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Omayr José de Moraes Júnior

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janeiro 27th, 2010

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A AUDIÊNCIA PARTICULAR COM S. PIO X, Monsenhor Francisco Bastos

Encontrava-me em Roma fazia mais de dois anos, sem ter tido a ventura de ver de perto a impressionante figura de Pio x, cuja fama de santidade se ia espalhando graças aos muitos milagres que lhe eram atribuídos .

Vira-o, é verdade, porém, de longe, quando do alto da janela do “Cortile San Damaso” ou quando, levado na “Sedia Gestatoria”, entrava na Basílica de São Pedro a distribuir bênçãos às multidões que o aclamavam. Nessas ocasiões, fazia um gesto para impor silêncio aos mais exaltados, que gritavam: “Evviva il papa Re”.

Em junho de 1914, porém, iria eu ter a auspiciosa oportunidade de ser recebido por Pio X, em audiência particular.

Dom Duarte Leopoldo e Silva, meu arcebispo, e Dom Alberto José Gonçalves, Bispo de Ribeirão Preto, tinham vindo a Roma em visita “ad limina”. Ambos seriam recebidos pelo Papa, em dias diferentes. Como Dom Alberto não houvesse trazido consigo um secretário, fui eu designado para acompanhá-lo.

No dia e hora aprazados, estávamos na ante-sala do gabinete particular do Papa. Nem bem havíamos chegado, já se apresentava Mons. Samper, camareiro-secreto de Pio X, para, dirigindo-se a Dom Alberto, dizer-lhe:

- V. Exa. Revma. pode entrar, e o senhor, – apontando para mim – espera aqui.

Vinte minutos depois, o mesmo Mons. Samper surgia para me avisar:

- O Santo Padre deseja vê-lo. Ao entrar na sala – continuou -, o senhor faz uma genuflexão no limiar, outra no meio e a terceira perto do Papa, e não lhe beije os pés, porque Sua Santidade não o permite.

Fui presa de intensa emoção porque, enquanto ficara esperando, lera, nos jornais do dia, um grande milagre que Pio X fizera ainda na véspera.

Era costume serem recebidos, na semana da Páscoa, a fim de obterem do Papa a bênção nupcial, os membros da nobreza romana que se haviam casado durante a Quaresma.

Na véspera, um casal de príncipes conseguira uma audiência particular. Atacado de reumatismo gotoso, Pio X – que não podia permanecer muito tempo de pé – atendia, muitas vezes, sentado numa poltrona.

Ao entrar na sala, em que se achavam os príncipes, o Papa notou que a esposa, tendo uma criança nos braços, chorava copiosamente. Ordena que ambos se sentem lado a lado dele. E, dirigindo à princesa, pergunta

- Por que chora, minha filha?

- Santo Padre, responde ela, há dois anos estivemos aqui para receber a bênção nupcial, e esta minha filha, que é o primeiro fruto do nosso matrimônio, está atacada de paralisia infantil… E as lágrimas se lhe deslizavam pelas faces.

- Deixe-me vê-la, pede o Papa. A mãe trêmula de emoção, entrega-lhe a filha. Pio X põe-na de pé sobre seus joelhos, por alguns instantes e, restituindo-a à mãe, diz

- A senhora está enganada. Sua filhinha não sofre de nada … Experimente faze-la andar e verá …

Com espanto e alvoroço de alegria, os pais viram a filha caminhar normalmente. Estava de todo curada!

Sob essa forte impressão é que entrei na sala. Ao contemplar Pio X, reclinado sobre uma escrivaninha americana, todo de branco, com seus dois olhos grandes, cheios de um misto de doçura e de melancolia, voltados para mim, como que a querer esquadrinhar-me a alma, caí de joelhos, como se estivesse diante de uma aparição.

Vendo que não me levantava do lugar – porque se me esvaíram as forças – Pio X, num gesto largo, com a palma da mão virada para cima, ordena-me em italiano

- “Alzatevi”.

Reunindo todas as minhas energias, levantei-me, cambaleando, para ir cair de joelhos a seus pés.
Observando a minha grande comoção, procura o Papa tranqüilizar-me, brincando comigo como se eu fosse uma criança.

- “Parlate italiano?”

- Si, Santo Padre.

- “Siete italiano”?

- No. . . Ia completar a frase, quando ele me interrompe, enumerando uma após outra estas nacionalidades.

- “Francese, spagnolo, tedesco, inglese?”

Diante dos meus sucessivos “no”, exclama:

- Allora cosa siete?

- “Sono brasiliano, Santo Padre”.

- “Brasiliano! … Ma Come… Se non siete nero!”

A admiração do Papa, ao ver um brasileiro de pele clara, de cabelos castanho-escuros, explicava-se pela impressão que, dias antes, lhe causara uma peregrinação, chefiada por Dom Silvério Gomes Pimenta – o piedoso Arcebispo de Mariana, também ele com fama de santo – que era de pele escura, acompanhado de vários monsenhores e de senhoras de cor.

- “Allora, brasiliano bianco … Cosa studiate?”

Era costume chamar de filósofos os estudantes de filosofia e de teólogos os que estudavam teologia. Por isso, com a maior naturalidade, respondi

- “Sono filosofo, Santo Padre”.

- “I miei rispetti” – disse sorrindo e, tirando o barrete e a olhar para Dom Alberto que a tudo assistia admirado, acrescenta:

- “Siamo dinanzi a un altro Aristotele, un altro San Tommaso d’Aquino!”

- “Voglio dire che sono studente di filosofia emendei-me confuso.

- “Ma, si … Ho capito … il Papa sta scherzando … Cosa desiderate?” – pergunta-me.

Além de uma porção de terços para serem bentos, trazia escondida uma bênção papal para a qual pretendia obter um autógrafo de Pio X, a fim de oferecê-la à minha professora, Dona Sinhazinha, que, naquele ano, festejava seu jubileu de prata de professorado.

Ao saber que fora ela que despertara em mim a vocação para o sacerdócio, não hesitou uni instante: tomou a caneta e escreveu:

Pius Papa X.

- “C’é altro da desiderare?” – pergunta ainda.

Na semana seguinte devia eu prestar exames de Filosofia na Gregoriana. Os examinadores estavam sendo rigorosos, distribuindo reprovações em penca e asseveravam que o faziam por ordem de Sua Santidade, disse eu ao Papa.

- “Si, è vero” – respondeu-me.

Disse-lhe, então que, na próxima semana, iria prestar exames e temia pela minha sorte. Queria, pois pedir-lhe uma bênção, mas, a frase em italiano, de que me servi para consegui-la, revelou, sem eu querer, a minha íntima presunção.

- “Santo Padre, voglio una benedizione per riuscire bene ín tutti i miei esami! . . . ”

Era como pedir uma bênção, não para passar nos exames e sim, para fazê-lo com grande brilho.

Por isso, quando o Papa – que vinha brincando comigo – se concentrou por alguns segundos, preparei-me para ouvir com toda a humildade um sermão sobre os efeitos perniciosos do orgulho. Pio X, porém, não levando em conta a desastrada forma de me expressar, pronunciou esta impressionante frase, que nunca mais pude esquecer:

- “Non voglio favorire la pigrizia, purchè studiate benediró tutti i vostri esami”.

Tirando o barrete da cabeça, deu-me a bênção trina do Pontifical. Colocando, depois, as mãos sobre a minha cabeça, com os olhos voltados para o céu, perguntou-me

- “Siete soddisfatto?”

Os maravilhosos efeitos dessa bênção iriam manifestar-se em todos os exames que, nos cinco anos seguintes, prestaria eu na Gregoriana.

Foi, contudo, na defesa de tese para a obtenção da láurea em Teologia que, mais extraordinariamente, senti a presença da bênção daquele que, cinco anos atrás, havia falecido.

Sentado diante dos meus examinadores, tendo sobre a mesa, que nos separava, a Patrística, numa edição de 10 volumes, e mais o Antigo e Novo Testamento e o Encheridion, durante vinte minutos, dissertei sobre o ponto sorteado, sendo em seguida argüído pelos examinadores.

Como o ponto, que a sorte me indicara, fora o do Primado do Pontífice Romano, um dos examinadores, contestando a minha argumentação, afirmou:

- A Igreja Oriental jamais admitiu esse Primado que o sr. acaba de conferir à Igreja de Roma.

- A Prima Clementis, repliquei – cuja análise foi objeto de minha exposição sobre o Primado do Bispo de Roma – é a prova mais convincente de que já, no século I, o Oriente como o Ocidente reconheciam em Roma o Primado de jurisdição. Se não como explicar a intervenção de Roma na Igreja de Corinto para repor em suas funções os membros do presbitério dePostos por uma sedição, sendo ela obedecida sem contestação alguma? Nesse episódio, o que torna ainda mais patente a supremacia de Roma é o fato de, estando ainda vivo o apóstolo João, em Éfeso, não ter este intervindo, quando seria tão natural que o fizesse na sua qualidade de apóstolo, sendo maior a relação entre Éfeso e Corinto do que entre Roma e Corinto.

Poderia, igualmente, citar a Carta de Inácio de Antioquia à Igreja de Roma, na qual diz textualmente ser a que “preside no lugar da região dos romanos”. Muitos outros Padres da Igreja Oriental poderiam ser lembrados, notoriamente Efrém, o que, com mais eloqüência, falou sobre o Primado do Bispo de Roma.

Com um sorriso de desafio, o examinador aponta-me para a Patrística e declara:

- Duvido que encontre na Patrística esse seu aludido testemunho de Efrém.

A Patrística, em que eu havia estudado era a de uma edição de cinco volumes. A que estava diante de meus olhos espraiava-se em 10 volumes, deitados de três em três. Não me seria possível descobrir imediatamente em que volume dessa edição poderia eu encontrar o citado testemunho.

Olho para os três volumes, que estavam bem na minha frente e invoquei a proteção de Pio X:

- Meu bom Pio X, o Senhor sabe que eu estudei. Mas, não na edição desta Patrística. Fiz a minha parte. Agora toca a sua vez.

Tomo o volume que estava entre os dois e abro-o na metade. Um calafrio de pavor percorre-me toda a espinha dorsal… Lá estava no alto da página: “Discurso de Santo Efrém sobre a Soberania do Pontífice Romano!. .. ”

Fonte: Reminiscências de um Pároco da Cidade
Monsenhor Francisco Bastos
Arquidiocese de S. Paulo
(1892-1984)

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Omayr José de Moraes Júnior

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novembro 25th, 2009

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Ao leitor

Por absoluta falta de tempo, caro(a) leitor (a), o Sal Terrae será atualizado somente em janeiro, ou, se Deus quiser, por ocasião do Natal.

As palavras têm espessura; uma integral tripla é pura transparência.

Então, até breve!

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 20th, 2009

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Filhas prediletas

A soberba tem predileção por três de suas filhas: ambição, vanglória e presunção.

Ambição busca a excelência nas honras; vanglória, na fama; presunção, nas obras. Esta última manifesta-se quando alguém confia tanto em si mesmo que considera possível o que excede suas forças. De fato, “a presunção procede claramente da vanglória, pois quando alguém deseja muita glória para si, considera possível o que supera suas forças” (II-II, q.21, a.4 c).

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 18th, 2009

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Eton College não o salvou (nem poderia).

O MÉTODO DO DR. KEATE

Em 1809, o rei George III da Inglaterra pôs à testa do aristocrático colégio de Eton o Dr. Keate, homenzinho terrível, que considerava a sova de pau uma estação necessária no caminho de toda perfeição moral e que terminava os seus sermões dizendo: “Sejam caridosos, boys, do contrário meto-lhes o cacete até vocês o ficarem.”

Os gentlemen e os ricos negociantes cujos filhos eram por ele educados viam sem desprazer essa piedosa ferocidade e tinham por singularmente estimável um homem que surrara quase todos os primeiros-ministros, bispos e generais do país.

Naquele tempo, toda disciplina severa era aprovada pela elite. A Revolução francesa acabava de mostrar os perigos do liberalismo quando ele infecta as classes dirigentes. A Inglaterra oficial, alma da Santa Aliança, acreditava combater em Napoleão a filosofia coroada. Exigia de suas escolas públicas uma geração ajuizadamente hipócrita.

Para domar o possível ardor dos jovens aristocratas de Eton, uma prudente frivolidade organizava-lhes os estudos. Ao cabo de cinco anos, um aluno lera duas vezes o seu Homero, quase todo o Virgílio, Horácio expurgado, e podia compor em latim epigramas sofríveis sobre Wellington ou Nelson. O gosto das citações estava por essa época tão desenvolvido entre os rapazes desta classe que de uma feita, no Parlamento, tendo Pitt interrompido em meio um verso da Eneida, toda a Câmara, Whigs e Tories, levantou-se e terminou o verso. Belo exemplo de cultura homogênea. As ciências eram facultativas, portanto descuradas; a dança, obrigatória. Quanto à religião, Keate julgava criminoso pô-la em dúvida, inútil falar sobre ela. O doutor temia o misticismo muito mais do que a indiferença.

(…)

Costumes assaz bárbaros regulavam as relações dos alunos entre si. Os “pequenos” eram os fags, ou escravos dos “grandes”. Cada fag fazia a cama do seu suserano, bombeava a água para ele de manhã, escovava-lhe as roupas e os sapatos. Toda desobediência era punida com suplícios convenientes. Escrevia um menino aos pais, não para se queixar, mas para contar o seu dia: “Rolls, de quem sou fag, pôs as esporas e queria fazer-me saltar um fosso largo demais. A cada esquiva, esporeava-me. Naturalmente tenho a coxa em sangue, os meus “Poetas Gregos” estão reduzidos a uma papa, e a minha roupa nova ficou toda rasgada.”

O boxe era tido em grande apreço. Tão violento foi um desses combates que um menino caiu morto no assoalho. Keate veio ver o cadáver e disse: “É lastimável, mas faço questão antes de tudo que os alunos de Eton estejam preparados para responder a um golpe com outro.”

O objetivo profundo e oculto do sistema era formar caracteres duros vazados num molde único. A independência das ações era grande; mas a originalidade do pensamento, da linguagem ou do modo de vestir, o crime mais detestado. Um interesse um pouco vivo por estudos ou idéias passava por afetação insuportável, que cumpria corrigir pela força.

Tal qual era, essa vida estava longe de desagradar à maioria dos rapazes ingleses. O orgulho de participar na manutenção das tradições de uma escola tão antiga, fundada por um rei e em todos os tempos vizinha e protegida dos reis, compensava-os bem dos seus sofrimentos. Só algumas almas sensíveis sofriam por muito tempo.

“Ariel ou a Vida de Shelley”
André Maurois
(Trad. Manuel Bandeira)

Eton College não salvou Shelley das idiotices do Iluminismo. Afogou-se em vícios e, depois, no mar.

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

outubro 16th, 2009

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The guarantor of obedience

“After the Second Vatican Council, the impression arose that the Pope really could do anything in liturgical matters, especially if he were acting on the mandate of an Ecumenical Council. Eventually, the idea of the givenness of the liturgy, the fact that one cannot do with it what one will, faded from the public consciousness of the West. In fact, the First Vatican Council had in no way defined the Pope as an absolute monarch. On the contrary, it presented him as the guarantor of obedience to the revealed Word. The Pope’s authority is bound to the Tradition of faith…”

Cardinal Joseph Ratzinger
The Spirit of the Liturgy, 2000

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 15th, 2009

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Suma de Teologia I-II, q. 97, a.2 c

Deve dizer-se que, como se disse (art. prec), a lei humana é corretamente mudada na medida em que por sua mudança se provê à utilidade comum. Contudo, a mudança da lei constitui em si mesma certo prejuízo das salvaguardas comuns. Isto porque para a observância da lei em muito contribui o costume e de tal maneira que o que se faz contra o costume comum, por mais leve, pareça ser mais pesado. Daí seguir-se que, quando se muda a lei, diminui o vigor coercitivo da mesma, na medida em que é abolido o costume. Eis por que nunca se deve mudar a lei humana a não ser quando, de um lado, se favorece tanto a salvaguarda comum, quanto de outro lado se derroga, o que ocorre, ou porque alguma utilidade máxima e evidentíssima provém do novo estatuto, ou porque é máxima a necessidade, seja por conter a lei costumeira manifesta iniqüidade, seja por sua observância ser sobremodo nociva. Donde dizer o Jurisconsulto que “nas coisas novas a ser constituídas, deve ser evidente a utilidade, para que se abandone aquele direito que por muito tempo foi considerado de acordo com a eqüidade” (Digesto, L. t. 4, lg. 2, KR I, 35a).

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 14th, 2009

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Pio XI e os cristeros

Ao Exmo. e Rvmo. Senhor D. José Mora y del Rio, Arcebispo do México e demais Arcebispos e Bispos da República mexicana, sobre as iníquas condições da Igreja no México e as normas que se deverão observar afins de promover a ação católica naquele país.

Veneráveis Irmãos,
Saudação e Bênção Apostólica.

A solicitude paternal, que, em virtude do múnus supremo que recebemos de Deus, devemos dispensar aos fiéis cristãos espalhados por todo o mundo, exige que dediquemos uma benevolência toda especial aos filhos que sofrem maiores aflições e que, por isso, mais necessitam dos cuidados do Pai comum. Esses cuidados especialíssimos, logo após a Nossa elevação à Cátedra de São Pedro, a vós é que, de todo coração, os dispensamos, Veneráveis Irmãos, ao ver-vos oprimidos por tais vexames, quais não seria lícito esperar num povo civilizado, nobre e católico na sua quase totalidade.

Excusado será dizer-vos quão iniquas sejam as ordens e prescripções que, entre vós, foram decretadas por governantes inimigos da Igreja contra os católicos da República Mexicana, pois, estando vós, há muito tempo, oprimidos pelo peso das mesmas, bem sabeis que tão longe estão elas de terem seu fundamento em “motivos de ordem” ou de contribuírem, como deveriam, para o bem comum, que ao contrário, nem sequer merecem o nome de leis. Mui justo, portanto, foi o elogio que vos dirigiu Nosso antecessor, de santa memória, Bento XV, na ocasião em que, tomando uma atitude digna e santa, repelistes aquelas Leis e contra elas lançastes o vosso solene protesto, ato este que Nós, pelas presentes Letras, não só aprovamos, como ainda fazemos Nosso. E o que ainda mais Nos estimula a formularmos o presente protesto e desaprovação, é vermos que cada dia mais se vem acentuando a guerra encarniçada movida contra a Religião católica por aqueles que dirigem os destinos do vosso país, tendo resultado inúteis e ineficazes, corn grande prejuízo para vossa pátria estremecida, todos os meios que Nos foi e Nos é possivel tentar no sentido de restabelecer a paz entre o povo mexicano. E de todos conhecido corno o Nosso representante, que vós, ha dois anos, recebestes entre as maiores demonstrações de respeito e alegria, foi, com manifesta violação de qualquer sentimento de justiça e religião, expulso desse país como homem perigoso à segurança da República, com gravíssima ofensa feita não somente à Nossa pessoa, como ainda aos Prelados e a todo o povo mexicano.

Se, naquela ocasião, de propósito Nos abstivemos de formular publicamente o Nosso protesto, – como o caso teria justamente exigido, – se com muita paciência e por longo tempo, suportamos a injúria e se, com instância, vos pedimos que a suportásseis também com resignação, isto se deve atribuir não somente aos desejos de paz que Nos animavam, mas também à vivíssima esperança que em Nosso coração de Pai nutríamos de que os governadores da República haveriam de reconhecer e proclamar espontaneamente os direitos legítimos e manifestos do Nosso Representante.

E com efeito, esta Nossa condescendência e moderação não teve êxito infeliz, havendo os dirigentes desse país prometido abertamente que estariam dispostos a receber o Nosso Delegado, cuja dignidade e elevada missão em nada ficariam deprimidas. Assim sendo, bem podeis avaliar o pesar com que recebemos a nova e inesperada notícia de haverem os mesmos supremos dirigentes do país, violando, de modo insólito, os compromissos assumidos, proibido, sem razão ou motivo justificado, o regresso do Nosso venerável irmão Serafim Cimino, que haviam recebido na qualidade de Nosso Nuncio Apostólico, na ocasião em que este, por motivos de saúde, se ausentara do México.

Assim, pois, o governo dessa República, repelindo o Nosso Representante, procura, por todos os meios, repelir o Nosso proprio ministério, que, por constituir uma missão de paz, é recebido por quase todos os governos, e recorre a injustos pretextos de interesses nacionais, do que dão testemunho os fatos que entre vós se vêm desenrolando, com enorme prejuizo para os cidadãos católicos.

Com rigor cada vez maior, exige ele a observância daquelas leis e mandamentos nefastos, observados os quais, já não poderão os cidadãos católicos fazer uso dos direitos comuns, nem sequer cumprir as obrigações e os preceitos da religião cristã.

Entretanto, o governo recusa dar à Igreja católica a mesma liberdade que amplamente concede à seita cismática, chamada “Igreja nacional”, à qual, por ser contrária aos sagrados direitos da Igreja Romana, favorece em seu início e formação, ao passo que a vós consideram como inimigos da República, pelo único motivo de serdes os defensores e conservadores do sagrado patrimônio da fé que vossos pais vos legaram. Todavia, se é imenso o pesar que esses fatos Nos causam, grande consolação e lenitivo experimentamos ao vermos o povo mexicano resistir intrepidamente às maquinações dos cismáticos: e por isso, ao mesmo tempo que rendemos graças infinitas ao bom Deus, queremos expressar-vos, Veneráveis Irmãos, a vós e a todos os fieis da República Mexicana os mais vivos aplausos e, ao mesmo tempo, exortar-vos, encarecidamente, a que continueis a defender, com ânimo inquebrantável, a Religião católica. As mesmas palavras que, profundamente comovido ante as provações de que ereis vítimas, proferimos no Sagrado Consistório de 14 de Dezembro do ano transacto, em presença da augusta assembleia dos Senhores Cardeais, queremos hoje aqui repetir, dirigindo-as a vós: “não podemos conceber fundada esperança de tempos melhores, a não ser que Deus, em sua misericórdia, intervenha prontamente com algum auxílio extraordinário, como todos os dias lhe pedimos, e sem que se estabeleça um sistema conjunto visando promover a ação católica entre o povo”.

Os Nossos principais conselhos e advertências têm exclusivamente por fim estimular-vos, paternalmente, a “ação católica”, que deveis promover cada dia mais, pelo esforço conjunto e a máxima disciplina, entre o rebanho que a cada um de vós foi confiado. Sim, a ação católica, pois que nas tristes conjunturas actuais é absolutamente necessário, Veneráveis Irmãos, que, com todo vosso clero e associações católicos, vos conserveis alheios a toda paixão das fações políticas, precisamente para não dar aos adversários da fé católica ocasião de considerarem a vossa religião como um partido ou facção política. Todos os católicos da República Mexicana, portanto, como tais, não fundem um partido civil com o nome de católico, e principalmente os Bispos e sacerdotes, como louvavelmente já determinaram, não queiram seguir facção política alguma nem colaborar em qualquer jornal partidário, visto seu ministério se extender necessariamente a todos os fieis, antes a todos os cidadão.

Estes são, Veneráveis Irmãos, os nossos conselhos e as Nossas determinações. Se elas forem fielmente observadas e cumpridas, como devem, pelos católicos, a estes não será vedado o exercicio dos direitos e cargos civis comuns aos cidadãos; sendo ainda de notar que não somente a sua fé, mas também os interesses comuns da sua Religião e da sua Pátria exigem que exerçam escrupulosamente esses direitos e esses cargos civis. Nem tão pouco ao clero é permitido ficar de todo alheio à politica e desinteressar-se por completo dos assumptos políticos; ao contrário, embora alheio a toda facção partidária, deve, em virtude de seu múnus sacerdotal, desde que não prejudique o sagrado ministério com atos indébitos, promover o bem de seu país, não só pelo cumprimento exato e escrupuloso dos seus direitos e oficíos civis, como ainda ensinando, com o seu exemplo o reto caminho que os fieis devem seguir, de conformidade com as leis de Deus e da Igreja, de sorte que cada um cumpra conscienciosamente seus deveres públicos.

Para conseguir esse nobilíssimo intento, o vosso clero, embora conservando, como acima dissemos e agora de novo com insistência repetimos, livre e desligado de qualquer facção partidária, encontrará um vasto campo de ação, onde os interesses da religião, os bons costumes, a instrução e a economia social. absorverão toda a sua atividade, e assim poderá instruir os cidadãos e principalmente os jovens que se dedicam aos estudos acadêmicos, e os operários, nos princípios católicos, e apparelha-los para as lutas da ação católica. Se vós, atendendo aos Nossos conselhos, procurardes, com zelo e diligência, realizar estes intentos, temos a plena convicção de que, com a graça de Deus, cessarão os gravíssimos vexames que, há tanto tempo, vem afligindo o nobilíssimo povo mexicano. Como penhor das graças divinas e testemunho da Nossa particular benevolência, concedermos, de todo coração, tanto a vós, Veneráveis Irmãos, como ao clero e fieis de vossas respectivas dioceses e a todo o povo mexicano, a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, rio dia 2 de Fevereiro do anno de 1926, quarto do Nosso Pontificado.

PIO XI, Papa.

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 13th, 2009

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If nothing is new…

São conhecidas (…) as dificuldades e as amarguras da época em que viveu S. Francisco. É verdade que então estava a fé mais profundamente arraigada no povo; a prova disto está nas Cruzadas que, num santo impeto, levaram à Palestina não somente uma leva de soldados assalariados, mas também cidadãos de todas as classes, para a libertação do Santo Sepulcro. Mas, na vinha do Senhor haviam feito invasão aos poucos e serpeavam heresias, propagadas quer por seus autores conhecidos quer por impostores ocultos, que, sob a aparência simulada de austeridade, disciplina e virtude, facilmente enganavam as almas simples e fracas; destes focos partiam centelhas malignas que atiçavam a revolta nas multidões. Surgiam homens estigmatizando a Igreja de Deus por causa destas faltas individuais e pretendendo com orgulho serem pelo céu chamados para a sua reforma; não tardava, porém, que, pela rejeição do magistério e da autoridade da Sé Apostólica, ficassem patentes os desígnios que os guiavam. Efetivamente, na sua maioria, bem depressa caíram na devassidão e na luxúria, e até chegaram a perturbar a ordem pública, abalando os fundamentos da religião, da propriedade, da família e do Estado. Aconteceu então o que mais de uma vez se deu no decurso dos séculos: as sedições, aqui e -acolá suscitadas contra a Igreja e o Estado, tomaram incremento coadjuvando-se mutuamente.

Se bem que a fé católica permanecesse intacta nas almas, ou ao menos nelas não estivesse inteiramente obscurecida, o espírito evangélico quase desaparecera e a caridade de Cristo a tal ponto arrefecera na sociedade, que se afigurava como extinta.

Sem falarmos das lutas entre os partidos, dos quais uns esposavam a causa do Império e outros a da Igreja, as cidades da Itália se dilaceravam em guerras intestinas: as cidades vassallas queriam sacudir o jugo de suas suseranas e conquistar a liberdade política; as mais poderosas tentavam submeter as mais fracas e, numa e mesma cidade, as facções disputavam o poder; em consequência, de ambas as partes havia cruéis morticínios e incêndios, pilhagens e devastações, exílios e confiscações de bens e propriedades.

Tristíssima era a sorte de muitos: entre os patrões e os empregados, ou entre os assim chamados “maiores” e “menores”, entre os proprietários e os rendeiros, existiam diferenças demasiado profundas, que não condiziam com a civilização, e a gente humilde se via exposta sem defesa à opressão e às vexações dos poderosos. Dominados pelo egoísmo e pelo interesse, todos aqueles que não pertenciam à miserável classe plebeia ardiam numa cobiça insaciável de riquezas; como não existissem em parte alguma leis suntuárias, fazia-se jactanciosa exibição duma afetação insensata no vestuário, nos banquetes e nos divertimentos de todo o gênero; desprezavam-se os pobres e a pobreza; tinha-se incontida aversão aos leprosos, tão numerosos naquele tempo, mantendo-os relegados ao abandono; e até não estavam isentos desta louca paixão de gozos e prazeres aqueles que deveriam levar uma vida mais religiosa, se bem que muitos entre o clero se recommendassem pela austeridades de costumes.

Daí se tornara uso tirar cada qual os maiores e mais pingues proventos de quanto lhe fosse possível; muitos, pois, não somente extorquiam o dinheiro por meio da violência e usura, mas até vendiam os cargos públicos, as honras, a administração da justiça e a própria impunidade dos criminosos, afim de aumentarem e avolumarem o patrimônio. A Igreja não guardava silêncio nem deixava de punir; mas, que resultado podia colher, quando até os Imperadores davam em público os piores exemplos e provocavam os anátemas da Sé Apostólica, desprezando-os com contumácia? O própria instituição monástica, que produzira tão belos e sazonados frutos, estava coberto de pó mundano, tornando-se impotente para uma eficaz resistência; e se novas ordens religiosas de homens davam alguma proteção e vigor à disciplina eclesiástica, contudo a sociedade enferma exigia para o seu restabelecimento uma efusão mais abundante de luz e caridade.

Pio XI
Carta Encíclica “Rite expiatis”
No sétimo centenário da morte de São Francisco de Assis.
30 de abril de 1926.

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Omayr José de Moraes Júnior

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outubro 12th, 2009

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Aparecida

PIO XI, PAPA
Para perpétua lembrança

Do Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro e dos outros Arcebispos, Bispos, Prelados e Prefeitos Apostólicos do Brasil recebemos o pedido de Nos dignarmos constituir como Pa­droeira principal do Brasil a Bem-aventurada Virgem concebida sem mancha, vulgarmente chamada “Nossa Senhora da Concei­ção Aparecida”. Nada Nos parece mais oportuno do que ace­der aos votos não só destes Antístites, mas ainda de todos os fiéis do Brasil que com constante fervor e piedade veneraram a Ima­culada Virgem Mãe de Deus quase desde os primeiros anos do descobrimento da região brasileira até aos nossos tempos. A sua devoção filial e veneração para com a Virgem Imaculada pro­va ainda o templo notável por sua construção e ornado de belas obras de arte, no qual se guarda a imagem antiga e prodigiosa da Bem-aventurada Virgem Maria sob o título de Aparecida. Multidões de fiéis vão de diversos lugares do Brasil em peregri­nação a este templo afim de implorarem o socorro e auxílio de Nossa Senhora, cuja imagem, por decreto do cabido da Sacrosan­ta Patriarcal Basílica Vaticana, foi coroada com uma corôa de ouro no quinquagésimo ano depois da definição dogmática da Conceição Imaculada da Virgem. O Papa Leão XIII, de recen­te memória, anuindo aos votos gerais do Brasil, permitiu a celebração da festa da Bem-aventurada Virgem Maria sob o títu­lo de Aparecida e além disto o Papa Pio X, concedeu Ofício e Missa própria da mesma festa.

Considerando tudo isto atentamente, julgamos que devía­mos deferir os pedidos de tantos Prelados que o Nosso Núncio Apostólico no Brasil largamente apoia com sua adesão, unindo com os mesmos Antístites os seus ardentes votos que por ocasião do vigésimo quinto aniversário da mencionada solene coroa­ção constituamos esta Virgem Imaculada Padroeira de todo o Brasil diante de Deus. Tendo pois consultado o Cardeal da Santa Igreja Romana Camillo Laurenti, Diácono de Santa Maria della Scala, Prefeito da Congregação dos Sagrados Ritos, por motu proprio e por conhecimento certo e madura reflexão Nossa, na plenitude de Nosso poder Apostólico, pelo teor das presentes Le­tras. constituímos e declaramos a Beatíssima Virgem Maria con­cebida sem mancha, sob o título de Aparecida, Padroeira prin­cipal de todo Brasil diante de Deus, acrescentando os privilé­gios litúrgicos e as outras honras que pelo costume competem aos Padroeiros dos lugares principais. Concedendo isto para pro­mover o bem espiritual dos fiéis no Brasil e para aumentar ca­da vez mais a sua devoção à Imaculada Mãe de Deus, decre­tamos que as presentes Letras estão e ficam sempre firmes, váli­das e eficazes e surtem seus plenos e inteiros efeitos e favo­recem amplíssimamente aqueles a quem se referem ou poderão referir-se; e assim deve-se julgar e definir como certo, e torna-se desde agora inválido e nulo tudo quanto for tentado em con­trário por quem quer que seja, sob qualquer autoridade, ciente­mente ou por ignorância. Não obstante qualquer coisa em con­trário.

Dado em Roma, junto de São Pedro, sob o anel do Pesca­dor, no dia 16 do mês de Julho do ano de 1930, nono de nos­so Pontificado.

Cardeal Pacelli

Secretário de Estado.

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Omayr José de Moraes Júnior

Date

outubro 12th, 2009

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“Do zelo bom”, D. Lourenço de Almeida Prado, OSB.

SÃO BENTO TEM UM CAPÍTULO – o penúltimo de sua Regra – que trata “do zelo bom que os monges devem ter”. Começa-o com uma distinção: “Assim como há um zelo mau, que é um zelo de amargura, que separa de Deus e conduz ao inferno, existe um zelo bom, que se para dos vícios e conduz a Deus e à vida eterna”. É uma indicação religiosa, mas à concretamente uma indicação ampla e geral de conduta no convívio com os outros.

O mundo sempre foi perturbado pelo zelo de amargura. Não precisamos lembrar os fariseus eos escribas conduzindo a adúltera para acusá-la diante de Jesus. Bastaria lembrar o irmão mais velho do filho pródigo indignando-se com o pai porque este acolhia alegremente o mais moço que voltava.

São Bento fala com especial cuidado do espirito de murmuração. Esse dizer ao ouvido do outro, quase sempre com ares de quem está zeloso pelo bem, é um veneno corrosivo e dissolvente. Gera uma atmosfera de desconfiança e suspeição que destroi a vida em comum, que só pode existir numa base de confiança reciproca.

O tempo de hoje e fortemente perturbado pelo zelo de amargura. Se quisermos assinalar a contribuição mais forte e negativa com que o comunismo vem impregnando a sociabilidade humana, direi que foi a implantação, como principio de convívio (ou de não convívio) do zelo de amargura. Que é senão a instalação do zelo de amargura, como caminho de melhoria social, a propugnação pela luta entre os homens?

A diferença mais fundamental entre Cristo e Marx, na ordenação da convivência humana, está precisamente em que Cristo pregou o amor, o comunismo prega a luta, isto é, o ódio.

Se o homem não é, ou procura ser, o próximo colocado diante do próxímo, o irmão diante do irmão, mas e, ou quer ser, o membro de uma classe e,por isso, inimigo do outro, de outra classe, os homens es tão diante dos homens, como lobo, um para o outro, co mo inimigos, como prevenidos, enfim, como zelosos, num zelo de amargura.

E o zelo amargo se espalha como se multiplicam as classes. E as classes realmente se multiplicam (ou são inventadas…): classe dos pais e classe dos filhos, classe dos homens e classes das mulheres, classe dos adultos e classes das crianças e adolescentes, classe dos professores e classe dos diretores, e vamos ficando cada vez mais longe daquela diversificação social – sexo, idade, profissão – que favorecia, pela complementariedade das tarefas, uma reciprocidade de serviços e o fortalecimento da concordia.

Há uma feição moderna do zelo de amargura que consiste no espirito de contestação. Não me refiro apenas à contestação do adolescente, que tem sua raiz em dado correto de afirmação pessoal em busca de líberação da tutela paterna, mas dessa contestação que hoje assume, não raro, um colorido de desamor e revolta, produto do zelo amargo. Refiro-me de um modo geral aos contestadores de todas as gamas de idades, de todos aqueles que, talvez por não se sentirem seguros de sua maturidade, reclamam meio nervosos serem tratados como homens maduros, e vivem prevenidos com todos os vizinhos. Uma nota particular deste gru po ê a reinvidicação do direito de falar. Não é propriamente o direito de falar que lhes faz falta. Este ninguém lhes tira. Mas a amargura suscita um zelo tirânico: só se sentem falando quando impõem asua opinião. O diálogo reclamado pelo contestador é quase sempre um monólogo.

Tem-se falado muito e escrito sobre a censura. A censura é realmente uma providência antipática. Há contudo, um simplismo meio grosseiro e tolo nas reações que andam por ai contra a censura. A dificuldade da censura está em conseguir coloca-la na medida. Em principio, seria legitima, pois é providência que, ao contrário do que se diz comumente, as segura a liberdade. Liberdade contra a tolice, contra o falso profeta, contra o que se intitula artista, mas é fabricante de moeda falsa. Legitima contra o zelo amargo, contra a murmuração, que, no contexto social, se chamaria de intriga ou de “palpite”. O zelo de amargura reinvidica, a título de direito, poder dar a sua opinião, o direito ao palpite. Palpite, segundo o dicionário, é o “dito do intrometido”. O intrometido entra indebítamentt na vida do ou tro e no assunto do outro.

Não creio que possa haver, menos ainda que deva haver – a não ser em ambientes restritos – censura contra o intrometido. Mas queria dizer que onos so convívio ganharia em cordialidade se o zelo amargo não suscitasse tantos espinhos. Se o homem sabio fosse reconhecido, como auer São Bento. Dela sobriedade no falar

E o mundo ganharia muito se vivêssemos o zelo bom. “Zelo que deve ser praticado com muito amor, isto é, que se empenhem em honrar mutuamente,que suportem as fraquezas do outro, tanto as do corpo como as da mente, que se obedeçam reciprocamente, que ninguém procure o que lhe ë útil, mas de preferência o que o é para o outro, apliquem-se com o coração puro à caridade fraterna; amem a Deus como temor; amem o seu superior, nada preponham a Cristo: (Regra de São Bento, cap. LXXII).

“São Bento e o Livro”, Colégio de São Bento – RJ – 1980.