Amputação da Perspectiva de Tempo, por Peter Thomas Bauer


A confusão entre o avanço do conhecimento e a promoção de políticas, sem dúvida, contribui para a indiferença em relação à realidade. Essa influência é certamente importante nas ciências econômicas. A suspeita de que tal situação seja uma realidade hoje se baseia em uma profusão de transgressões contra a realidade em alguns campos da disciplina que são próximos da prática política, como no desenvolvimento econômico, no planejamento do tipo soviético, na economia do trabalho, na economia da pobreza e nas falhas do mercado. Alguns profissionais reconhecem a busca de objetivos políticos; eles também encorajam a idéia de que em qualquer campo de estudo social, o raciocínio objetivo é impossível. Eu devo mencionar uma experiência que tive. Em várias ocasiões, quando minhas palestras criticavam a noção do ciclo vicioso da pobreza, membros da platéia diziam que, seja qual fosse a validade de minhas críticas, tal noção não tinha o mínimo valor, quando questionava as ajudas internacionais.

Muito do discurso contemporâneo é também afetado pela ignorância do passado e pelo menosprezo da dimensão do tempo nos fenômenos sociais e culturais. Sir Ernst Gombrich chamou esse fenômeno de amputação da dimensão do tempo da nossa cultura. Esse fenômeno viciou o discurso atual de grande parte das ciências econômicas, inclusive o das principais correntes da economia do desenvolvimento e da discussão em relação às diferenças de renda domésticas e globais. Nesses outros campos das ciências econômicas, não podemos entender uma situação que observamos a não ser que saibamos como esta surgiu. Por exemplo, os baixos rendimentos, quando comparados com os países desenvolvidos, de vários países em desenvolvimento com substanciais exportações de produtos agrícolas têm sido citados como exemplos que comprovariam a alegação que contatos externos e a agricultura em escala para exportação não são eficientes para o progresso econômico, ou, talvez, até o inibem. Na verdade, muitos dos países que são grandes exportadores de produtos agrícolas progrediram bastante no último século. Mas, como podemos esperar que sociedades que no fim do século XIX eram extremamente atrasadas, ou mesmo bárbaras, alcançassem em algumas décadas o nível de sociedades que possuem muitos séculos, talvez milênios, de crescimento econômico? Outro exemplo nos é fornecido pelas mudanças na distribuição de renda dentro de um país. Um grau mais alto de desigualdade pode ser resultado de, digamos, uma grande redução na mortalidade infantil entre os pobres (o que representaria uma melhora de suas condições) ou da imposição de um regime de impostos regressivos.

Os fatores por trás da debilitadora falta de perspectiva de tempo e da negligência de experiências anteriores pertinentes incluem a velocidade das mudanças sociais e técnicas e a multiplicidade de mensagens alcançando as pessoas, quase sempre, sobre acontecimentos distantes. Mudanças sociais e técnicas muito rápidas podem enervar e mesmo atordoar algumas pessoas. Há apenas uma quantidade limitada de mudanças que as pessoas absorvem como indivíduos, famílias ou sociedades. Ao interromper a observação prolongada, essas influências inibem tanto o pensamento contínuo, quanto o equilíbrio provido por experiências anteriores e a perspectiva de tempo.

Mais uma vez, qualquer inclinação em igualar os métodos das ciências naturais àqueles das ciências sociais conduz ao rebaixamento ou à negligência de seus processos antecedentes. Enquanto tais processos são em sua maioria irrelevantes para a química e a física, e totalmente irrelevantes para a matemática, eles são indispensáveis para a compreensão de um fenômeno social. A sinalização de feitos nas ciências naturais e a difusão dos resultados de suas aplicações encorajam o hábito de se pensar as ciências sociais baseando-se em analogias equivocadas entre as duas áreas de estudo.

Quaisquer que sejam os fatores por trás delas – e a lista proposta aqui é experimental e incompleta – a falta de conhecimento do passado e a negligência da perspectiva de tempo são evidentes em boa parte do discurso contemporâneo. A perda de memória resultante de tal processo também abriu caminho para a manipulação e a reinvenção da história.

Lord Peter Thomas Bauer (1915-2002) nasceu em Budapeste, na Hungria, estudou economia em Cambridge e lecionou na London School of Economics. Foi um dos mais importantes economistas e críticos da escola desenvolvimentista.

FONTE http://www.ordemlivre.org/?q=node/139

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