Transcendência divina, por São Gregório de Nissa (330 -395)
O que costuma acontecer a quem do alto cume de um monte olha para o vasto mar lá embaixo, assim se dá com meu espírito, com relação à altíssima palavra do Senhor; e dessa altura, olho para a inexplicável profundidade de seu sentido.
À semelhança do que se pode ver em alguns sítios litorâneos, um penhasco que do lado do mar parece cortado pelo meio, do vértice até a base que some nas profundezas, tendo na parte superior uma saliência a cavaleiro do mar, a mesma vertigem - o que pode suceder a quem de tão elevados píncaros olha para o mar profundo - sobrevém a meu espírito, suspenso à grande palavra do Senhor: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. Deus se oferece à visão daqueles que têm o coração purificado. “Deus, ninguém jamais o viu”, diz o grande João; confirma esta asserção Paulo, aquele espírito sublime: “A quem homem algum vê nem pode ver”. Eis aqui a pedra, escorregadia, sem fundo e alcantilada, que não oferece em si nenhum ponto de apoio para a inteligência. O próprio Moisés esmagado pela palavra: “Não há”, diz ele, “quem veja a Deus e continue a viver - a declarou inacessível em suas sentenças, porque nunca pode nossa mente lá chegar, por mais que se esforce por alcançá-la, nem se erguer até ela.
Ora, ver a Deus é a vida eterna. Que não se possa ver a Deus, as colunas da fé: João, Paulo e Moisés o afirmam. Percebes a vertigem que arrasta logo o espírito para as profundezas do conteúdo da palavra em questão? Se Deus é a vida, quem não vê a Deus não vê a vida. E que não se possa ver a Deus, tanto os profetas quanto os apóstolos, levados pelo Espírito divino, o atestam. Em que angústias se debate a esperança dos homens?
O Senhor vem erguer e sustentar a esperança vacilante. Assim como fez a Pedro, a pique de afundar, a quem recolocou na água firme e resistente aos passos, para não ser submergido.
Se, portanto, a mão do Verbo se estender para nós e nos puser a nós, instáveis na profundeza da reflexão, em outra alternativa, perderemos o medo e com segurança abraçaremos o Verbo que nos conduz como que pela mão. “Bem-aventurados os puros de coração porque eles verao a Deus”.
(Orat. 6 de beatitudinibus: PG 44, 1263-1266)