REFLEXÕES SOBRE O ATEÍSMO CONTEMPORÂNEO (D. Lourenço de Almeida Prado, OSB)
Figurar a Terra como um caminho, representar a família humana como uma caravana e, cada componente dessa família como um pereqrino são formas encontradas pela nossa imaginação para exprimir a idéia - e a experiencia - de que o homem tem um coração com fome e sede do infinito e, por isso mesmo, inquieto, em busca de algo além de si mesmo.
A natureza humana, com efeito, traz no cerne de si mesma a condicão de perfectível. Um ser que nasce pobre, talvez a mais pobre das criaturas ao nascer, pois parece não ter nada e carecer de tudo. O cisne nasce sabendo nadar, o homem nasce sem saber nada e dependendo do outro para tudo. Na verdade porém, traz dentro de si, escondida, uma riqueza Imensa, muito maior que a dos outros animais. Tudo, no entanto, são potencialidades a serem despertadas pela sua própria ação criadora. Nasce com a capacidade de andar, a capacidade de falar e, de algum modo, com não mais que a simples capacidade de ver e de ouvir. Tudo isso, porém, somente depois de um longo labor de conquista, se transformará num andar atuante e num falar efetivo. Somente depois de um trabalho pessoal interior e com a ajuda dos outros, o seu ouvido e o seu olhar lhe darão a alegria de reconhecer a voz amiga e de perceber a face amorosa que acarinha e conforta.
Qual será o homem mais natural? pergunta e responde um grande filósofo : o Tarzan, filho das selvas ou o londrino culto e civilizado ?
A resposta imediata e irrefletida dirá, talvez, que seja o Tarzan: a figura humana criada “à lei da natureza”, fora de influencias de outros, sem “artificialismos”. Mas que é ser natural, para qualquer criatura? É produzir as atividades de que interiormente é capaz, é dinamizar as suas energias interiores. Não é natural que o homem não fale, que não possua o uso da palavra. Não é natural que não ande. Contudo, se criado entre animais, não aprenderia a falar. Seria natural? Não, seria um ser embotado, um ser que não pás em funcionamento os recursos de sua natureza. Seria como uma máquina que o desuso deixasse enferrujada e endurecida, imprestável para a função a que fora imaginada. O homem natural. é, pois, o que põe em funcionamento as virtualidades naturais do seu ser: o homem que aprendeu a falar, que desenvolveu a inteligência e formava a vontade. É o civilizado. O Tarzan é um homem diminuído, e, espiritualmente, um anquilosado.
Que tem isso com o nosso tema? Não é o momento de responder. Talvez se possa desconfiar que a conversa queira sugerir que o ateísmo seja uma espécie de anquilose, um endurecimento das articulações do nosso espírito, um embrutecimento espiritual comparável ao de “Tarzan, filho das selvas”.
Diretamente, queremos afirmar que o homem é um animal perfectível. E não só perfectível por efeito de uma limagem exterior, mas por um processo interior do desdobramento de energias escondidas, que afloram quando solicitadas pelo espírito. Fala-se muito em ser autêntico, em ser espontâneo, em liberdade criadora. A autenticidade é uma conquista, a liberdade criadora é uma aquisição laboriosa do trabalho de aprender. É preciso desatar os entraves que impedem a expansão do nosso ser. É preciso aprender a andar, para gozar da liberdade de andar, é preciso aprender a falar para fruir da liberdade de falar. É preciso aprender Física para entender a linguagem do laboratório e alegrar-se na liberdade de conversar com as máquinas e os aparelhos.
Que move essa criatura peregrina a caminhar, que move esse viajor inquieto a indagar pelo seu destino? O filósofo nos havia respondido, quando qualificou o homem como um animal que admira. Um animal dotado com o dom de admirar.
O dom de admirar é peculiar ao homem. Como o dom de rir. Não só a beleza das coisas suscita no homem movimentos de admiração, mas o segredo das coisas. O nunca-visto incita a inteligência humana, ora provocando surpresa, ora encantamento. Daí decorre um movimento indagador: “a natureza nos dotou com um engenho curioso” diz Santo Agostinho. Curiosum nobis natura ingenium dedit. Queremos saber o que a coisa é. A curiosidade é a motivação natural de nossa inteligência para a busca do sentido das coisas.
Vivemos uma época utilitária. Se perguntarmos porque o homem foi à lua, quase todos nos responderão que terá sido por interesse, por motivos econômicos ou estratégicos. Um exame mais refletido verificará que, se esses motivos existiram - e é inegável que tenham existido - não terão sido a causa mais profunda, ainda que inadvertida. Antes de ser interesseiro, o homem é movido pela sedução de aventura. O seu movimento fundamental foi gratuito e generoso : saber o que é a lua, ver a lua. Buscar na lua alegria semelhante à que nos dá a contemplação de uma flor.
Não são, porém, apenas as coisas exteriores que solicitam a nossa curiosidade : o homem é um ser que reflete, que olha para dentro de si. Que sou ? Quem sou ?
Diante disso, creio que já podemos dizer que o ateísmo nunca é, a rigor, um ateísmo. É, muito mais, um anti-teísmo. Não é uma simples negação de Deus, movimento frio de inteligência, mas uma recusa a Deus, portanto, uma opção moral, uma tomada de posição de combate. (Cf. Jacques Maritain, La Signification de L’Athéisme conteporain: Desclée de Brower - 1949).
Qualquer pecado tem alguma coisa de ateismo : é uma recusa a Deus. Aquele pecado de Adão - o primeiro pecado - tantas vezes contado como um episódio meio ridículo, uma leviandade tão sem relevância para ser constituída em suporte da destinaçãL humana ; esse pecado é, na verdade, denso de conteúdo humano. Na linguagem simbólica, apoiada em imagens, do Livro de Gênesis, o que se mostra é o homem se rebelando contra Deus. - “Não é Deus que me diz o que é bom ou é mau; eu é que determino, eu é que sei o que é bom ou é mau para mim”. É a recusa à lei de Deus, é a afirmação da autonomia.
O ateísmo tem muito de um drama meio infantil : é uma recusa à hierarquia e à ordenação natural das coisas. É uma tomada de posição muito semelhante à do adolescente que se empenha em afirmar-se a si mesmo e em firmar sua independência em relação à tutela paterna. Não é, portanto, uma conclusão da inteligência. É antes um ato moral. Um ato de fé às avessas ; uma decisão contra Deus. Uma espécie de contestação.
Digo contestação, digo tomada de posição, porque o natural do homem é reconhecer na fragilidade das coisas uma postulação de Deus. É natural ao homem a inclinação a admitir valores absolutos. Contra essa tendência natural do espírito humano, a criatura reage, negando a Deus, ou melhor, repelindo a idéia de Deus.
Acontece, porém, que não se nega o absoluto impunemente. Quem nega o absoluto, absolutiza o relativo. Quem nega . a Deus, acaba se submetendo aos deuses.
S. Paulo já nos advertia : quem serve a Deus se liberta das coisas do mundo ; quem quer libertar-se de Deus, acaba escravo das coisas do mundo, o que vale dizer, escravo do pecado.
Diz a Escritura que o temor de Deus é o princípio da sabedoria. Não só da sabedoria, mas da verdadeira liberdade. Efetivamente, o homem que reverencia a Deus, que reconhece a existência de um supremo governador do mundo, de um legislador eterno, terá na lei eterna um critério fundamental para julgar os poderes do mundo. Nenhum poder mundano é absoluto e qualquer lei humana ou ordem humana só será legítima se não contrariar a de Deus. Essa é a fonte de altivez cristã, que capacita o homem a enfrentar o martírio e a dizer não ao injusto e ao arbitrário.
Como observa Maritain, o ateu moderno, o mais característico dele, que é o marxista, é um revolucionário que não chega a ser um grande revolucionário. Ele se revolta contra Deus ou recusa a aceitar o seu senhorio, ele nega a força criadora do espírito e de inteligência. A aparência é de extremo radicalismo. Na verdade a posição implica a contrapartida de dobrar os joelhos diante da história. O verdadeiro revolucionário, aquele que atua com o espírito e pelo espírito, que quer no mundo um sol que transfigura, é um construtor da história. Aquele revolucionário materialista, que recusa o Deus transcendente, adere ao que vem da terra. Esse revolucionário pode ser materialmente forte, portador de uma violência sem restrições, mas é um revolucionário espiritualmente fraco e decepcionante : é um joguete da história, é um escravo dos deuses do tempo. Não há maior escravidão do que a daquele que se comporta oom,c livre da justiça, como descompromissado com os deveres da justiça. Porque é um escravo de si mesmo, um escravo do seu eu inferior, um escravo de pecado.
O ateísmo atual é um fenômeno religioso. Religião de uma fé às avessas, mas que pretende ser uma resposta ao problema global do homem, com a dramática intensidade de uma convicção religiosa, com a dinâmica de uma ação militante, envolvendo todas as esferas da vida.
Há nisso tudo uma evidente contradição : um ser que se vê subjugado aos fatores econômicos e materiais, um ser, que se entrega e se sacrifica no altar desse minotauro da história, quer influir no desenrolar da vida humana e quer fazê-lo pela violência.
E a sua violência é mais forte do que freqüentemente imaginamos. Há uma lição evangélica da paciência que pode assemelhar-se à acomodação, mas, na verdade, é profundamente revolucionária. “Ide e ensinai” diz o Cristo. “ide e ensinai” quer dizer : ide e procurai despertar no espírito humano a seiva de uma nova vida. É por uma mudança de mentalidade, é por um esclarecimento de inteligência que o homem se transforma. O homem é um construtor de sua vida ; esta não lhe pode ser imposta de fora. O materialista propõe-se a marcha oposta : mudar as estruturas. As novas estruturas, que eles presumem perfeitas, serão oferecidas aos cidadãos, como um donativo feito a menores.
Creio ter tocado um ponto nem sempre devidamente esclarecido: a sociedade sem Deus se torna inevitavelmene uma sociedade desumana. A afirmação pode surpreender a quem a ouve pela primeira vez e não se deteve em reflexão sobre ela. Não é a vida em sociedade uma decorrência natural da índole social da criatura humana? Se é, como de fato é, de que modo compreender que essa sociedade natural se desequilibre e se deteriore - chegando mesmo a desumanizar-se - quando pretende não tomar conhecimento de Deus e mais ainda rejeitá-l’0 ? Podíamos responder invocando o modo natural com e;oe Deus entra na vida humana e lembrando que a recusa a Deus, a rejeição da lei eterna, a atribuição a si mesmo do título de fonte da lei colocam o homem diante do homem como dois seres em competição. Sem uma norma superior ou critério que impeça a tentação de domínio, o homem se transforma em lobo do homem.
Podíamos ainda argumentar com a história, olhando em torno de nós - o “admirável mundo novo” que estamos pre,parando - e considerando as tentativas russas ou nazistas de construir o paraíso sem Deus.
Mas é necessário dizer mais. É necessário dizer que mesmo para a construção de sua perfeição natural, o homem precisa religiosamente de Deus. No paraíso, Deus conferiu ao homem os chamados dons preternaturais que, sem elevá-lo a uma ordem sobrenatural, assegurava-lhe a possibilidade da perfeição natural.
O homem moderno, esse homem que se esqueceu de Deus, é antes de tudo um homem assustado. Assustado com o “poder” que vai acumulando em suas mãos e que, a pouco e pouco, vai fugindo ao seu controle. Ontem era a bomba atômica. Hoje é a engenharia genética ou esse antecipado cidadão do “Admirável mundo novo”, que é o bebé de proveta. É o delírio incontrolável do desenvolvimento e as variadas e múltiplas formas de poluições, das quais, a do ar e a do som, são bem menos graves e asfixiantes, que as da alma e do coração. Creio que não será muito feliz o homem no dia em que a fim de atender a problemas demográficos, uma moça tenha que obter uma licença do policial chefe do serviço internacional de controle da natalidade, devidamente lavrado e estampilhado e de acordo com a quota, para poder ter um filho.
A escravidão tomará outras formas e terá outros nomes “Não há razão, sem dúvida, para que os novos totalitarismos se assemelhem aos antigos. Governos baseados no porrete e no pelotão de fuzilamento, na miséria artificial, não são apenas desumanos (hoje ninguém se preocupa muito ,com isso) ; são ineficientes por demonstração e, numa época de tecnologia avançada, a ineficiência é pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário realmente eficaz seria aquele em que o executivo todo-poderoso -constituído de ,chefes políticos e de um exército de administradores, controlasse uma população de escravos que não precisassem ser forçados, porque teriam amor à servidão. Fazê-los amá-la é a tarefa atribuída, nos atuais estados totalitários, aos ministérios da propaganda, editores de jornais e professores” (Aldous Houxley, Admirável Mundo Novo, Prefácio. Tradução da Companhia Brasileira de Divulgação do Livro, 1969).
Retomemos as nossas considerações mais diretas ou mais religiosas sobre o ateismo. Essa digressão um pouco longa sobre a saciedade sem Deus que está sendo construída não nos afastou do nosso tema. É preciso que a atitude assustadiça do homem moderno, aue a cada passo, se pergunta - “Para onde vai o homem?” - o leve a descobrir que somente a redescoberta de Deus e do Espírito dará direção libertadora a essa criatura humana, cheia de grandeza - imagem de Deus - e cheia de misérias - feita de barro ou do nada.
O grande argumento racional para que o homem moderno volte a procurar a Deus (e Deus precisa e quer ser procurado) é, talvez, essa verificação de que a negação de Deus deixa muita coisa inexplicada e inexplicável. A negação de Deus é uma posição muito mais emocional que racional.
Ao contrário, a afirmação de Deus surge muito mais espontaneamente, por um simples abrir de olhos de inteligência humana sobre o mundo.
S. Paulo considerava os pagãos inexcusáveis na sua negação de Deus, porque fechavam os olhos aos sinais de Deus nas criaturas. “O que se pode conhecer de Deus, lhes é manifesto, Deus lhes manifestou. Com efeito, suas perfeições invisíveis, seu poder eterno e sua divindade tornaram-se desde a criação do mundo, visíveis para a inteligência nas coisas que foram criadas, de sorte que não têm desculpa”… “Vangloriando-se de sabedoria, tornaram-se efetivamente ignorantes e insentatos, trocando a majestade do Deus incorruptível, por imagens do homem corruptíveis, de aves, quadrúpedes e repteis” (Rm 1,19,23).
S. Paulo se referia à essa prova que surge, sem qualquer elaboração científica ou filosófica, do segredo das coisas. No fundo é a mesma grande prova da existência de Deus, da grande e inquietante interpelação que o mundo criado lança, como que desafiando, para a inteligência humana, que Santo Tomás vai apresentar, na formulação mais técnica do discurso filosófico, com a expressão a um tempo modesta e subjetiva de vias para Deus. As clássicas cinco vias do doutor angélico.
Contemplando o movimento das coisas, isto é, que as coisas passam de um simples poder ser, da simples potência ao ser efetivo, isto é, ao ato, como a semente, árvore em potência, se torna árvore real, descobre-se a exigência de um primeiro motor imóvel.
Partindo da percepção de que o mundo é ordenado, desenvolvido, segundo uma linha de causa eficiente, conclui-se pela necessidade de uma causa eficiente não causada.
Reconhecendo que as coisas do mundo puderam não ter existido, isto é, que elas não têm no próprio ser uma exigência ou energia interior que tornasse a sua existência necessária, verifica-se que essa natureza contingente das coisas postula a existência de um ser necessário, de um ser que tenha em si mesmo a exigência de existir.
Se notamos que as coisas participam, num ,certo grau, de grandezas e qualidades - do ser, da bondade, da beleza, da vida, do amor etc. - somos levados a admitir que existe o próprio ser, a própria bondade, o próprio amor, não mais apenas participado, mas em si mesmo.
Finalmente, observando que as coisas têm na sua própria estrutura a direção para um fim, que o fim a que se encaminha esta coisa a leva a encontrar outra coisa, que por sua vez, estava internamente dirigida para essa esquina de encontro e que essa ordenação interna das coisas não pode ser fruto de mero escaso e, assim, somos levados a admitir uma inteligência criadora que ordena e dirige este universo de seres destinados ao mútuo abraço e à complementariedade.
Evidentemente esta alusão tão rápida e imperfeita às cinco vias de Santo Tomás não nos permite, nem de longe, avaliá-las no seu vigor de argumento e na sua significação enobrecedora da inteligência humana. Uma tentativa de desenvolvê-la de um modo mais elaborado fugiria à feição deste trabalho e ao tipo de reflexão que se pretende provocar num possível leitor.
Mais a propósito viria uma análise de supostas provas da inexistência de Deus, que cá e lá ainda são invocadas, embora tragam um ranço do ultrapassado, de um tipo de vaidade ou pose científica, que não se usa mais.
Houve um tempo, há uns 60 ou 80 anos, em que o homem, embalado numa euforia meio leviana, fruto da presunção de que a ciência havia desvendado os segredos do mundo, falava com certa suficiência de que estava provado, pela ciência que Deus não existia. Era a época do racionalismo e do positivismo, a época do eudeusamento da ciência experimental. Nessa época, atribuia-se ao médico a convicção atéia, porque não havia encontrado a alma na ponta do bisturi.
Não podemos dizer que a nossa época tenha mais finura, ou seja menos ingênua na apreciação das coisas, porque não nos faltou um russo astronauta que, a pouco mais de 200 Km da terra, pensava estar no céu e se dava à petulância simplória de informar a terra de que não existia Deus, porque não o tinha encontrado.
O homem moderno não é, entretanto, esse russo simplório. A ciência progrediu demais nestes últimos anos e progrediu tão rapidamente que, ao contrário do que ocorria há 80 anos, a descoberta de hoje não cria mais esse tipo de vaidade, nem nos comunica a idéia de que chegamos a um auge. Antes, põe-nos atento, à espreita, na expectativa do novo segredo, que virá amanhã. A ciência moderna entrou muito mais na intimidade das coisas, mas, ao mesmo tempo, ou por isso mesmo, nos deixa a viva impressão de que as coisas têm outros segredos, ou antes, têm o seu grande segredo ainda não desvendado.
Assim, as presumidas provas de inexistência de Deus nos reconduzem às provas da existência de Deus. Não direi: a essas provas como demonstrações filosoficamente elaboradas, mas a uma apreciação pré-filosófica, à versão paulina das provas. A ciência moderna quanto mais desvenda os segredos do mundo, tanto mais torna imperioso reconhecer a existência de uma inteligência criadora.
Um cientista conteporáneo, há algum tempo falecido, prêmio Nobel de Biologia - Jacques Monod, - num livro que toma o sugestivo título de uma afirmaço de Demócrito - “tudo que existe no universo é o fruto do acaso e de necessidade” - pretende fazer um “ensaio sobre a filosofia natural da Biologia moderna”. Seu livro - Le hasard et Ia nécessité, essai sur Ia philosophie naturelle de la biologie moderne - entra no assunto, mostrando desde logo, que a maestria do biólogo não encontra apoio em igual maestria de filósofo, que Monod não chega a ser. Mas a investigação inicial é curiosa. Por meio de comparações sugestivas, tenta assinalar os caracteres próprios de um objeto artificial, isto é, o artefato produzido por um ser inteligente, com uma finalidade determinada, e um objeto natural, produzido pela própria natureza, sem a interferência de um plano e de uma inteligência ordenadora.
Imagina, para precisar o seu pensamento, uma NASA de Marte, mandando um marciano explorar a terra. Aqui chegando, esse marciano, inteligente e culto, começa a comparar as coisas que encontra com o intuito de verificar se são naturais ou artificais (pois a sua missão era precisamente verificar se existiria na terra uma atividade organizada, inteligente, criadora de artefatos). E incide nos mais graves equívocos : em muitas coisas naturais, a presença de uma ordenação inteligente é mais nítida que em muitos objetos artificiais. O engano mais perturbador ocorreu quando, antes de ter encontrado qualquer ser inteligente, deparou, em lugar ermo, com uma máquina fotográfica. O marciano não teve dificuldades para perceber que a disposição das lentes, a existência de urna câmara e os demais pormenores deixavam claro tratar-se de um artefato inteligentemente ordenado para cumprir o “projeto” de captar imagens. A conclusão se impunha : há um ser inteligente neste planeta, criador dessa máquina, pois ela não pode ter sido obra do acaso. Aconteceu, porém, que poucos passos adiante, o marciano encontrou um globo ocular e, num rápido exame, verificou a sua grande semelhança com a máquina fotográfica : lentes, diafragma, obturador, pigmentos fotosensíveis… E agora? Haveria uma inteligência criadora? Para não aceitar a resposta afirmativa a esta segunda indagação o materialista tem que recusar o bom senso da conclusão precedente. Nada prova que a máquina fotográfica seja um artefato arquitetado por uma inte!igência, em vista de um fim, pois o globo ocular tem as mesmas características e é um objeto natural.
Nós, porém, poderíamos continuar a acreditar em nosso bom senso : não só o globo ocular, mas o ser vivo de que ele é uma parte, com função inserida no conjunto, e o universo inteiro reclamam uma inteligência criadora.
Examinemos uma semente. Ela tem, dentro de si, o que determina o seu desdobramento em direção a uma árvore idêntica à que lhe deu origem. Um cientista poderá pensar que, tendo descoberto a versatilidade dos ácidos nuclêicos e os mecanismos complexos e precisos do funcionamento do código genético, terá descoberto o segredo da semente. Acontece que o segredo da semente é um segredo de Deus. O cientista descobriu que há uma ordem ou uma ordenação. Mas se recusar a aceitar uma inteligência ordenadora, terá que recorrer ao acaso. O acaso, dirá o filósofo, é o efeito que, por ser o resultado de convergência de duas ou mais séries de causas, não é explicável por uma causa determinada. O lavrador que, ao lavrar a terra, encontra um tesouro é benef:,ciado por um acaso. Como poderia adivinhar que um cego tinha transformado a terra no seu cofre, para não ser furtado pelo vizinho? O acaso existe na mente do cientista, como na mente do lavrador, mas tudo tem causa. Mas mesmo esse acaso, isto é, essa convergência de causas, tão real que o matemático a enquadra nos seus cálculos de probabilidade, é às vezes, extremamente improvável. O beija-flor que passeia, no seu vôo rápido, pelo campo, não terá muita dificuldade de encontrar a flor que a natureza terá feito nascer ali, com o colorido vivo e o nectar atraentes, para ele. Como a flor, por sua parte, poderá confiar na sua pétala vermelha, no perfume e no nectar, que a natureza lhe deu, para provocar o acaso da vinda do beija-flor, cuja visita é indispensável para a sua sobrevivência. A natureza - por que não Deus? dirige o beija-flor e a flor para o acaso necessário desse encontro.
Há, porém, acasos mais difíceis. Poder-se-ia fantasiar a hipótese de que um deus homérico passasse milênios lanhando as letras do alfabeto, aos milhões, sobre um imenso tabuleiro, a maneira de quem lança dados numa mesa, e que com um lento e paciente expediente, tantas vezes repetido, um dia viesse a acontecer o aparecimento das Obras Completas de Shakespeare, em tudo igual à célebre edição de 1623.
Houve um tempo, em que se questionava a existência real dessa pesssoa que se chamou William Shakespeare, como se questiona em tomo da figura de Homero. Mas ninguém levou tão longe a possibilidade do acaso, para atribuir-lhe a autoria do Rei Lear ou da Comédia dos Enoanos. Possíveis dificuldades de identificação nunca levaram ninguém a duvidar que uma inteligência humana criadora foi a autora desses poemas e a ordenadora dessas letras.
O acaso existe sim. Mas, atrás do acaso, está a mão de Deus. O acaso é F–penas a misteriosa escrita em linhas tortas (e nem sempre tortas) com que Deus governa o mundo.
CONCLUSÕES
Que conclusões tirar destas nossas reflexões ?
Primeiramente, seria a de que o ateísmo moderno (bem como o laicismo que dele deriva) não é o resultado de um trabalho de razão, nada tem de uma conclusão da Ciência ou dos conhecimentos conquistados pelo homem. E antes um pecado de orgulho. Algo semelhante ao pecado de Adão, a afirmação meio juvenil de autonomia.
Se a negação de Deus não pode ser separada da invariável tentação humana de não dar conta de si a um ser maior, a afirmação de Deus, embora possa ser provada com argumentos de razão, nunca pode ser reduzida a uma simples conclusão especulativa. Ela traz dentro de si além de uma disposição humilde, o que chamaríamos de uma exigência de engajamento. Deus não pode ser indiferente à minha vida. Como sofremos também a tentação de não assumir compromissos, preferimos ignorar a Deus.
No plano do governo do mundo, sabemos que Deus entrecou ao homem o mundo para que n cultivasse e o guardasse (Gen. 2,15), mas a experiência moderna do ateísmo vem mostrando que, sem Deus, a despeito dos imensos e indiscutíveis progressos científicos, essa tarefa não consegue ser cumprida em proveito do homem. A torre de Babel que estamos construindo, no afã de atingir o céu com as nossas mãos é a sociedade desumana ou o “Admirável mundo novo” figurado por Haxley.
Conseqüentemente, se os numerosos futurologistas que vivem indagando, angustiados, com Heilbroner - “Há esperança para o homem?” - quiserem realmente descobrir os caminhos de um mundo melhor, terão que ter ouvidos para ouvirem o desafio que essa perspectiva sombria do Brave New World está lançando sobre nós : Sem Deus, não só não há salvação eterna, mas também não há salvação temporal, ou como se exprimia recentemente João Paulo II : não vos contenteis em construir esse mundo mais humano; contrul um mundo explicitamente mais divino.
SEPARATA DE “LITURGIA E VIDA “, 152 (1979).
MOSTEIRO DE SÃO BENTO
RIO DE JANEIRO