morte a quem a natureza não beneficiou com uma formação normal. Qual a diferença da morte antes ou depois de vir à luz? Assassinar no seio da mãe ou fora dele?

O assunto desperta acirradas discussões. Os argumentos sentimentais obscurecem a razão; eis o mais claro sinal da incoerência humana.

Hoje, dirijo-me aos católicos. Se assim nos declaramos, não nos é lícito escolher, do corpo doutrinário, o que nos agrada e rejeitar os pontos que não nos convém.

O Concílio Vaticano II declara: “São infames as seguintes coisas: tudo quanto se opõe à vida, como seja toda espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário” (Gaudium et Spes, nº 37).

Esse ensino é constante. Desde o primeiro século (Didaqué, 2.2), o aborto provocado era alvo de condenação: “Não matarás o embrião por aborto e não farás perecer o recém-nascido”. Em nossos dias, o Código de Direito Canônico (cânon 1398) é peremptório: “Quem provoca o aborto, seguindo-se o seu efeito, incorre em excomunhão latae sententiae” ou pelo próprio fato de se cometer o delito nas condições previstas pelo Direito. O Catecismo da Igreja Católica (nº 2272) afirma “A cooperação formal para um aborto constitui falta grave. A Igreja sanciona com uma pena canônica de excomunhão este delito contra a vida humana”. A doutrina é clara e não admite subterfúgios. Quem, dizendo-se católico, propõe algo diferente ou tenta interpretações falaciosas, não anula o que é oficialmente proclamado. A excomunhão atinge quem provoca o aborto mesmo por motivo de estupro, deformações de feto ou perigo de vida da mãe. Nele incorrem os que fisicamente cooperam, como médicos, enfermeiras, ou moralmente como marido ou pais, obrigando ou induzindo a mulher ou filha a fazê-lo.

A propaganda abortista costuma fundamentar-se na preservação da vida da mãe. No entanto, ninguém tem o direito de substituir a vida de um ser humano por outro. O critério usado leva a graves conseqüências para a sociedade, e começa pelo incremento à violência. A vida é sagrada. Essa convicção tem repercussão benéfica nos mais diversos aspectos de nossa existência.

A atitude firme da Igreja não exclui a benevolência e a misericórdia para com as infratoras ou infratores. O perdão está sempre à disposição dos sinceramente arrependidos.

Quando, Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, afirmou: “Advirto que todos os que estão a favor do aborto, já nasceram”. Presta-se essa reflexão a muitos e úteis raciocínios. Talvez muitos abortistas de hoje teriam sido vítimas de suas teses.

VOZ DO PASTOR

28/07/2000

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 27th, 2008

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Quando sofismas a favor do aborto

“A coerência de atitudes decorre do nível moral e intelectual. O baixo grau de inteligência e a inexistência de valores na formação do caráter leva o indivíduo a adotar posições, avaliar comportamentos que afrontam as características de um homem de bem. Interesses subalternos emergem e assumem a liderança nas opções a serem feitas. Isso ocorre quando o assunto discutido é por exemplo, o aborto”. (D. Eugênio Salles)

“Outrora quando fui outro”, isto é, quando lia assiduamente Fernando Pessoa, lembro-me de vê-lo definir, não me recordo onde, o estado d´alma de um marxista: num breve e mal-humorado parágrafo, mas acertadíssimo, o Supra-Camões mostra a degradação moral (mais do que presumível) dos que aderem a esse tipo de erro.

Lembro-me que Agostinho nos ensina que somente alguém bem corrompido consegue realmente achar que “Deus não existe”.

Pergunto: que resta pensar dos sofistas que defendem a carnificina abortista ?

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 26th, 2008

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Verdade, ciência e ética, por Luiz E. Garcez Leme e Dalton Luiz de Paula Ramos


Aqueles que tiveram o privilégio de conviver com o professor Luiz Décourt, uma das glórias da USP, Troféu Guerreiro da Educação de 2000, ouviam uma referência que lhe era cara, de Henri Poincaré, falando sobre a verdade científica e a verdade ética: “Os que amam uma não podem deixar de amar a outra. Para encontrar uma, assim como para encontrar a outra, é preciso esforçar-se para libertar completamente a alma do preconceito e da paixão, é preciso alcançar a sinceridade absoluta.”

Vivemos uma polêmica aparente entre ciência e ética no caso das células-tronco embrionárias. Aparente porque preconceito e paixão contaminam os argumentos ouvidos tanto na academia quanto na sociedade. A busca da verdade se prende à resposta desapaixonada de questões, neste caso, referentes às pesquisas com células-tronco obtidas a partir de embriões humanos.

Do ponto de vista científico, a medicina regenerativa é uma realidade bem-vinda, ao desvendar mecanismos com grande potencial de benefício à comunidade. As pesquisas com células-tronco adultas, células-tronco embrionárias animais ou mesmo humanas obtidas de cordão umbilical e de líquido amniótico são não apenas desejáveis como totalmente válidas do ponto de vista ético. Nesta seara da investigação, mesmo na perspectiva acadêmica, não há como negar que a linha de pesquisa com células-tronco embrionárias obtidas a partir de embriões humanos é a menos vistosa e a mais arriscada.

Enquanto resultados obtidos com células-tronco adultas, reversão de células à multipotencialidade, células embrionárias obtidas a partir de cordão umbilical e de líquido amniótico e mesmo a esperança de intervenções epigenéticas, estimulando e modulando as células-tronco presentes em todos os nossos órgãos, levam esperança de apoio às doenças degenerativas e traumáticas sem limitação ética, a pesquisa com células-tronco embrionárias obtidas a partir de embriões humanos exige dos pesquisadores uma grande fé.

Não nos enganemos: mesmo do ponto de vista metodológico, é necessária uma fé sólida para acreditar, entre outras coisas:

Que o número de embriões congelados em clínicas de reprodução seja suficiente para o desenvolvimento do projeto proposto, sem a ulterior solicitação de liberação de clonagem humana como conseqüência lógica, numa condição de plano inclinado.

Que o desenvolvimento de uma técnica eticamente controversa e com fonte de material limitada e resultados eventuais em longo prazo seja preferível à outra, sem limitação ética e com disponibilidade indefinida de material.

Do ponto de vista ético, a pergunta essencial é: o benefício eventual a médio ou longo prazo de pessoas doentes justifica o sacrifício atual de outras pessoas?

A discussão sobre se o embrião é ou não uma pessoa é árida; no entanto, a demonstração contrária é praticamente impossível. Salta aos olhos do observador mais desapaixonado a forte possibilidade de que um ser humano, uma pessoa, já esteja presente desde os primeiros momentos da fecundação. Por outro lado, a simples possibilidade de existência humana exige cuidado. Assim não fora, não seria lógico que equipes procurassem vítimas em desabamentos. Uma boa apólice de seguro resolveria o problema.

Na Europa e nas Américas se estabeleceram normas para a condução das pesquisas científicas com seres humanos. Criaram-se comitês de ética em pesquisa para proteger cada vida humana, principalmente as mais vulneráveis, daqueles ainda sem voz ou cujos clamores não são ouvidos. Visa-se a garantir que os voluntários para as pesquisas optem por sua participação conscientes e esclarecidos, livres de constrangimentos ou pressões que comprometam sua livre decisão. A autonomia do próprio sujeito da pesquisa é o primeiro princípio ético proclamado. E que paradoxo! Pretende-se agora, por lei, decidir o destino de vidas frágeis, silenciosas, decidir por quem não se pode manifestar, isto é, os embriões.

Uma vida humana não constitui um “bem patrimonial”, de propriedade de terceiros, de seus familiares ou do Estado. Não se vende um filho ou uma filha como se negocia um imóvel ou um carro. Bem compreendida, a responsabilidade dos pais é de proteção e zelo para que a prole se desenvolva e possa ter uma vida digna. Este é o fulcro da discussão.

É importante ter presente que a defesa de um ou de outro lado não coloca automaticamente o oponente na categoria de intolerante religioso insensível ao sofrimento humano ou de irresponsável agressor da vida e da dignidade humanas, manipulador de esperanças de pessoas doentes. Trata-se, com certeza, de pessoas que procuram, de boa-fé, o que lhes parece melhor para o bem das pessoas. Não se trata de uma questão religiosa, como sucede com quase todas as questões bioéticas, ligadas de maneira muito mais sólida ao direito e à ética natural. Afinal, todos concordam que roubar é crime, independentemente do sétimo mandamento.

Henri Poincaré afirma, no mesmo texto, referindo-se à verdade científica e à verdade ética, que “aqueles que têm medo de uma também terão da outra, pois são aqueles que, em todas as situações, se preocupam, antes de tudo, com as conseqüências”.

A solução da polêmica sobre o uso de embriões humanos passará certamente por uma ampla discussão científica e, necessariamente, ética, vertentes da mesma realidade, na qual artifícios publicitários não deveriam ser considerados legítimos. Legítimo será nos perguntarmos sobre a verdade e o bem, como nos poderia lembrar o saudoso professor Décourt.

Luiz E. Garcez Leme, médico, professor associado da Faculdade de Medicina da USP, é membro do Comitê de Ética em Pesquisa do HCFMUSP.
Dalton Luiz de Paula Ramos, professor associado de Bioética da Faculdade de Odontologia da USP, é membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 13th, 2008

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César e Catão: algo de Salústio para ser relido

Lendo e ouvindo as muitas façanhas feitas pelo povo Romano na paz e na guerra, no mar e em terra, ocorreu-me o desejo de indagar que causas tornaram possivel tão grande atividade. Sabia eu que freqüentes vezes um punhado de homens se tinham batido com grandes legiões inimigas; tinham tido a oportunidade de conhecer que com recursos escassos se guerreara contra reis poderosos; que, além do mais, tivéramos com freqüência de suportar os golpes da fortuna, e que os gregos, pela eloqüência, e os gauleses, pela glória militar, estavam à frente dos Romanos.

À custa de muita reflexão, eu chegava a conclusão de que o valor eminente de uns poucos cidadãos tinha conseguido realizar tudo isso e assim se deu que a pobreza prevaleceu sobre a riqueza, a pouquidade, sobre a multidão.

Mas depois que o luxo e a ociosidade corromperam a Nação, a República, pela sua própria grandeza, foi, por sua vez, capaz de suportar os vícios dos generais e magistrados e, Roma, como se tivesse exaurida sua fecundidade, por longos anos não produziu nenhuma grande figura. Em meu tempo, porém, houve dois homens de extraordinãrio valor, de caracteres opostos: Marco Catão e Caio Cesar.

Pois bem, eles, pelo nascimento, idade, eloqüência, eram quase iguais; a mesma grandeza de alma, o mesmo desejo de glória também, mas cada um à sua maneira. À custa de favores e liberalidades granjeara César seu prestígio; Catão, pela integridade de sua vida. Aquele pela mansidão e clemência se fizera ilustre; a este a austeridade conferira o respeito. Ambos chegaram à glória: César dando, ajudando, perdoando; Catão, nada concedendo. Um era o refúgio dos infelizes, o outro a ruína dos maus. De um se louvava a condescendência, do outro a coerência. Por fim, César se propusera trabalhar, vigiar, descuidar de seus interesses para se consagrar aos interesses dos amigos; para si ambicionava uma grande missão, um exército, uma guerra diferente onde pudesse resplandecer seu valor. E Catão tinha o gosto da moderação, do dever, mas, acima de tudo, da austeridade. As armas com que lutava não eram a riqueza com os ricos nem a intriga com o intrigante, mas a coragem com o bravo, a discrição com o modesto, a integridade com o honesto. Preferia ser a parecer bom; por isso, quanto menos procurava a glória, mais ela o perseguia. Ita quo minus petebat gloriam, eo magis illum adsequebatur.

Salústio: De Coniuratione Catilinae, Sobre a conjuração de Catilina, 53-54.

Sed mihi multa legenti, multa audienti, quae populus Romanus domi militiaeque, mari atque terra praeclara facinora fecit, forte lubuit adtendere, quae res maxume tanta negotia sustinuisset. [3] sciebam saepenumero parva manu cum magnis legionibus hostium contendisse; cognoveram parvis copiis bella gesta cum opulentis regibus, ad hoc saepe fortunae violentiam toleravisse, facundia Graecos, gloria belli Gallos ante Romanos fuisse. [4] ac mihi multa agitanti constabat paucorum civium egregiam virtutem cuncta patravisse, eoque factum, uti divitias paupertas, multitudinem paucitas superaret. [5] sed postquam luxu atque desidia civitas conrupta est, rursus res publica magnitudine sua imperatorum atque magistratuum vitia sustentabat ac, sicuti effeta partu, multis tempestatibus haud sane quisquam Romae virtute magnus fuit. [6] sed memoria mea ingenti virtute, divorsis moribus fuere viri duo, M. Cato et C. Caesar. quos quoniam res obtulerat, silentio praeterire non fuit consilium, quin utriusque naturam et mores, quantum ingenio possum, aperirem.

LIV.[1] Igitur iis genus, aetas, eloquentia prope aequalia fuere, magnitudo animi par, item gloria, sed alia alii. [2] Caesar beneficiis ac munificentia magnus habebatur, integritate vitae Cato. ille mansuetudine et misericordia clarus factus, huic severitas dignitatem addiderat. [3] Caesar dando, sublevando, ignoscundo, Cato nihil largiundo gloriam adeptus est. in altero miseris perfugium erat, in altero malis pernicies. illius facilitas, huius constantia laudabatur. [4] postremo Caesar in animum induxerat laborare, vigilare; negotiis amicorum intentus sua neglegere, nihil denegare, quod dono dignum esset; sibi magnum imperium, exercitum, bellum novom exoptabat, ubi virtus enitescere posset. [5] at Catoni studium modestiae, decoris, sed maxume severitatis erat; [6] non divitiis cum divite neque factione cum factioso, sed cum strenuo virtute, cum modesto pudore, cum innocente abstinentia certabat; esse quam videri bonus malebat: ita, quo minus petebat gloriam, eo magis illum adsequebatur.

in: NOVAK, Maria da Glória: Antologia Bilíngüe de Escritos Latinos pp. 41-43.

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 13th, 2008

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Mentalidade revolucionária dos schuonianos? (Pedro Sette Câmara)

Leio com interesse o que Olavo de Carvalho escreve sobre a mentalidade revolucionária. Ele mesmo dá uma ótima explicação do que se trata:

” ´Mentalidade revolucionária´ é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política; e acredita que, como agente ou portador de um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao “tribunal da História”. Mas o tribunal da História é, por definição, a própria sociedade futura que esse indivíduo ou grupo diz representar no presente; e, como essa sociedade não pode testemunhar ou julgar senão através desse seu mesmo representante, é claro que este se torna assim não apenas o único juiz soberano de seus próprios atos, mas o juiz de toda a humanidade, passada, presente ou futura. Habilitado a acusar e condenar todas as leis, instituições, crenças, valores, costumes, ações e obras de todas as épocas sem poder ser por sua vez julgado por nenhuma delas, ele está tão acima da humanidade histórica que não é inexato chamá-lo de Super-Homem.”

Mas, ao ler isto, não consigo deixar de me lembrar de René Guénon, que afirmava que estávamos ao fim de um ciclo terrível, o Kali-Yuga, e que a próxima Idade de Ouro seria preparada por uma pequena e discreta elite. Não seria possível trocar alguns termos deste trecho e colocar os termos de Guénon? Em vez de “ação política”, teríamos “ação cultural” ou “ação espiritual”; em vez de “tribunal da História”, teríamos o líder de uma sociedade secreta ou a própria idéia de sociedade tradicional. Aliás, não existe esoterismo sem a idéia de elitismo, sem uma hierarquização entre “nós que somos superiores” e “eles que são inferiores”, os meros objetos inermes da ação daquela elite. Isto me recorda outro bom trecho de Olavo de Carvalho em que fala do continuador mais conhecido da obra de René Guénon, o sheikh da Tariqat de Maria, Frithjof Schuon:

Schuon sempre soube que as grandes transformações históricas vêm de cima, que os movimentos de massa não são senão o efeito remoto da influência espiritual exercida sobre os corações e mentes dos homens mais cultos e capacitados. A abertura da Europa ao Islam não começou com a importação de trabalhadores. Começou com discretos rituais místicos em Oxford e Cambridge, aos quais o prestígio de intelectuais de primeiro plano acabou atraindo membros do Parlamento e até o príncipe herdeiro.

Seria então Schuon um “revolucionário” num sentido adaptado do sentido de Olavo? A “mentalidade revolucionária” se aplica a estes homens brilhantes que, a mando de organizações esotéricas de vago fundo islâmico, dedicam-se conscientemente a atrair os melhores de uma cultura para sua própria sociedade secreta, passando por cima de laços e compromissos firmados na biografia de cada um deles?

Dou um exemplo bem próximo. Sei que um dos membros brasileiros da antiga Tariqat de Maria está freqüentando o ambiente da missa melquita de São Paulo. Existem dois tipos de católicos que freqüentam a missa melquita: aqueles que têm raízes orientais, que nasceram naquela cultura (no Brasil, freqüentemente de origem libanesa), e aqueles que sempre acompanharam o rito romano mas ficaram cansados dos abusos litúrgicos – abraços, violões, palmas etc. Este membro, que publicamente não admitirá receber ordens de alguém nos EUA ou na Inglaterra, e muito menos que pratica ritos que não são católicos nem cristãos, dedica-se a espalhar animosidade contra o Papa Bento XVI entre os católicos de tendência mais conservadora – portanto, os ideologicamente mais preciosos. Ele diz defender a Verdade e altos valores espirituais, mas não tem problemas em omitir sua filiação a uma organização de fundo islâmico; não sente nada ao maquiavelicamente justificar os meios com os fins. O efeito prático, socialmente falando, é mercurial: divide-se a comunidade. Espiritualmente falando, o efeito é puro enxofre: enche de orgulho a alma de indivíduos que subitamente se sentem habilitados a julgar o Papa (já fui culpado disto: falo por experiência) e a condená-lo por não ser suficientemente “tradicional”. Ek toú karpoú déndron gignosco, “pelos frutos conheço a árvore”, já diziam os gregos, antes mesmo de Jesus. Entrar em uma casa apenas para semear a discórdia e a divisão certamente é um pecado grave; mas, diante do plano maior de preparação da suposta sociedade tradicional futura, é apenas um ovo que tem que ser quebrado para fazer a omelete…

Por mais duras que sejam as divisões entre os cristãos, os debates sempre foram claros, e muitos não-católicos elogiaram a tomada de posição recente do Vaticano, reafirmando a Igreja Católica como a única verdadeira, simplesmente porque preferem discutir abertamente a ter a sensação de que estão tentando lhes passar a perna. Por mais duras que sejam as disputas entre as religiões, qualquer religioso preferirá a animosidade explícita a ser manipulado por uma sociedade secreta que se coloca acima de todas as religiões e se arroga o direito de dirigi-las.

Pois então pergunto: não se pode tomar a idéia da mentalidade revolucionária, que se volta para a esfera da ação política, e transportá-la para a esfera cultural e espiritual, certamente menos sangrenta, mas muito mais perigosa, já que o que está em jogo não é a morte do corpo, mas da alma? Que nome dar a estes homens (ainda não vi nenhuma mulher) que se dedicam a destruir comunidades, retirar delas seus membros mais valiosos, e torná-los parte de uma conspiração para destruí-las?

FONTE: http://oindividuo.com/?s=Bento+XVI

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 11th, 2008

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CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA PASTOR AETERNUS

Concílio do Vaticano
Sessão IV (18-7-1870)
Primeira Constituição dogmática sobre a Igreja de Cristo

1821. O eterno pastor e bispo das nossas almas [1 Pd 2,25], querendo perpetuar a salutífera obra da redenção, resolveu fundar a Santa Igreja, na qual, como na casa do Deus vivo, todos os fiéis se conservassem unidos, pelo vínculo da mesma fé e do mesmo amor. Por isso, antes de ser glorificado, rogou ao Pai não só pelos Apóstolos, mas também por aqueles que haviam de crer nele através das palavras deles, para que todos fossem um, assim como o Filho e o Pai são um [ Jo 17,20 s]. Por isso, assim como enviou os Apóstolos que tinha escolhido do mundo, conforme tinha sido ele mesmo enviado pelo Pai [Jo 20,21], da mesma forma quis que até a consumação dos séculos [Mt 28,20], houvesse na sua Igreja pastores e doutores. Mas, para que o próprio episcopado fosse uno e indiviso, e pela coesão e união íntima dos sacerdotes toda a multidão dos crentes se conservasse na unidade da mesma fé e comunhão, antepondo S. Pedro aos demais Apóstolos, pôs nele o princípio perpétuo e o fundamento visível desta dupla unidade, sobre cuja solidez se construísse o templo eterno e se levantasse sobre a firmeza desta fé a sublimidade da Igreja, que deve elevar-se até ao céu. E como as portas do inferno se insurgem de todas as partes de dia para dia com crescente ódio contra a Igreja divinamente estabelecida, a fim de fazê-la ruir, se pudessem, Nós julgamos necessário para a guarda, para a incolumidade e para o aumento da grei católica, após a aprovação do Concílio, propor a crença dos fiéis a doutrina sobre a instituição, a perpetuidade e a natureza do santo primado Apostólico, no qual reside a força e a solidez de toda a Igreja, segundo a fé antiga e constante da Igreja universal, proscrevendo e condenando os erros contrários, tão perniciosos a grei do Senhor.

Cap. I – A instituição do primado apostólico em S. Pedro

1822. Ensinamos, pois, e declaramos, segundo o testemunho do Evangelho, que Jesus Cristo prometeu e conferiu imediata e diretamente o primado de jurisdição sobre toda a Igreja ao Apóstolo S. Pedro. Com efeito, só a Simão Pedro, a quem antes dissera: Chamar-te-ás Cefas [Jo 1,42], depois de ter ele feito a sua profissão com as palavras: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo, foi que o Senhor se dirigiu com estas solenes palavras: Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque nem a carne nem o sangue to revelaram, mas sim meu Pai que está nos céus. E eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E dar-te-ei as chaves do reino dos céus. E tudo o que ligares sobre a terra será ligado também nos céus; e tudo o que desligares sobre a terra será desligado também nos céus [Mt 16,16 ss]. E somente a Simão Pedro conferiu Jesus, após a sua ressurreição, a jurisdição de pastor e chefe supremo de todo o seu rebanho, dizendo: Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas [Jo 21,15 ss.]. A esta doutrina tão clara das Sagradas Escrituras, tal como sempre foi entendida pela Igreja Católica, opõe-se abertamente as sentenças perversas daqueles que, desnaturando a forma de governo estabelecida na Igreja por Cristo Nosso Senhor, negam que só Pedro foi agraciado com o verdadeiro e próprio primado de jurisdição, com exclusão dos demais Apóstolos, quer tomados singularmente, quer em conjunto. Igualmente se opõem a esta doutrina os que afirmam que o mesmo primado não foi imediata e diretamente confiado a S. Pedro mesmo, mas à Igreja, e por meio desta a ele, como ministro dela.

1823. [Cânon] Se, pois, alguém disser que o Apóstolo S. Pedro não foi constituído por Jesus Cristo príncipe de todos os Apóstolos e chefe visível de toda a Igreja militante; ou disser que ele não recebeu direta e imediatamente do mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo o primado de verdadeira e própria jurisdição, mas apenas o primado de honra – seja excomungado.

Cap. II – A perpetuidade do primado de S. Pedro nos Romanos Pontífices

1824. Porém o que Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o príncipe dos pastores e o grande pastor das ovelhas, instituiu no Apóstolo S. Pedro para a salvação eterna e o bem perene da Igreja, deve constantemente subsistir pela autoridade do mesmo Cristo na Igreja, que, fundada sobre o rochedo, permanecerá inabalável até ao fim dos séculos. “Ninguém certamente duvida, pois é um fato notório em todos os séculos, que S. Pedro, príncipe e chefe dos Apóstolos, recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano, as chaves do reino; o qual (S. Pedro) vive, governa e julga através dos seus sucessores”.

1825. [Cânon] Se, portanto, alguém negar ser de direito divino e por instituição do próprio Cristo que S. Pedro tem perpétuos sucessores no primado da Igreja universal; ou que o Romano Pontífice é o sucessor de S. Pedro no mesmo primado – seja excomungado

Cap. III – A natureza e o caráter do primado do Pontífice Romano

1826. Por isso, apoiados no testemunho manifesto da Sagrada Escritura, e concordes com os decretos formais e evidentes, tanto dos Romanos Pontífices, nossos predecessores, como dos Concílios gerais, renovamos a definição do Concílio Ecumênico de Florença, que obriga todos os fiéis cristãos a crerem que a Santa Sé Apostólica e o Pontífice Romano têm o primado sobre todo o mundo, e que o mesmo Pontífice Romano é o sucessor de S. Pedro, o príncipe dos Apóstolos, é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja e o pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele entregou Nosso Senhor Jesus Cristo todo o poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, conforme também se lê nas atas dos Concílios Ecumênicos e nos sagrados cânones.

1827. Ensinamos, pois, e declaramos que a Igreja Romana, por disposição divina, tem o primado do poder ordinário sobre as outras Igrejas, e que este poder de jurisdição do Romano Pontífice, poder verdadeiramente episcopal, é imediato. E a ela [à Igreja Romana] devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo, de tal forma que, guardada a unidade de comunhão e de fé com o Romano Pontífice, a Igreja de Cristo seja um só redil com um só pastor. Esta é a doutrina católica, da qual ninguém pode se desviar, sob pena de perder a fé e a salvação.

1828. Estamos, porém, longe de afirmar que este poder do Sumo Pontífice acaba com aquele poder ordinário e imediato de jurisdição episcopal, em virtude do qual os bispos, constituídos pelo Espírito Santo [cf. At 20,28] e sucessores dos Apóstolos, apascentam e regem, como verdadeiros pastores, os seus respectivos rebanhos; pelo contrário, este poder é firmado, corroborado e reivindicado pelo pastor supremo e universal, segundo o dizer de S. Gregório Magno: “A minha honra é o vigor dos meus irmãos. Sinto-me verdadeiramente honrado, quando a cada qual se tributa a honra que lhe é devida”.

1829. Além disso, do supremo poder do Romano Pontífice de governar toda a Igreja resulta o direito de, no exercício deste seu ministério, comunicar-se livremente com os pastores e fiéis de toda a Igreja, para que estes possam ser por ele instruídos e dirigidos no caminho da salvação. Pelo que condenamos e reprovamos as máximas daqueles que dizem poder-se impedir licitamente esta comunicação do chefe supremo com os pastores e os fiéis, ou a subordinam ao poder secular, a ponto de afirmarem que o que é determinado pela Sé Apostólica em virtude da sua autoridade para o governo da Igreja, não tem força nem valor, a não ser depois de confirmado pelo beneplácito do poder secular.

1830. E como o Pontífice Romano governa a Igreja Universal em virtude do direito divino do primado apostólico, também ensinamos e declaramos que ele é o juiz supremo de todos os fiéis, podendo-se, em todas as coisas pertencentes ao foro eclesiástico, recorrer ao seu juízo; [declaramos] também que a ninguém é lícito emitir juízo acerca do julgamento desta Santa Sé, nem tocar neste julgamento, visto que não há autoridade acima da mesma Santa Sé. Por isso, estão fora do reto caminho da verdade os que afirmam ser lícito apelar da sentença do Pontífices Romanos para o Concílio Ecumênico, como sendo uma autoridade acima do Romano Pontífice.

1831. [Cânon] Se, pois alguém disser que ao Romano Pontífice cabe apenas o ofício de inspeção ou direção, mas não o pleno e supremo poder de jurisdição sobre toda a Igreja, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao governo da Igreja, espalhada por todo o mundo; ou disser que ele só goza da parte principal deste supremo poder, e não de toda a sua plenitude; ou disser que este seu poder não é ordinário e imediato, quer sobre todas e cada uma das igrejas quer sobre todos e cada um dos pastores e fiéis – seja excomungado.

Cap. IV – O Magistério infalível do Romano Pontífice

1832. Esta Santa Sé sempre tem crido que no próprio primado Apostólico que o Romano Pontífice tem sobre toda a Igreja, está também incluído o supremo poder do magistério. O mesmo é confirmado também pelo uso constante da Igreja e pelos Concílios Ecumênicos, principalmente aqueles em que os Orientais se reuniam com os Ocidentais na união da fé e da caridade.

1833. Assim, os Padres do IV Concílio de Constantinopla, seguindo o exemplo dos antepassados, fizeram esta solene profissão da fé: “A salvação consiste antes de tudo em guardar a regra da fé verdadeira. [...]. E como a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo que disse: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja [Mt 16,18] não pode ser vã, os fatos a têm confirmado, pois na Sé Apostólica sempre se conservou imaculada a religião católica e santa a doutrina. Por isso, não desejando absolutamente separar-nos desta fé e desta doutrina, [...] esperamos merecer perseverar na única comunhão pregada pela Sé Apostólica, na qual está sólida, íntegra e verdadeira a religião cristã”.

1834. E os gregos, com a aprovação do II Concílio de Lião, professaram “que a Santa Igreja Romana goza do supremo e pleno primado e principado sobre toda a Igreja Católica, primado que com verdade ela reconhece humildemente ter recebido, com a plenitude do poder, do próprio Jesus Cristo, na pessoa de S. Pedro, príncipe dos Apóstolos, de quem o Romano Pontífice é sucessor; e assim com a Igreja Romana, mais do que as outras, deve defender a verdadeira fé assim também, quando surgirem questões acerca da fé, cabe a ela o defini-las”.

1835. E finalmente o Concílio de Florença definiu “que o Romano Pontífice é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja, o pai e o doutor de todos os cristãos; e que a ele conferiu Nosso Senhor Jesus Cristo, na pessoa de S. Pedro, o pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja”.

1836. Com o fim de satisfazer a este múnus pastoral, os nossos predecessores empregaram sempre todos os esforços para propagar a salutar doutrina de Cristo entre todos os povos da Terra, vigiando com igual solicitude que, onde fosse recebida, se guardasse pura e sem alteração. Pelo que os bispos de todo o mundo, quer em particular, quer reunidos em sínodos, seguindo o velho costume e a antiga regra da Igreja, têm referido a esta Sé Apostólica os perigos que surgiam, principalmente em assuntos de fé, a fim de que os danos da fé se ressarcissem aí, onde a fé não pode sofrer quebra. E os Pontífices Romanos, conforme lhes aconselhavam a condição dos tempos e as circunstâncias, ora convocando Concílios Ecumênicos, ora auscultando a opinião de toda a Igreja dispersa pelo mundo, ora por sínodos particulares ou empregando outros meios, que a Divina Providência lhes proporcionava, têm definido como verdade de fé [tudo] aquilo que, com o auxílio de Deus, reconheceram ser conforme com a Sagrada Escritura e as tradições apostólicas. Pois o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de S. Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo, pregassem uma nova doutrina, mas para que, com a sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da fé, ou seja, a revelação herdada dos Apóstolos. E esta doutrina dos Apóstolos abraçaram-na todos os veneráveis Santos Padres, veneraram-na e seguiram-na todos os santos doutores ortodoxos, firmemente convencidos de que esta cátedra de S. Pedro sempre permaneceu imune de todo o erro, segundo a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo feita ao príncipe dos Apóstolos: Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos [Lc 22, 32].

1837. Foi, portanto, este Dom da verdade e da fé, que nunca falece, concedido divinamente a Pedro e aos seus sucessores nesta cátedra, a fim de que cumprissem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do venenoso engodo do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim, removida toda ocasião de cisma, e apoiada no seu fundamento, se conservasse unida a Igreja Universal, firme e inexpugnável contra as portas do inferno.

1838. Mas, como nestes nossos tempos, em que mais do que nunca se precisa da salutífera eficácia do ministério apostólico, muitos há que combatem esta autoridade, julgamos absolutamente necessário afirmar solenemente esta prerrogativa que o Filho Unigênito de Deus dignou-se ajuntar ao supremo ofício pastoral.

1839. Por isso Nós, apegando-nos à Tradição recebida desde o início da fé cristã, para a glória de Deus, nosso Salvador, para exaltação da religião católica, e para a salvação dos povos cristãos, com a aprovação do Sagrado Concílio, ensinamos e definimos como dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, quando, no desempenho do ministério de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica alguma doutrina referente à fé e à moral para toda a Igreja, em virtude da assistência divina prometida a ele na pessoa de São Pedro, goza daquela infalibilidade com a qual Cristo quis munir a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé e a moral; e que, portanto, tais declarações do Romano Pontífice são por si mesmas, e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis.

1840. [Cânon]: Se, porém, alguém ousar contrariar esta nossa definição, o que Deus não permita, – seja excomungado.

(Numeração de acordo com DS.)

Tradução: Frei Guilherme Baraúna

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 7th, 2008

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Por que a Missa de costas para o povo ?, cardeal Joseph Ratzinger

Versus Deum per Iesum Christum

“A direção última da ação litúrgica, nunca totalmente expressa nas formas exteriores, é a mesma para o sacerdote e para o povo: voltados para o Senhor”. A introdução do decano do Sacro Colégio ao livro de Uwe Michael Lang
Para o católico praticante normal, dois parecem ser os resultados mais evidentes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II: o desaparecimento da língua latina e o altar orientado para o povo. Quem ler os textos conciliares poderá constatar, com espanto, que nem uma nem outra coisa se encontram neles desta forma.
Claro, seria preciso dar espaço à língua vulgar, segundo as intenções do Concílio (cf. Sacrosanctum Concilium 36, 2) – sobretudo no âmbito da liturgia da Palavra – mas, no texto conciliar, a norma geral imediatamente precedente reza: “O uso da língua latina, salvo quando se tratar de um direito particular, seja conservado nos ritos latinos” (Sacrosanctum Concilium 36, 1).
Sobre a orientação do altar para o povo, não há sequer uma palavra no texto conciliar. Ela é mencionada em instruções pós-conciliares. A mais importante delas é a Institutio generalis Missalis Romani, a Introdução Geral ao novo Missal Romano, de 1969, onde, no número 262, se lê: “O altar maior deve ser construído separado da parede, de modo a que se possa facilmente andar ao seu redor e celebrar, nele, olhando na direção do povo [versus populum]”. A introdução à nova edição do Missal Romano, de 2002, retomou esse texto à letra, mas, no final, acrescentou o seguinte: “Isso é desejável sempre que possível”. Esse acréscimo foi lido por muitos como um enrijecimento do texto de 1969, no sentido de que agora haveria uma obrigação geral de construir – “sempre que possível” – os altares voltados para o povo. Essa interpretação, porém, já havia sido repelida pela Congregação para o Culto Divino, que tem competência sobre a questão, em 25 de setembro de 2000, quando explicou que a palavra “expedit” [é desejável] não exprime uma obrigação, mas uma recomendação. A orientação física deveria – assim diz a Congregação – ser distinta da espiritual. Quando o sacerdote celebra versus populum, sua orientação espiritual deveria ser sempre versus Deum per Iesum Christum [para Deus, por meio de Jesus Cristo]. Sendo que ritos, sinais, símbolos e palavras nunca podem esgotar a realidade última do mistério da salvação, devem-se evitar posições unilaterais e absolutizantes a respeito dessa questão.

Esse esclarecimento é importante, pois deixa transparecer o caráter relativo das formas simbólicas externas, opondo-se, assim, aos fanatismos que infelizmente nos últimos quarenta anos não tiveram pequena freqüência nos debates em torno da liturgia. Mas, ao mesmo tempo, ilumina também a direção última da ação litúrgica, nunca totalmente expressa nas formas exteriores, e que é a mesma para o sacerdote e para o povo (voltados para o Senhor: para o Pai, por meio de Cristo no Espírito Santo). A resposta da Congregação deveria, portanto, criar um clima menos tenso para a discussão; um clima no qual possam ser procuradas as melhores maneiras de realização prática do mistério da salvação, sem condenações recíprocas, ouvindo atentamente aos outros, mas sobretudo ouvindo as indicações últimas da própria liturgia. Etiquetar apressadamente certas posições como “pré-conciliares”, “reacionárias”, “conservadoras”, ou “progressistas” ou “estranhas à fé”, não deveria mais ser admitido nesse embate, no qual se deveria muito mais deixar espaço a um novo e sincero esforço comum para realizar a vontade de Cristo da melhor forma possível.

Este pequeno livro de Uwe Michael Lang, oratoriano residente na Inglaterra, analisa a questão da orientação da oração litúrgica do ponto de vista histórico, teológico e pastoral. Fazendo isso, reacende, num momento oportuno – assim me parece -, um debate que, apesar das aparências, nunca cessou realmente, mesmo depois do Concílio.

O liturgista de Innsbruck Josef Andreas Jungmann, um dos idealizadores da Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II, opôs-se firmemente desde o início ao polêmico lugar comum segundo o qual o sacerdote, até aquele momento, teria celebrado “voltando as costas para o povo”. Jungmann sublinhava, ao contrário, que não se tratava de voltar as costas para o povo, mas de assumir a mesma orientação do povo. A liturgia da Palavra tem caráter de proclamação e de diálogo: é dirigir a palavra e responder, e deve ser, conseqüentemente, o voltar-se recíproco de quem proclama para quem escuta e vice-versa. Já a oração eucarística é a oração em que o sacerdote serve de guia, mas na qual está orientado, ao lado do povo e como o povo, para o Senhor. Por isso – segundo Jungmann -, uma mesma direção do sacerdote e do povo pertence à essência da ação litúrgica. Mais tarde, Louis Bouyer – outro dos principais liturgistas do Concílio – e Klaus Gamber, cada um a seu modo, retomaram a questão. Apesar de sua grande autoridade, tiveram desde o início alguns problemas em se fazer ouvir, tão forte era a tendência a pôr em relevo o elemento comunitário da celebração litúrgica e a considerar, por isso, o sacerdote e o povo como reciprocamente voltados um para o outro.

Apenas recentemente o clima se fez menos tenso e, assim, quando alguém faz perguntas como as de Jungmann, Bouyer e Gamber, já não desperta mais a suspeita de que alimente sentimentos “anticonciliares”. Os progressos da pesquisa histórica tornaram o debate mais objetivo, e os fiéis intuem cada vez mais o quanto pode ser discutível uma solução na qual se percebe, a duras penas, a abertura da liturgia para o que a espera e para o que a transcende. Nessa situação, o livro de Uwe Michael Lang, tão agradavelmente objetivo e em nada polêmico, pode revelar-se uma ajuda preciosa. Sem a pretensão de apresentar novas descobertas, ele oferece com grande cuidado os resultados das pesquisas realizadas nas últimas décadas, fornecendo as informações necessárias para que se possa chegar a um juízo objetivo. É muito positivo o fato de se evidenciar, a esse respeito, não apenas a contribuição da Igreja da Inglaterra, pouco conhecida na Alemanha, mas também o debate sobre a questão, interno ao Movimento de Oxford no século XIX, em cujo contexto amadureceu a conversão de John Henry Newman. É com base nisso que se desenvolvem depois as respostas teológicas.

Espero que este livro de um jovem estudioso possa revelar-se uma ajuda no esforço – necessário a todas as gerações – de compreender corretamente e celebrar dignamente a liturgia. Meus votos são de que possa encontrar muitos leitores atentos.

O texto do cardeal Joseph Ratzinger é o prefácio que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé escreveu ao livro de Uwe Michael Lang, “Conversi ad Dominum”. Zu Geschichte und Theologie der christlichen Gebetsrichtung, publicado no ano passado na Suíça pela Johannes Verlag Einsiedeln. Está saindo a edição em língua inglesa (dieTurning Towards the Lord: Orientation in Liturgical Prayer), pela editora Ignatius Press, de São Francisco (EUA), que detém os direitos da obra.
Uwe Michael Lang é membro do Oratório de São Filipe Néri, em Londres, estudou teologia em Viena e Oxford e publicou numerosos textos sobre temas patrísticos.

FONTE http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=3510

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Omayr José de Moraes Júnior

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maio 5th, 2008

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A vida intectual, Pe. Sertillanges OP (1863-1948)

É difícil dar um conselho determinado sobre o que convém aprender, e menos ainda sobre a dosagem dos elementos admitidos num plano de trabalho. Santo Tomás não fala disso nos Dezasseis Preceitos. É questão de vocação pessoal, em correlação com o fim a alcançar. Contudo, é possível dar breves indicações que sirvam de ponto de partida a úteis reflexões. Não tomamos a questão na sua origem primeira; falamos para pessoas que já ultrapassaram a idade escolar e se propõem organizar ou completar estudos profundos. Vêm aqui a propósito as interessantes observações do P. Gratry sobre a Ciência Comparada. A maneira Como as desenvolve será talvez um pouco antiquada, no entanto merecem ser seriamente ponderadas pelos intelectuais de nossos dias. Entendemos por ciência comparada o alargamento das especialidades pela aproximação das disciplinas conexas e a subordinação das mesmas e do seu conjunto à filosofia geral e à teologia. Embora cultivemos uma especialidade, não é prudente, nem fecundo, confinar-nos nela exclusivamente. Equivaleria a pôr antolhos. Nenhuma ciência se basta a si mesma; nenhuma disciplina, encarada em si só, é luz suficiente para iluminar os seus caminhos. Isolada, mirra-se, emagrece, estiola-se e, na primeira ocasião, extravia-se. A cultura parcial é sempre indigente e precária. O espírito ressente-se disso continuamente; a falta de liberdades de movimentos e de segurança de visão paraliza os gestos. Podemos asseverar sem paradoxo que cada ciência, profundada, daria as demais ciências, as ciências a poesia, a poesia e as ciências a moral, depois a política e a própria religião no que esta possui de humano. Tudo está em tudo: divisões, só as opera a abstracção. Abstrair não é mentir, reza o provérbio: abstrahere non est mentiri, contanto que a abstracção, que distingue, isola e concentra a sua luz num ponto, não separe do objecto de estudo o que dele depende mais ou menos directamente. Privar, assim, de comunicações um objecto seria falseá-lo, porque os seus vínculos fazem parte dele. Será possível estudar uma peça de relógio, sem pensar na peça vizinha? Ou estudar um órgão, sem tomar em conta o organismo? Do mesmo modo, é impossível avançar em física ou em química sem a matemática, em astronomia sem a mecânica e sem a geologia, em moral sem a psicologia, em psicologia sem as ciências naturais, em coisa alguma sem a história. Todas as ciências são interpendentes; as suas luzes cruzam-se, e qualquer tratado inteligente duma delas implica mais ou menos as outras. Por conseguinte, se quiserdes alcançar um espirito aberto, claro, verdadeiramente forte, começais por desconfiar da especialidade. Lançai as bases segundo a altura do edifício que quereis construir; os trabalhos de escavação serão tanto mais largos quanto mais fundo pretendeis chegar. O saber não é torre nem poço, é habitação humana. Um especialista, se não for homem, é manga de alpaca, a sua esplêndida ignorância torna-o, transviado entre os humanos; é um inadaptado, um anormal, um louco. Livre-se o intelectual católico de copiar semelhante modelo. Acima de tudo será homem, pois pertence, por vocação, ao género humano; pisará o solo com pé firme, com a sua base de sustentação, e não saltitando sobre as pontas dos pés. O saber tentou sondar a noite em todos os sentidos; nela mergulham os sábios, a mão para apanhar estrelas, desenvolvendo nobre esforço que não deixa indiferente nenhum pensador autêntico. Seguir até certo ponto as explorações de certos investigadores é, para vós, obrigação que no fim se resolve em capacidade decuplada para as vossas próprias pesquisas. 35 Quando chegardes à especialidade, depois de ter experimentado muita cultura, amplificado o olhar e compreendido o sentimento das ligações pelas profundidades, sereis homens diferentes daqueles que se confinam em estreita disciplina. O cultivo exclusivo de qualquer ciência apresenta igualmente perigos que ninguém de bom senso desconhece. O estudo isolado das matemáticas falseia o juízo, habituando-o a um rigor que nenhuma outra ciência, e menos ainda a vida real comporta. A complexidade da física e da química causa fastio e apouca o espírito. A fisiologia conduz facilmente ao materialismo, a astronomia corre o perigo de habituar à divagação, a geologia converte-vos em galgos que tudo farejam, a literatura torna-vos balofos, a filosofia incha, a teologia expõe-vos ao falso sublime e ao orgulho doutoral. Precisais de passar de um espírito a outro, a fim de os corrigir um pelo outro; precisais de variar as culturas para não cansar o solo. Não julgueis que, pelo facto de prosseguir até certo ponto o estudo comparado, ficareis sobrecarregados ou impedidos de vos dedicar com afinco a uma especialidade, porque a luz, que dessa comparação irradia, facilitará a visão das coisas, e o espírito, ganhando em amplidão, será mais apto para receber sem se prejudicar. Quem se instala no centro das ideias fica depois com o caminho desembaraçado para seguir em qualquer direcção. E que melhor acesso ao centro do que tentar diferentes vias, que, à maneira dos raios dum circulo, dão o sentimento dum encontro e duma encruzilhada comum? Conheço um linguista que, no espaço de quinze dias, consegue deslindar uma língua nova. Porquê? – porque sabe muitas outras. Num relance, o espírito abarca o novo idioma, os seus caracteres fundamentais, a sua constituição. As ciências são as diversas línguas em que o homem balbucia penosamente a natureza inefável; decifrar muitas delas é favorecer cada uma, porque afinal todas são uma só coisa. Demais a mais, despertos o instinto poderoso e o entusiasmo em todo o homem bem dotado por esta maneira de viajar através das ciências e de explorar estes magníficos domínios, como se visitam alternadamente os fiordes da Noruega, o Corno de Ouro, os hipogeus do Egipto, as pampas da América e os palácios chineses, este ardor épico, capaz de empolgar uma inteligência ao contacto das grandezas do espírito, comunica ao estudo inspiração e facilidade surpreendentes. Um rabino, a quem censuravam de sobrecarregar a lei, respondeu: “Um alqueire cheio de nozes pode levar ainda muitos almudes de azeite”. Esse sim, tinha zelo, o zelo que, no domínio das capacidades espirituais, corresponde ao calor que dilata os corpos. Uma taça, ao sol, tem maior capacidade do que à sombra. Um espírito deslumbrado perante o espectáculo da verdade, e por ele desdobrado como arco-íris, toma-se capaz de adquirir sem fadiga, com alegria, conhecimentos que enervariam o triste cultor duma única ciência. Os grandes homens foram sempre mais ou menos universais; sobressaindo numa parte, nas outras foram pelo menos curiosos, frequentemente sábios, às vezes até especialistas. Não conseguireis confinar num só ramo do saber homens da envergadura de Aristóteles, Bacon, Leonardo de Vinci, Leibniz ou Goethe. Henrique Poincaré, na Academia das Ciências, espantava os colegas das outras secções, pelas suas concepções geniais: consultá-lo era colocar-se imediatamente no centro do saber, ponto onde todas as ciências se identificam. Não alimentais semelhantes pretensões? Embora! O que as grandes sumidades praticaram permanece sempre como indicação fecunda para os demais. Traçai um plano amplo, que se vá reduzindo pouco a pouco pelo que diz respeito ao tempo consagrado a cada estudo secundário, e não quanto à largueza de vistas nem ao espírito de trabalho. Escolhei acertadamente os conselheiros. Um só entre mil Para o conjunto, outros para cada 36 parte, se preciso for. Reparti o tempo, regulai a sucessão das culturas, nunca procedendo ao acaso. Em cada coisa, ide direitos ao essencial, não vos deixando enredar nas minúcias: não é por estas que se empunham as ciências; é muitas vezes pelo pormenor mas pelo pormenor característico, isto é, pelo fundo. Mas, para vos orientardes neste domínio, precisais de penetrar no que ainda falta dizer. Assim como nenhuma ciência particular se basta a si própria, assim também o conjunto das ciências, se não sustenta sem a rainha das ciências – a filosofia(1) –, nem o conjunto dos conhecimentos humanos sem a sabedoria derivada da ciência divina – a teologia. O P. Gratry exprimiu, sobre este ponto, verdades capitais, e S. Tomás, indo mais além, assinalou o lugar e a dignidade destas duas rainhas do duplo reino(2). As ciências, sem a filosofia, desclassificam-se e desorientam-se. As ciências e a filosofia, sem a teologia, desclassificam-se mais ainda, visto repudiarem uma coroa celeste; e desorientam-se mais irremediavelmente, porque a terra sem o céu não encontra a sua órbita, nem as influências que lhe dão fecundidade. Hoje que a filosofia esmoreceu, as ciências rebaixam-se e dispersam-se; hoje que se ignora a teologia, a filosofia é estéril, não conclui coisa alguma, faz crítica e faz história sem bússola; é sectária e muitas vezes destruidora, nunca tranquiliza nem ilumina; não ensina. E os seus mestres, que têm a dupla desgraça de ignorar e de ignorar que ignoram, consideram a teologia uma coisa do outro mundo. Sim, a teologia pertence ao outro mundo, quanto ao objecto; mas o outro mundo governa este, continua-o em todos os sentidos, para trás, para diante e para cima, e portanto não é de espantar que o ilumine. O melhor que pode fazer um intelectual católico, que pertence ao seu tempo, é trabalhar, pela parte que lhe toca, em nos restituir a ordem de que carecemos. O de que o nosso tempo precisa, do ponto de vista doutrinal não é a dose de saber, é a harmonia do saber, harmonia que só se obtém por um apelo aos primeiros princípios(1). A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas, e como o espírito só se instrui verdadeiramente pela investigação das casualidades, a ordem do espírito deve corresponder à ordem das causas. Portanto, existindo um Ser primeiro e uma Causa primeira, é lá que se completa e ilumina ultimamente o saber. Primeiramente como filósofo, por meio da razão, em seguida como teólogo, utilizando a luz que vem do alto, o homem de verdade deve centrar a sua investigação naquilo que é ponto de partida, regra e fim a título primeiro, naquilo que é tudo para tudo e para todos. Em toda a espécie de objectos e disciplinas, só reina a ordem, no momento em que os princípios, dispostos hierarquicamente até ao princípio primeiro, desempenham o papel de princípios, de chefes, como num exército, como numa casa ordenada, como num povo. Repudiamos hoje os primeiros princípios; mas, por isso, o saber desarticulou-se. Possuímos farrapos, magníficos ouropéis, não possuímos vestidos; possuímos excelentes capítulos, não temos livro completo, não temos Bíblia. (1) É curioso que, na hora actual, a própria ciência convida o sábio a elucidar problemas que até aqui dependiam da filosofia: casualidade, determinismo, probabilidade, contínuo e descontínuo, espaço, tempo, etc. Logicamente, o sábio, nesses casos, deveria recorrer ao filósofo; mas este, as mais das vezes, retrai-se, fecha-se nos seus antigos quadros, e o sábio vê-se então obrigado a filosofar por si próprio, e fá-lo sem experiência e muito frequentemente de través. (2) Cf. sobretudo, Suma Teologica, toda a Questão I; Comentário ao De Trinitate, de Boécio, Questão II, art. 2; Contra Gentes. liv. I, cap. I. (1) Escreveu Carlos Dunan: “Para a filosofia moderna, os problemas transcendentes são nulos e não existem. Mas a recíproca é verdadeira: se estes problemas existem, quer dizer que a filosofia moderna não existe”. Les Deux idéalismes, Paris, Alcan, 1911, P. 182. 37 As Bíblias do saber foram outrora as Sumas: faltam-nos hoje as Sumas, e ninguém entre nós seria capaz de compor uma. Tudo é caótico. Mas, se ainda é cedo para redigir uma Suma colectiva, pelo menos cada homem que pensa e que deseja verdadeiramente saber, pode tentar constituir a sua Suma pessoal, isto é, pôr ordem nos conhecimentos, invocando os princípios desta ordem, ou seja, filosofando e coroando a sua filosofia por uma teologia sumária, mas profunda. Os sábios cristãos, desde o princípio até ao fim do século XVII, foram todos teólogos, e os sábios, cristãos ou não, até ao século XIX, foram todos filósofos. Depois, o saber baixou; alastrou em superfície e perdeu em altura, e portanto também em profundidade, porque a terceira dimensão tem dois sentidos que se correspondem. Que o católico, cônscio desta aberração e das suas consequências, saiba fazer-lhes frente; intelectual ou desejoso de o ser, aspire à intelectualidade completa, em todas as suas dimensões. “A teologia, no dizer do P. Gratry, inseriu na árvore da ciência um enxerto divino, graças ao qual esta árvore pode produzir frutos que não são os seus”. Não se lhe tira a seiva, pelo contrário dá-se-lhe um curso glorioso. Em razão deste novo impulso comunicado ao saber, deste apelo dos dados humanos a uma colaboração celeste, todos os conhecimentos são vivificados e todas as ciências alargadas. A unidade da fé dá ao trabalho intelectual o carácter de cooperação imensa. É a obra colectiva dos humanos unidos em Deus. Por isso a ciência cristã, tal qual é e muito mais ainda quando se escrever a Suma dos tempos modernos, ultrapassará em amplidão e inspiração os monumentos da antiguidade e do neo-paganismo. As enciclopédias estarão para ela como Babel para as catedrais. Quem busca a verdade não tem o direito de ignorar tão rico tesouro. É de esperar que a próxima geração, carrilada por esta que tão notoriamente ultrapassa as precedentes, se aproxime muito naturalmente e sem respeito humano da ciência das ciências, do cântico dos cânticos do saber, da teologia inspiradora, e encontre nela a maturação e a elevação, o lirismo potente e calmo, expressão completa da vida do espírito. Não custa penetrar no campo da teologia, nem o seu estudo exige muito tempo, a não ser, é claro, que se tome como objecto de especialidade. Dedicai-lhe quatro horas por semana, durante cinco ou seis anos; é o suficiente; depois só tereis de conservar o aprendido. Sobretudo, porém, não vos fieis em falsos mestres. Tomareis, logo de entrada, Santo Tomás de Aquino. Estudai a Suma, mas antes disso aprendereis os dogmas basilares da fé. Tende à mão o Catecismo do Concílio de Trento, esplêndido resumo da doutrina teológica(1). Possuí plenamente este manual e continuai, dia a dia, em companhia de S. Tomás, o desenvolvimento racional da ciência divina. A princípio, o texto parecer-vos-á seco e abstruso; pouco a pouco, brilharão as luzes dominadoras; as primeiras dificuldades vencidas terão como recompense novas vitórias; aprendereis a língua da terra, e, ao fim de algum tempo, circulais por lá como em vossa casa, com a impressão de que residis numa sublime habitação. Estudai, é claro, em latim! As traduções da Suma, muitas vezes traiçoeiras, são sempre insuficientes. Quem se deixasse acobardar perante o esforço de aprender uma língua que um espírito ordinário consegue dominar em dois meses, não mereceria que nos preocupássemos com a sua formação(1). Falamos para entusiastas: se querem penetrar na “adega”, dêemse ao trabalho de procurar a chave dela. Ser-vos-ia útil alguma obra de introdução, que vos fizesse pressentir o conteúdo de Santo Tomás e servisse de prelibação. Todavia, não pareis aí; tomai a mão que se vos estende para vos pôr em movimento(2). Por outro lado, um repetidor de espírito aberto e bem informado prestar-vos-ia valioso auxílio, diria até indispensável. Iniciar-vos-ia paulatinamente no vocabulário técnico do tomismo, poupar-vos-ia hesitações e quiproquós, esclareceria um texto por outro texto, assinalaria as pistas e defenderia os passos dos precipícios. No entanto, persuadido como estou do mal que fazem amigos inábeis, da desilusão e escândalo provocado por comentários estúpidos, ( 1) A título de auxiliar, seja-me permitido indicar o Catecismo dos Incrédulos, publicado com o fim de facilitar aos nossos contemporâneos a compreensão da doutrina cristã c das suas bases. ( 1) Não se julgue que o Autor possui um segredo para ensinar o latim em dois meses! Não se trata do latim clássico, mas do latim empregado por S. Tomás. O vocabulário tomista é tão reduzido, as construções sempre as mesmas e tão alheias ao que torna difícil o latim, que só um preguiçoso recuará diante da conquista deste tesouro. ( 2) Cf. o livro elementar de J. Maritain, Éléments de Philosophie, Paris, Téqui, 1920. Para estudo mais profundo: A.D. Sertillanges, Saint Thomás d’Aquin, 2 vols. [Coll. “Les Grands Philosophes”], Paris, Alcan, 1910. 38 recomendo-vos que prefirais a solidão a um concurso pouco inteligente. Esforçai-vos por quebrar a noz; magoareis as mãos, mas acabareis de a partir, e então será o próprio Santo Tomás quem instrui o seu discípulo. Para esse fim, consultai cuidadosamente, a propósito de cada artigo, as passagens diferentes a que as edições costumam remeter; consultai o Index tertius, esse tesouro, imperfeito, mas ainda assim tesouro; comparai; estudai de sorte que os documentos se completem e comentem mutuamente, e depois redigi o artigo estudado. Excelente ginástica que dá maleabilidade, amplidão e vigor ao espírito, e o torna preciso, inimigo do sofisma e do pouco mais ou menos, e ao mesmo tempo o enriquece de noções claras, profundas, bem encadeadas, sempre ligadas aos princípios primeiros, constituindo, pela sua coadunação, uma forte síntese.

(A vida Inletectual, Sertillanges OP, A. D., Cap. V – O campo do trabalho I – A ciência comparada.

Fonte: http://www.4shared.com/file/18356497/8d0fe8b8/A_vida_intelectual_-_A_D_Sertillanges.html