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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 23rd, 2006

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Padre Vieira: a Compadecida

SERMAO DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

Pregado na Igreja da Senhora do Destêrro, Bahia, no ano de 1639.

Bem podia Cristo remir o gênero humano sem cooperação de Maria; mas porque não quis, por isso determinou que a Mãe o acompanhasse nos seus padecimentos até o Calvário; onde se viu que estando ela em pé junto à Cruz, tudo o que padecia o Filho no corpo, padecia a Mãe na alma.

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 23rd, 2006

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Vieira: A Virgem Imaculada

SERMÃO DA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SENHORA NOSSA

Pregado pelo Autor antes de ser sacerdote na Bahia e na Igreja da
mesma invocação, no ano de 1635.

Começar por onde os homens acabam e acabar por onde eles começam são primores da onipotência de Deus e sutilezas de sua divina sabedoria. Edificou o Criador esta grandiosa fábrica do mundo, e diz o texto sagrado que primeiro fêz o céu, depois a terra: “In principio creavit Deus coelum et terram”. Quem viu nunca tal arquitetura? Quem viu nunca tal traça, (diz São João Crisóstomo) que para fazer um edifício primeiro se arme o teto do que se levantem as paredes; primeiro se fechem as abóbodas do que se abram os alicerces? Pois isto é o que obrou na criação e fábrica do mundo o supremo Arquiteto dele: primeiro fêz o céu e depois a terra: primeiro levantou o teto e depois armou as paredes: pri­meiro correu as abóbodas e depois fundou os alicerces. Mas nestes avessos do fraco poder humano, conclui o santo, consiste o direito, o sublime e o mara­vilhoso da onipotência divina: em começar por onde os homens acabam, em acabar por onde eles começam.

Toda esta traça tão milagrosa da criação do mundo nenhuma outra coisa foi senão uma planta ou debuxo da Conceição puríssima de Maria, mundo segundo que para o segundo Adão, Cristo, singular e milagrosamente foi edifi­cado. Toda a arquitetura andou trocada neste soberano edifício. Nos outros edifícios espirituais, nas outras criaturas por mais santas e santificadas que sejam a primeira pedra é da natureza e a segunda da graça. Primeiro se edifi­cam pela parte da terra e depois pela parte do céu. Primeiro nascem tributárias ao pecado de Adão, e depois renascem justificadas pelos merecimentos de Cristo. Não assim na Conceição de Maria. Começou este milagroso edifício pelo muito que tinha do céu e acabou-se pelo pouco que participava da terra. Primeiro se fecharam as abóbadas do espírito e depois se lançaram os fundamentos do corpo. Primeiro ou quase primeiro a santificou a graça e depois a produziu a natureza. Que elegante e que expressamente o disse São João Damasceno: “Natura voluit in Conceptione Virgins gratiae cedere, ut virgins Conceptio gratiae Dei non viribus naturae tribueretur”. A natureza que em tôdas as outras conceições costuma ser a primeira, cedeu de seu direito nesta obra e concedeu-o à graça. As prevenções da graça puseram a primeira pedra no edifício, e as exceções da natureza a segunda. Começou Deus na Virgem Santíssima por onde acaba nos outros santos e acabou por onde começa. Lá começa pela natureza e acaba pela graça; cá começa pela graça e acaba pela natureza: manifestando as delicadezas de sua sabedoria nestes trocados de sua onipotência “para que a Conceição de sua Mãe não fosse obra da natureza, mas da graça: “Ut Virginis Conceptio gratiae Dei non viribus naturae tribueretur.”

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 23rd, 2006

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Padre Vieira: Maria, a Estrela do Mar

SERMÃO DO SANTISSIMO NOME DE MARIA

E não somente ilumina como sol, mas guia também como estréia do mar. 0 mar é êste mundo cheio de tantos perigos, combatido de todos os ventos, exposto a tão freqüentes tempestades; e em uma tão larga, temerosa e escura navegação, quem poderia chegar ao porto do céu, se não fôsse guiado de lá por aquela benigníssima estréia? Por que meio poderão os navegantes entre tantos perigos chegar às praias da pátria. Pergunta o Papa Inocêncio III; e responde êle mesmo que só por meio de duas coisas, nau e estrela. A nau é o lenho da cruz, a estrêla é Maria: “Certe per duo: videlicet per lignum et stellam; id est per lidem crucis et virtutem lucis quam peperit nobis Maria maris stella”. (III-1 °-4)

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 23rd, 2006

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Padre Vieira:SERMÃO DO SANTISSIMO NOME DE MARIA


Na ocasião em que Sua Santidade instituiu a festa universal
do mesmo Santíssimo Nome

Só vos digo que invoqueis o nome de Maria quando tiverdes necessidade dele: quando vos sobrevier algum desgosto, alguma pena, alguma tristeza: quando vos molestarem os achaques do corpo, ou vos não molestarem os da alma: quando vos faltar o necessário para a vida, ou despejardes o supérfluo para a vaidade: quando os pais, os filhos, os irmãos, os parentes se esquecerem das obrigações do sangue: quando vo-lo desejarem beber a vingança, o ódio, a emulação, a inveja: quando os inimigos vos perseguirem e os amigos desampararem, e de onde semeastes benefícios, colherdes ingratidões e agravos: quando os maiores vos faltarem com a justiça, os menores com o respeito, e todos com a proximidade: quando vos inchar o mundo, vos lisonjear a carne, e vos tentar o demônio, que será sempre e em tudo: quando vos virdes em alguma dúvida, ou perplexidade, em que vos não saibais resolver, nem tomar conselho: quando vos não desenganar a morte alheia, e vos enganar a própria, sem vos lembrar a conta de quanto e como tendes vivido, e ainda esperais viver: quando amanhecer o dia, sem saberdes se haveis de anoitecer, e quando vos recolherdes à noite, sem saber se haveis de chegar a manhã: finalmente, em todos os trabalhos, em todas as aflições, em todos os perigos, em todos os temores, e em todos os desejos e pretensões, porque nenhum de nós conhece o que lhe convém: em todos os sucessos prósperos ou adversos, e muito mais nos prósperos, que são os mais falsos e inconstantes: e em todos os casos e acidentes súbitos da vida, da honra, da fazenda e principalmente nos da consciência, que em todos anda arriscada, e com ela a salvação. E como todas estas coisas, e cada uma delas necessitamos de luz, alento e remédio mais que humano; se em todas e cada uma recorremos à proteção e amparo da Mãe das misericórdias, não haverá dia, nem hora, nem momento, que não invoquemos o nome de Maria.

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 14th, 2006

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Honrar pai e mãe…

É preciso reconhecer que, por força do vínculo natural, moral e afetivo livremente assumido por Jesus com Maria, a Ele competiram todas as obrigações que os filhos têm para com suas mães. Além disso, pelo fato de o Senhor ter vindo para dar perfeito cumprimento à Lei (Mt 5, 17), cuja especial manifestação é o Decálogo, é necessário que Ele o tenha observado, exemplarmente, quando manda “honrar pai e mãe” (Ex 20, 12). Portanto, Jesus reverenciou e amou o Eterno Deus, Seu Pai, e a Virgem Maria, Sua Mãe, como nenhum filho jamais o conseguiria fazer.

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 14th, 2006

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contemplata aliis tradere

Assim como é melhor o iluminar que somente luzir, assim é mais elevado transmitir aos outros os frutos da contemplação que somente contemplar, sicut enim maius est illuminare quam lucere solum, ita maius est contemplata aliis tradere quam solum contemplari (II-II, q.188, 6 c).

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 13th, 2006

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Imaculada

“Um só e mesmo decreto (uno eodemque decreto) dispôs sobre [a origem de] Maria e a Encarnação da Sabedoria divina” (Pio IX. Ineffabilis Deus. Pii IX Pontificis Maximi Acta I, 1, Romae, 1854, p.559). A mesma expressão é retomada por Pio XII na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus: “a augusta Mãe de Deus, associada a Jesus Cristo de modo insondável desde toda a eternidade por um só e mesmo decreto (uno eodemque decreto) de predestinação (…) foi por fim preservada da corrupção do sepulcro e, tendo vencido a morte como seu Filho, foi elevada em corpo e alma à glória do Céu, onde resplandece como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos” (AAS 42 [1950], p. 768).

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 13th, 2006

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A Imaculada Conceição de Maria

Sendo propriamente uma verdade sobrenatural, a Concepção Imaculada de Maria, não pode ser provada pela razão. Sabemos, com efeito, que grande parte da Teologia, especialmente o que diz respeito à economia da Redenção, fundamenta-se em causalidades livres que dependeram exclusivamente da vontade divina. Superando a condição do entendimento humano, as escolhas de Deus só podem ser conhecidas pela Revelação, iudiciorum Dei non possit ratio assignari (III, q.27, a.6 c). À Teologia cabe tão somente reconhecer-lhes a credibilidade extrínseca a fim de defendê-las daqueles que as negam. Efetivamente, nem a existência nem mesmo a possibilidade de uma verdade essencialmente sobrenatural pode ser provada pela razão, que serve apenas para esclarecê-la. Por outras palavras, a Teologia não prova seu objeto, mas o supõe e não faz mais que mostrar sua razoabilidade (I, q.32, a.1 ad2). Por isso, enquanto discurso racional, a Teologia pode apenas evidenciar a debilidade das objeções feitas contra a fé e estabelecer que são falsas ou não necessárias (In Boet. De Trinitate, q.2, a.3). Mas o que é a Imaculada Conceição? É dizer que, desde o momento em que foi concebida, a Virgem Maria foi ornada pela graça santificante, em cuja privação consiste formalmente a “mácula”, isto é, a “falta de brilho” do pecado original (v. infra, nota S). Este privilégio foi outorgado à Virgem em vista da sua estreita união com o Verbo Encarnado. Embora muitas razões possam ser aduzidas – convinha absolutamente que a Mãe do Salvador jamais tivesse sido inquinada pela impureza de qualquer pecado -, esta verdade de fé não pode ser deduzida por silogismo a partir da maternidade divina, mas é-nos conhecida por revelação de Deus, que, efetivamente, decidiu-Se por este milagre. Tenha-se em mente, porém, que de modo algum se quer dizer que a Virgem não pertença ao número dos redimidos. Em razão da comum propagação do pecado original, mais do que todos, ela teve necessidade da graça redentora: assim como os outros eleitos têm necessidade de Cristo para a remissão do pecado já contraído (redenção liberativa), assim Maria teve necessidade ainda maior para não contraí-lo (redenção preventiva). Eis por que sua salvação foi a mais perfeita Mediação operada por Cristo, cuja graça lhe foi aplicada a fim de preservá-la da mácula original. Para tanto, era necessário e suficiente que Deus, que não está sujeito ao tempo, assim o quisesse dispor, aplicando-lhe antecipadamente os méritos da Paixão de Jesus. Assim decidindo, Deus a remiu de um modo mais sublime, e, longe de derrogar a honra de Cristo, essa graça a exalta de modo eminente. Em 1854, a Igreja definiu que “no primeiro instante de sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus onipotente e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, a Bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha da culpa original” (Pio IX. Ineffabilis Deus. Pii IX Pontificis Maximi Acta I, 1, Romae, 1854, p.616).

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 9th, 2006

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Joaquim de Fiore e a vã esperança de um reino cá embaixo

Santo Tomás reprovou a doutrina do “evangelho eterno” de Joaquim de Fiore (+1202), segundo a qual o evangelho de Cristo, pregado em todo orbe sem que tivesse chegado o fim do mundo, não seria o evangelho do Reino, mas que se deveria esperar outro evangelho e outra dispensação, a do Espírito Santo. De fato, a doutrina de Fiore supõe um “vivens ordo” na história, isto é, supõe uma concepção imanentista e pragmática da Revelação. Segundo Fiore, a economia do Filho estaria superada. Dessa suposta exaustão, pretendeu indicar os sinais num comentário que fez ao Apocalipse. À Igreja de Pedro sucederia a igreja de João, pneumática, sem fronteiras, da qual a primeira seria mera figura. Afastando-se de sua habitual moderação, Tomás de Aquino repele o joaquimismo classificando-o de “grandíssima estupidez” . Na verdade, o tão esperado Reino de Deus identifica-se substancialmente com o Reino dos Céus, “regnum autem Dei idem est secundum substantiam cum regno caelorum” (Catena aurea in Marcum Cap. 1, lectio 6).

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 9th, 2006

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A origem do Mal

O pecado original e os que se lhe seguiram são a causa universal da miséria humana. Sem o pecado original nossa condição seria incompreensível: ou seja, esta doutrina revelada é a explicação cristã para o problema do mal. Sem esta consideração, nossa condição miserável permaneceria um enigma que faria injúria à bondade e à justiça de Deus. O pecado mudou a história do mundo. Para a maioria das cosmologias não-cristãs o mal, que é anterior ao homem, proviria de um princípio mau: contra dualismo gnóstico, no qual domina o pessimismo e o determinismo moral (isto é, a não-responsabilidade) o Cristianismo professa a responsabilidade de ser humano, professa também que Deus não é Autor do mal (da culpa), mas que todo mal é conseqüência da liberdade humana.