Violação da cultura indígena?
Outro equívoco, um pouco diverso do da “invasão do território”, é o do “atentado à cultura”. A invasão teria sido feita em completo desrespeito pela cultura indígena, que foi assim destruída, num autêntico crime de “genocídio cultural”. Alguns argumentam que teria sido melhor para os índios que os europeus nunca tivessem vindo à América. Já Charles Darwin observava que “sempre que se põem em contato duas culturas, uma superior e outra inferior, a cultura inferior sofre imediatamente de um declínio de população, por perda dos grandes referenciais que sustentam a cultura primitiva”. Hoje em dia, a mentalidade relativista dominante apresenta uma forte ojeriza pelas classificações absolutas e por isso não admite que se considere uma cultura como inferior ou superior. Mas, ao menos do ponto de vista técnico, é simplesmente inevitável reconhecer o primitivismo da cultura ou da civilização indígena brasileira: “Sem escrita e sem história, [os índios brasileiros] encontravam-se pouco mais que na era da pedra polida”. Os resultados do encontro de uma cultura tão frágil com a do Renascimento europeu tinha do ser, sob muitos aspectos, perturbador e desastroso: “Era muito difícil, se não impossível, que os indígenas compreendessem o modo de vida dos europeus, como era difícil aos europeus compreenderem por que os indígenas, não assimilavam a cultura européia”. Os primeiros a perceberem essa dificuldade, e todos os problemas que trazia consigo, foram exatamente os missionários, sobretudo franciscanos e jesuítas, justamente os mais acusados de descaso em relação à cultura indígena. Percebendo o abismo cultural que separava a Europa da América e buscando preservar ao máximo os valores indígenas diante do choque cultural que se mostrava inevitável, procuraram criar as condições mais favoráveis para transmitir sem traumas aos índios a cultura européia. Assim nasceram as missões ou reduções, que se espalharam por todo o continente, do Alasca à Terra do Fogo, do Atlântico ao Pacífico. Hoje, a quinhentos anos de distância, parece muito fácil encontrar pontos falhos e fazer críticas às missões, sobretudo porque, além do catecismo, também se ensinavam aos índios as mais modernas técnicas européias em todos os campos, da agricultura à ourivesaria, da contabilidade ao canto polifônico. Mas “que faríamos nós naquela época, inseridos na mentalidade de então? […] O fato é que aqueles missionários partiam de uma série de pressupostos e agiam em conseqüência; escolhida a direção, não mediam esforços. E tinham como primeiro pressuposto o fato de que ninguém pode ser forçado à integração com outra sociedade tão diferente. Por isso respeitaram muito, talvez mais do que atualmente, os valores da sociedade indígena”. Assim como há valores culturais que são absolutos, também há conhecimentos técnicos que constituem patrimônio da humanidade e que não podem ficar restritos a um grupo ou a uma nação. Seria justo que os conhecimentos das mais recentes descobertas da genética, ou da tecnologia de sementes, ou dos transplantes de órgãos, ou da clonagem, ficassem reduzidos a um pequeno grupo que os manipulasse segundo seus próprios critérios internos? Seria justo recusar a um setor da humanidade os benefícios alcançados por outro? Imaginemos por momento que um grupo de cientistas suecos descobrisse a cura real e efetiva da Aids, mas que se recusasse a fornecer essa descoberta aos países africanos – precisamente aos que mais necessidade têm dela -, sob a alegação de que eles são de outra cultura. Que justos e indignados clamores subiriam de todas as partes do mundo contra essa prepotência! Esse era precisamente o problema com que se defrontavam os missionários do século XVI, quando a colonização efetivou o contato da sofisticada tecnologia do Renascimento com as técnicas neolíticas das tribos brasileiras. Quais eram os conhecimentos técnicos dos indígenas do Brasil? “Destaque-se a bebida fermentada, o cauim, os artigos de produção indígena: madeiras, peles, carnes e peixes, pássaros e ervas medicinais, e talvez mais alguns poucos produtos que se comercializavam entre o planalto e a praia. Mas não passamos disso: uma técnica rudimentar que consistia na transmissão, de geração em geração, do resultado de diversas experiências de acerto e erro”. Em contraste, qual era o conhecimento técnico efetivamente trazido ao Brasil pelos europeus? Poderíamos estender-nos por várias páginas falando de edificação, metalurgia, hidráulica, pavimentação, construção de pontes, indústria alimentícia, arte têxtil, técnicas agrícolas, pastoreio, criação de gado, carpintaria, estatuária, ourivesaria, etc. Seria justo reservar esse conhecimento ao homem brando e não permitir que os índios o aproveitassem também? Mas o bom senso prevaleceu e muitos colonizadores, particularmente os missionários, se dispuseram a ensinar as técnicas da Europa aos índios, com o evidente interesse de ajudá-los, e não como uma afronta premeditada à sua cultura. Aliás, essa ausência de preconceito cultural fica evidente na medida em que, por sua vez, os colonizadores adotaram com toda a simplicidade os costumes e técnicas indígenas que julgaram melhores que os seus, como por exemplo o uso da rede… e o banho freqüente. Se fôssemos considerar isso um genocídio cultural, teríamos que denunciar também as influências maléficas sofridas pela cultura ocidental. Um dos costumes que passou de um lado para o outro foi, por exemplo, o hábito indígena de fumar. Haveria hoje no mundo um tribunal que aceitasse um processo contra os índios e os missionários, movido pelo mais delirante inimigo do cigarro, pedindo uma indenização pelos males que o fumo brasileiro fez nos costumes, na cultura e na saúde dos europeus? Ou deveremos pelo menos exigir dos índios um pedido de perdão pela propagação da nicotina na Europa? Mas, para que pudesse haver qualquer transmissão de conhecimentos, havia uma condição prévia que era o domínio da língua. Foi o que perceberam os missionários. E, fato curioso, ao invés de “imporem” aos “dominados” a língua européia “dominante” – veículo aliás muito mais apto para transmitir os conhecimentos técnicos que desejavam transferir -, a primeira medida que tornaram foi aprender as línguas indígenas e compendiá-las em gramáticas. E, se hoje conhecemos a língua tupi na sua forma clássica, é porque o padre Anchieta cometeu a “afronta” cultural de recolhê-la e dar-lhe uma forma escrita, criando ao mesmo tempo a primeira poesia, o primeiro teatro e a primeira literatura em tupi que se conservaram até hoje. A quase totalidade das línguas indígenas que sobreviveram até os nossos dias, só o fizeram porque os missionários, já nos primeiros contatos, se empenharam em estudá-las e conservá-las. Qual foi o resultado desse imenso trabalho de aculturação que durou três séculos e que não teve paralelo na história? Está exposto e analisado em uma imensa quantidade de obras dedicadas ao assunto. Mas tomemos o testemunho dos próprios indígenas, mais expressivo e facilmente verificável através de uma reação sintomática. Quando, depois da Independência da América, os índios foram convidados a autogerir-se e organizar-se, aqueles que tinham sido formados nas colônias inglesas optaram por voltar à sua cultura de origem. Já a totalidade dos indígenas que haviam sido formados nas culturas latinas e católicas preferiram continuar nos novos costumes¹. Aliás, essa constatação remete a um aspecto curioso do debate sobre a integração ou preservação da cultura indígena. Muitos clamam e opinam sobre o que se deve fazer a respeito dos índios. Mas poucos, pouquíssimos, se preocupam de investigar junto aos índios o que eles realmente desejam, antes de serem doutrinados pelas ONGs e pelos seus antropólogos… Há uma corrente sociológica, e talvez também ideológica e política, que defende acirradamente a idéia do isolacionismo: o índio, ainda hoje, deveria ser mantido à margem da influência do branco. Mal comparando, e pedindo desculpas pela crueza da expressão, parece que essas pessoas preferem manter os índios numa espécie de “jardim zoológico” cultural, para objeto da curiosidade e do estudo dos outros povos. Se os índios real e livremente assim o desejarem, tudo bem. Mas será que o querem? Quando os vemos vestindo roupas “de branco”, jogando futebol, comercializando seu mogno e suas pedras no exterior, adquirindo televisores e video-cassetes, tendo “sites” na Internet e falando em celulares, é difícil achar que realmente o queiram². Ora, se eles não quiseram ir para o “zoológico”, quem terá autoridade para impedi-los? Não terão eles o direito de buscar o convívio social e a integração com os outros povos? Exageros à parte, bem cabe aqui o comentário de Olavo de Carvalho: “Muitos de nossos índios abandonaram a cultura tribal, entraram na nova sociedade, adotaram a religião cristã. O Parlamento e as Universidades estão repletos deles, e cada família antiga deste país se orgulha de Ter mais que uma gota de sangue indígena. Os outros caíram vítimas de uma antropologia maluca […] e empenhada em conservá-los como objetos de museu e bichinhos de estimação. Os primeiros representam a força e a glória das raças indígenas. Os segundos, a vergonha e a morbidez de um atavismo insano, alimentado e manipulado por um dominador mais rico e malicioso do que aquele contra o qual hoje ostentam uma revolta esquizofrênica e deslocada no tempo”. Fala-se muito, atualmente, dos males que os europeus trouxeram aos índios da América, e particularmente do Brasil. Mas a justiça e a eqüidade mandariam perguntar: será que não trouxeram também algo de bom? “Será que a contribuição do homem branco no Brasil e na América se limitou ao genocídio dos povos nativos e à destruição da sua cultura, sem que tenha acrescentado mais nada em matéria de princípios civilizatórios, de religião, de arte, de direito, de moral, de tecnologia, de pensamento, de ciência, decisivos para a formação de nossa personalidade nacional e da nossa identidade cultural? Será que o homem branco só trouxe devastação? Ou introduziu, ao mesmo tempo, certas instituições, certos princípios e valores essenciais para nossa vida e nossa cultura? Em suma, será que não valeu a pena construir o Novo Mundo, este onde respiramos e que lutamos por aperfeiçoar? No caso do Brasil, seria melhor que, após a chegada de Cabral, os portugueses se fizessem ao largo para sempre, abandonando aqueles homens e mulheres cor de cobre à bem-aventurança paradisíaca?”
Faustino, Evandro. 500 anos. Reflexões sobre a evangelização. Quadrante, São Paulo, 000