A intercessão dos Santos, por São Bernardo de Claraval (1090-1153)

Para que louvar os santos, para que glorificá-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes impor­tam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o Pai celeste glorifica? De que lhes servem nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale nossa devoção. Não há dúvida alguma, se veneramos os santos, o interesse é nosso, não deles. Eu por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo veemente.

Em primeiro lugar, o desejo que sua lembrança mais estimula e incita é de gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comen­sais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos. A assembléia dos primogênitos aguarda-nos e negligenciamos; os santos desejam-nos e não fazemos caso; os justos esperam-nos e esquivamo-nos.

Animemo-nos, enfim, irmãos; ressuscitemos com Cristo, busquemos as realidades celestes, tenhamos gosto pelas coisas do alto. Desejemos aqueles que nos desejam, apressemo-nos ao encontro dos que nos aguardam, antecipemo-nos pelos votos do coração aos que nos esperam. Não apenas sua companhia, mas também a felicidade dos santos seja-nos um incentivo. Cobicemos com férvido empenho também a glória daqueles cuja presença desejamos. Não é má esta ambição nem de modo algum é perigosa a paixão pela glória deles.

O segundo desejo que brota em nós pela comemora­ção dos santos consiste em que, tal qual a eles, tam­bém a nós Cristo, nossa vida, nos apareça, e nós juntamente com ele apareçamos na glória. Enquanto isto não sucede nossa Cabeça não qual é, mas qual se fez por nós, se nos apresenta: não coroada de glória, mas rodeada dos espinhos de nossos pecados. E uma vergonha fazer-se de membro regalado, sob uma cabeça coroada de espinhos; por enquanto a púrpura não lhe é sinal de honra, mas de zombaria. Sê-lo-á quando Cristo vier e não mais se proclamará sua morte, e saberemos que nós estamos mortos com ele, e com ele escondida nossa vida. Aparecerá a cabeça gloriosa; com ela refulgirão os membros glorificados, quando transformar nosso corpo humilhado, configurando-o à glória da cabeça, que é ele mesmo. Com inteira e segura ambição cobicemos esta glória. Contudo para que nos seja lícito esperá-la e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho os sufrágios dos santos; assim, aquilo que não podemos obter por nós mesmos, nos seja dado por sua intercessão.

(Sermo 2, Opera omnia, Edit. Cisterc. 5 [1968], 364-368)

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