Assim, os humanistas abandonam uma das obrigações capitais do intelectual…
Assim, os humanistas abandonam uma das obrigações capitais do intelectual, o contacto com a massa, a ligação entre a ciência e o ensino. Sem dúvida o Renascimento, a longo prazo, dará à humanidade a colheita de um trabalho orgulhoso e solitário. Sua ciência, suas idéias, suas obras-primas alimentarão mais tarde o progresso humano. Mas o Renascimento, em primeiro lugar, volta-se para si mesmo, é um afastamento. Até a invenção da imprensa a difusão do pensamento sempre se amplia. A imprensa inicialmente talvez favoreça - antes de expandir por toda parte a cultura escrita - um encolhimento da difusão do pensamento. Os que sabem ler - uma pequena elite de favorecidos - são plenamente atendidos. Os outros deixam de ser alimentados com as migalhas da escolástica que lhes levavam os pregadores e os artistas da Idade Média, todos formados pelas Universidades. Será preciso, talvez, esperar a Contra-Reforma para que a impressão venha a liberar-se como uma arte, sob uma forma possivelmente contestável mas carregada de intenções didáticas e apostólicas, que permita a participação do povo na vida cultural.
Nada é mais chocante do que o contraste entre as imagens que representam trabalhando o intelectual da Idade Média e o humanista. Um é um professor, colhido em sua atividade de ensinar, cercado pelas bancadas em que se espreme o auditório. O outro é um erudito solitário, em seu gabinete tranqüilo, à vontade no meio do cômodo espaçoso e suntuoso no qual passeiam livremente seus pensamentos. De um lado, o tumulto das escolas, a poeira das salas de aula, a indiferença quanto ao cenário do trabalho coletivo.
Do outro, tudo é ordem, formosura, É luxo, é calma, e é volúpia pura.
LE GOFF, Jacques: Os intelectuais na Idade Média.
