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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 31st, 2008

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Que, afinal, pensa o patriarcha ?

Entrevista de Grégoire III Laham, patriarca de Antioquia dos Greco-Melquitas a Gianni Valente

A respeito das relações com os cristãos ortodoxos, há alguns anos foi lançada a hipótese, como experiência local de reconciliação, de que a Igreja de vocês e o patriarcado ortodoxo de Antioquia retornassem à plena comunhão.
GRÉGOIRE III: Cultivamos esse projeto talvez com excessiva euforia, como se fosse uma coisa que pudesse ser realizada de hoje para amanhã. O patriarca Maximos, meu predecessor, já estava velho. Recebemos de Roma uma advertência: continuem a dialogar, mas não cheguem a resultados definitivos no campo teológico sem um acordo prévio com a Santa Sé. Infelizmente, nossa hierarquia tomou isso como um sinal para parar. E agora a coisa foi deixada de lado. Mas de qualquer forma temos relações de fraternidade com os ortodoxos, os retiros do clero, inclusive, são feitos juntos.
Na sua opinião, quais são as perspectivas do atual diálogo católico-ortodoxo em torno dos temas da colegialidade e do primado?
GRÉGOIRE III: A Igreja Ortodoxa não pode aceitar a eclesiologia romana enquanto tal. É preciso entender que a eclesiologia desenvolvida na Igreja latina não pode se impor aos cristãos orientais. Eles podem aceitar o primado do Papa como titular da prima sedes e como última instância à qual recorrer. Mas não a prática do centralismo sem uma colegialidade real. Se Roma quer continuar o diálogo, é preciso retomar as fórmulas que Ratzinger expôs na década de 1970 a respeito da relação com as Igrejas do Oriente.
No mundo católico, quando se fala de diálogo com os ortodoxos, o ponto de partida muitas vezes também é a relação entre Igreja universal e Igreja local.
GRÉGOIRE III: A Igreja universal não é a soma de muitas Igrejas locais. E nem mesmo é um conceito abstrato. A Igreja de Cristo existe concretamente num determinado lugar. São Clemente, papa, pôs como cabeçalho de sua carta: “Da Igreja de Deus, que reside em Roma, à Igreja de Deus, que reside em Corinto”. Não escreveu à Igreja “local” de Corinto. Quando estão presentes os sacramentos, a fé, o Credo, o que é que falta? Aí está também o Papa, pois o bispo ou o pároco que celebram a Eucaristia estão em comunhão com o Papa. A Igreja una, santa, católica e apostólica está presente até mesmo numa pequena paróquia na qual o sacerdote celebra a missa diante de um ou dois fiéis. Não é que exista “mais” Igreja quando todos os bispos estão reunidos em Concílio. Uma gota do mar tem todos os elementos do resto da água do mar. Assim, cada Igreja, num determinado lugar, tem todos os elementos da única Igreja de Cristo.

O patriarca de Antioquia dos Greco-Melquitas, Grégoire III

O que o senhor responde a quem diz que as Igrejas católicas orientais são um obstáculo à reconciliação com os ortodoxos?
GRÉGOIRE III: As Igrejas orientais católicas se transformam num problema sobretudo porque os ortodoxos vêem o tratamento que às vezes se reserva a elas. Elas são definidas Igrejas sui iuris, mas, na prática, não se reconhece que o patriarca é chefe e pai de sua Igreja. São nomeados bispos para as nossas comunidades na diáspora, por exemplo nos países americanos, e nós não temos voz ativa sobre essas decisões. Nossos bispos recebem questionários nos quais se pergunta a eles: a que Congregação vocês estão subordinados? Sabe lá o que pensariam os patriarcas e os metropolitas ortodoxos, se lessem isso: eu, patriarca, eu, bispo, “subordinado” a um escritório vaticano? O que isso significa?
A respeito das Igrejas orientais, costuma-se dizer: muitas cúrias, zelosas de suas prerrogativas, e poucos fiéis, cada vez menos. Mostra-se divisão justamente onde as minorias cristãs deveriam se unir. O que o senhor pensa dessa objeção?
GRÉGOIRE III: Na Itália também existem dioceses extremamente pequenas. Além do mais, temos aqui um elemento da tradição que deve ser respeitado. Uma comunidade de fiéis siro-católicos ou ortodoxos, por menor que seja, não pode ser comparada aos greco-ortodoxos, aos latinos, aos caldeus. Vá ouvir suas liturgias, ouça seus hinos… Já no Concílio Vaticano II alguns vinham com esta idéia: unamos todos os cristãos de um país sob um rito único e um mesmo bispo ou patriarca. No Líbano o maronita, na Síria o melquita, no Egito o copta… Mas só quem olha de longe, com olhos de contador, mais que de bispo, pode pensar em homologar tradições tão diferentes e tão ricas.
E o que o senhor responde àqueles que reprovam a animosidade de vocês perante Roma?
GRÉGOIRE III: Estamos em Damasco. Aqui, desde que, em 1724, voltamos à comunhão com o bispo de Roma, vivemos como foras-da-lei durante 120 anos. Os sacerdotes iam para as liturgias levando os trajes escondidos em cestas, entravam nas casas e celebravam a missa em voz baixa. Sofremos muito, por afirmar nossa comunhão com a sé de Roma. É um sinal de quanto damos importância a isso.

FONTE: http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=15242

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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 24th, 2008

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Matemático judeu criticado por defender Papa, por Paolo Centofanti

Entrevista com Giorgio Israel, professor da universidade «La Sapienza»

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 22 de janeiro de 2008 (ZENIT.org).- Defender Bento XVI dos ataques dos que se opuseram a sua visita à universidade «La Sapienza», em Roma, implica pagar um preço, confessa Giorgio Israel, professor de Matemática neste centro universitário.
O docente de origem judaica interveio com um artigo em «L’Osservatore Romano» e com declarações públicas para explicar que Joseph Ratzinger defendeu Galileu na conferência pronunciada em 1990, pela qual foi acusado erroneamente por 67 professores (dos 4.500) de «La Sapienza».
Zenit entrevistou o matemático, convencido promotor do diálogo entre fé e religião.
–Considera que a imagem e a credibilidade de sua universidade em âmbito nacional e internacional sofreram após a oposição de um grupo de professores e alunos à visita do pontífice?
–Professor Israel: Creio que o dano é muito sério. Recebi cartas por parte de professores norte-americanos que estavam desconcertados; nos Estados Unidos se podem encontram todas as posições possíveis e imagináveis, mas não se dá esta forma violenta de rechaço do diálogo com o Papa, e ademais apenas com o Papa, pois «La Sapienza» tem convidado todos. É algo desconcertante e, portanto, desde meu ponto de vista, o dano para a imagem é muito elevado.
–Considerando seu ponto vista pessoal e seus contatos como professor, acredita haver motivações veladas por trás dos pretextos?
–Professor Israel: Não creio. Sei que alguns têm dito que tudo isso se deve, em parte, às rivalidades entre grupos acadêmicos para a reeleição do reitor. Mas francamente não creio. É mais que provável que alguém se aproveite disso, mas meu juízo é que o mundo universitário, que sempre esteve ligado à extrema esquerda, em particular ao partido comunista, com o final da ideologia marxista ficou «órfão» desta ideologia. E, em certo sentido, construíram como uma teologia substituta, como disse George Steiner: o cientificismo e o laicismo mais obstinados. Na universidade encontramos uma concentração sumamente elevada de pessoas que têm uma visão deste tipo, muito mais que no resto da sociedade civil.
–Crê que a intervenção do Papa poderia desarticular este tipo de ideologias?
–Professor Israel: Não, pois é um processo sumamente lento. De um ponto de vista, dada a oposição, e as dificuldades circunstanciais, creio que a decisão de não forçar a situação foi muito adequada. Creio que há que distinguir três elementos. Entre os estudantes, o grupo que se opôs é uma pequena minoria, e esta é a maldição de «La Sapienza»: sempre há um grupo de revoltosos que consegue impor sua vontade à imensa maioria dos estudantes. Acredito que entre os estudantes esta posição não está muito estendida. Entre os professores, é diferente. Só assinaram a carta 67, mas creio que são muito mais numerosos os que têm uma posição deste tipo. Digo isso por conhecimento de causa. Logo há muitos que pensam de uma maneira totalmente diferente. É difícil fazer porcentagens. Mas talvez se trata de uma divisão meio a meio. Mas não se trata apenas de 67, são muito mais.
Perante esta situação, penso que foi certo não ir à universidade e dar uma lição de aula, enviando um discurso que em certo sentido desmantela todos os pretextos do rechaço, da oposição à visita do Papa. Do meu ponto de vista, a mudança desta mentalidade apenas pode vir com um processo muito lento, de discussão, no qual se mostre progressivamente que estas posições de caráter cientificista, laicista, radical, são posições equivocadas. Mas, repito, estes processo requerem muito tempo; não é algo que se consegue em poucos dias, nem sequer em meses ou um ano. Precisa de tempo.
–Além de tirar de contexto a citação de Ratzinger sobre a frase de Feyerabend na que falava do «caso» Galileu, houve erros de comunicação?
–Professor Israel: Não sei. Penso que tudo isso reflete uma degradação cultural, porque quem faz algo assim e não se envergonha, ou inclusive não se dá conta, como constato em alguns casos, é uma pessoa que culturalmente desceu muito baixo.
–Tem sofrido críticas ou ataques por ter tomado posição estes dias?
–Professo Israel: Não vi muitas pessoas estes dias, mas é a situação de sempre. Quer dizer, quem toma posições como as que tomo paga um preço. Há pessoas que deixam de falar com você, porque – repito – é um clima sumamente ideologizado.

ORIGINALMENTE em http://www.zenit.org/article-17356?l=portuguese)

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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 22nd, 2008

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Depardieu e o Doctor Gratiae, por Pina Baglioni

Crônica de um dia muito particular

“Estou muito feliz. Se o tivesse encontrado antes, teria economizado anos de análise”. Assim o ator francês explicou o seu encontro com Santo Agostinho. Numa fria manhã de fevereiro, na Catedral de Notre-Dame em Paris, quase de surpresa, leu trechos das Confissões. Crônica de um dia muito particular

Início da leitura do ator

Sua postura é modesta, ou, melhor dizendo, submissa. Vinte quilos a menos, que perdeu depois de sérios problemas cardíacos, tem o aspecto de um jovem, com seu terno azul-marinho e a camisa azul-celeste sem gravata. Tão diferente do corpulento ator teatral que todos sempre admiraram. Ele, Gérard Depardieu, o gigante gaulês, um dos mais versáteis monstros sagrados do cinema mundial, sai da sacristia da catedral de Notre-Dame de Paris na ponta dos pés, instala-se na frente do pequeno altar de mármore branco no centro do transepto, posiciona o leitoril, onde estão abertas as Confissões de Santo Agostinho que dali a pouco começará a ler, e fica quase em posição de sentido. Não diz uma palavra. Espera.

Cyrano de Bergerac, Danton, Fouché, Jean Valjean, grandioso protagonista dos Miseráveis de Victor Hugo – só para citar alguns dos muitos papéis que interpretou em mais de duzentos filmes – estão a anos-luz de distância: nessa tarde de 9 de fevereiro, um domingo chuvoso e gelado, no ano da graça de 2003, vemos ali apenas um homem de 55 anos, que teve tudo na vida e na maturidade volta a lidar com um fato imprevisto que lhe aconteceu em Roma durante o Ano Santo de 2000: o “encontro”, como ele mesmo define, com Santo Agostinho, graças à leitura das Confissões. “Estou muito feliz. Se o tivesse encontrado antes, teria economizado anos de análise”, admitiu.

Toda a sociedade de Paris fala do evento de Notre-Dame, e não consegue achar uma explicação. Depardieu não quis publicidade: empresários, assessorias de imprensa e jornalistas foram deixados à parte. Concedeu uma única entrevista, publicada pelo diário católico La Croix e transmitida pela TV KTO, da conferência episcopal.

É uma coisa impressionante, de fato: dentro da catedral há apenas um pequeno aviso pregado numa coluna, anunciando a “Leitura das Confissões de Santo Agostinho. Gérard Depardieu e André Mandouze”. Até os funcionários do setor de informações da catedral, interpelados uma hora antes do evento, respondiam não saber de nada, numa tácita lei do silêncio.

Agora que a leitura está para começar, apenas a luz de sete velas e um enorme cesto de flores brancas nos degraus que conduzem ao pequeno altar de aspecto ultramoderno rompem a escuridão em que Notre-Dame está mergulhada. A igreja está lotada de pessoas em silêncio, à espera de que seu artista mais amado, reconhecido pelo mítico ator Jean Gabin como seu único herdeiro, empreste a voz a uma das mais apaixonadas autobiografias já escritas. Fora da catedral, milhares de outras pessoas se acotovelam sob uma chuva gélida que não pára, há horas na fila, esperando em vão para entrar.

Entra, então, André Mandouze, 87 anos, latinista e historiador das religiões, considerado um dos mais credenciados exegetas de Agostinho na França. Senta-se à esquerda de Depardieu, com o qual se revezará, durante cinqüenta minutos, para contar a aventura humana e espiritual do santo. Enquanto a leitura não começa, padre Jean-Yves Riocreux, reitor de Notre-Dame, tenta mandar para trás pessoas comuns que se acomodaram inoportunamente nas primeiras fileiras, reservadas aos convidados de honra. Chegam Jacques Lang, ex-ministro socialista da Cultura, e Bernadette Chirac, mulher do presidente da República. Enfim, os filhos de Depardieu: Julie, Guillaume e Roxanne. E sua atual companheira, a notável atriz Carole Bouquet.

Pessoas próximas do artista revelam que desde que se reaproximou da fé, tem melhorado a péssima relação com o rebelde primogênito, Guillaume. Ator como o pai, o jovem rodou com ele Todas as manhãs do mundo, em 1991, filme de Alain Corneau. Está em cartaz há alguns dias em Paris o último filme que fizeram juntos, intitulado, vejam só, Pai e filho. De qualquer forma, hoje Guillaume se permite um pequeno gesto de desafio: durante o tempo todo da leitura, o jovem não tira o chapéu. São 15h45: chega Jean-Marie Lustiger, cardeal de Paris; primeiro vai cumprimentar os familiares do ator, depois, num gesto paternal, abraça Depardieu. Enfim, Lustiger sobe ao altar e, apresentando o acontecimento excepcional do dia, inserido na programação do “Ano da Argélia na França”, promovido por ele, lembra brevemente como a figura de Agostinho foi “importante para a civilização universal”. E finalmente dá a palavra ao ator.

São quatro da tarde em ponto. “Sois grande, Senhor, e infinitamente digno de ser louvado…”, começa com um fio de voz. “Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos. Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós.” São as primeiras linhas do primeiro livro das Confissões.

Quem espera uma atmosfera de peça teatral se decepciona: se pudesse, hoje Depardieu se desmaterializaria, de tanto que está emocionado. A propósito da leitura das Confissões, declarou há algum tempo: “Gosto do estado de comunhão e de oração. Quero ler as Confissões_a meia voz, com suavidade”. De fato, aqui em Notre-Dame tem-se a impressão de que, por meio das palavras de Agostinho, é o próprio ator que se dirige ao Senhor. Alternando-se, então, com Mandouze, lembra mais uma vez a partida do santo da cidade-natal, Tagaste, os estudos em Cartago e, passo após passo, a chegada a Milão, o encontro com o bispo Ambrósio, que o batizará na noite de Páscoa, entre 24 e 25 de abril de 387. A relação com a mãe, Mônica, que morre em Óstia, porto romano na foz do Tibre, onde embarcaria com o filho de volta para a África. Depardieu lê com particular emoção o momento em que Agostinho e sua mãe vivem a experiência do êxtase: “Elevando-nos em afetos mais ardentes por essa felicidade, divagamos gradualmente por todas as coisas corporais até o próprio céu. [...] Subíamos ainda mais em espírito, meditando, falando e admirando as vossas obras”.

A voz do ator torna-se cada vez mais fraca e, no fundo da catedral, alguns reclamam. Só nesse momento Depardieu se lembra de que é Depardieu e responde com irritação. Depois, Guillaume começa a brigar com os fotógrafos que perturbam o pai com flashes constantes e irritantes. “Silêncio, por favor, Guillaume”, implora Depardieu. E recomeça com dificuldade. “Que amo eu, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal. [...] Nada disto amo, quando amo o meu Deus. E contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço [...] do homem interior”.

Tudo se esgota em pouco menos de uma hora. No final, uma salva de palmas longa e afetuosa abraça Depardieu, que baixa a cabeça para agradecer e, como no início, não diz uma só palavra. Protegido por guarda-costas, chega correndo à saída dos fundos da catedral. A multidão o persegue inutilmente: nada lhe resta senão vê-lo desaparecer.

Uma fé que vem
de longe

Na realidade, a leitura de Notre-Dame não foi a primeira. Depardieu já lera as Confissões na igreja de Saint-Suplice, também em Paris, perante poucos amigos, em 12 de janeiro deste ano, no enterro do também amigo diretor Maurice Pialat, morto aos 77 anos. Na oportunidade, o artista escolheu a passagem “A perda dum amigo”, do livro IV, onde Agostinho descreve sua dor pelo falecimento de um companheiro muito amado. Pialat foi o diretor de Depardieu no filme Polícia, de 1985, que o fez ganhar o Troféu Volpi como melhor ator no Festival de Cinema de Veneza. O velho amigo era seu alter ego: Depardieu é tão impetuoso, passional, hipersensível, agitado diante de qualquer aspecto da vida, quanto Pialat era solitário, contra a corrente, incompreendido por sua maneira de conceber o cinema. Seus filmes eram considerados socos no estômago. A amizade entre os dois assumiu uma intensidade particular durante a filmagem de Sob o sol de Satã, de 1987, inspirado no romance de Georges Bernanos, com o qual Depardieu ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O ator, muito impressionado com o personagem que interpretou, o padre Donissant, começou até a estudar a obra de Bernanos.

A partir desse filme, os dois amigos se reencontraram muitas vezes para discutir sobre Deus, sobre a origem do mal e sobre outros aspectos relacionados à fé. E sobre como é efêmera a fama do mundo. A propósito disso, Pialat será de grande ajuda a Depardieu quando, em 4 de fevereiro de 1991, a um passo do Oscar pelo filme Cyrano de Bergerac, a revista americana Time lhe preparar uma verdadeira armadilha, publicando um artigo, assinado por Richard Carliss, no qual transcreve entre aspas declarações do ator de que ele teria participado de seu primeiro estupro aos nove anos e teria cometido outros em seguida. Uma campanha violenta na imprensa priva Depardieu da estatueta tão desejada. Algum tempo depois, o jornalista Paul Chukrow reconstrói a verdade com base na gravação da entrevista: trata-se efetivamente de uma manipulação da tradução do francês para o inglês. Na realidade, o ator dissera que, depois de ter assistido a um estupro, desgostoso, resolveu abandonar Châteauroux, sua cidade-natal.

Sua infância certamente não foi fácil: deixou a escola aos treze anos e o catecismo antes mesmo da primeira comunhão. Melhor dizendo, foi expulso, porque era bagunceiro demais. “Na realidade, eu era alguém que olhava para a vida, guloso, vivo. Com um desejo espalhado pelo corpo de conhecer tudo, de entender tudo”, conta Depardieu. Na década de 1950, durante um período em que os filhos dos pobres não se misturavam com os dos ricos, o jovem viveu a experiência da marginalização. O pai, funileiro e analfabeto, tinha de criar seis filhos. “Eu crescia como um mato selvagem, mas sempre animado pela vontade de fazer o bem. Era católico não praticante, e tinha em mim sempre a presença do mistério. Sem conhecer nada, até sem saber, eu tinha a fé. Se por fé ente?dermos a vontade de viver e olhar para tudo, de captar tudo”.

A relação com os pais, porém, não era boa: muitas proibições e restrições. Então Depardieu foge de Châteauroux aos treze anos, também porque não parava de arrumar briga com os militares americanos da base da OTAN da cidade, e vai para Paris tentar a vida. Vai morar com três amigos que, diferentemente dele, são jovens muito estudiosos. O jovem Depardieu não se importa lá muito com a cultura, ainda que, como ele mesmo admite, venham a ser justamente dois livros, os únicos que leu na época, suas únicas referências naquele momento: O canto do mundo, de Jean Giono, e os Relatos de um peregrino russo, de um monge russo anônimo da segunda metade do século XIX. A propósito desse último, conta: “Era substancialmente um livro de orações. Num período tão difícil como aquele, salvou a minha vida. Aos treze anos, por uma hiperemotividade patológica, eu havia perdido a capacidade de me exprimir, de usar as palavras. Em certos aspectos, era uma verdadeira sorte. Então, para baixar a ansiedade, eu usava as palavras daquelas preces, que conseguiam exprimir o que eu experimentava e não era capaz de dizer com p_lavras perfeitamente correspondentes. Muitas vezes me via sozinho na estrada, pegando carona, e os barulhos dos animais e da natureza me aterrorizavam. Eu tinha medo de surpresas, de ser surpreendido. Nós sempre temos medo de ser surpreendidos. Aí eu repetia em pensamento uma súplica que está nos Relatos de um peregrino russo, que dizia: ‘Senhor Jesus, tende piedade de mim!’. Eu respirava aquela oração, e assim meus medos desapareciam. Eu tinha fé sem saber. Até hoje, quando as preocupações e as dúvidas se acumulam, repito a mesma jaculatória”. Depardieu conta também que quando começou a ler mais livros, já crescido, lia-os tendo um só critério: “Eu procurava as palavras da fé. Estava sempre numa postura de escuta, pois buscava o que está por trás das palavras, e que eu chamo ‘o Ser’. Era o que eu buscava quando lia Baudelaire, Rimbaud, Michaux”.

Desde que peguei nesse livro, não desgrudei mais. Ele nunca me aborreceu, e continuo a folheá-lo todos os dias. Agostinho me impressiona porque diz ‘tu’ a Deus

Mas isso não é tudo. Com o passar dos anos, apesar da fama, da glória, das várias mulheres, de rodar intensamente um filme após o outro, continuam as perguntas, os anseios, os medos, a busca de alguma coisa. O ator procura ajuda na análise, que fará por vinte anos. Seu analista é “um homem cheio de energia, como André Mandouze. Não sei se tem fé ou não, mas tivemos longuíssimas conversas sobre a escuta espiritual. Para mim, enquanto ator, o exemplo mais sublime vinha da tragédia grega”. A análise e a tragédia grega eram portanto os meios para buscar respostas que evidentemente não vinham de outros lugares. Mas, em maio de 2000, um terceiro livro corre em seu auxílio: as Confissões de Santo Agostinho.

Tudo começa em Roma

Estamos no final de abril de 2000. Na viagem para o Festival de Cinema de Cannes, Gérard Depardieu faz uma parada em Roma. Um pouco porque tem de terminar as tomadas do filme de Ettore Scola Concorrência desleal. Mas, sobretudo, porque participará do concerto do dia XX; de maio no Vaticano, durante o Jubileu dos Artistas.

Lá estão atores, músicos, pintores e muitos outros nomes, de maior ou menor grandeza no firmamento artístico internacional. Depardieu é apresentado a João Paulo II, que, olhando-o com uma expressão irônica e pousando a mão em seu ombro, diz de repente: “Aí está Santo Agostinho”. Depardieu fica extremamente impressionado com o Papa e com suas palavras. Dias depois, é convidado a visitar o Vaticano pelo cardeal Paul Poupard, presidente do Pontifício Conselho da Cultura. O encontro, porém, não é improvisad_: foi precedido por uma intensa correspondência entre Depardieu e o cardeal. A conversa dura duas horas e toca temas de grande importância, para depois concluir-se com um inesperado e significativo compromisso do ator a colaborar com o Pontifício Conselho na produção de ficção para a TV. Os dois concordam na visão que têm dos males que afligem o cinema, como, por exemplo, as dificuldades às vezes insuperáveis que as produções independentes enfrentam. “Foi um encontro surpreendente, intenso, totalmente inesperado”, revelará Poupard. “Depardieu odeia as multi-salas de cinema, que define como ‘verdadeira colonização americana’”. Ante o lamento do cardeal por não conseguir encontrar na produção cinematográfica contemporânea, a não ser em casos isolados, obras que evidenciem as perguntas fundamentais do homem, Depardieu responde: “Sou um ator que viveu toda a inquietude do artista, na busca constante da perfeição como anseio pela graça. Mas essa dimensão está relacionada a um uso do tempo, do silêncio, a expectativas e maneiras de fazer que não correspondem ao modo como o cinema é produzido hoje. A indústria cinematográfica, sobretudo a produção para a TV, está interessada em preencher espaços: isso se tornou o seu pesadelo. É por isso que procurei realizar filmes inspirados nos clássicos da literatura mundial: já que tenho de preencher a tela, vou fazê-lo com algo consistente. Como O conde de Monte Cristo, Os miseráveis”.

A certa altura, Depardieu diz uma frase importante: “Além do mais, já estou fascinado com a vida de Santo Agostinho, mesmo que não o conheça”. É como se aí se resolvesse um grande problema: há tempos, o Pontifício Conselho para a Cultura elaborara um projeto de encenação da vida de Santo Agostinho para a TV. Já se pensara no diretor, o argelino Rachid Benhadj, de religião muçulmana. O roteirista seria o próprio cardeal Poupard. A produção já havia sido acertada com a Lux Vide, de Ettore Bernabei. Mas um¬Santo Agostinho com o rosto e o carisma de Depardieu tornaria a empreitada realmente fascinante. O cardeal Poupard pergunta ao grande ator o que acharia de interpretá-lo.

Depardieu fica curioso e promete ao cardeal que refletiria sobre o assunto. Sai do Vaticano e, quando passeava pelo centro de Roma, Carole Bouquet entra numa livraria e lhe dá de presente uma edição francesa das Confissões, que o ator levará consigo para Cannes. E declara algum tempo depois: “Desde que peguei nesse livro, não desgrudei mais. Ele nunca me aborreceu, e continuo a folheá-lo todos os dias. Agostinho me impressiona porque diz ‘tu’ a Deus”.

Argélia, nas pegadas
de Agostinho

o cardeal de Paris, Jean-Marie Lustiger faz uma saudação ao artista. A leitura das Confissões faz parte da manifestação “O ano da Argélia na França”

No terrível setembro de 2001, marcado pela tragédia de Nova York, Depardieu, que quase se afoga no mare magnum dos escritos de Agostinho, dos quais já não consegue se separar, fica sabendo que na Argélia, terra natal do santo, acaba de acontecer um congresso internacional sobre sua figura, organizado pelo presidente Abdelaziz Bouteflika, grande admirador do bispo de Hipona. Sem pensar duas vezes, viaja para a Argélia. Está impressionado com a coragem de Bouteflika de convidar a Argel os maiores especialistas para discutirem sobre um grande personagem cristão como Santo Agostinho num momento de feroz recrudescência dos integrismos religiosos.
A viagem lhe possibilita conhecer André Mandouze, um dos mais credenciados especialistas em Santo Agostinho, amigo do presidente argelino. Nasce uma grande amizade com o idoso latinista, que luta há sessenta anos para que os escritos do Doctor Gratiae sejam lidos nas igrejas francesas. A paixão de ambos pelo santo permite a Depardieu uma maior familiaridade com os textos. Os dois se tornam absolutamente complementares: graças à ajuda do estudioso Mandouze, Depardieu, que só conta com a escola elementar, consegue deixar vir à tona algo que já tinha em si, mas a que não sabia dar nome: a fé. “Santo Agostinho é ‘o porquê’”, diz Depardieu. “Quando a pessoa penetra nas Confissões, se dá conta de que é uma obra completamente moderna. Fora de toda a confusão em que vivemos hoje. É a demonstração de que as palavras não explicam a fé: a fé é um estado, uma coisa viva. Como a fé de Agostinho, que, como com um amigo, chega até a se irritar com o Senhor”. O ator arrisca dizer: “Para mim, há na Igreja Católica algo que realmente não funciona, que até afasta as pessoas do catolicismo. Por exemplo, na liturgia: muitas palavras inúteis, muito barulho, muita confusão não favorecem a oração, o recolhimento, a meditação. Tudo isso me perturba, me dá mal-estar. Como se já não bastassem o século e a mídia para nos afastar da Igreja. Já falei disso a um sacerdote anos atrás, mas ele não soube me dar uma resposta. Com Santo Agostinho é diferente: com ele a gente experimenta algo vivo, vivido; ele nos fala, nos fala de verdade”.
_ na Argélia que nasce em Depardieu o desejo de ir a igrejas, sinagogas, mesquitas, e até ao deserto. Sem publicidade, sem dinheiro, sem aplausos. Às vezes pedindo permissão para entrar e, sem tirar nada do lugar, sem perturbar, à luz de quatro velas, pôr-se a ler as Confissões que tanto ama. Um momento em que as pessoas possam recolher-se “para exprimir ‘a pergunta’, para revigorar a fé, para abrir o coração. Um lugar ao qual as pessoas decidam ir não para sentir prazer pela minha capacidade de declamar, mas para ‘ouvir’. Atrás das palavras, está a formulação, e atrás da formulação está o lugar de onde vêm as palavras: de um homem que viveu, que duvidou, que se libertou, que passa da obscuridade para a luz do absoluto de maneira gratuita, normal. Agostinho é alguém que vive”. Essa é a origem, portanto, do evento de 9 de fevereiro em Notre-Dame de Paris.

O filme não sai mais
Nesse meio tempo, o projeto de fazer um filme sobre a vida de Santo Agostinho é abandonado. “Depois ler as Confissões, respondi que não. Pois não dá para fazer um filme sobre ele: desviaria a atenção do essencial para os episódios da sua vida. É preciso entrar nas Confissões e ouvir as palavras que ressoam em nós mesmos, e entrar numa outra verdade. Declamar é o meu ofício, posso ser Obelix ou Napoleão, já o fiz centenas de vezes. Mas Santo Agostinho eu não poderia declamar, pois, ao encontrá-lo, achei a resposta a uma exigência maior. É a minha fé, o meu recurso de vida, a verdade. Extraio dele a força para ficar de pé, a alegria. Entendi que a esperança é mais forte que o saber. Pois mesmo quanto não sabia dizer o que experimentava, o que buscava, aquela coisa existia da mesma forma. Além de tudo, um filme sobre Santo Agostinho só poderia ser feito por alguém como Pier Paolo Pasolini: alguém que, por meio das imagens, transmitisse o Verbo”.
Quando lhe perguntam se depois do impacto com Agostinho seu critério de escolha dos filmes que fará será diferente, Depardieu responde que não. “Santo Agostinho também teve fases diversas na vida: ele vive em comunhão com o Senhor, mas também junto dos outros. Ele sabe distinguir o que é monstruoso do que não é. Recentemente tive a oportunidade de ir a um hospital penitenciário repleto de criminosos, assassinos. Até infanticidas. Nada na vida deve ser censurado: não no sentido de que se deve experimentar de tudo. Mas no sentido de não ter medo: aceitar a realidade tal como ela é, sem esquecer nada”.

FONTE: http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=711

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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 18th, 2008

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Vergine Madre

Vergine Madre, figlia del tuo figlio,
umile e alta più che creatura,
termine fisso d’etterno consiglio,

tu se’ colei che l’umana natura
nobilitasti sì, che ‘l suo fattore
non disdegnò di farsi sua fattura.

Nel ventre tuo si raccese l’amore,
per lo cui caldo ne l’etterna pace
così è germinato questo fiore.

Qui se’ a noi meridiana face
di caritate, e giuso, intra ‘ mortali,
se’ di speranza fontana vivace.

Donna, se’ tanto grande e tanto vali,
che qual vuol grazia e a te non ricorre
sua disianza vuol volar sanz’ali.

La tua benignità non pur soccorre
a chi domanda, ma molte fiate
liberamente al dimandar precorre.

In te misericordia, in te pietate,
in te magnificenza, in te s’aduna
quantunque in creatura è di bontate.


Dante Alighieri (Commedia, Paradiso, Canto XXXIII)

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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 17th, 2008

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Bento XVI e (os asnos de) a Academia

Bruno Dalla Piccola, docente de genética médica na «Sapienza», definiu o affair anti-Ratzinger «uma saída vergonhosa que seguramente não honra uma universidade grande, importante como a Sapienza».

«Não se envergonham aqueles que assinaram [os docentes que assinaram um protesto dirigido ao Reitor da Universidade] de querer impedir de falar a uma pessoa que goza de respeito em todo o mundo ?».

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

janeiro 16th, 2008

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Drummond, no meio do caminho

Media in Via

Media in via erat lapis
erat lapis media in via
erat lapis
media in via erat lapis.

Non ero unquam immemor illius eventus
pervivi tam míhi in retinis defatigatis.
Non ero unquam immemor quod media in via
erat lapis

erat lapis media in via
media in via erat lapis.

Trad: Silva Bélkior

http://www.revista.agulha.nom.br/drumml03.html

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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 15th, 2008

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¿Se podría decir entonces que seguimos viviendo en la Edad Media?

“Seguimos viviendo en la Edad Media”, dice Jacques Le Goff

Fue una etapa brillante, dice el historiador

PARIS.– Discípulos y colegas llaman al francés Jacques Le Goff “el ogro historiador”. Es una referencia al desaparecido Marc Bloch, cofundador de l’Ecole des Annales, quien afirmaba que un buen historiador “se parece al ogro de la leyenda: allí donde huele carne humana, sabe que está su presa”.

De un ogro, Jacques Le Goff tiene la estatura y el apetito. También tiene una insaciable curiosidad que lo llevó a transformarse en una referencia mundial sobre la historia de la Edad Media, período al cual el hombre contemporáneo le debe muchas de sus conquistas, dice.

A los 82 años, Jacques Le Goff sigue trabajando, a pesar de la profunda tristeza que le provocó la reciente muerte de su esposa –después de casi 60 años de vida en común– y de una caída que desde 2003 lo mantiene recluido en su departamento de París.

Con cualquiera de sus libros –tantos que podrían formar una biblioteca– todo lector se siente inteligente y erudito.

Aún más que sus condiscípulos George Duby, Emmanuel Le Roy Ladurie y François Furet, Le Goff recurrió a todas las disciplinas para estudiar la vida cotidiana, las mentalidades y los sueños de la Edad Media: antropología, etnología, arqueología, psicología? Sus obras mezclan conocimiento y perspectivas. Con ellas es posible introducirse en un medioevo fascinante, donde se estudiaba y se enseñaba a Aristóteles, Averroes y Avicenas, las ciudades comenzaban a forjarse una idea de la belleza y los burgueses financiaban catedrales que inspirarían a Gropius, Gaudi y Niemeyer. En esa Edad Media masculina, la mujer era respetada, las prostitutas, bien tratadas y hasta desposadas, y solía suceder que las jovencitas aprendieran a leer y a escribir.

-Los historiadores no consiguen ponerse de acuerdo sobre la cronología de la Edad Media. ¿Cuál es la correcta, a su juicio?

-Es verdad que no todos los historiadores coinciden en esa cronología. Para mí, la primera de sus etapas comienza en el siglo IV y termina en el VIII. Es el período de las invasiones, de la instalación de los bárbaros en el antiguo imperio romano occidental y de la expansión del cristianismo. Déjeme subrayar que Europa debe su cultura a la Iglesia. Sobre todo, a San Jerónimo, cuya traducción latina de la Biblia se impuso durante todo el medioevo, y a San Agustín, el más grande de los profesores de la época.

-Usted, gran anticlerical, jamás deja de destacar el papel de la Iglesia en los mayores logros de la Edad Media.

-¡Pero no es necesario ser un ferviente creyente para hablar bien de la Iglesia! También soy un convencido partidario del laicismo: principio admirable, establecido por el mismo Jesús cuando dijo: “Al César lo que es del César y a Dios lo que es de Dios”. Pero, volviendo a la cronología, la segunda etapa está delimitada por el período carolingio, del siglo VIII al X.

-El imperio de Carlomagno fue, para muchos, el primer intento verdadero de construcción europea?

-Falso. En realidad se trató del primer intento abortado de construcción europea. Un intento pervertido por la visión “nacionalista” de Carlomagno y su patriotismo franco. En vez de mirar al futuro, Carlomagno miraba hacia atrás, hacia el imperio romano. La Europa de Carlos V, de Napoleón y de Hitler fueron también proyectos antieuropeos. Ninguno de ellos buscaba la unidad continental en la diversidad. Todos perseguían un sueño imperial.

-Usted escribió que a partir del año 1000 apareció una Europa soñada y potencial, en la cual el mundo monástico tendría un papel social y cultural fundamental.

-Así es. Una nueva Europa llena de promesas, con la entrada del mundo eslavo en la cristiandad y la recuperación de la península hispánica, que estaba en manos de los musulmanes. Al desarrollo económico, factor de progreso, se asoció una intensa energía colectiva, religiosa y psicológica, así como un importante movimiento de paz promovido por la Iglesia. El mundo feudal occidental se puso en marcha entre los siglos XI y XII. Esa fue la Europa de la tierra, de la agricultura y de los campesinos. La vida se organizaba entre la señoría, el pueblo y la parroquia. Pero también entraron en escena las órdenes religiosas militares, debido a las Cruzadas y a las peregrinaciones que transformarían la imagen de la cristiandad. Entre los siglos XIII y XV, fue el turno de una Europa suntuosa de las universidades y las catedrales góticas.

-En todo caso, para usted, la Edad Media fue todo lo contrario del oscurantismo.

-Aquellos que hablan de oscurantismo no han comprendido nada. Esa es una idea falsa, legado del Siglo de las Luces y de los románticos. La era moderna nació en el medioevo. El combate por la laicidad del siglo XIX contribuyó a legitimar la idea de que la Edad Media, profundamente religiosa, era oscurantista. La verdad es que la Edad Media fue una época de fe, apasionada por la búsqueda de la razón. A ella le debemos el Estado, la nación, la ciudad, la universidad, los derechos del individuo, la emancipación de la mujer, la conciencia, la organización de la guerra, el molino, la máquina, la brújula, la hora, el libro, el purgatorio, la confesión, el tenedor, las sábanas y hasta la Revolución Francesa.

-Pero la Revolución Francesa fue en 1789. ¿No se considera que la Edad Media terminó con la llegada del Renacimiento, en el siglo XV?

-Para comprender verdaderamente el pasado, es necesario tener en cuenta que los hechos son sólo la espuma de la historia. Lo importante son los procesos subyacentes. Para mí, el humanismo no esperó la llegada del Renacimiento: ya existía en la Edad Media. Como existían también los principios que generaron la Revolución Francesa. Y hasta la Revolución Industrial. La verdad es que nuestras sociedades hiperdesarrolladas siguen estando profundamente influidas por estructuras nacidas en el medioevo.

-¿Por ejemplo?

-Tomemos el ejemplo de la conciencia. En 1215, el IV Concilio de Latran tomó decisiones que marcaron para siempre la evolución de nuestras sociedades. Entre ellas, instituyó la confesión obligatoria. Lo que después se llamó “examen de conciencia” contribuyó a liberar la palabra, pero también la ficción. Hasta ese momento, los parroquianos se reunían y confesaban públicamente que habían robado, matado o engañado a su mujer. Ahora se trataba de contar su vida espiritual, en secreto, a un sacerdote. Tanto para mí como para el filósofo Michel Foucault, ese momento fue esencial para el desarrollo de la introspección, que es una característica de la sociedad occidental. No hace falta que le haga notar que bastaría con hacer girar un confesionario para que se transformara en el diván de un psicoanalista.

-Usted habla de emancipación de la mujer en la Edad Media. ¿Pero aquella no fue una época de profunda misoginia?

-Eso dicen y, naturalmente, hay que poner las cosas en perspectiva. Yo sostengo, sin embargo, que se trató de una época de promoción de la mujer. Un ejemplo bastaría: el culto a la Virgen María. ¿Qué es lo que el cristianismo medieval inventó, entre otras cosas? La Santísima Trinidad, que, como los Tres Mosqueteros, eran, en realidad, cuatro: Dios, Jesús, el Espíritu Santo y María, madre de Dios. Convengamos en que no se puede pedir mucho más a una religión que fue capaz de dar estatus divino a una mujer. Pero también está el matrimonio: en 1215, la Iglesia exigió el consentimiento de la mujer, así como el del hombre, para unirlos en matrimonio. El hombre medieval no era tan misógino como se pretende.

-La invención del purgatorio, a mediados del siglo XII, parece haber sido también uno de los momentos clave para el desarrollo de nuestras sociedades actuales.

-Así es. Curiosamente, lo que comenzó como un intento suplementario de control por parte de la Iglesia, concluyó permitiendo el desarrollo de la economía occidental tal como la practicamos en nuestros días.

-¿Cómo es eso?

-La invención del purgatorio se produjo en el momento de transición entre una Edad Media relativamente libre y un medioevo extremadamente rígido. En el siglo XII comenzó a instalarse la noción de cristiandad, que permitiría avanzar, pero también excluir y perseguir: a los herejes, los judíos, los homosexuales, los leprosos, los locos… Pero, como siempre sucedió en la Edad Media, cada vez que se hacían sentir las rigideces de la época los hombres conseguían inventar la forma de atenuarlas. Así, la invención de un espacio intermedio entre el cielo y el infierno, entre la condena eterna y la salvación, permitió a Occidente salir del maniqueísmo del bien y del mal absolutos. Podríamos decir también que, inventando el purgatorio, los hombres medievales se apoderaron del más allá, que hasta entonces estaba exclusivamente en manos de Dios. Ahora era la Iglesia la que decía qué categorías de pecadores podrían pagar sus culpas en ese espacio intermedio y lograr la salvación. Una toma de poder que, por ejemplo, permitiría a los usureros escapar al infierno y hacer avanzar la economía. También serían salvados de este modo los fornicadores.

-Pero hasta la aparición del sistema bancario reglamentado, en el siglo XVIII, tanto la Iglesia como las monarquías sobrevivieron gracias a los usureros. ¿Por qué condenarlos al infierno?

-Porque así lo establecían las escrituras, como en la mayoría de las religiones. En el universo cristiano medieval, la usura era un doble robo: contra el prójimo, a quien el usurero despojaba de parte de su bien, pero, sobre todo, contra Dios, porque el interés de un préstamo sólo es posible a través del tiempo. Y como el tiempo en el medioevo sólo pertenecía a Dios, comprar tiempo era robarle a Dios. Sin embargo, el usurero fue indispensable a partir del siglo XI, con el renacimiento de la economía monetaria. La sed de dinero era tan grande que hubo que recurrir a los prestamistas. Entonces la escolástica logró hallarles justificaciones. Surgió así el concepto de mecenas. También se aceptó que prestar dinero era un riesgo y que era normal que engendrara un beneficio. En todo caso, y sólo para los prestamistas considerados “de buena fe”, el purgatorio resultó un buen negocio.

-La Edad Media también inventó el concepto de guerra justa, vigente hasta nuestros días, como lo demostraron los debates en la ONU sobre la guerra en Irak. Curioso, ya que el cristianismo es portador de un ideal de paz. Hasta se podría decir que es antimilitarista.

-Es verdad. Ordenándole a Pedro que enfundara su espada, Cristo dijo: “Quien a hierro mate, a hierro morirá”. Los primeros grandes teóricos cristianos latinos eran pacifistas. Pero todo cambió a partir del siglo IV, cuando el cristianismo se transformó en religión de Estado.

-En otras palabras, los cristianos se vieron obligados a cristianizar la guerra.

-En esa tarea tendrá un papel fundamental San Agustín, el gran pedagogo cristiano. Para él, la guerra es una consecuencia del pecado original. Como éste existirá hasta el fin de los tiempos, la guerra también existirá por siempre. San Agustín propuso, entonces, imponer límites a esa guerra. En vez de erradicarla, decidió confinarla, someterla a reglas. La primera de esas reglas es que sólo es legítima la guerra declarada por una persona autorizada por Dios. En la Edad Media, era el príncipe. Hoy es el Estado, el poder público. La segunda regla es que una guerra es justa sólo cuando no persigue la conquista. En otras palabras: las armas sólo se toman en defensa propia o para reparar una injusticia. Esas reglas siguen perfectamente vigentes en nuestros días.

-¿Se podría decir que el hombre medieval trataba de preservar la cristiandad de todo aquello que amenazaba su equilibrio?

-Constantemente. Déjeme evocar como ejemplo el que para mí fue el aspecto más negativo de la época: la condena absoluta del placer sexual, simbolizado por el llamado “pecado de la carne”. La alta Edad Media asumió las prohibiciones del Antiguo Testamento. Desde entonces, el cuerpo fue diabolizado, a pesar de algunas excepciones, como Santo Tomás de Aquino, para quien era lícito el placer en el acto amoroso. Frente a la opresión moral, la sociedad medieval reaccionó con la risa, la comedia y la ironía. El universo medieval fue un mundo de música y de cantos, promovió el órgano e inventó la polifonía.

-Hace un momento hizo referencia a los fornicadores que tuvieron un lugar en el purgatorio. ¿Cómo fue esto posible en una época de tanta represión sexual?

-Hay una anécdota que ilustra perfectamente la dualidad medieval. El rey Luis IX de Francia, que después sería canonizado como San Luis, tenía una vitalidad sexual desbordante. En los períodos en que las relaciones carnales eran lícitas (fuera de las fiestas religiosas), el monarca no se contentaba con reunirse con su esposa por las noches. También lo hacía durante el día. Esto irritaba mucho a su madre, Blanca de Castilla, que en cuanto se enteraba de que su hijo estaba con la reina intentaba introducirse en la habitación para poner fin a sus efusiones. Luis IX decidió entonces poner un guardián ante su puerta, que debía prevenirlo y darle tiempo de disimular su desenfreno. Ese hombre lleno de ardor tuvo once hijos y cuando partió a la Cruzada, en 1248, llevó a su mujer, a fin de no privarse de sus placeres sexuales. ¡No imaginará usted que la Iglesia podía enviar a San Luis a arder en el fuego eterno del infierno!

-¿También podríamos decir que la Edad Media inventó el concepto de Occidente?

-La palabra “Occidente” no me gusta. Pronunciada por los occidentales, tiene un contenido de soberbia para el resto del planeta.

-Pero entonces, ¿cómo definir, por ejemplo, a América, heredera de Europa?

-América ha dejado de ser la heredera de Europa. Lo fue hasta finales de la Segunda Guerra Mundial, cuando tanto Estados Unidos como el resto del continente dejaron de tener al hombre como centro de sus preocupaciones.

-Usted es un apasionado estudioso de la imaginación colectiva de la Edad Media. ¿Por qué eso es tan importante?

-Felizmente, las nuevas generaciones de historiadores siguen cada vez más esa tendencia. La imaginación colectiva se construye y se nutre de leyendas, de mitos. Se la podría definir como el sistema de sueños de una sociedad, de una civilización. Un sistema capaz de transformar la realidad en apasionadas imágenes mentales. Y esto es fundamental para comprender los procesos históricos. La historia se hace con hombres de carne y hueso, con sus sueños, sus creencias y sus necesidades cotidianas.

-¿Y cómo era esa imaginación medieval?

-Estaba constituida por un mundo sin fronteras entre lo real y lo fantástico, entre lo natural y lo sobrenatural, entre lo terrenal y lo celestial, entre la realidad y la fantasía. Si bien los cimientos medievales de Europa subsistieron, sus héroes y leyendas fueron olvidados durante el Siglo de las Luces. El romanticismo los resucitó, cantando las leyendas doradas de la Edad Media. Hoy asistimos a un segundo renacimiento gracias a dos inventos del siglo XX: el cine y las historietas. El medioevo vuelve a estar de moda con “Harry Potter”, “La guerra de las galaxias” y los videojuegos. En realidad, la Edad Media tiene una gran deuda con Hollywood. Y viceversa. Pensé alguna vez que provocaría un escándalo afirmando que el medioevo se había prolongado hasta la Revolución Industrial. La verdad es que ha llegado hasta nuestros días.

-¿Se podría decir entonces que seguimos viviendo en la Edad Media?

-Sí. Pero esto quiere decir todo lo contrario de que estamos en una época de hordas salvajes, ignorantes e incultas, sumergidos en pleno oscurantismo. Estamos en la Edad Media porque de ella heredamos la ciudad, las universidades, nuestros sistemas de pensamiento, el amor por el conocimiento y la cortesía. Aunque, pensándolo bien, esto último bien podría estar en vías de extinción.

Por Luisa Corradini
Para LA NACION

Link corto: http://www.lanacion.com.ar/746748

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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 4th, 2008

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Ladrões pobres morrem ao furtar

O título acima é propositadamente cômico. Imagine que abaixo dele houvesse um artigo desse conceituado jornal lamentando que a morte atinja sobretudo os ladrões menos abastados, vez que os de sofisticadas quadrilhas, a exemplo dos navalheiros, mensaleiros, sempre conseguem escapar da condenação criminal. Com a liberdade que a Justiça tão agilmente lhes concede, podem usufruir a fortuna surrupiada e destruir provas do crime. Imagine ainda que houvesse estatísticas de quantos ladrões pobres morrem por roubar em “condições inseguras”. E, chegando ao cúmulo, imagine que o articulista propusesse a legalização do furto como solução para promover a isonomia entre ricos e pobres, e para acabar com a injusta morte dos larápios menos favorecidos.
Seria total absurdo. Mas não é menos absurdo do que artigos e reportagens que temos lido nessa feroz campanha para legalização do aborto. Um deles com o título “Mulheres pobres morrem ao abortar”, em vez de propor que as mulheres, ricas ou pobres, deixem de abortar para deixar de morrer (como seria normal propor aos ladrões que deixassem de furtar para evitar risco de morte), propõe que as mulheres tenham o direito de exterminar seus filhos “em condições seguras”. E lamenta que a morte atinja sobretudo as gestantes pobres, uma vez que as ricas podem cometer esse crime em “clínicas particulares”, que oferecem “melhor atendimento”. Em nenhum momento o articulista se refere à vítima do aborto, o bebê, que é sempre morto, não só quando o aborto é praticado em “clínicas clandestinas” e com “métodos caseiros”, mas também quando é feito em sofisticados ambientes dotados de potentes máquinas de aspiração e de afiadas curetas para esquartejamento.
O texto refere-se a dados publicados pela maior rede privada de abortos do mundo, a IPPF, conhecida pelo cognome “A multinacional da morte”, com filiais em 180 países (no Brasil, com o nome de Bemfam). A nefanda organização, segundo o artigo, publicou relatório intitulado “Morte e negação: abortamento inseguro e pobreza”. Além de todas as falácias denunciadas, o documento prima por fraudar dados e manipular informações, como é praxe no meio abortista. Baseando-se em uma bola de cristal, “estima-se” que, no Brasil, sejam realizados 1,4 milhão de abortos e “calcula-se” que 31% das gravidezes terminam em abortamento. Esses dados, baseados na mais científica chutometria, podem ser mudados de acordo com a conveniência do panfletador.
Em 1990, um jornal do Rio de Janeiro dizia que, segundo a ONU, o Brasil era recordista mundial de abortos, com uma taxa anual de 3 milhões. Afinal, são 3 milhões ou 1,4 milhão? Ou seriam 100 mil? Talvez 10 mil? A dra. Zilda Arns, coordenadora da Pastoral da Criança, assustada com a quantidade de abortos que se diziam praticar no Brasil “segundo pesquisas da ONU”, foi consultar a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS, repartição regional da OMS) e recebeu a seguinte resposta em 1993: “Lamentavelmente, não é a primeira vez que, levianamente, se toma o nome da Organização Mundial de Saúde e/ou da Organização Pan-Americana de Saúde para dar informações que não emanam dessas instituições”.
Quanto às mortes maternas, faltou ao documento honestidade para dizer que seu número permanece estável ao longo dos anos em nosso país: 1.577 mortes em 2001, 1.655 em 2002, 1.584 em 2003 e 1.641 em 2004. Desse número, a quantidade de mortes maternas em gravidez que terminou em aborto nunca passou de 200. Seu ponto máximo foi 163 mortes, em 1997. Em 2001, 148 mortes; em 2002, 115 mortes; em 2003, 152; em 2004, 156. Detalhe importante: essa cifra engloba não só a morte materna devida a abortos provocados, mas também gravidez ectópica, mola hidatiforme, outros produtos anormais da concepção, aborto espontâneo, aborto não especificado, outros tipos de aborto e falhas na tentativa de aborto. Com uma gama tão abrangente, a cifra não chega a duas centenas, para tristeza dos abortistas (dados disponíveis na página do Departamento de Informação e Informática do SUS — Datasus).
No entanto, é possível também reduzir a zero esse baixo índice de mortes maternas por aborto. O caminho é exatamente o contrário ao proposto pela “multinacional da morte”: combater a lucrativa indústria do aborto, punir os aborteiros, fazer campanha de valorização da maternidade e da vida intra-uterina, dar assistência material e moral às gestantes em desespero e aos seus filhos nascituros.
É lamentável que governo e IPPF estejam unidos e usando os meios de comunicação social com argumentos falaciosos e falsas estatísticas para impor à população brasileira a aceitação do mais covarde de todos os assassinatos.

(Maria José Miranda Pereira, Promotora de Justiça, Correio Braziliense)

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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 3rd, 2008

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Putrefação das Ideologias (Cardeal Ratzinger – Sexta-feira Santa 2004)

DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO
Jesus é sepultado

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Do evangelho segundo São Mateus 27, 59-61

José pegou no corpo de Jesus, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu túmulo novo, que tinha mandado escavar na rocha. Depois, rolou uma grande pedra para a porta do túmulo e retirou-se. Entretanto, estavam ali Maria de Magdala e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro.

MEDITAÇÃO

Jesus, desonrado e ultrajado, é deposto com todas as honras num túmulo novo. Nicodemos traz uma mistura de mirra e aloés de cem libras destinada a emanar um perfume precioso. Agora na oferta do Filho revela-se, como sucedera já na unção de Betânia, um excesso que nos recorda o amor generoso de Deus, a «superabundância» do seu amor. Deus faz generosamente oferta de Si próprio. Se a medida de Deus é superabundante, também para nós nada deveria ser demasiado para Deus. Foi o que o próprio Jesus nos ensinou no discurso da Montanha (Mt 5, 20). Mas é preciso lembrar também as palavras de S. Paulo a propósito de Deus, que «por nosso meio faz sentir em todos os lugares o odor do seu conhecimento. Somos, para Deus, o bom odor de Cristo» (2 Cor 2, 14-15). Na putrefacção das ideologias, a nossa fé deveria ser de novo o perfume que reconduz às pegadas da vida. No momento da deposição, começa a realizar-se a palavra de Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24). Jesus é o grão de trigo que morre. Do grão de trigo morto começa a grande multiplicação do pão que dura até ao fim do mundo: Ele é o pão de vida capaz de saciar em medida superabundante a humanidade inteira e dar-lhe o alimento vital: o Verbo eterno de Deus, que Se fez carne e também pão, para nós, através da cruz e da ressurreição. Sobre a sepultura de Jesus resplandece o mistério da Eucaristia.