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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 26th, 2007

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BACH, por Murilo Mendes (1901-1975)

Há vários anos um conhecido professor e musicólogo norte-americano, de passagem pelo Rio, surpreendeu-me com a declaração de que a música de Bach só pode ser compreendida pelos protes­tantes. Só mais tarde pude decifrar o enigma con­tido para mim em semelhante afirmativa.

É que a obra de Bach tem sido alvo dos mais diversos conceitos de interpretação. Conforme a sensibilidade dos povos, ou a de certos grupos que representam determinadas tendências, ou ainda a de certos indivíduos que se colocam a priori num único ângulo de visão (ou melhor, de audição) a obra de Bach muda de aspecto e significado. Alguns críticos, conservando-se num plano puramente his­tórico, chegam a restringir a importância de Bach no panorama geral do desenvolvimento da música; por exemplo, o nosso caro Mário de Andrade pôde escrever que “Bach viria saudosista e anacronica­mente apontar para trás o passado”.

Ora, se ficarmos firmes dentro deste critério de exclusivo aperfeiçoamento técnico, teremos que restringir ainda muito mais a importância de Bee­thoven, Chopin, Schumann e tantos outros, que já encontraram o terreno, mais do que preparado, apesar das “inovações” que fizeram…

Outros tendem a considerar Bach unicamente como músico religioso, pondo sua arte a serviço da comunidade protestante (ou, algumas vezes, a serviço da Igreja Católica, como no caso das Missas para a corte de Dresden). Esquecem-se de que naquela época a vida profana, apesar da decadência religiosa, ainda estava um tanto impregnada do conceito de sacralidade. Bach, com todo seu pro­fundo misticismo, foi um homem enraizado na vida temporal. Pai de vinte filhos, sempre às turras com o Reitor da Escola de Leipizig e com outras reni­tentes autoridades. Mas, insisto, o conceito de vida não era ainda separado do de religião. Aquela gente, de resto, é que estava certa: religião é vida, e não negação de vida.

Há urna corrente que encara a obra do autor das Paixões dentro de um critério de puro formalismo, como se ela fugisse à interpretação, como se a fantasia estivesse ausente dela. Monta­dos em tal opinião, conferem a Bach o título de clássico cem por cento, e, mais do que isso, rígido e escolástico cem por cento.

Outros, pelo contrário, aceitam-no somente como poeta romântico, procurando extrair dos Prelúdios, das Fugas e dos Corais todo o subje­tivismo que possam conter. E exultam diante da Fantasia Cromática e Fuga, mãe de toda a música romântica, peça onde talvez já se encontre o ger­me de Liszt… hélas!

Sempre achei que nós, aqui no Brasil, estamos em ótima posição histórica, geográfica e temperamental para julgar a arte, os artistas, a cultura, a vida em geral, no plano da universalidade. Este método da universalidade consiste, antes de tudo, em que o indivíduo deve procurar manter-se na vi­da como se fosse o centro dela, para que possa ter sempre a perfeita relação das idéias e dos fatos. Tal método conduz o homem a uma filtragem dos ele­mentos construtivos, combatendo a desproporção e a unilateralidade do temperamento.

Ora, a única tradição verdadeiramente grande que, apesar de tudo, temos no Brasil, é a católica, isto é, uma tradição de universalidade. Os sinos das igrejas não testemunham apenas o passado; chamam para o futuro, chamam-nos para Aquele que se definiu a própria Vida. É, repito, à luz dessa universalidade que devemos procurar comentar e julgar, comparando-as fora de um critério apenas histórico – embora admitindo as coordenadas trazidas pelo tempo -, as obras que chegam ao nosso conhecimento.

À luz dessa universalidade, Bach aparece-nos como o supremo Educador pela música, nos tempos modernos. É clássico, romântico e atual. Une o passado, o presente e o futuro. Se “historicamen­te”, examinando com frieza sua obra, verificarmos o conflito entre o contraponto e a melodia, entre o estilo instrumental e o vocal, se podemos afirmar, sem medo de engano, que seu maior valor consis­te em ter fixado o “temperamento igual”, não in­sistimos nesses pontos que escapam, afinal à nossa competência: não somos técnicos nem cientistas.

Simples poeta…

Bach, repetimos, é por excelência o Educa­dor, isto é, o homem integral, o homem que combate a desproporção e conquista a unidade, tema fundamental da cultura e base da própria vida. É o educador, não só de alunos de música, como dos adultos, dos grupos humanos de toda espécie, que se acham fora dos conservatórios. É o músico que congrega os homens das mais diversas ten­dências. Desperta a religiosidade escondida no mais íntimo do ateu (?), desenvolve e aperfeiçoa a reli­giosidade do crente. É severo e infantil, é rígido e fantasista. É íntimo e coletivista, luterano e universal. É mesmo o modelo do cristão, do homem total que venceu as forças exteriores pela contemplação dos mistérios do Salvador. É um resultado da Encarnação vivida, continuada, repetida e desen­volvida, musicalmente até o máximo, no espírito, no coração, no ser todo de um europeu existindo em pleno século dezoito. Sua pedagogia (con­vencíamo-nos mais uma vez disso, há poucos dias, por ocasião do recital do pianista Borovisky) é fruto de um espírito não só muito refinado, como ab­solutamente simples. Bach é sem dúvida o músico que melhor corresponde às necessidades do ator­mentado homem do nosso tempo. No mundo que perdeu a disciplina e levou ao apogeu o cultivo dos “estados de alma” ele é o ordenador, o cons­trutor por excelência. É absurdo negar-lhe senti­mento; o que ele – graças a Deus! – não tem, é sentimentalismo. Nunca poderei dizer o quanto lhe devo. Terei testemunhado do meu fervor se afirmar que ele me tão necessário como Mozart, ou talvez mais! Mozart – se levarmos em conta sua carreira fulminante e seu incomparável dom de improvisa­ção – é possivelmente mais genial; mas Bach é mais importante. Que o universo inteiro incline um dia os ouvidos a sua música, já que Deus o criou para a educação de todos…

Esta crônica foi inspirada pela audição das Trinta variações Goldberg, de J. S. Bach, para cravo, na interpretação de Wanda Landowsha.

(”Letras e Artes”, domingo, 09/junho/1946)

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 24th, 2007

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Se a verdade é mais forte que o vinho, o rei e a mulher.


Na Quaestio quodlibetalis XII, 14, São Tomás responde a “utrum veritas sit fortior inter vinum et regem et mulierem” – ou seja, se é mais poderoso, mais convincente, mais constritivo o poder do rei, o influxo do vinho, o fascínio da mulher, ou a força da verdade.

A resposta do Aquinense – que respeitava o rei, em cuja mesa não desdenha­va, creio, alguns bons copos de vinho, e demonstrara saber resistir ao fascínio femi­nil seguindo com uma brasa ardente a cortesã nua que os irmãos introduziram-lhe no quarto para convencê-lo a tornar-se beneditino e não desonrar a família envergando o hábito de mendicante dos dominicanos – era como de hábito sutil e articulada: vinho, monarca, mulher e verdade não são comparáveis porque “non sunt unius generis”. Mas se considerados “per comparationem ad aliquem affectum”, todos podem levar a alguma ação o coração humano. O vinho age sobre nosso aspecto corporal, “quod facit per temulentiam loqui”, e sobre a nossa natureza animal sensível tem poder a delectatio venerea, isto é, a mulher (Tomás não concebia que pudessem existir impulsos sexuais de sinal oposto que legitimamente movessem a mulher, mas não se pode pedir a Tomás que seja Heloísa). Quanto ao intelecto, é óbvio que sobre ele tem poder a vontade do rei, ou seja, o comando da lei. Mas a única força que move o intelecto especulativo é a verdade. “E sicut vires corporales subiciuntur viribus animalibus, vires animalis intellectualibus, et intellectuales practicae speculativis… ideo simpliciter veritas dignior est et excellentior et fortior”.

Tal é, portanto, a força da verdade. Mas a experiência nos ensina que com freqüência a verdade tardou a impor-se, e sua aceitação custou lágrimas e san­gue- Não poderia acontecer que força semelhante também manifeste muito freqüentemente o equívoco, donde seria legítimo falar de uma força do falso?

(UMBERTO ECO, Trecho da Aula inauguração do Ano Acadêmico 1994-1995, Universidade de Bolonha)

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 23rd, 2007

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Transcendência divina, por São Gregório de Nissa (330 -395)

O que costuma acontecer a quem do alto cume de um monte olha para o vasto mar lá embaixo, assim se dá com meu espírito, com relação à altíssima pala­vra do Senhor; e dessa altura, olho para a inexpli­cável profundidade de seu sentido.

À semelhança do que se pode ver em alguns sítios litorâneos, um penhasco que do lado do mar parece cortado pelo meio, do vértice até a base que some nas profundezas, tendo na parte superior uma saliên­cia a cavaleiro do mar, a mesma vertigem – o que pode suceder a quem de tão elevados píncaros olha para o mar profundo – sobrevém a meu espírito, suspenso à grande palavra do Senhor: “Bem-aventu­rados os puros de coração, porque verão a Deus”. Deus se oferece à visão daqueles que têm o coração purificado. “Deus, ninguém jamais o viu”, diz o grande João; confirma esta asserção Paulo, aquele espírito sublime: “A quem homem algum vê nem pode ver”. Eis aqui a pedra, escorregadia, sem fundo e alcantilada, que não oferece em si nenhum ponto de apoio para a inteligência. O próprio Moisés esma­gado pela palavra: “Não há”, diz ele, “quem veja a Deus e continue a viver – a declarou inacessível em suas sentenças, porque nunca pode nossa mente lá chegar, por mais que se esforce por alcançá-la, nem se erguer até ela.

Ora, ver a Deus é a vida eterna. Que não se possa ver a Deus, as colunas da fé: João, Paulo e Moisés o afirmam. Percebes a vertigem que arrasta logo o espírito para as profundezas do conteúdo da palavra em questão? Se Deus é a vida, quem não vê a Deus não vê a vida. E que não se possa ver a Deus, tanto os profetas quanto os apóstolos, levados pelo Espírito divino, o atestam. Em que angústias se debate a esperança dos homens?

O Senhor vem erguer e sustentar a esperança vaci­lante. Assim como fez a Pedro, a pique de afundar, a quem recolocou na água firme e resistente aos pas­sos, para não ser submergido.

Se, portanto, a mão do Verbo se estender para nós e nos puser a nós, instáveis na profundeza da refle­xão, em outra alternativa, perderemos o medo e com segurança abraçaremos o Verbo que nos conduz como que pela mão. “Bem-aventurados os puros de cora­ção porque eles verao a Deus”.

(Orat. 6 de beatitudinibus: PG 44, 1263-1266)

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 19th, 2007

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A intercessão dos Santos, por São Bernardo de Claraval (1090-1153)

Para que louvar os santos, para que glorificá-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes impor­tam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o Pai celeste glorifica? De que lhes servem nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale nossa devoção. Não há dúvida alguma, se veneramos os santos, o interesse é nosso, não deles. Eu por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo veemente.

Em primeiro lugar, o desejo que sua lembrança mais estimula e incita é de gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comen­sais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos. A assembléia dos primogênitos aguarda-nos e negligenciamos; os santos desejam-nos e não fazemos caso; os justos esperam-nos e esquivamo-nos.

Animemo-nos, enfim, irmãos; ressuscitemos com Cristo, busquemos as realidades celestes, tenhamos gosto pelas coisas do alto. Desejemos aqueles que nos desejam, apressemo-nos ao encontro dos que nos aguardam, antecipemo-nos pelos votos do coração aos que nos esperam. Não apenas sua companhia, mas também a felicidade dos santos seja-nos um incentivo. Cobicemos com férvido empenho também a glória daqueles cuja presença desejamos. Não é má esta ambição nem de modo algum é perigosa a paixão pela glória deles.

O segundo desejo que brota em nós pela comemora­ção dos santos consiste em que, tal qual a eles, tam­bém a nós Cristo, nossa vida, nos apareça, e nós juntamente com ele apareçamos na glória. Enquanto isto não sucede nossa Cabeça não qual é, mas qual se fez por nós, se nos apresenta: não coroada de glória, mas rodeada dos espinhos de nossos pecados. E uma vergonha fazer-se de membro regalado, sob uma cabeça coroada de espinhos; por enquanto a púrpura não lhe é sinal de honra, mas de zombaria. Sê-lo-á quando Cristo vier e não mais se proclamará sua morte, e saberemos que nós estamos mortos com ele, e com ele escondida nossa vida. Aparecerá a cabeça gloriosa; com ela refulgirão os membros glorificados, quando transformar nosso corpo humilhado, configurando-o à glória da cabeça, que é ele mesmo. Com inteira e segura ambição cobicemos esta glória. Contudo para que nos seja lícito esperá-la e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho os sufrágios dos santos; assim, aquilo que não podemos obter por nós mesmos, nos seja dado por sua intercessão.

(Sermo 2, Opera omnia, Edit. Cisterc. 5 [1968], 364-368)

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 18th, 2007

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A bíblia

A BÍBLIA contém a revelação de Deus, a condição do homem, o caminho da salvação, a conde­nação dos pecadores, e a felicidade dos cris­tãos. Suas doutrinas são santas, seus preceitos são justos, suas histórias verdadeiras e suas decisões imutáveis. Leia-a para ser sábio, creia nela para estar seguro e pratique-a para ser santo. Ela contém luz para dirigi-lo, alimento para sustê-lo, e consolo para animá-lo. Ela é o mapa do viajante, o cajado do peregrino, a bússola do piloto, a espada do soldado e o guia do cristão. Por ela o paraíso é restaurado, os céus abertos e as portas do inferno descober­tas.

CRISTO é o seu grande tema, nosso bem o seu intento, e a glória de Deus a sua finalidade. Deve encher a mente, governar o coração e guiar os pés. Leia-a lenta e freqüentemente e em oração. É uma mina de riqueza, um paraí­so de glória e um rio de prazer. É-lhe dada em vida, será aberta no dia do julgamento e lem­brada para sempre. Ela envolve a mais alta responsabilidade, recompensará o mais árduo labor e condenará a todos quantos menos­prezam seu sagrado conteúdo.

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 17th, 2007

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Enquanto ornas o templo…

Não desprezes o irmão aflito

Queres honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando nu; não o honres aqui com vestes de seda e abandones fora no frio e na nudez o aflito. Pois aquele que disse: “Isto é o meu corpo” e confirmou com o ato a palavra, é o mesmo que falou: “Tu me viste faminto e não me alimentaste”; e: “O que não fizeste a um destes mais pequeninos, não o fizeste a mim”.
Para isto não há necessidade de veste, mas de coração puro, coisa que exige grande amor. Aprendamos então a ser sábios e a reverenciar a Cristo como lhe agrada. A honra mais agradável a quem se deseja honrar é aquela que ele prefere, não aquela que julgamos melhor. Pedro, por exemplo, julgava honrá-lo, não permitindo lavar-lhe os pés; mas o que queria não vinha a ser honra, mas exatamente o contrário. Assim, honra-o tu com a honra prescrita em lei, distribuindo tua fortuna com os pobres. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas de ouro.

Digo isto, não para proibir que haja estas dádivas, mas que com elas e antes delas se dêem esmolas. Porque ele aceita aquelas, porém, muito mais estas. Daquelas só quem oferece tem lucro; destas, também aquele que as recebe. Aquelas podem parecer motivo de osten­tação; aqui, somente compaixão e benignidade.

Que proveito há quando a mesa de Cristo está coberta de taças de ouro e ele próprio morre de fome? Sacia primeiro o faminto e, depois, do que sobrar, ador­na sua mesa. Fazes um cálice de ouro e não dás um copo de água? Que necessidade há de cobrir a mesa com véus tecidos de ouro se não lhe concederes nem mesmo a coberta necessária? Que lucro haverá? Di­ze-me: se vês alguém que precisa de alimento e, deixando-o lá, vais rodear a mesa de ouro, será que te agradecerá ou, ao contrário, se indignará? Que acontecerá se ao vê-lo coberto de andrajos e enrege­lado de frio, largas as vestes e mandas levantar colu­nas douradas, declarando fazê-lo em sua honra? Não julgaria isto uma zombaria e extrema afronta?

Que pensas, quando Cristo vagueia, peregrino, sem teto e não o recebes como hóspede, mas ornas o pavi­mento, as paredes e os capitéis das colunas, prendes com cadeias de prata as lâmpadas e a ele, preso em grilhões no cárcere, nem queres ver? Torno a dizer que não proíbo tais adornos, mas que com eles haja também cuidado pelos outros; ou melhor, exorto a que se faça isto em primeiro lugar. Ninguém jamais foi acusado por não tomar tais providências; mas para os que negligenciarem o principal, há geena e fogo inextinguível, suplício com os demônios. Por isto, enquanto adornas a casa, não desprezes o irmão afli­to, pois ele é mais precioso que o templo.

(Das Homilias sobre Mateus, por São João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla: Hom. 50, 3-4: PG 58, 508-509)

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 16th, 2007

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“Vós sois o sal da terra”, por São João Crisóstomo (+407)

“Vós sois o sal da terra”. Estas palavras vos foram entregues não para vossa vida, mas para a de todo o mundo. Não vos envio a duas cidades, nem a dez ou vinte; não vos envio a um só povo, como os pro­fetas outrora, mas à terra, ao mar, ao universo inteiro; e tudo isto em péssimo estado. Pois ao dizer: “Vós sois o sal da terra”, mostra ter toda a natureza huma­na perdido seu sabor e estar corrompida pelos peca­dos. Por este motivo mais exige deles as virtudes ne­cessárias e úteis para tratar de tantos com solicitude. Na verdade o manso, modesto, misericordioso e justo não apenas guarda para si as boas obras, mas cuida de que as excelentes fontes corram para proveito dos outros. Também o puro de coração, pacífico, amante da verdade orienta sua vida para o bem comum. Não julgueis, assim diz, serdes compelidos a breves escaramuças, nem que tenhais de vos haver com causas pequeninas: “Vós sois o sal da terra”. E en­tão? Poderão eles restaurar a podridão? De modo algum. Não podem com a mistura do sal ser de uti­lidade para o já putrefato. Não foi isto certamente o que fizeram. Mas aquilo que antes fora renovado e entregue a eles, livre de todo mau odor, a isto mis­turavam o sal e preservavam naquele estado novo que haviam recebido de Cristo. Porque libertar do mau odor dos pecados foi obra do poder de Cristo; para que não se volte a este mau cheiro, tal é o escopo de sua diligência e esforço.

Vês como aos poucos vai mostrando serem eles me­lhores que os próprios profetas? Não os declara mestres da Palestina, mas da terra inteira. Não vos admireis, assim diz, se, deixando os outros, falo mais intimamente convosco e vos arrasto a tão gran­des perigos. Pensai a quantas e grandes cidades, po­vos, nações vou enviar-vos como administradores. Por isso não vos quero apenas prudentes, mas que torneis os outros semelhantes a vós. Se não fordes assim, nem mesmo sereis de vantagem para vós mesmos.

Pois os outros, perdido o sabor, podem por vosso ministério emendar-se; vós, porém, se cairdes neste mal, arrastareis os outros convosco à ruína. Por con­seguinte, quanto maiores encargos vos forem confia­dos, tanto mais necessidade tendes de grande zelo. É o motivo por que diz: “Se o sal perder seu sabor, com que se salgará? Para nada mais vale e será lan­çado fora e pisado pelos homens”.

Para que ao ourivem: “Quando vos acusarem e per­seguirem e disserem todo mal contra vós”, não te­mam ser citados em juízo, diz: “Se não estiverdes prontos para isto, em vão fostes escolhidos. As injú­rias vos acompanharão necessariamente, porém, em nada vos prejudicarão e porão à prova vossa firmeza. SM porém, tiverdes medo delas e, diante da violên­cia, desistirdes, sofrereis coisas muito mais graves e sereis desprezados por todos: é isto o que quer dizer ser pisado aos pés”.

Em seguida, passa para um modelo ainda mais ele­vado: “Vós sois a luz do mundo”. De novo, do mundo, não de uma nação só ou de vinte cidades, mas do orbe todo; luz inteligente, mais bela que os raios do sol, espiritual à semelhança do sal. Primei­ro o sal, depois a luz, para saberes quanto lucro vem de uma palavra severa, que grande proveito numa doutrina exigente. Pois aperta e não deixa desfazer­-se e dá a força de dirigir a vista para a virtude. “Não pode esconder-se a cidade posta sobre o monte; nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire”. Com estas palavras excita-os novamente a uma vida esforçada, ensina-os a terem cautela como pessoas postas aos olhos de todos, que lutam em pleno centro do teatro do mundo inteiro.

(Das Homilias sobre Mateus, por São João Crisóstomo*: Horn. 15, 6. 7: PG 57, 231-232)

Arcebispo de Constantinopla, Doutor da Igreja católica romana

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 15th, 2007

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PIO XI: Augustinus Hiponensis (no XVI centenário da morte de Santo Agostinho)

Ninguém ignora como Agostinho, abrangendo com o olhar a história de todo o mundo, apoiando-se nos auxílios que podiam dar-lhe a leitura da Bíblia e a ciência humana daqueles tem­pos, tratou admiravelmente da Divina Providência no governo de todas as coisas e de todos os acontecimentos, na sua obra mag­nífica “Da Cidade de Deus”.

Com grandeza profunda vê e distingue, nos caminhos e pro­cessos da sociedade humana, duas cidades, fundadas sobre “dois amores: isto é, o amor terreno de si mesmo até ao desprezo de Deus, e o amor celeste de Deus até ao desprezo de si mesmo” ; a primeira, Babilônia ; a segunda, Jerusalém: as quais “andam entre si confundidas, e vão assim misturadas desde o início do gênero humano até ao fim do mundo”; mas não com êxito idêntico, pois virá um dia em que os cidadãos de Jerusalém serão chamados a reinar com Deus eternamente, os sequazes de Babilônia deverão expiar por toda a eternidade os seus crimes com os demônios.

Deste modo a história da sociedade humana aparece ao espírito investigador de Agostinho como um quadro da efusão incessante da caridade de Deus em nós; – Deus promove o incremento da Cidade Celeste, fundada por Ele mesmo, com triumfos e com trabalhos, mas de tal sorte que até as loucuras e os excessos da Cidade terrena lhe sirvam para os seus progressos, conforme está escrito: “aos que amam a Deus, aos que segundo o propósito são chamados santos, todas as coisas cooperam para o bem”.

Loucos e insensatos são por isso todos aqueles que consi­deram o decurso dos tempos como um jogo do cego acaso, como se fosse dominado só pela cobiça e pelas ambições dos poderes da terra ou como movimento perpétuo do espírito do homem a secundar as forças humanas, a favorecer os progressos das artes, a adquirir as comodidades desta vida: quando é certo que ao contrário esses acontecimentos naturais devem contribuir para o aumento da Cidade de Deus, isto é, para a difusão da verdade evangélica e para a salvação das almas em conformidade com es desígnios secretos e sempre misericordiosos d’Aquele “que alcança dum extremo ao outro do mundo fortemente e dispõe todas as coisas com suavidade”.

E para insistir mais sobre este ponto diremos ainda que Agostinho marcou, ou antes imprimiu com fogo, um estigma nas torpezas do paganismo dos gregos e dos romanos; daquelas religiões que alguns escritores dos nossos dias, levianos e dissolutos, parecem apreciar, julgando-as coisa excelente pela beleza, harmonia e suavidade. Ele, que conhecia bem como os seus contemporâneos viviam infelizmente esquecidos de Deus, não raro recorda com palavras mordazes e algumas vezes com frases indignadas tudo aquilo que se tinha infiltrado por obra do demônio, de violento, de disparatado, de atroz e de luxurioso nos costumes dos homens, mediante o falso culto dos deuses. Ninguém poderia iludir-se e encontrar salvação naquele fementido ideal de perfeição que a cidade terrena se propõe: “não há ninguém que queira praticá-lo em si mesmo e, se o praticasse, apenas alcançaria o gosto de uma glória vã e fugaz”.

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 10th, 2007

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Deus não fracassou (Bento XVI)


A saudação do Anjo [a Maria] é tecida com fios do Antigo Testamento, especialmente do profeta Sofonias. Ele faz ver que Maria, humilde mulher de província que vem de uma estirpe sacerdotal e traz em si o grande património sacerdotal de Israel, é “o resto santo” de Israel ao qual os profetas, em todos os períodos de dificuldade e de trevas, fizeram referência. Nela está presente o verdadeiro Sião, a morada pura e viva de Deus. O Senhor habita nela, e nela encontra o lugar do seu repouso. Ela é a casa viva de Deus, que não habita em edifícios de pedra, mas no coração do homem vivo. Ela é o rebento que, na obscura noite invernal da história, brota do tronco abatido de David. É nela que se cumpre a palavra do Salmo: “A terra produziu o seu fruto” (67, 7). Ela é o botão do qual deriva a árvore da redenção e dos redimidos. Deus não fracassou, como podia parecer já no início da história com Adão e Eva, ou durante o período do exílio babilónico, e como novamente parecia no tempo de Maria, quando Israel se tornou definitivamente um povo sem importância, numa região ocupada, com poucos sinais reconhecíveis da sua santidade. Deus não fracassou. Na humildade da casa de Nazaré vive o Israel santo, o resto puro. Deus salvou e salva o seu povo. Do tronco abatido resplandece de novo a sua história, tornando-se uma nova força que orienta e impregna o mundo. Maria é o Israel santo; ela diz “sim” ao Senhor, coloca-se plenamente à sua disposição e assim torna-se o templo vivo de Deus.

(Imaculada, 8 dezembro de 2005)

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 9th, 2007

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REFLEXÕES SOBRE O ATEÍSMO CONTEMPORÂNEO (D. Lourenço de Almeida Prado, OSB)

Figurar a Terra como um caminho, representar a família humana como uma caravana e, cada componente dessa famí­lia como um pereqrino são formas encontradas pela nossa imaginação para exprimir a idéia – e a experiencia – de que o homem tem um coração com fome e sede do infinito e, por isso mesmo, inquieto, em busca de algo além de si mesmo.

A natureza humana, com efeito, traz no cerne de si mesma a condicão de perfectível. Um ser que nasce pobre, talvez a mais pobre das criaturas ao nascer, pois parece não ter nada e carecer de tudo. O cisne nasce sabendo nadar, o homem nasce sem saber nada e dependendo do outro para tudo. Na verdade porém, traz dentro de si, escondida, uma riqueza Imensa, muito maior que a dos outros animais. Tudo, no en­tanto, são potencialidades a serem despertadas pela sua pró­pria ação criadora. Nasce com a capacidade de andar, a capa­cidade de falar e, de algum modo, com não mais que a sim­ples capacidade de ver e de ouvir. Tudo isso, porém, somente depois de um longo labor de conquista, se transformará num andar atuante e num falar efetivo. Somente depois de um trabalho pessoal interior e com a ajuda dos outros, o seu ouvido e o seu olhar lhe darão a alegria de reconhecer a voz amiga e de perceber a face amorosa que acarinha e conforta.

Qual será o homem mais natural? pergunta e responde um grande filósofo : o Tarzan, filho das selvas ou o londrino culto e civilizado ?

A resposta imediata e irrefletida dirá, talvez, que seja o Tarzan: a figura humana criada “à lei da natureza”, fora de influencias de outros, sem “artificialismos”. Mas que é ser natural, para qualquer criatura? É produzir as atividades de que interiormente é capaz, é dinamizar as suas energias inte­riores. Não é natural que o homem não fale, que não possua o uso da palavra. Não é natural que não ande. Contudo, se criado entre animais, não aprenderia a falar. Seria natural? Não, seria um ser embotado, um ser que não pás em funcio­namento os recursos de sua natureza. Seria como uma má­quina que o desuso deixasse enferrujada e endurecida, imprestável para a função a que fora imaginada. O homem natural. é, pois, o que põe em funcionamento as virtualidades naturais do seu ser: o homem que aprendeu a falar, que desenvolveu a inteligência e formava a vontade. É o civilizado. O Tarzan é um homem diminuído, e, espiritualmente, um anquilosado.

Que tem isso com o nosso tema? Não é o momento de responder. Talvez se possa desconfiar que a conversa queira sugerir que o ateísmo seja uma espécie de anquilose, um endurecimento das articulações do nosso espírito, um embru­tecimento espiritual comparável ao de “Tarzan, filho das selvas”.

Diretamente, queremos afirmar que o homem é um animal perfectível. E não só perfectível por efeito de uma limagem exterior, mas por um processo interior do desdobramento de energias escondidas, que afloram quando solicitadas pelo espírito. Fala-se muito em ser autêntico, em ser espontâneo, em liberdade criadora. A autenticidade é uma conquista, a liber­dade criadora é uma aquisição laboriosa do trabalho de apren­der. É preciso desatar os entraves que impedem a expansão do nosso ser. É preciso aprender a andar, para gozar da liber­dade de andar, é preciso aprender a falar para fruir da liber­dade de falar. É preciso aprender Física para entender a lin­guagem do laboratório e alegrar-se na liberdade de conversar com as máquinas e os aparelhos.

Que move essa criatura peregrina a caminhar, que move esse viajor inquieto a indagar pelo seu destino? O filósofo nos havia respondido, quando qualificou o homem como um animal que admira. Um animal dotado com o dom de admirar.

O dom de admirar é peculiar ao homem. Como o dom de rir. Não só a beleza das coisas suscita no homem movimentos de admiração, mas o segredo das coisas. O nunca-visto incita a inteligência humana, ora provocando surpresa, ora encanta­mento. Daí decorre um movimento indagador: “a natureza nos dotou com um engenho curioso” diz Santo Agostinho. Curiosum nobis natura ingenium dedit. Queremos saber o que a coisa é. A curiosidade é a motivação natural de nossa inte­ligência para a busca do sentido das coisas.

Vivemos uma época utilitária. Se perguntarmos porque o homem foi à lua, quase todos nos responderão que terá sido por interesse, por motivos econômicos ou estratégicos. Um exame mais refletido verificará que, se esses motivos existiram – e é inegável que tenham existido – não terão sido a causa mais profunda, ainda que inadvertida. Antes de ser interesseiro, o homem é movido pela sedução de aventura. O seu movimento fundamental foi gratuito e generoso : saber o que é a lua, ver a lua. Buscar na lua alegria semelhante à que nos dá a con­templação de uma flor.

Não são, porém, apenas as coisas exteriores que solicitam a nossa curiosidade : o homem é um ser que reflete, que olha para dentro de si. Que sou ? Quem sou ?

Diante disso, creio que já podemos dizer que o ateísmo nunca é, a rigor, um ateísmo. É, muito mais, um anti-teísmo. Não é uma simples negação de Deus, movimento frio de inte­ligência, mas uma recusa a Deus, portanto, uma opção moral, uma tomada de posição de combate. (Cf. Jacques Maritain, La Signification de L’Athéisme conteporain: Desclée de Brower – 1949).

Qualquer pecado tem alguma coisa de ateismo : é uma recusa a Deus. Aquele pecado de Adão – o primeiro pecado – tantas vezes contado como um episódio meio ridículo, uma le­viandade tão sem relevância para ser constituída em suporte da destinaçãL humana ; esse pecado é, na verdade, denso de conteúdo humano. Na linguagem simbólica, apoiada em ima­gens, do Livro de Gênesis, o que se mostra é o homem se rebelando contra Deus. – “Não é Deus que me diz o que é bom ou é mau; eu é que determino, eu é que sei o que é bom ou é mau para mim”. É a recusa à lei de Deus, é a afirmação da autonomia.

O ateísmo tem muito de um drama meio infantil : é uma recusa à hierarquia e à ordenação natural das coisas. É uma tomada de posição muito semelhante à do adolescente que se empenha em afirmar-se a si mesmo e em firmar sua inde­pendência em relação à tutela paterna. Não é, portanto, uma conclusão da inteligência. É antes um ato moral. Um ato de fé às avessas ; uma decisão contra Deus. Uma espécie de contestação.

Digo contestação, digo tomada de posição, porque o na­tural do homem é reconhecer na fragilidade das coisas uma postulação de Deus. É natural ao homem a inclinação a admitir valores absolutos. Contra essa tendência natural do espírito humano, a criatura reage, negando a Deus, ou melhor, repe­lindo a idéia de Deus.

Acontece, porém, que não se nega o absoluto impune­mente. Quem nega o absoluto, absolutiza o relativo. Quem nega . a Deus, acaba se submetendo aos deuses.

S. Paulo já nos advertia : quem serve a Deus se liberta das coisas do mundo ; quem quer libertar-se de Deus, acaba escravo das coisas do mundo, o que vale dizer, escravo do pecado.

Diz a Escritura que o temor de Deus é o princípio da sa­bedoria. Não só da sabedoria, mas da verdadeira liberdade. Efetivamente, o homem que reverencia a Deus, que reconhece a existência de um supremo governador do mundo, de um legislador eterno, terá na lei eterna um critério fundamental para julgar os poderes do mundo. Nenhum poder mundano é absoluto e qualquer lei humana ou ordem humana só será legítima se não contrariar a de Deus. Essa é a fonte de altivez cristã, que capacita o homem a enfrentar o martírio e a dizer não ao injusto e ao arbitrário.

Como observa Maritain, o ateu moderno, o mais caracte­rístico dele, que é o marxista, é um revolucionário que não chega a ser um grande revolucionário. Ele se revolta contra Deus ou recusa a aceitar o seu senhorio, ele nega a força criadora do espírito e de inteligência. A aparência é de extremo radicalismo. Na verdade a posição implica a contrapartida de dobrar os joelhos diante da história. O verdadeiro revolucio­nário, aquele que atua com o espírito e pelo espírito, que quer no mundo um sol que transfigura, é um construtor da história. Aquele revolucionário materialista, que recusa o Deus trans­cendente, adere ao que vem da terra. Esse revolucionário pode ser materialmente forte, portador de uma violência sem restri­ções, mas é um revolucionário espiritualmente fraco e decep­cionante : é um joguete da história, é um escravo dos deuses do tempo. Não há maior escravidão do que a daquele que se comporta oom,c livre da justiça, como descompromissado com os deveres da justiça. Porque é um escravo de si mesmo, um escravo do seu eu inferior, um escravo de pecado.

O ateísmo atual é um fenômeno religioso. Religião de uma fé às avessas, mas que pretende ser uma resposta ao pro­blema global do homem, com a dramática intensidade de uma convicção religiosa, com a dinâmica de uma ação militante, envolvendo todas as esferas da vida.

Há nisso tudo uma evidente contradição : um ser que se vê subjugado aos fatores econômicos e materiais, um ser, que se entrega e se sacrifica no altar desse minotauro da história, quer influir no desenrolar da vida humana e quer fazê-lo pela violência.

E a sua violência é mais forte do que freqüentemente imaginamos. Há uma lição evangélica da paciência que pode assemelhar-se à acomodação, mas, na verdade, é profunda­mente revolucionária. “Ide e ensinai” diz o Cristo. “ide e en­sinai” quer dizer : ide e procurai despertar no espírito humano a seiva de uma nova vida. É por uma mudança de mentalidade, é por um esclarecimento de inteligência que o homem se transforma. O homem é um construtor de sua vida ; esta não lhe pode ser imposta de fora. O materialista propõe-se a mar­cha oposta : mudar as estruturas. As novas estruturas, que eles presumem perfeitas, serão oferecidas aos cidadãos, como um donativo feito a menores.

Creio ter tocado um ponto nem sempre devidamente es­clarecido: a sociedade sem Deus se torna inevitavelmene uma sociedade desumana. A afirmação pode surpreender a quem a ouve pela primeira vez e não se deteve em reflexão sobre ela. Não é a vida em sociedade uma decorrência natural da índole social da criatura humana? Se é, como de fato é, de que modo compreender que essa sociedade natural se dese­quilibre e se deteriore – chegando mesmo a desumanizar-se – quando pretende não tomar conhecimento de Deus e mais ainda rejeitá-l’0 ? Podíamos responder invocando o modo natural com e;oe Deus entra na vida humana e lembrando que a recusa a Deus, a rejeição da lei eterna, a atribuição a si mesmo do título de fonte da lei colocam o homem diante do homem como dois seres em competição. Sem uma norma superior ou critério que impeça a tentação de domínio, o homem se transforma em lobo do homem.

Podíamos ainda argumentar com a história, olhando em torno de nós – o “admirável mundo novo” que estamos pre­,parando – e considerando as tentativas russas ou nazistas de construir o paraíso sem Deus.

Mas é necessário dizer mais. É necessário dizer que mesmo para a construção de sua perfeição natural, o homem precisa religiosamente de Deus. No paraíso, Deus conferiu ao homem os chamados dons preternaturais que, sem elevá-lo a uma ordem sobrenatural, assegurava-lhe a possibilidade da perfeição natural.

O homem moderno, esse homem que se esqueceu de Deus, é antes de tudo um homem assustado. Assustado com o “poder” que vai acumulando em suas mãos e que, a pouco e pouco, vai fugindo ao seu controle. Ontem era a bomba atômica. Hoje é a engenharia genética ou esse antecipado cidadão do “Admirável mundo novo”, que é o bebé de proveta. É o delírio incontrolável do desenvolvimento e as variadas e múltiplas formas de poluições, das quais, a do ar e a do som, são bem menos graves e asfixiantes, que as da alma e do coração. Creio que não será muito feliz o homem no dia em que a fim de atender a problemas demográficos, uma moça tenha que obter uma licença do policial chefe do serviço inter­nacional de controle da natalidade, devidamente lavrado e estampilhado e de acordo com a quota, para poder ter um filho.

A escravidão tomará outras formas e terá outros nomes “Não há razão, sem dúvida, para que os novos totalitarismos se assemelhem aos antigos. Governos baseados no porrete e no pelotão de fuzilamento, na miséria artificial, não são apenas desumanos (hoje ninguém se preocupa muito ,com isso) ; são ineficientes por demonstração e, numa época de tecnologia avançada, a ineficiência é pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário realmente eficaz seria aquele em que o exe­cutivo todo-poderoso -constituído de ,chefes políticos e de um exército de administradores, controlasse uma população de escravos que não precisassem ser forçados, porque teriam amor à servidão. Fazê-los amá-la é a tarefa atribuída, nos atuais estados totalitários, aos ministérios da propaganda, editores de jornais e professores” (Aldous Houxley, Admirável Mundo Novo, Prefácio. Tradução da Companhia Brasileira de Divulgação do Livro, 1969).

Retomemos as nossas considerações mais diretas ou mais religiosas sobre o ateismo. Essa digressão um pouco longa sobre a saciedade sem Deus que está sendo construída não nos afastou do nosso tema. É preciso que a atitude assusta­diça do homem moderno, aue a cada passo, se pergunta – “Para onde vai o homem?” – o leve a descobrir que so­mente a redescoberta de Deus e do Espírito dará direção liber­tadora a essa criatura humana, cheia de grandeza – imagem de Deus – e cheia de misérias – feita de barro ou do nada.

O grande argumento racional para que o homem moderno volte a procurar a Deus (e Deus precisa e quer ser procurado) é, talvez, essa verificação de que a negação de Deus deixa muita coisa inexplicada e inexplicável. A negação de Deus é uma posição muito mais emocional que racional.

Ao contrário, a afirmação de Deus surge muito mais es­pontaneamente, por um simples abrir de olhos de inteligência humana sobre o mundo.

S. Paulo considerava os pagãos inexcusáveis na sua nega­ção de Deus, porque fechavam os olhos aos sinais de Deus nas criaturas. “O que se pode conhecer de Deus, lhes é mani­festo, Deus lhes manifestou. Com efeito, suas perfeições invi­síveis, seu poder eterno e sua divindade tornaram-se desde a criação do mundo, visíveis para a inteligência nas coisas que foram criadas, de sorte que não têm desculpa”… “Vanglo­riando-se de sabedoria, tornaram-se efetivamente ignorantes e insentatos, trocando a majestade do Deus incorruptível, por imagens do homem corruptíveis, de aves, quadrúpedes e repteis” (Rm 1,19,23).

S. Paulo se referia à essa prova que surge, sem qualquer elaboração científica ou filosófica, do segredo das coisas. No fundo é a mesma grande prova da existência de Deus, da grande e inquietante interpelação que o mundo criado lança, como que desafiando, para a inteligência humana, que Santo Tomás vai apresentar, na formulação mais técnica do discurso filosófico, com a expressão a um tempo modesta e subjetiva de vias para Deus. As clássicas cinco vias do doutor angélico.

Contemplando o movimento das coisas, isto é, que as coisas passam de um simples poder ser, da simples potência ao ser efetivo, isto é, ao ato, como a semente, árvore em potência, se torna árvore real, descobre-se a exigência de um primeiro motor imóvel.

Partindo da percepção de que o mundo é ordenado, de­senvolvido, segundo uma linha de causa eficiente, conclui-se pela necessidade de uma causa eficiente não causada.

Reconhecendo que as coisas do mundo puderam não ter existido, isto é, que elas não têm no próprio ser uma exigência ou energia interior que tornasse a sua existência necessária, verifica-se que essa natureza contingente das coisas postula a existência de um ser necessário, de um ser que tenha em si mesmo a exigência de existir.

Se notamos que as coisas participam, num ,certo grau, de grandezas e qualidades – do ser, da bondade, da beleza, da vida, do amor etc. – somos levados a admitir que existe o próprio ser, a própria bondade, o próprio amor, não mais ape­nas participado, mas em si mesmo.

Finalmente, observando que as coisas têm na sua própria estrutura a direção para um fim, que o fim a que se encaminha esta coisa a leva a encontrar outra coisa, que por sua vez, estava internamente dirigida para essa esquina de encontro e que essa ordenação interna das coisas não pode ser fruto de mero escaso e, assim, somos levados a admitir uma inteligência criadora que ordena e dirige este universo de seres destinados ao mútuo abraço e à complementariedade.

Evidentemente esta alusão tão rápida e imperfeita às cinco vias de Santo Tomás não nos permite, nem de longe, avaliá-las no seu vigor de argumento e na sua significação enobrecedora da inteligência humana. Uma tentativa de de­senvolvê-la de um modo mais elaborado fugiria à feição deste trabalho e ao tipo de reflexão que se pretende provocar num possível leitor.

Mais a propósito viria uma análise de supostas provas da inexistência de Deus, que cá e lá ainda são invocadas, embora tragam um ranço do ultrapassado, de um tipo de vaidade ou pose científica, que não se usa mais.

Houve um tempo, há uns 60 ou 80 anos, em que o homem, embalado numa euforia meio leviana, fruto da presunção de que a ciência havia desvendado os segredos do mundo, falava com certa suficiência de que estava provado, pela ciência que Deus não existia. Era a época do racionalismo e do positivismo, a época do eudeusamento da ciência experimental. Nessa época, atribuia-se ao médico a convicção atéia, porque não havia encontrado a alma na ponta do bisturi.

Não podemos dizer que a nossa época tenha mais finura, ou seja menos ingênua na apreciação das coisas, porque não nos faltou um russo astronauta que, a pouco mais de 200 Km da terra, pensava estar no céu e se dava à petulância simplória de informar a terra de que não existia Deus, porque não o tinha encontrado.

O homem moderno não é, entretanto, esse russo simpló­rio. A ciência progrediu demais nestes últimos anos e progre­diu tão rapidamente que, ao contrário do que ocorria há 80 anos, a descoberta de hoje não cria mais esse tipo de vaidade, nem nos comunica a idéia de que chegamos a um auge. Antes, põe-nos atento, à espreita, na expectativa do novo segredo, que virá amanhã. A ciência moderna entrou muito mais na intimidade das coisas, mas, ao mesmo tempo, ou por isso mesmo, nos deixa a viva impressão de que as coisas têm outros segredos, ou antes, têm o seu grande segredo ainda não desvendado.

Assim, as presumidas provas de inexistência de Deus nos reconduzem às provas da existência de Deus. Não direi: a essas provas como demonstrações filosoficamente elaboradas, mas a uma apreciação pré-filosófica, à versão paulina das provas. A ciência moderna quanto mais desvenda os segredos do mundo, tanto mais torna imperioso reconhecer a existência de uma inte­ligência criadora.

Um cientista conteporáneo, há algum tempo falecido, prê­mio Nobel de Biologia – Jacques Monod, – num livro que toma o sugestivo título de uma afirmaço de Demócrito – “tudo que existe no universo é o fruto do acaso e de necessidade” – pretende fazer um “ensaio sobre a filosofia natural da Biologia moderna”. Seu livro – Le hasard et Ia nécessité, essai sur Ia philosophie naturelle de la biologie moderne – entra no assunto, mostrando desde logo, que a maestria do biólogo não encontra apoio em igual maestria de filósofo, que Monod não chega a ser. Mas a investigação inicial é curiosa. Por meio de comparações sugestivas, tenta assinalar os caracteres pró­prios de um objeto artificial, isto é, o artefato produzido por um ser inteligente, com uma finalidade determinada, e um objeto natural, produzido pela própria natureza, sem a inter­ferência de um plano e de uma inteligência ordenadora.

Imagina, para precisar o seu pensamento, uma NASA de Marte, mandando um marciano explorar a terra. Aqui chegando, esse marciano, inteligente e culto, começa a comparar as coi­sas que encontra com o intuito de verificar se são naturais ou artificais (pois a sua missão era precisamente verificar se existiria na terra uma atividade organizada, inteligente, cria­dora de artefatos). E incide nos mais graves equívocos : em muitas coisas naturais, a presença de uma ordenação inteli­gente é mais nítida que em muitos objetos artificiais. O engano mais perturbador ocorreu quando, antes de ter encontrado qualquer ser inteligente, deparou, em lugar ermo, com uma máquina fotográfica. O marciano não teve dificuldades para perceber que a disposição das lentes, a existência de urna câmara e os demais pormenores deixavam claro tratar-se de um artefato inteligentemente ordenado para cumprir o “pro­jeto” de captar imagens. A conclusão se impunha : há um ser inteligente neste planeta, criador dessa máquina, pois ela não pode ter sido obra do acaso. Aconteceu, porém, que poucos passos adiante, o marciano encontrou um globo ocular e, num rápido exame, verificou a sua grande semelhança com a má­quina fotográfica : lentes, diafragma, obturador, pigmentos fotosensíveis… E agora? Haveria uma inteligência criadora? Para não aceitar a resposta afirmativa a esta segunda inda­gação o materialista tem que recusar o bom senso da con­clusão precedente. Nada prova que a máquina fotográfica seja um artefato arquitetado por uma inte!igência, em vista de um fim, pois o globo ocular tem as mesmas características e é um objeto natural.

Nós, porém, poderíamos continuar a acreditar em nosso bom senso : não só o globo ocular, mas o ser vivo de que ele é uma parte, com função inserida no conjunto, e o universo inteiro reclamam uma inteligência criadora.

Examinemos uma semente. Ela tem, dentro de si, o que determina o seu desdobramento em direção a uma árvore idêntica à que lhe deu origem. Um cientista poderá pensar que, tendo descoberto a versatilidade dos ácidos nuclêicos e os mecanismos complexos e precisos do funcionamento do código genético, terá descoberto o segredo da semente. Acontece que o segredo da semente é um segredo de Deus. O cientista descobriu que há uma ordem ou uma ordenação. Mas se re­cusar a aceitar uma inteligência ordenadora, terá que recor­rer ao acaso. O acaso, dirá o filósofo, é o efeito que, por ser o resultado de convergência de duas ou mais séries de cau­sas, não é explicável por uma causa determinada. O lavrador que, ao lavrar a terra, encontra um tesouro é benef:,ciado por um acaso. Como poderia adivinhar que um cego tinha trans­formado a terra no seu cofre, para não ser furtado pelo vizinho? O acaso existe na mente do cientista, como na mente do lavrador, mas tudo tem causa. Mas mesmo esse acaso, isto é, essa convergência de causas, tão real que o matemático a enquadra nos seus cálculos de probabilidade, é às vezes, ex­tremamente improvável. O beija-flor que passeia, no seu vôo rápido, pelo campo, não terá muita dificuldade de encontrar a flor que a natureza terá feito nascer ali, com o colorido vivo e o nectar atraentes, para ele. Como a flor, por sua parte, poderá confiar na sua pétala vermelha, no perfume e no nectar, que a natureza lhe deu, para provocar o acaso da vinda do beija-flor, cuja visita é indispensável para a sua sobrevivência. A natureza – por que não Deus? dirige o beija-flor e a flor para o acaso necessário desse encontro.

Há, porém, acasos mais difíceis. Poder-se-ia fantasiar a hipótese de que um deus homérico passasse milênios lan­hando as letras do alfabeto, aos milhões, sobre um imenso tabuleiro, a maneira de quem lança dados numa mesa, e que com um lento e paciente expediente, tantas vezes repetido, um dia viesse a acontecer o aparecimento das Obras Com­pletas de Shakespeare, em tudo igual à célebre edição de 1623.

Houve um tempo, em que se questionava a existência real dessa pesssoa que se chamou William Shakespeare, como se questiona em tomo da figura de Homero. Mas ninguém levou tão longe a possibilidade do acaso, para atribuir-lhe a autoria do Rei Lear ou da Comédia dos Enoanos. Possíveis dificulda­des de identificação nunca levaram ninguém a duvidar que uma inteligência humana criadora foi a autora desses poemas e a ordenadora dessas letras.

O acaso existe sim. Mas, atrás do acaso, está a mão de Deus. O acaso é F–penas a misteriosa escrita em linhas tortas (e nem sempre tortas) com que Deus governa o mundo.

CONCLUSÕES

Que conclusões tirar destas nossas reflexões ?

Primeiramente, seria a de que o ateísmo moderno (bem como o laicismo que dele deriva) não é o resultado de um trabalho de razão, nada tem de uma conclusão da Ciência ou dos conhecimentos conquistados pelo homem. E antes um pecado de orgulho. Algo semelhante ao pecado de Adão, a afirmação meio juvenil de autonomia.

Se a negação de Deus não pode ser separada da inva­riável tentação humana de não dar conta de si a um ser maior, a afirmação de Deus, embora possa ser provada com argu­mentos de razão, nunca pode ser reduzida a uma simples con­clusão especulativa. Ela traz dentro de si além de uma dispo­sição humilde, o que chamaríamos de uma exigência de en­gajamento. Deus não pode ser indiferente à minha vida. Como sofremos também a tentação de não assumir compromissos, preferimos ignorar a Deus.

No plano do governo do mundo, sabemos que Deus entre­cou ao homem o mundo para que n cultivasse e o guardasse (Gen. 2,15), mas a experiência moderna do ateísmo vem mos­trando que, sem Deus, a despeito dos imensos e indiscutíveis progressos científicos, essa tarefa não consegue ser cumprida em proveito do homem. A torre de Babel que estamos cons­truindo, no afã de atingir o céu com as nossas mãos é a socie­dade desumana ou o “Admirável mundo novo” figurado por Haxley.

Conseqüentemente, se os numerosos futurologistas que vivem indagando, angustiados, com Heilbroner – “Há espe­rança para o homem?” – quiserem realmente descobrir os caminhos de um mundo melhor, terão que ter ouvidos para ouvirem o desafio que essa perspectiva sombria do Brave New World está lançando sobre nós : Sem Deus, não só não há salvação eterna, mas também não há salvação temporal, ou como se exprimia recentemente João Paulo II : não vos contenteis em construir esse mundo mais humano; contrul um mundo explicitamente mais divino.

SEPARATA DE “LITURGIA E VIDA “, 152 (1979).
MOSTEIRO DE SÃO BENTO
RIO DE JANEIRO