BACH, por Murilo Mendes (1901-1975)

Há vários anos um conhecido professor e musicólogo norte-americano, de passagem pelo Rio, surpreendeu-me com a declaração de que a música de Bach só pode ser compreendida pelos protes­tantes. Só mais tarde pude decifrar o enigma con­tido para mim em semelhante afirmativa.

É que a obra de Bach tem sido alvo dos mais diversos conceitos de interpretação. Conforme a sensibilidade dos povos, ou a de certos grupos que representam determinadas tendências, ou ainda a de certos indivíduos que se colocam a priori num único ângulo de visão (ou melhor, de audição) a obra de Bach muda de aspecto e significado. Alguns críticos, conservando-se num plano puramente his­tórico, chegam a restringir a importância de Bach no panorama geral do desenvolvimento da música; por exemplo, o nosso caro Mário de Andrade pôde escrever que “Bach viria saudosista e anacronica­mente apontar para trás o passado”.

Ora, se ficarmos firmes dentro deste critério de exclusivo aperfeiçoamento técnico, teremos que restringir ainda muito mais a importância de Bee­thoven, Chopin, Schumann e tantos outros, que já encontraram o terreno, mais do que preparado, apesar das “inovações” que fizeram…

Outros tendem a considerar Bach unicamente como músico religioso, pondo sua arte a serviço da comunidade protestante (ou, algumas vezes, a serviço da Igreja Católica, como no caso das Missas para a corte de Dresden). Esquecem-se de que naquela época a vida profana, apesar da decadência religiosa, ainda estava um tanto impregnada do conceito de sacralidade. Bach, com todo seu pro­fundo misticismo, foi um homem enraizado na vida temporal. Pai de vinte filhos, sempre às turras com o Reitor da Escola de Leipizig e com outras reni­tentes autoridades. Mas, insisto, o conceito de vida não era ainda separado do de religião. Aquela gente, de resto, é que estava certa: religião é vida, e não negação de vida.

Há urna corrente que encara a obra do autor das Paixões dentro de um critério de puro formalismo, como se ela fugisse à interpretação, como se a fantasia estivesse ausente dela. Monta­dos em tal opinião, conferem a Bach o título de clássico cem por cento, e, mais do que isso, rígido e escolástico cem por cento.

Outros, pelo contrário, aceitam-no somente como poeta romântico, procurando extrair dos Prelúdios, das Fugas e dos Corais todo o subje­tivismo que possam conter. E exultam diante da Fantasia Cromática e Fuga, mãe de toda a música romântica, peça onde talvez já se encontre o ger­me de Liszt… hélas!

Sempre achei que nós, aqui no Brasil, estamos em ótima posição histórica, geográfica e temperamental para julgar a arte, os artistas, a cultura, a vida em geral, no plano da universalidade. Este método da universalidade consiste, antes de tudo, em que o indivíduo deve procurar manter-se na vi­da como se fosse o centro dela, para que possa ter sempre a perfeita relação das idéias e dos fatos. Tal método conduz o homem a uma filtragem dos ele­mentos construtivos, combatendo a desproporção e a unilateralidade do temperamento.

Ora, a única tradição verdadeiramente grande que, apesar de tudo, temos no Brasil, é a católica, isto é, uma tradição de universalidade. Os sinos das igrejas não testemunham apenas o passado; chamam para o futuro, chamam-nos para Aquele que se definiu a própria Vida. É, repito, à luz dessa universalidade que devemos procurar comentar e julgar, comparando-as fora de um critério apenas histórico - embora admitindo as coordenadas trazidas pelo tempo -, as obras que chegam ao nosso conhecimento.

À luz dessa universalidade, Bach aparece-nos como o supremo Educador pela música, nos tempos modernos. É clássico, romântico e atual. Une o passado, o presente e o futuro. Se “historicamen­te”, examinando com frieza sua obra, verificarmos o conflito entre o contraponto e a melodia, entre o estilo instrumental e o vocal, se podemos afirmar, sem medo de engano, que seu maior valor consis­te em ter fixado o “temperamento igual”, não in­sistimos nesses pontos que escapam, afinal à nossa competência: não somos técnicos nem cientistas.

Simples poeta…

Bach, repetimos, é por excelência o Educa­dor, isto é, o homem integral, o homem que combate a desproporção e conquista a unidade, tema fundamental da cultura e base da própria vida. É o educador, não só de alunos de música, como dos adultos, dos grupos humanos de toda espécie, que se acham fora dos conservatórios. É o músico que congrega os homens das mais diversas ten­dências. Desperta a religiosidade escondida no mais íntimo do ateu (?), desenvolve e aperfeiçoa a reli­giosidade do crente. É severo e infantil, é rígido e fantasista. É íntimo e coletivista, luterano e universal. É mesmo o modelo do cristão, do homem total que venceu as forças exteriores pela contemplação dos mistérios do Salvador. É um resultado da Encarnação vivida, continuada, repetida e desen­volvida, musicalmente até o máximo, no espírito, no coração, no ser todo de um europeu existindo em pleno século dezoito. Sua pedagogia (con­vencíamo-nos mais uma vez disso, há poucos dias, por ocasião do recital do pianista Borovisky) é fruto de um espírito não só muito refinado, como ab­solutamente simples. Bach é sem dúvida o músico que melhor corresponde às necessidades do ator­mentado homem do nosso tempo. No mundo que perdeu a disciplina e levou ao apogeu o cultivo dos “estados de alma” ele é o ordenador, o cons­trutor por excelência. É absurdo negar-lhe senti­mento; o que ele - graças a Deus! - não tem, é sentimentalismo. Nunca poderei dizer o quanto lhe devo. Terei testemunhado do meu fervor se afirmar que ele me tão necessário como Mozart, ou talvez mais! Mozart - se levarmos em conta sua carreira fulminante e seu incomparável dom de improvisa­ção - é possivelmente mais genial; mas Bach é mais importante. Que o universo inteiro incline um dia os ouvidos a sua música, já que Deus o criou para a educação de todos…

Esta crônica foi inspirada pela audição das Trinta variações Goldberg, de J. S. Bach, para cravo, na interpretação de Wanda Landowsha.

(”Letras e Artes”, domingo, 09/junho/1946)

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