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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 22nd, 2007

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Raffaele Merry del Val: um aristocrata espanhol ao lado de Pio X, por Giampaolo Romanato

Duas personalidades muito diferentes, Pio X e Raffaele Merry del Val, seu secretário de Estado. O primeiro nasceu em 1835 na zona rural da região do Vêneto. O pai era um funcionário de baixo escalão da administração austríaca, a mãe, analfabeta. Conheceu a pobreza, passou a vida inteira entre paróquias de vilarejos e cúrias de província, longe da ribalta, das altas rodas, dos salões e dos palácios do poder. O segundo, nascido em Londres em 1865 numa família rica da alta aristocracia européia, à vontade entre embaixadores e cabeças coroadas (o pai foi representante da Espanha em Londres, Bruxelas, Viena, Roma), poliglota, teve o privilégio de ser acolhido na Academia dos Nobres Eclesiásticos (a escola da diplomacia pontifícia) quando ainda não era padre. Logo lançado na diplomacia vaticana, tornou-se bispo aos trinta e cinco anos e cardeal aos trinta e nove.
Tinham apenas duas coisas em comum: uma fé granítica em Deus e a ilimitada devoção à Igreja. Isso foi suficiente para cimentar uma relação de colaboração e estima recíproca como não há igual na história da Igreja. O serviço de Merry del Val na Secretaria de Estado, perfeitamente coincidente com os onze anos (1903-1914) do pontificado de Pio X (é o único caso, na lista dos trinta e quatro secretários de Estado que se sucederam de 1800 até hoje), se identifica com o governo do Papa vêneto de tal modo, que a historiografia tem dificuldade para distinguir o que é obra do superior e o que se deve ao comandado.
A dúvida é sobre o papel ocupado por Merry del Val: executor ou inspirador? Uma questão provavelmente mal colocada, seja porque o funcionamento da estrutura de governo da Santa Sé sempre de alguma forma faz com que o momento de decisão retorne à pessoa do papa, seja porque a historiografia vem apurando que Pio X exercia sobre os subordinados um controle muito maior do que se considerou até hoje. Se, além disso, levarmos em conta a diferença de idade entre os dois, de exatamente trinta anos, parece ainda menos convincente pensar num pontífice “manobrado” por seu jovem colaborador. Podemos acrescentar que a extraordinária devoção de Merry a Pio X (originou a petição que deu início a seu processo de canonização; no dia 20 de cada mês, dia do falecimento do Papa, celebrava uma missa em seu sufrágio; pediu para ser sepultado “o mais próximo possível do meu amantíssimo Pai e pontífice Pio X”) torna a hipótese ainda menos provável. É mais verossímil pensar que entre o Papa vêneto e seu ministro espanhol tenha-se realizado um pleno entendimento acerca dos critérios sobre os quais caracterizar a política da Igreja, ad intra e ad extra. Enfim, raciocinavam em uníssono e trabalhavam juntos.
Raffaele Merry del Val cresceu na Inglaterra, onde o pai era embaixador da Espanha, em seguida na Bélgica e depois novamente na Inglaterra. A vocação sincera ao sacerdócio, mediada pelos jesuítas, foi muito precoce. Quando chegou a Roma aos vinte anos para completar a preparação no Pontifício Colégio Escocês, começou ali uma das mais brilhantes carreiras de toda a história eclesiástica. De fato, Leão XIII o impôs à Academia dos Nobres Eclesiásticos, fez dele monsenhor quando ainda não era padre (seria consagrado em 1888) e o utilizou para missões diplomáticas na Inglaterra e na Alemanha. Não basta certamente o domínio das principais línguas européias para justificar tanta atenção. Evidentemente, o descendente da insigne família inglesa Merry, de ascendência irlandesa, e da ainda mais ilustre casa espanhola dos Del Val, deve ter dado provas de capacidade fora do comum.
Depois de diplomado na Gregoriana, tornou-se um dos personagens mais influentes e ouvidos da Roma pontifícia, sobretudo no que diz respeito aos problemas relacionados ao anglicanismo. O perfeito conhecimento do ambiente e da língua, as freqüentes viagens para além da Mancha e a estima do cardeal Vaugham lhe conferiram grande autoridade moral. Investido por Leão XIII da espinhosa questão das ordenações anglicanas, levou a Santa Sé à resposta negativa que seria oficializada em setembro de 1896 com a bula Apostolicae curae, da qual foi redator. Com base numa prática de mais de trezentos anos, Leão XIII confirmava a “nulidade” das “ordenações realizadas no rito anglicano”, negando com isso a sucessão apostólica desses bispos. A reaproximação entre anglicanos e católicos, que se estava realizando havia tempo, sofria assim um pesado intervalo, enquanto o jovem prelado se credenciava como porta-voz de uma linha de austeridade doutrinal alternativa à política do cardeal Rampolla.
No ano seguinte, realizou uma longa missão no Canadá, na qualidade de delegado apostólico. Disputada entre as tentações opostas de encastelamento e de entreguismo, a jovem catolicidade local inundava Roma de pedidos de ajuda. Merry agiu ali com equilíbrio, sobretudo em relação ao problema das escolas católicas em Manitoba, e obteve por isso o reconhecimento público do Papa na encíclica Affari vos (dezembro de 1897). Com palavras fora do protocolo, Leão escreveu que “o nosso delegado apostólico cumpriu perfeita e fielmente aquilo pelo qual o havíamos enviado”. Quando voltou a Roma, foi posto como chefe da Academia dos Nobres Eclesiásticos e nomeado bispo. Tinha queimado etapas graças a uma sólida preparação histórico-jurídica, a uma inata capacidade de se relacionar com qualquer um, à “rapidez”, como diria depois Bento XV, com a qual resolvia os problemas. Mas todos sabiam que o capacitado diplomata era um padre severo e austero, de ascética disciplina de vida.

Uma inesperada coincidência tornou possível o salto definitivo. Quando faleceu o Papa, em 1903, morreu ao mesmo tempo também o prelado que exercia a função de secretário do Sacro Colégio. Pegos de surpresa, os cardeais não hesitaram e pediram a Merry que o substituísse. Foi assim que o jovem prelado anglo-espanhol (naquele momento tinha trinta e oito anos) viu-se como diretor e um dos atores principais, ainda que em posição apenas executiva, do mais dramático conclave da história moderna: o do veto austríaco e do conflito entre o bloco cardinalício francês e a frente austro-alemã-polonesa. Do choque saiu triturada a candidatura do cardeal Rampolla, que havia sido durante dezesseis anos secretário de Estado de Leão, e derrotada definitivamente a linha filo-francesa, antiitaliana e antitriplicista. Mesmo privado do direito de voto, Merry esteve no centro de toda a disputa, como demonstrou seu diário, recentemente publicado por Luciano Trincia. Certamente não lhe escapou que a ines­perada eleição do patriarca de Veneza punha fim a um ciclo inteiro da política vaticana: aquele que, depois de 1870, tinha apostado tudo na recuperação de um papel político internacional da Santa Sé e na restauração do poder temporal.
Estranho à cúria, mas bem consciente de ter de temê-la, Pio X, que antes do conclave nunca havia encontrado Merry, identificou nele o personagem capaz de mantê-la sob controle. Era alguém que conhecia bem, mas que não pertencia ao grupo dos rampollianos, e sobretudo era jovem demais, devoto demais do papado para contrapor-se a ele. As palavras com as quais Pio X lhe comunicou a nomeação, na mesma noite da eleição, em 4 de agosto de 1903, depois que o bispo foi se despedir, tendo esgotado sua função, dão a medida da solidão do novo Papa. “Não decidi nada ainda. Não sei o que farei. Por ora não tenho ninguém. Continue comigo como secretário adjunto de Estado. Depois veremos.” Bastaram dois meses para convencê-lo de que a escolha estava correta. Em 18 de outubro nomeou-o secretário de Estado e lhe preanunciou o cardinalato. Foi a segunda surpresa do pontificado, depois da sua eleição: pela primeira vez se tornava secretário de Estado um prelado não italiano, que ainda não era cardeal e não tinha ainda quarenta anos. O elogio que o papa Sarto lhe dirigiu em 11 de novembro de 1903, dia da imposição do barrete vermelho, é tão inusual que merece ser transcrito integralmente: “O bom perfume de Cristo, senhor cardeal, que difundistes em todos os lugares, mesmo em vossa morada temporária, e as múltiplas obras de caridade às quais continuamente vos dedicastes nos ministérios sacerdotais, especialmente nesta nossa cidade de Roma, conquistaram para vós, com a admiração, a estima universal”. A avaliação positiva do Pontífice, mais que às capacidades do colaborador, voltava-se ao seu mundo moral, às obras de caridade entre os jovens do bairro de Trastevere, nos quais se doava sem se poupar.
Os acontecimentos do pontificado de Pio X são conhecidos. As relações com os Estados se deterioraram um pouco por toda a parte, até a ruptura efetiva. O caso mais conhecido é o da França, onde, em dezembro de 1905, foi votada a lei de separação entre Igreja e Estado. Seis anos depois foi a vez de Portugal, que lançou uma lei ainda mais brutal. Tensões análogas ocorreram em vários países latino-americanos. O Papa não fez muito para modificar o curso dos acontecimentos. Protestou, escreveu encíclicas muito fortes, mas evitou de todas as formas tentar as vias diplomáticas.

No caso francês, a lei previa que as chamadas associações culturais, das quais estava excluída a hierarquia eclesiástica, administrassem as propriedades da Igreja, tornando-se um pólo alternativo aos bispos. O objetivo de desagregar a constituição hierárquica da Igreja era evidente, ainda que nem todos tivessem percebido. O Papa percebeu perfeitamente o nó do problema e opôs-se frontalmente a essa lei. Foi um verdadeiro legal suicide, como se disse, uma vez que a Igreja na França, obrigada por Roma a não aceitar a lei (o Pontífice escreveu em menos de um ano nada menos que três encíclicas dedicadas ao caso francês), perdeu a personalidade jurídica e com ela todo o seu patrimônio, a partir das igrejas onde se desenvolviam diariamente os ofícios religiosos. Mas ganhou de volta a sua liberdade e o pleno controle das nomeações episcopais, até aquele momento confiado ao Estado, como determinava a concordata napoleônica. A escolha de Pio X (entre o “bem” e os “bens” da Igreja, escolhi o primeiro, diria o Papa), que receberia a posteriori os aplausos de Aristide Briand, o inspirador da lei (“o Papa foi o único a enxergar claramente”, escreveu), apagou de um só golpe três séculos de galicanismo, de Igreja nacional, trazendo a catolicidade francesa, disciplinarmente, de volta à plena fidelidade romana.
Foi uma virada fundamental – “evento doloroso e traumatizante”, definiu-o João Paulo II na carta aos bispos franceses escrita no ano passado, por ocasião do centenário desse fato – que pegou os contemporâneos de surpresa e continua a dividir os historiadores, como se observa confrontando o juízo positivo sobre a ação do Pontífice expresso pelo estudioso suíço Martin Grichting no congresso sobre Pio X realizado em Veneza em maio do ano passado (as Atas estão para ser publicadas pelo Instituto de Direito Canônico do Seminário Patriarcal) e a opinião muito cautelosa de Giovanni Sale em Civiltà Cattolica de 5 de novembro de 2005. O gesto do Papa foi a oportunidade que permitiu o aparecimento do idealismo antitemporalista, como foi definido, o qual, na opinião de vários estudiosos, seria o aspecto revolucionário de seu pontificado, a verdadeira novidade na relação entre a Igreja e o mundo.
Com Pio X, termina enfim toda uma temporada na história da Igreja, a das interferências com a política, das tramas diplomáticas, das conexões tardias entre tronos e altares, dos bispos de cartola e dos cardeais de corte, dos confrontos com alguns Estados e as concessões a outros. Diferentemente de seu predecessor, nunca fez “política externa”, nunca tentou enfraquecer no plano internacional os países que se demonstravam contrários à Igreja, nunca procurou tirar vantagem das rivalidades, dos interesses e das alianças das várias nações. E essa linha, à qual os historiadores não deram atenção suficiente, não era um desvio tático, mas uma opção estratégica precisa, como disse um dia a Nicola Canali, então jovem funcionário da Cúria: “O senhor é jovem, mas sempre se lembre de que a política da Igreja é a de não fazer política e de ir sempre pelo caminho reto”.
Merry del Val auxiliou leal e convictamente essa política, como também as decisões simples de renovação da Igreja, de supressão do direito de veto à transformação da Cúria, à codificação do direito canônico. A reforma da Cúria Romana, lançada em 1908, estava diretamente relacionada com as suas competências, que foram ampliadas, mas dentro de um projeto de governo no qual a Secretaria de Estado era apenas o penúltimo dos cinco ofícios vaticanos. A Secretaria, enfim, não era o motor da Igreja de Pio X (como aconteceria a partir da reforma de Paulo VI, sessenta anos depois); esse motor eram as onze congregações, acima das quais estava o Santo Ofício. Talvez seja essa a razão pela qual o papel de Merry coincide, até quase confundir-se, com o do Papa, diferentemente do realizado pelos secretários de Estado Rampolla, que o precedeu, e Gasparri, que o seguiu. Fazendo pouca ou nenhuma política externa e cuidando de governar e renovar a Igreja, Pio X tirou da Secretaria de Estado muito do espaço que a tornava um ator autônomo e reforçou sua ligação com o próprio papado.

Essa ligação se tornou ainda mais cerrada durante o episódio modernista, que parece ainda hoje aos historiadores o verdadeiro punctum dolens do pontificado de Giuseppe Sarto. Muito se escreveu sobre esse episódio, e um dos pontos até hoje não resolvidos está relacionado justamente à ação do secretário de Estado. Mas o fato de Merry ter sido protagonista ou coadjuvante, executor ou inspirador não parece ser um elemento decisivo de juízo. O que é decisivo é o fato de ter participado plenamente da linha antimodernista do Papa, defensor convicto da necessidade de deter as instâncias de renovação. Em suas memórias, Ernesto Buonaiuti não poupa ataques à figura “enigmática e sinistra” do cardeal espanhol, à sua “soberba e vazia prosopopéia”. São juízos pesados, fruto também da amargura pessoal daquele que as expressou. Mas, cem anos depois dos fatos, representam um testemunho importante sobre o papel exercido então pelo cardeal e por sua secretaria.
Era inevitável que um secretário de Estado tão estreitamente identificado com o Pontífice que havia servido não fosse confirmado por seu sucessor. Tão logo eleito papa, em 3 de setembro de 1914, Bento XV nomeou primeiramente o cardeal Ferrata, que morreu quase imediatamente depois, e em seguida Pietro Gasparri. Merry del Val teve o mesmo tratamento que fora reservado dez anos antes a seu predecessor, Rampolla: tornou-se secretário do Santo Ofício (a prefeitura dessa Congregação era então reservada ao pontífice), função que conservou até a morte inesperada, ocorrida em 26 de fevereiro de 1930, em conseqüência de uma operação de apendicite.
Devem ter sido dezesseis anos difíceis, sobretudo os primeiros, aqueles do pontificado de Giacomo Della Chiesa, um homem que Merry não havia amado, mesmo respeitando-o, e pelo qual não havia sido amado, mesmo sendo por ele respeitado. O diário de Carlo Monti, um diplomata italiano que tinha grande familiaridade com o papa Bento, publicado por Antonio Scottà, fala de boatos segundos os quais a casa do cardeal, o palacete Santa Marta, seria um lugar de reuniões e amplificação da insatisfação quanto ao sucessor de Pio X, o “pequeno Vaticano”, como era chamado. O Papa sabia disso, mas não ligava (“o que é que eles podem fazer?”, teria respondido sem se alterar a alguém que o desafiou sobre a questão). Assim, o bom nome do cardeal espanhol sobreviveu a sua morte e, em 1953, foi iniciado seu processo de canonização, durante o pontificado de Pio XII, que começara sua carreira justamente sob seu serviço; dessa forma, o início do processo coincidia com a glorificação de Pio X, proclamado beato em 1951 e santo em 1954. Mas, depois da morte do papa Pacelli e do início do período conciliar, ninguém nunca mais falou de elevar o cardeal espanhol aos altares.

Fonte:
http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=10444

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 21st, 2007

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CELIBATO E PEDOFILIA: Eugenio de Araújo Cardeal Sales

É de grande utilidade, ler nos primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos a descrição do alvorecer da Igreja de Cristo. Essas páginas são marcadas pela presença da perseguição, que acompanha o crescimento da tenra planta oriunda da Paixão, Morte, Ressurreição de Jesus e a Vinda do Espírito Santo. Essa leitura é atualmente, de modo particular, importante, quando recrudescem os ataques à Igreja, conforme a mídia nos informa. Lemos nos Atos: “Naqueles dias desencadeou-se uma grande perseguição contra a Igreja que estava em Jerusalém. Todos, com exceção dos Apóstolos, dispersaram-se pelas regiões da Judéia e da Samaria(…). Quanto a Saulo, devastava a Igreja” (At 8,1-3). O que aos olhos dos homens parecia um desastre mortal, foi o início da difusão da obra de Cristo. Logo a seguir, os Atos dos Apóstolos relatam fecundas missões e os seus resultados pastorais. Os cristãos iam de lugar em lugar anunciando Jesus.

Assim começou a Igreja. Assim viveu em mais de dois milênios. Sempre, desde Judas, ao lado do brilho dos santos, está presente a sombra do pecado. Sem arrefecimento, permaneceu a luta pela superação das manchas que enodoaram o lado humano da instituição que, sempre seguindo as diretrizes do Fundador, buscou a santidade. Em nossos dias, multiplicam-se as notícias dolorosas, inclusive referentes a sacerdotes, que, com maior razão, deveriam lutar pela pureza da vida cristã.

Sem negar a presença do mal, pareceu-me dever recordar todo o imenso bem e o esforço contínuo da Hierarquia, no sentido de manter pura a face humana da Igreja de Jesus. Desejo oferecer algumas considerações para que sejam vistos os fatos dentro de um contexto objetivo e não como, às vezes, são apresentados ao público.

Começo por lembrar uma ocorrência registrada anos atrás e hoje no esquecimento. Conheci pessoalmente, e com ele convivi em diversas oportunidades, o então Cardeal Bernardin Joseph Louis, de Chicago. Foi acusado de haver praticado uma relação homossexual. Apesar da firme negativa, a notícia teve grande repercussão em todo o mundo. Amargurado, veio a falecer de câncer. Pouco antes de sua morte, levado pelo arrependimento, o caluniador anula cabalmente a acusação. No entanto, a dolorosa “via crucis” destruiu a reputação de um homem de bem. A pedofilia e outros graves delitos sexuais, praticados real ou supostamente por alguns poucos elementos do clero, são amplamente divulgados pela mídia. Por vezes, chega-se a acusar sacerdotes já falecidos, manchando-lhe a memória, sem que tenham a possibilidade de se defenderem. Não nego a veracidade de fatos dessa natureza, pois a Igreja é composta de homens que vivem em uma sociedade altamente erotizada. Aliás, nunca foi surpresa a existência do pecado entre os ministros de Deus, embora em número bem menor que em outros ambientes da sociedade. O que causa espécie é a maneira de fazer a divulgação. Basta aparecerem suspeitas e as acusações são apresentadas ao público. E surgem gratuitas ilações que atribuem ao celibato a causa desses crimes. Recordo-me de um respeitável médico, em uma capital brasileira, cidade de porte médio. Ele caridosamente atendia às prostitutas. Um dia, em um encontro casual, dizia-me: “Ontem fui chamado a um prostíbulo. E todos os presentes eram casados”. Para uma vida casta que deve levar o Ministro de Deus, faz-se mister uma adequada preparação espiritual e psicológica. No entanto, a solução aventada pelos inimigos é a eliminação do celibato sacerdotal.

Periodicamente surgem fantasiosas informações sobre a possível supressão desse dom de Deus à sua Igreja. Jamais se fará tal modificação pelo fato de uma minoria desobedecer a Deus. O que há de errado deve ser corrigido por uma maior e melhor seleção dos candidatos ao sacramento da Ordem. E o recurso à graça não deve faltar aos que buscam viver de acordo com as normas que lhes são propostas no decorrer de sua existência. O problema está relacionado com outras causas. Anos atrás, na Grécia, pessoalmente procurei informar-me sobre o assunto. Os sacerdotes ortodoxos são casados. No entanto, havia mais de mil paróquias vagas. E eles são remunerados pelo governo, que, em alguns casos, paga dois salários, quando professores em lugares mais distantes.

Entre os padres que abandonam o exercício do sacerdócio para terem uma esposa, não poucos justificam sua atitude acusando de intransigência a Igreja! Outros, entretanto, manifestam-se gratos pelo que receberam nos Seminários. Tiveram uma educação universitária, sem ônus, e podem usufruir de um nível de vida superior à média da população. São honestos ao reconhecerem suas dificuldades e não retribuem com ataques o que receberam. Conservam a Fé, trabalham como leigos, embora não poucos, saudosos da vida sacerdotal. Esses não aparecem nos jornais; não são entrevistados, mas possuem a virtude da gratidão. Merecem respeito e ajuda.

Pouco se fala do juramento livremente feito a Deus, por escrito, ainda como candidato ao sacerdócio. Compromisso solene, que é violado.

Evidentemente, os crimes de pedofilia e congêneres, uma vez provados, devem ser punidos. A justiça precisa ser feita, sem tornar o Bispo simplesmente juiz, pois ele também é pai espiritual da vítima e do autor do crime. A confiança na misericórdia de Deus não exclui a devida correção dos que erram. Inclui o perdão, mas supõe o cumprimento de pena e, acima de tudo, a segurança de que jamais tais crimes voltarão a ser cometidos.

Os Atos dos Apóstolos descrevem a primeira perseguição à Igreja e os frutos daí resultantes. Em nossos dias continua a ofensiva à obra de Cristo. Ela é causada pelos inimigos de fora e, no interior, pelo pecado desses filhos da Igreja. O que ocorre, em nossos dias, nos deve levar a corrigir os erros e a punir os faltosos, desmascarar os caluniadores e a viver com intensidade o Evangelho de Jesus.

Mensagem do Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
16/11/2007

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 9th, 2007

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O desenvolvimento orgânico da liturgia (Joseph Ratzinger)

Nas últimas décadas, a questão da correta celebração da liturgia tornou-se cada vez mais um dos pontos centrais da controvérsia em torno do Concílio Vaticano II, ou seja, de como o Concílio deveria ser avaliado e acolhido na vida da Igreja.
Há quem defenda tenazmente a reforma e considere uma culpa intolerável que, em certas condições, tenha sido readmitida a celebração da santa Eucaristia segundo a última edição do Missal feita antes do Concílio, a de 1962. Ao mesmo tempo, porém, a liturgia é considerada como “semper reformanda”, de forma tal que, no fim das contas, cada “comunidade” faz sua liturgia “própria”, na qual exprime a si mesma. Um Liturgisches Kompendium (Compêndio litúrgico, ndr.) protestante (organizado por Christian Grethlein e Günter Ruddat, Göttingen, 2003) apresentou recentemente o culto como “projeto de reforma” (pp. 13-41), refletindo a maneira de pensar também de muitos liturgistas católicos.
Por outro lado, há também os críticos ferozes da reforma litúrgica, os quais não apenas criticam sua aplicação prática, mas também suas bases conciliares. Eles só vêem salvação na total recusa da reforma.
Entre esses dois grupos, os reformistas radicais e seus adversários intransigentes, freqüentemente se perde a voz daqueles que consideram a liturgia algo vivo, algo que cresce e se renova ao ser recebida e ao concretizar-se. Estes, além de tudo, com base na mesma lógica, insistem em que só se dá crescimento quando se preserva a identidade da liturgia, e sublinham que um desenvolvimento adequado só é possível quando se dá atenção às leis internas que sustentam esse “organismo”. Tal como um jardineiro acompanha uma planta durante seu crescimento, dando a devida atenção à suas energias vitais e à suas leis, da mesma forma a Igreja deveria acompanhar respeitosamente o caminho da liturgia através dos tempos, distinguindo o que ajuda e cura daquilo que violenta e destrói.
Se as coisas caminham dessa forma, devemos tentar definir qual é a estrutura interna de um rito, e também quais são suas leis vitais, de forma a encontrar os caminhos adequados para preservar sua energia vital nas mudanças que ocorrem ao longo do tempo, para incrementá-la e renová-la.
O livro de dom Alcuin Reid se insere nessa linha. Percorrendo a história do Rito Romano (missa e breviário) desde suas origens até a vigília do Concílio Vaticano II, ele busca estabelecer quais são os princípios de seu desenvolvimento litúrgico, haurindo, assim, da história, com seus altos e baixos, os critérios nos quais qualquer reforma deve se basear.
O livro se divide em três partes. A primeira, muito breve, analisa a história da reforma do Rito Romano desde suas origens até o fim do século XIX. A segunda é dedicada ao movimento litúrgico até 1948. A terceira – de longe a mais extensa – trata da reforma litúrgica sob Pio XII, até a vigília do Concílio Vaticano II. Essa parte se revela muito útil, justamente porque essa fase da reforma litúrgica já não é muito lembrada, apesar de se encontrarem justamente nela – como também na história do movimento litúrgico, evidentemente – todas as questões acerca das formas corretas de realizar uma reforma, permitindo também adquirir critérios de juízo. A decisão do autor de deter-se no limiar do Concílio Vaticano II é muito sábia. Ele evita, assim, entrar na controvérsia ligada à interpretação e à recepção do Concílio, ilustrando o momento histórico e a estrutura das várias tendências, o que resulta determinante para a questão dos critérios da reforma.
No final de seu livro, o autor relaciona os princípios de uma correta reforma: ela deveria ser em igual medida aberta ao desenvolvimento e à continuidade da Tradição; deveria saber-se ligada a uma tradição litúrgica objetiva e fazer com que a continuidade subs­tancial seja salvaguardada.
O autor, depois, concordando com o Catecismo da Igreja Católica, sublinha que “mesmo a suprema autoridade da Igreja não deve modificar a liturgia arbitrariamente, mas tão-somente em obediência à fé e com respeito religioso pelo mistério da liturgia” (nº 1125; no livro, na p. 258). Por fim, encontramos ainda, como outros critérios, a legitimidade das tradições litúrgicas locais e o interesse pela eficácia pastoral.
Eu gostaria de sublinhar ainda mais, do meu ponto de vista pessoal, alguns dos critérios da renovação litúrgica já brevemente indicados. Começarei com os últimos critérios fundamentais. Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja com relação à reforma, chame a atenção para aquela que é a essência do primado, tal como é sublinhado pelos Concílios Vaticanos I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro a garantir a obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer tudo o que querem. A lei a que deve se ater não é a ação ad libitum, mas a obediência à fé. Por isso, diante da liturgia, tem a função de um jardineiro e não a de um técnico que constrói máquinas novas e joga as velhas fora. O “rito”, ou seja, a forma de celebração e de oração que amadurece na fé e na vida da Igreja, é forma condensada da Tradição viva, na qual a esfera do rito expressa o conjunto de sua fé e de sua oração, tornando assim experimentáveis, ao mesmo tempo, a comunhão entre as gerações e a comunhão com aqueles que rezam antes de nós e depois de nós. Assim, o rito é como um dom concedido à Igreja, uma forma viva de parádosis.
É importante, nesse sentido, interpretar corretamente a “continuidade substancial”. O autor nos alerta expressamente contra o caminho errado ao qual poderíamos ser conduzidos por uma teologia sacramental neo-escolástica desligada da forma viva da liturgia. Partindo dessa teologia, poderíamos reduzir a “substância” à matéria e à forma do sacramento, e dizer: o pão e o vinho são a matéria do sacramento, as palavras da instituição são sua forma; só essas duas coisas são necessárias, todo o resto pode mudar. Nesse ponto, modernistas e tradicionalistas estão de acordo. Basta que haja a matéria e que sejam pronunciadas as palavras da instituição: todo o resto é “a gosto”. Infelizmente, muitos sacerdotes agem hoje com base nesse esquema; e até mesmo as teorias de muitos liturgistas, desafortunadamente, movem-se nessa direção. Eles querem superar o rito como algo rígido e constróem produtos de sua fantasia, considerada pastoral, em torno desse núcleo residual, que, assim, é relegado ao reino da magia ou completamente privado de seu significado.

O autor, concordando com o Catecismo da Igreja Católica, sublinha que “mesmo a suprema autoridade da Igreja não deve modificar a liturgia arbitrariamente, mas tão-somente em obediência à fé e com respeito religioso pelo mistério da liturgia”

O movimento litúrgico buscou superar esse reducionismo, produto de uma teologia sacramental abstrata, e ensinar-nos a considerar a liturgia como o conjunto vivo da Tradição transformada em forma, que não pode ser rasgado em pequenos pedaços, mas deve ser visto e vivido em sua totalidade viva. Quem, como eu, na fase do movimento litúrgico que precedeu o Concílio Vaticano II, foi tocado por essa concepção só pode constatar com profunda dor a destruição daquilo que era caro a este movimento.
Gostaria de comentar brevemente outras duas intuições que aparecem no livro de dom Alcuin Reid. O arqueologismo e o pragmatismo pastoral – este último, aliás, é muitas vezes um racionalismo pastoral – são ambos errados. Poderiam ser descritos como um par de gêmeos profanos. Os liturgistas da primeira geração eram, em sua maioria, historiadores, inclinados, conseqüentemente, ao arqueologismo. Queriam desenterrar as formas mais antigas, em sua pureza original; viam os livros litúrgicos em uso, com seus ritos, como expressão de proliferações históricas, fruto de mal-entendidos e ignorância do passado. Buscavam reconstruir a Liturgia Romana mais antiga e limpá-la de todos os acréscimos posteriores. Não era uma coisa totalmente errada; mas a reforma litúrgica é de certa forma algo diferente de uma escavação arqueológica, e nem todos os desdobramentos de algo vivo devem ter a lógica de um critério racionalista/historicista. Essa é também a razão pela qual – como o autor justamente observa -, não deve caber aos especialistas a última palavra na reforma litúrgica. Especialistas e pastores têm cada um o seu papel (tal como, na política, os técnicos e aqueles que são chamados a decidir representam dois níveis diferentes). Os conhecimentos dos estudiosos são importantes, mas não podem ser transformados imediatamente em decisões dos pastores, os quais têm a responsabilidade de ouvir os fiéis para identificar com inteligência, ao lado deles, aquilo que ajuda ou não a celebrar os sacramentos com fé hoje. Uma das fraquezas da primeira fase da reforma depois do Concílio foi que quase apenas os especialistas ti­nham voz no capítulo. Teria sido importante uma maior autonomia por parte dos pastores.
Sendo que muitas vezes, obviamente, fica impossível elevar o conhecimento histórico à condição de nova norma litúrgica, foi muito fácil que esse “arqueologismo” se ligasse ao pragmatismo pastoral. Decidiu-se, em primeiro lugar, eliminar tudo o que não era reconhecido como original, e conseqüentemente como “subs­tancial”, para depois integrar à “escavação arqueológica” – quando ainda parecesse insuficiente – e “o ponto de vista pastoral”. Mas o que é “pastoral”? Os juízos intelectualistas dos professores sobre essas questões eram muitas vezes determinados por suas considerações racionais e não levavam em conta o que realmente sustenta a vida dos fiéis. De tal forma que hoje, depois da vasta racionalização da liturgia na primeira fase da reforma, está-se de novo em busca de formas de solenidade, de atmosferas “místicas” e de uma certa sacralidade. Mas, sendo que existem – necessariamente e de maneira cada vez mais evidente – juízos largamente divergentes sobre o que é pastoralmente eficaz, o aspecto “pastoral” tornou-se a passagem para a irrupção da “criatividade”, a qual dissolve a unidade da liturgia e nos põe com freqüência diante de uma banalidade deplorável. Não se quer dizer com isso que a liturgia eucarística, como também a liturgia da Palavra, não sejam muitas vezes celebradas, a partir da fé, de modo respeitoso e “belo”, no melhor sentido da palavra. Mas, dado que estamos buscando os critérios da reforma, devemos também mencionar os perigos que, infelizmente, nas últimas décadas, não se limitaram a ser apenas fantasias de tradicionalistas inimigos da reforma.
Eu gostaria de me deter ainda no fato de que, no compêndio litúrgico citado acima, o culto foi apresentado como “projeto de reforma”, ou seja, como um canteiro de obras no qual a atividade é incessante. Semelhante, ainda que diferente em alguns pontos, é a sugestão dada por alguns liturgistas católicos de adaptar a reforma litúrgica à mutação antropológica da modernidade e construí-la de maneira antropocêntrica. Se a liturgia aparece antes de mais nada como o canteiro de obras da nossa atividade, isso significa que se esquece a coisa essencial: Deus, uma vez que na liturgia a questão não somos nós, mas Deus. O esquecimento de Deus é o perigo mais iminente do nosso tempo. A essa tendência, a liturgia deveria opor a presença de Deus. Mas o que acontece se o esquecimento de Deus entra até mesmo na liturgia, se, na liturgia, pensamos apenas em nós mesmos? Em qualquer reforma litúrgica e em qualquer celebração litúrgica, o primado de Deus deveria ocupar sempre o primeiríssimo lugar.
Com isso, fui muito além do livro de dom Alcuin. Mas acredito que, de alguma forma, tenha ficado claro que esse livro, com a riqueza de suas observações, nos ensina critérios e nos convida a outras reflexões. Por isso, recomendo sua leitura.

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 8th, 2007

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Sermão sobre os pastores, de santo Agostinho (+430)

Não é de agora que vossa caridade sabe que nossa esperança está toda em Cristo e que nossa verda­deira glória de salvação é ele. Sois do rebanho daque­le que guarda e apascenta Israel. Mas por haver pastores que apreciam este nome, porém, não querem exercer seu ofício, vejamos o que a seu respeito diz o Profeta. Escutai vós com atenção; escutemos nós com temor.

“Foi-me dirigida a palavra do Senhor que dizia: Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel e dize-lhes “. Acabamos de ouvir a leitura deste trecho; resolvemos então falar-vos algo. O Senhor nos aju­dará a dizer a verdade, se não dissermos o que vem de nós. Pois se disséssemos o que vem de nós, sería­mos pastores a nos apascentar a nós, não às ovelhas; se, ao contrário, falarmos sobre ele, é ele que vos apascenta por intermédio de quem quer que seja.

Assim diz o Senhor Deus: “Ó pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Acaso não são as ovelhas que os pastores têm de apascentar?” quer dizer, os pastores apascentam ovelhas, não a si mesmos. É este o primeiro motivo de repreensão a tais pastores, que apascentam a si e não às ovelhas. Quem são estes que se apascentam? O Apóstolo diz: “Todos procuram seu interesse, não o de Jesus Cristo”.

Quanto a nós, a quem o Senhor, por sua benevolên­cia e não por mérito nosso, estabeleceu neste cargo de que teremos difíceis contas a dar, devemos distin­guir bem duas coisas: a primeira, somos cristãos; a outra, somos bispos. Somos cristãos por nossa causa; e somos bispos, pela vossa. Como cristãos, atende­mos a nosso proveito; como bispos, somente ao vosso.
E são muitos os cristãos não bispos que vão a Deus por caminho mais fácil talvez, e andam com tanto mais desembaraço quanto menos peso carregam. Nós, porém, além de cristãos, tendo de prestar contas a Deus de nossa vida, somos também bispos e tere­mos de responder a Deus por nossa administração.

(Sermo 46, 1-2: CCL 41, 529-530)

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 7th, 2007

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As cinco vias da penitência (São João Crisóstomo)

Queres que cite as vias da penitência? São muitas, é certo, variadas e diferentes; todas levam ao céu.

É a seguinte a primeira via da penitência: a repro­vação dos pecados: “Sê tu o primeiro a dizer teus pecados para seres justificado”. O Profeta tam­bém dizia: “Disse, confessarei contra mim mesmo minha injustiça ao Senhor, e tu perdoaste a impie­dade de meu coração”. Reprova também tu aquilo em que pecaste; basta isto ao Senhor para desculpar­-te. Quem reprova aquilo em que pecou, custará mais a recair. Excita o acusador interno, tua cons­ciência, não venhas a ter acusador lá diante do tri­bunal do Senhor.

Esta primeira é ótima via de penitência. A seguinte não lhe é nada inferior: não guardemos lembrança das injúrias recebidas dos inimigos, dominemos a cólera, perdoemos as faltas dos companheiros. Com isso, aquilo que se cometeu contra o Senhor será perdoado. Eis outra expiação dos pecados. “Se perdoardes a vossos devedores, também vos perdoará vosso Pai celeste”.

Queres saber a terceira via de penitência? Oração ardente e bem feita, que brote do fundo do coração. Se ainda uma quarta desejas conhecer, chamá-la-ei de esmola; possui muita e poderosa força. E ser modesto no agir e humilde, isto, não menos que tudo o mais, destrói os pecados. Testemunha é o publicano que não podia citar nada de feito com retidão, mas em lugar disto ofereceu a humildade e depôs pesada carga de pecados.

Indicamos cinco vias de penitência: primeira, a re­provação dos pecados; a segunda, o perdão das faltas do próximo; terceira, a oração; quarta, a esmo­la; quinta, a humildade.

Não sejas preguiçoso, mas caminha todos os dias por elas; são fáceis, não podes nem mesmo objetar a pobreza; pois ainda que pela indigência leves vida dura, renunciar à ira e mostrar humildade está em teu poder, bem como orar assiduamente e condenar os pecados; em parte alguma a pobreza é impedimento. O que digo aqui, naquela via de penitência que consiste em dar dinheiro (falo de esmola) ou em observar os mandamentos, será obstáculo a pobreza? A viúva que deu dois tostões já respondeu. Tendo, pois, aprendido o meio de curar nossas cha­gas, usemos deste remédio. E com isso, recuperada a. saúde, fruiremos com confiança da mesa sagrada, correremos gloriosos ao encontro de Cristo, Rei da glória, e alcançaremos os eternos bens, por graça, misericórdia e benignidade de nosso Senhor Jesus
Cristo.

(Hom. De diabolo tentatore 2, 6: PG 49, 263-264)

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

novembro 6th, 2007

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Filófosos e poetas


Que os filósofos procuram fugir da ignorância, isto é evidente pelo fato de que os primeiros a se dedicarem à filosofia – bem como os que agora ainda o fazem -, começaram a filosofar por força da admiração de alguma causa (…). Consta, porém, que a dúvida e a admiração provêm da ignorância. De fato, quando vemos certos efeitos manifestos cuja causa nos é oculta, ficamos admirados a respeito desta causa. E, pelo fato de que a admiração foi a causa que induziu ao pensamento filosófico, é claro que de algum modo o filósofo é “Filómito”, isto é, amante das fábulas, o que por sua vez é próprio dos poetas. Donde, os primeiros que, por meio de fábulas, trataram dos primeiros princípios das coisas, foram chamados “poetas teologizantes”, como o foi Perseu e alguns outros como é o caso dos Sete Sábios. Eis assim a razão pela qual o filósofo é comparado ao poeta: ambos ocupam-se de coisas que causam admiração.

Tomás de Aquino (Sententia Libri Metaphysicae, Lb. I, Lect. 3)