Sendo propriamente uma verdade sobrenatural, a Concepção Imaculada de Maria, não pode ser provada pela razão. Sabemos, com efeito, que grande parte da Teologia, especialmente o que diz respeito à economia da Redenção, fundamenta-se em causalidades livres que dependeram exclusivamente da vontade divina. Superando a condição do entendimento humano, as escolhas de Deus só podem ser conhecidas pela Revelação, iudiciorum Dei non possit ratio assignari (III, q.27, a.6 c). À Teologia cabe tão somente reconhecer-lhes a credibilidade extrínseca a fim de defendê-las daqueles que as negam. Efetivamente, nem a existência nem mesmo a possibilidade de uma verdade essencialmente sobrenatural pode ser provada pela razão, que serve apenas para esclarecê-la. Por outras palavras, a Teologia não prova seu objeto, mas o supõe e não faz mais que mostrar sua razoabilidade (I, q.32, a.1 ad2). Por isso, enquanto discurso racional, a Teologia pode apenas evidenciar a debilidade das objeções feitas contra a fé e estabelecer que são falsas ou não necessárias (In Boet. De Trinitate, q.2, a.3). Mas o que é a Imaculada Conceição? É dizer que, desde o momento em que foi concebida, a Virgem Maria foi ornada pela graça santificante, em cuja privação consiste formalmente a “mácula”, isto é, a “falta de brilho” do pecado original (v. infra, nota S). Este privilégio foi outorgado à Virgem em vista da sua estreita união com o Verbo Encarnado. Embora muitas razões possam ser aduzidas – convinha absolutamente que a Mãe do Salvador jamais tivesse sido inquinada pela impureza de qualquer pecado -, esta verdade de fé não pode ser deduzida por silogismo a partir da maternidade divina, mas é-nos conhecida por revelação de Deus, que, efetivamente, decidiu-Se por este milagre. Tenha-se em mente, porém, que de modo algum se quer dizer que a Virgem não pertença ao número dos redimidos. Em razão da comum propagação do pecado original, mais do que todos, ela teve necessidade da graça redentora: assim como os outros eleitos têm necessidade de Cristo para a remissão do pecado já contraído (redenção liberativa), assim Maria teve necessidade ainda maior para não contraí-lo (redenção preventiva). Eis por que sua salvação foi a mais perfeita Mediação operada por Cristo, cuja graça lhe foi aplicada a fim de preservá-la da mácula original. Para tanto, era necessário e suficiente que Deus, que não está sujeito ao tempo, assim o quisesse dispor, aplicando-lhe antecipadamente os méritos da Paixão de Jesus. Assim decidindo, Deus a remiu de um modo mais sublime, e, longe de derrogar a honra de Cristo, essa graça a exalta de modo eminente. Em 1854, a Igreja definiu que “no primeiro instante de sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus onipotente e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, a Bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha da culpa original” (Pio IX. Ineffabilis Deus. Pii IX Pontificis Maximi Acta I, 1, Romae, 1854, p.616).